Senna tinha pressa. Acumulava recordes,
inimigos, mulheres e dinheiro em alta velocidade.
Perseguia a perfeição e desafiava a morte

O brasileiro Ayrton Senna da Silva queria mais, sempre mais. Não apenas a vitória - conquistou 41, que o ajudaram a ganhar três títulos de campeão mundial da Fórmula 1 -, mas algo muito maior: a incessante superação do próprio limite, na sua busca obstinada da perfeição. Ele almejava o impossível. O absoluto. Nessa procura obcecada, nenhum esportista brasileiro, com exceção de Pelé, o Atleta do Século, foi tão longe. "Canalizo todas as energias para ser o melhor do mundo", era assim que resumia suas ambições. "Se depender de mim, esgotarei os adjetivos do dicionário." Como todos os supercampeões, aqueles que desafiam marcas, padrões, metas e verdades estabelecidas, transformando-se em mitos, Senna sabia que, para voar na direção do infinito, precisava pagar um risco. Esse risco se chama morte.

Era outra de suas obsessões. "Ayrton tem um problema: ele pensa que pode se matar porque acredita em Deus", observou há cinco anos seu adversário e desafeto Alain Prost. Senna admitia isso. "A morte faz parte de minha vida", reconheceu na época. No ano passado, ele confessou: "Tenho medo de morrer. Mas aprendi a conviver com ele. O medo me fascina". Há duas semanas, abandonou o Grande Prêmio do Pacífico, disputado no Japão, depois de se envolver em um acidente provocado pelo novato finlandês Mika Hakkinem. "Há muitos pilotos jovens e inexperientes querendo mostrar talento", lamentou. "Eles expõem os outros a acidentes, e isso vai continuar assim se algo não for feito", acrescentou, lembrando o próprio Senna ainda mais agressivo do início da carreira, quando ainda não parecia temer os riscos criados pelo seu estilo.

O Ayrton que dirigiu seu primeiro Fórmula 1 em julho de 1983, num teste na pista de Donnington, na Inglaterra, era o tipo de piloto que deixaria preocupado o Senna experiente. O carro que ele testou naquele dia era da Williams - a dona da máquina que pilotava quando morreu no domingo passado. Senna completou essa volta trágica numa época em que seus interesses haviam deixado de se limitar às pistas e ao acerto dos carros de corrida. Estava diversificando seus negócios no Brasil e namorava a ex-modelo Adriana Galisteu há um ano e meio, desfazendo a impressão de que se casara com a Fórmula 1. Não se havia esforçado tanto nos treinos físicos de preparação para a temporada como nos anos anteriores. Parecia, finalmente, que estava se quebrando mais uma das regras de ouro do seu código de conduta: a de manter a vida privada protegida da curiosidade alheia a qualquer preço.

Senna estava mesmo mudado. Há menos de dois meses, fez uma doação de 45.000 dólares para um tipo de projeto que nada tinha a ver com as pistas de corrida. Tratava-se de um programa de assistência aos seringueiros do Acre. O dinheiro foi entregue a uma organização não governamental chamada Saúde sem Limites, com sede em Londres, através de um amigo, o médico Sidney Watkins - o mesmo que comandou a equipe que tentou reanimá-lo na pista de Imola.

É difícil recordar outro calouro da Fórmula 1 que tenha conseguido uma vitória no primeiro ano de carreira pilotando carro medíocre. Senna conseguiu, com seu vagaroso Tollemann, carroça que nem existe mais. Isso parece banal quando se pensa no colecionador de vitórias nos anos seguintes. Quem o conheceu nos primeiros anos de vida pode achar que é um milagre. Uma das histórias que sua mãe, Neyde Senna da Silva, contava aos amigos dava uma idéia do desastre motor que era o Ayrton menino. Na hora do sorvete, Ayrton sempre ganhava dois, pois quase sempre um ia parar no chão. O menino foi levado a um neurologista. Era um problema de coordenação motora que desapareceria aos poucos, depois que ele ganhou do pai o primeiro carro: um kart a pedal.

