Mesmo depois de dois acidentes graves,
os organizadores deram a largada em Imola.
Eles temiam um prejuízo de 100 milhões de dólares

Ayrton Senna entrou na curva Tamburello um dia depois que o austríaco Roland Ratzenberg morreu esmagado entre os destroços de seu carro e dois dias após um acidente grave com o brasileiro Rubens Barrichello. Com tais antecedentes, a decisão de realizar a prova de domingo passado foi tão imprudente como uma torre de comando de um aeroporto autorizar a decolagem imediata de um Boeing depois que se descobre um buraco na pista. "É necessário repensar a Fórmula 1, redirecioná-la em termos apenas esportivos", afirma Clay Regazzoni, piloto suíço que hoje vive numa cadeira de rodas após um acidente na pista. "Tudo isso é o resultado de ter posto nas mesmas mãos o comando político e financeiro da Fórmula 1", afirma o tetracampeão Alain Prost, um dos grandes rivais de Senna no passado, hoje comentarista da televisão francesa. "O que precisa mudar é a filosofia. Eu protestei muito na minha época, mas não tive sucesso. As pessoas diziam que eu tinha medo, mas eu só queria segurança."

Não há nada de errado com um esporte que movimenta somas milionárias, enche o bolso de seus campeões e se tornou um programa sagrado nos domingos do mundo inteiro. Mas o que aconteceu em Imola dá o que pensar. Se a prova em que Ayrton Senna morreu tivesse sido cancelada, o que pelo menos hoje parece uma simples questão de bom senso, os organizadores estariam às voltas com um prejuízo de 100 milhões de dólares. Preferiu-se não correr esse risco. "Na Fórmula 1 são todos responsáveis e irresponsáveis", afirma Wilsinho Fittipaldi. "Eu não conheço nenhuma pista totalmente segura. Todas têm seus pontos críticos e se fosse feita uma vistoria rigorosa talvez nem houvesse mais Fórmula 1. Mas como todo mundo ganha com uma corrida, do patrocinador ao sujeito que passa a vassoura no boxe, ninguém deseja que ela seja cancelada."

No passado, a Fórmula 1 teve pilotos que chegaram a formar uma CUT da alta velocidade, tamanho era seu empenho para reivindicar não só contratos mais polpudos, mas autódromos mais seguros, automóveis em ordem e regras melhores para a competição. Essas preocupações diminuíram na mesma proporção em que o dinheiro recebido pelas partes - inclusive os pilotos - atingiu alturas nunca vistas. Não foi só a segurança geral que melhorou. O que os grandes campeões de temporada faturaram nos últimos anos equivale a cinco vezes mais o que os pilotos veteranos recebiam ao longo de toda a carreira. A Fórmula 1 de hoje se tornou um espetáculo que movimenta mais de 1 bilhão de dólares por ano, funcionando como vitrine internacional para empresas enraizadas em todos os cantos do planeta. Não é por acaso que os automóveis, o macacão e o capacete dos pilotos tornaram-se mosaicos de marcas e logotipos. Apenas para enfeitar o bico de um automóvel, a parte mais visível e mais cara, um patrocinador de um pole position desembolsa cerca de 10 milhões de dólares por ano. O cofre do motor, aquela parte que fica logo atrás do piloto, não sai por menos de 4 milhões.

Há dez anos, quando era pouco mais do que uma tremenda promessa, Ayrton Senna assinou seu primeiro contrato com o Banco Nacional. Embolsou 600.000 dólares em 1984 para exibir a marca na frente e nas costas do macacão e também nas laterais do capacete. Em seu último acerto, que já incluía o boné trajado em aparições fora das pistas, iria receber 1,2 milhão de dólares ao longo do ano. Senna morreu no momento em que a Fórmula 1 atingia seu ápice econômico. Há vinte anos, os gastos de todas as equipes durante uma temporada inteira não chegavam a 10 milhões de dólares. Hoje, seria preciso quase cinco vezes esse dinheiro apenas para alcançar o faturamento dos quatro mais bem pagos pilotos da temporada de 1993, que conseguiram cavar um lugar ao sol entre os esportistas mais bem pagos do mundo. Senna faturou 18,5 milhões de dólares, dinheiro que o transformou na terceira maior fortuna esportiva do mundo, atrás apenas do jogador de basquete Michael Jordan e do boxeador Riddick Bowe (veja tabela à pág. ao lado).

O orçamento anual das grandes equipes ultrapassa a marca dos 100 milhões de dólares por ano. Nas médias, fica em 30 milhões. Há dez anos, a Rede Globo vendia uma cota de patrocínio de uma temporada de Fórmula 1 por 800.000 dólares. Hoje, o preço é 8 milhões de dólares. As corridas movimentam tanto dinheiro que nem todos os pilotos recebem para correr. A maioria paga para entrar na pista. São iniciantes que jamais conseguiram um primeiro lugar e veteranos esquentando o banco até ser substituídos, cujos nomes e equipes só os torcedores mais fanáticos conhecem de cabeça. Nos dois anos que passou na escuderia Minardi, Christian Fittipaldi injetou 8 milhões de dólares de quatro patrocinadores nos cofres da equipe. Faltando ainda duas provas para o final da temporada do ano passado, Christian foi demitido e seu lugar ocupado pelo francês Jean-Marc Gounon. A explicação para o bilhete azul que o piloto brasileiro recebeu, através de um fax: Gounon conseguira patrocinadores mais endinheirados, que lhe permitiram reforçar o caixa da Minardi com 1 milhão de dólares a mais do que Christian.

É um comércio tão movimentado que os caciques da Fórmula 1 resolveram instituir uma caução de meio milhão de dólares para equipes sem maior tradição. Isso porque se descobriu que empresários ambiciosos demais, e responsáveis de menos, eram capazes de colocar carroças barulhentas e pilotos sem grande preparo para disputar uma prova apenas porque seriam capazes de levantar um bom dinheiro com o aluguel de macacões e de carroceria. Com isso, não só produziam acidentes como podiam desvalorizar as cotas de patrocínio das escuderias já estabelecidas.

A Fórmula 1 tornou-se um negócio tão grandioso porque ocupa um lugar único entre os eventos esportivos. As provas decisivas chegam a ter uma audiência mundial calculada em bilhões de espectadores, escala só comparável à Olimpíada e às Copas do Mundo. A diferença é que esses dois eventos acontecem uma vez a cada quatro anos, enquanto ocorre uma temporada de Fórmula 1 por ano. Também não é uma disputa concentrada em poucas semanas, que atrai as atenções enquanto dura mas logo cai no esquecimento. São dezesseis corridas, espalhadas pelo ano inteiro, uma em cada país. A Fórmula Indy, disputada nos Estados Unidos, é um evento tipicamente americano e movimenta uma ninharia perto da Fórmula 1. Emerson Fittipaldi chegou a posar para uma foto histórica quando recebeu pouco mais de 1 milhão de dólares por uma vitória em Indianapolis. Em 1983, Emerson embolsou 2,5 milhões de dólares - tudo somado. Menos do que Ayrton Senna recebeu junto a um único de seus patrocinadores, a Shell, que lhe assegurava um cachê anual estimado em 3 milhões de dólares.

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