Nascido numa família bem de vida em São Paulo (o pai tinha uma indústria metalúrgica e alguns outros negócios), "Beco", como era chamado pela irmã mais velha, Viviane, e pelo irmão caçula, Leonardo, começou a correr em karts de verdade aos 10 anos. Enquanto largava na frente de seus adversários nas pistas, ficava no pelotão dos retardatários na escola. Não foi um aluno exemplar, embora nunca tivesse repetido. Sua cabeça corria numa velocidade diferente. Como todo adolescente normal, tinha no quarto pôsteres de seus ídolos: Jackie Stewart (tricampeão mundial de Fórmula 1), Emerson Fittipaldi (bicampeão), Niki Lauda (outro campeão) e Gilles Villeneuve. O canadense Villeneuve talvez tivesse vencido um campeonato se não morresse num treino para o Grande Prêmio da Bélgica de 1982, quando Senna já corria na Inglaterra.

Fez um primeiro grau sem destaques e, à medida que melhorava nas pistas, piorava no colégio. Completou o segundo grau no Colégio Rio Branco, no bairro paulistano de Higienópolis, em 1977, quase sem combustível no tanque. Passou com nota 5 em Física e pouco mais que isso em Matemática, Química e Inglês (língua que falaria fluentemente, com forte sotaque). Depois de entrar numa faculdade de administração de empresas, trancou a matrícula no terceiro mês e decidiu então, com a única credencial de seu sucesso nas pistas sul-americanas de kart, tentar a sorte nas pistas inglesas.

Como a maioria dos pilotos que seguem esse caminho, Senna tinha um bom patrocinador, seu pai. Mesmo não demonstrando entusiasmo pela carreira do filho, Milton da Silva comparecia com a verba suficiente para cobrir as despesas de Ayrton e, durante oito meses, em 1981, da nora Lílian Vasconcelos Souza. De repente, cessou o "paitrocínio", como os pilotos iniciantes se referem à ajuda paterna. Por uma única vez na vida, Senna pensou em tomar outra direção. Voltou ao Brasil para tentar administrar um dos negócios da família. "Senna precisou voltar porque seu pai tinha medo do que podia ocorrer nas pistas e cortou sua mesada", revela o empresário mineiro Carlos Cavalcanti, então presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, CBA. Com uma passagem e 1.000 dólares no bolso, doados pela CBA, ele regressou à Europa, já divorciado, para realizar seu sonho.

A genialidade de Ayrton Senna era daquele tipo que mora na zona nebulosa da obsessão dos virtuoses. Senna podia gastar um dia inteiro em sua casa em Angra dos Reis brincando de microaviões, réplicas bem-acabadas dos reais, com combustível inclusive. Montava, desmontava. "Ele era apaixonado pela máquina, pelo motor e pela corrida", diz seu preparador físico por dez anos, Nuno Cobra Ribeiro. Senna, para o bem ou para o mal, nasceu para correr, para testar o limite da máquina, da velocidade, de sua resistência pessoal. Sua vida amorosa foi também marcada por alta velocidade. "A questão é que ele preferia de longe o carro e as corridas", recorda a modelo Patrícia Machado, que namorou o piloto em 1991. "Ninguém tinha dúvidas de que ele gostava mais de sua carreira do que de suas mulheres", concorda uma amiga de Senna.

Vinicius de Morais fez o mesmo, e ninguém viu nada de errado, a não ser a ternura excessiva do poeta pelo copo. Como Senna, teve dezenas de mulheres. A diferença é que a carreira de Vinicius era cantar o amor; a de Senna, correr nas pistas. Em essência pode ser a mesma coisa, mas muda a forma. A falta de apego de Senna a suas namoradas rendeu comentários de que ele tinha pouco interesse pelo sexo oposto. Essa questão cozinhou em fogo lento fofocas nos boxes da Fórmula 1. Em 1988, Nelson Piquet verbalizou textualmente aquele tipo de malícia que, mesmo quando aleivosa ou sem nenhum fundamento, é capaz de manchar a reputação de uma personalidade pública. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Piquet pediu que a imprensa perguntasse a Senna por que é que ele não gostava de mulher. A briga ficou feia, foi parar na Justiça, e Piquet preferiu se retratar. Só que o estrago estava feito. Senna, que havia conseguido manter sua vida particular afastada da publicidade, não esqueceu nem foi esquecido. A revista italiana Panorama, a maior do país, dedicou na ocasião duas páginas às dúvidas levantadas por Piquet. Senna passou o resto de sua vida tendo de conviver com a suspeita sobre sua amizade com Américo Jacoto Júnior, um jovem amigo de São Paulo que levou para morar em sua casa e funcionava como uma espécie de secretário particular.

Em 1990, numa entrevista à Playboy, Senna deu o troco. Revoltado, afirmou que, no mínimo por uma razão sabida por ambos, Piquet não poderia ter feito a insinuação.

- Eu conheci a Catherine - garantiu, referindo-se à loira belga Catherine Valentim, então mulher do rival.

- Conheceu como? - perguntou-lhe a revista.

- Eu a conheci como mulher - respondeu Senna.

A partir daí, sua vida amorosa começou a ser acompanhada quase com tanto interesse quanto suas corridas. De tempos em tempos, Senna passava um fim de semana em sua casa em Angra dos Reis - e lá estava ela, a nova candidata a namorada. O piloto tinha o hábito de levar moças conhecidas (a apresentadora Xuxa, a modelo Marjorie Andrade, a atriz Virgínia Novick) e nem tanto (a socialite Maria Cristina Mendes Caldeira, as modelos Fernanda Barbosa, Patrícia Machado e Marcela Prado) para idílicos passeios de lancha no litoral fluminense. Eram lindas, atléticas, jovens e alegres. Ninfas no paraíso tropical que Ayrton construiu para seus momentos de lazer na praia freqüentada por milionários, celebridades e novos ricos do eixo Rio-São Paulo, que ali exibem suas mansões, seus jet-skis, seus iates, seus jatinhos e suas mulheres.

Ayrton Senna assumiu seus romances apenas com quatro namoradas: Lílian, da época da adolescência, com a qual se casou, a herdeira Adriane Yamin, também conhecida na adolescência, a apresentadora Xuxa, seu caso mais rumoroso, e a modelo Adriane Galisteu. Adriane, sua última namorada, foi levada a Angra, como era de praxe, mas meses depois já estava autorizada a freqüentar a fazenda da família em Tatuí, liberdade concedida a quase nenhuma namorada de Senna. Há seis meses deixou de trabalhar para poder acompanhar o namorado em suas viagens. Senna, há um mês, falou na possibilidade de se casar e ter filhos. Não seria logo, nem muito longe.

Mesmo assim, não gostava de ficar falando muito de seu relacionamento com elas. Além tímido, era um cavalheiro. Pilotos de Grande Prêmio atraem mulheres deslumbrantes quase na mesma velocidade com que dão uma volta pelo circuito, e Senna, que há oito anos pertencia à elite da categoria, nunca precisou esforçar-se para conquistá-las. Mais alto e mais atlético do que o feio e pequeno Alain Prost, mais elegante e polido do que o grosseiro Nigel Mansell, ele certamente teve as mulheres que quis. Isso todo mundo via. Jamais, porém, alardeava seus feitos de alcova. Sua discrição lembrava a de outro ídolo brasileiro, o cantor Roberto Carlos. "Quando encontro uma mulher que me desperta, vivo com ela para mim, e não para a platéia. Respeito quem eu amo", costumava dizer.

De seu fugaz casamento com Lílian, hoje casada pela segunda vez, ele repetia duas lacônicas afirmações: "O casamento foi um erro" e "Ela cozinhava muito bem". Os dois se casaram em 1981, quando Senna foi morar na Inglaterra depois de fechar um contrato para correr na Fórmula Ford 1600. Tinham sido amigos de infância, no bairro de Tremembé, Zona Norte de São Paulo. Senna justificava o desquite como o resultado de um gesto precipitado da juventude. Solitário na Europa, sentia falta da família, dos amigos e da cozinha brasileira. Anos mais tarde, passou a utilizar um argumento que foi repetido em vários de seus finais de relacionamentos: "Percebi que não dava para conciliar a vida profissional com o romance".

Depois da separação, Senna apareceu com algumas namoradas, mas só dois anos depois começou um envolvimento mais estável. Adriane Yamin, herdeira das Duchas Corona, tornou-se sua companheira oficial de 1984 até 1988. No início do namoro, Adriane tinha 15 anos. No final, aos 19, recebeu a maior homenagem já prestada pelo piloto a uma namorada: dedicou-lhe uma vitória em um Grande Prêmio. Não demorou muito e Senna era visto com a mais famosa mulher de sua vida. Ela mesma, Xuxa. O namoro começou no estilo padrão do piloto: o pedido do telefone. Senna não dava seu número para ninguém. Como Xuxa não era apenas uma modelo, o pedido foi feito à empresária Marlene Mattos. A notícia explodiu no final de 1988, quando Senna mandou seu jato particular buscar Xuxa em Belo Horizonte de volta ao Rio. Foi anunciado como um empreendimento que poderia render ao casal 5 milhões de dólares apenas em publicidade.

Os dois demoraram a assumir, mas por um ano e meio o casal tornou-se uma espécie de retrato brasileiro de Richard Gere e Cindy Crawford. Um casal que significava sucesso, beleza e muito dinheiro em volta. "Estou a mil por hora no que se refere a amor", disse a apresentadora. Senna chegou a contar ao apresentador Jô Soares que considerava Xuxa uma pessoa especial e adorável. Não era pouco para uma personalidade que raramente chegava a tais arroubos em relação a alguém. Um ano depois que terminou o namoro com Xuxa, o piloto admitiu que pensou em se casar e ter filhos com a apresentadora. Segundo ele, o namoro não foi em frente porque os dois raramente conseguiam encontrar-se e Xuxa estava muito preocupada com sua carreira.

No sábado, Xuxa teve uma jornada especialmente dura. Estava gravando um disco na Som Livre e só saiu do estúdio às 6 horas da manhã. Exausta, dormiu logo que chegou em casa. Seu sono era tranqüilo e ela nem podia imaginar que entre seus amigos a aflição era grande. Sabiam que um acidente grave com Senna a deixaria deprimida. Como sempre, coube a Marlene Mattos, sua empresária e amiga, a tarefa de acordá-la com a notícia.

Xuxa desabou. Até segunda-feira não queria falar com ninguém e permaneceu em frente da televisão vendo e revendo o acidente. Cancelou todos os compromissos. Numa recente entrevista de Senna falando de amor, o círculo mais íntimo de amigos de Xuxa decodificou vários recados do campeão para a ex-namorada. O romance entre os dois foi típico de namoro entre estrelas. Cada um estava sempre em outro firmamento. Mas se deram muito bem. Na época, em todos os intervalos das temporadas, Senna voltava ao Brasil e se trancava com ela, quase sempre em sua casa de Angra dos Reis.

Em 1989, em pleno romance, Senna estava na casa de Xuxa quando a rádio CBN foi entrevistá-la. Depois o repórter insistiu com o campeão para que ele desse também uma entrevista. Senna acabou concordando e começou a falar. Três pontos ficaram registrados especialmente por Xuxa. No primeiro, ele falava do medo de morrer, e de seu desejo de morrer nas pistas. No segundo, discorria sobre a saudade, sentimento forte que mexia com ele sempre que pensava em morte. No último, olhando para Xuxa, contou o seu sonho: numa pista sem público, sem juízes, sem aquela parafernália do circo, entrar num carro Fórmula 1 com lugar para dois e dar voltas e mais voltas, a alta velocidade, com o seu amor. Esta fita Xuxa tem guardada até hoje.

Quando se afastou de Xuxa, Senna voltou a ser visto com uma nova namorada a cada final de semana em Angra. Uma delas foi Patrícia Machado. Outra, a também Marcella Prado, ex-mulher de Fernando Vanucci. No começo do ano passado Marcella anunciou que estava grávida. Sua mãe deu entrevistas anunciando aos quatro ventos que o filho seria de Senna. "Se for menino vou colocar o nome de Alain Prost", ironizou o piloto, referindo-se a um de seus velhos desafetos Fórmula 1.

Agora, com a morte de Senna, surge uma incógnita: o interesse dos brasileiros pela Fórmula 1 permanecerá o mesmo? A questão toca de perto a Rede Globo, que ajudou a transformar o esporte numa nova paixão nacional em 1972, quando Emerson Fittipaldi ganhou seu primeiro título de campeão mundial, transmitido ao vivo para todo o país. Os campeonatos de Fórmula-1 sempre foram responsáveis por altos índices de audiência, principalmente quando um piloto brasileiro estava competindo com chances de vencer. No caso de Senna, isso pode ser demonstrado com números. Em setembro de 1992, o diretor de mídia da agência McCann-Erickson, Loi Borjas, avaliou o apelo que o piloto tinha. Segundo o publicitário, no campeonato mundial de 1992, o pico de audiência foi de 24 pontos, quando o piloto inglês Nigel Mansell já havia conquistado o título de campeão. Nos momentos em que Senna estava bem, o pico era de 30 pontos. Ou seja, 6 milhões de telespectadores só tinham interesse em assistir à corrida por causa da performance de Senna.

Uma pesquisa da agência de publicidade carioca J.W. Thompson, encomendada em 1988 para a Esso, uma das patrocinadoras da transmissão até 1991, demonstra que Senna era a grande estrela dos GPs. A audiência diminuia quando ele parava. No Grande Prêmio do Brasil daquele ano, por exemplo, a média da audiência às 13h45m, exato momento em que Senna ultrapassou Piquet e alcançou a quarta colocação, era de 40 pontos, tanto no Rio quanto em São Paulo. Quinze minutos depois, Senna foi desclassificado. A audiência caiu imediatamente para de 36 pontos. No final da prova, a audiência já havia baixado para cerca de 33 pontos.

Uma queda semelhante ocorreu no Grande Prêmio de Mônaco, realizado em 15 de maio de 1988, Senna estava em primeiro lugar às 10h45m. A audiência no Rio era de 21 pontos e em São Paulo de 24 pontos. às 12h15m, Senna bateu e abandonou a pista. Nesse horário, o índice estava em 19 pontos no Rio e 24 em São Paulo. Quinze minutos depois, muita gente já havia desistido de assistir a corrida. A audiência despencou no Rio para 17 pontos. A diferença em São Paulo, terra do piloto, foi mais significativa. A audiência diminui para 15 pontos.

Esse fenômeno não aconteceu quando o piloto Nélson Piquet foi para o box e abandonou a mesma corrida. A desistência ocorreu entre as 10h45m e as 11h, quando o Ibope registrava uma audiência entre 24 e 26 pontos. A audiência permaneceu nos 26 pontos até 45 minutos depois da saída de Piquet. "Não há a menor dúvida de que o Senna era a grande alavanca de audiência no show da Fórmula-1", avalia Gilmar Tadeu, vice-presidente de mídia da Thompson no Rio de Janeiro. "Ele consolidou o interesse do público no esporte."

Agora, a responsabilidade passa para os jovens, promissores mas ainda inexperiente pilotos Rubens Barrichello e Christian Fitippaldi. Barrichello, que 48 horas antes do acidente fatal com Senna havia escapado de morrer em um acidente na pista assassina de ímola, subiu ao pódio pela primeira vez no último dia 17 de abril, no Grande Prêmio do Pacífico. Nesse GP, Christian terminou em quarto lugar. Ainda é muito pouco para que se aposte neles como ídolos capazes de fazer o país acordar mais cedo nas manhãs de domingo e ficar torcendo na frente da TV. "Vai ser uma incógnita", diz Tadeu.

"A audiência sempre foi ótima, em qualquer circunstância", considera o diretor de esportes da Globo, Ciro José. Para ele, Senna não passava de um atrativo a mais nas competições e não interferia na audiência quando saía das corridas. "Ele não chamava mais público, apesar de ser um dos maiores esportistas do país", afirma, ignorando a pesquisa da agência carioca, feita com dados do Ibope. As decisões da emissora contradizem também o jornalista.

Outra indicação da importância de Senna para a Rede Globo, que comercializava a cota para anunciantes da F-1 por cinco vezes mais que da Copa União de futebol, foi o remanejamento do jornalista Reginaldo Leme. Depois do Grande Prêmio do Japão de 1990, Senna passou a se recusar a dar entrevistas ao comentarista, de quem já foi amigo e que acompanha profissionalmente as temporadas de Fórmula 1 há 23 anos. A Globo tentou contornar a situação colocando Reginaldo Leme para falar com quase todos os outros pilotos. Um outro enviado conversava com Senna. Como o sistema era caro e pouco funcional, não sobreviveu por muito tempo. Em 1991, Leme comentou a maioria das provas do Brasil. As desavenças entre eles teriam começado em 1988. O piloto, já famoso, achava que Reginaldo estava aproveitando sua imagem para se promover. Em 1989, por exemplo, Reginaldo levou Senna a um jogo de tênis, no qual o piloto foi fotografado usando uma raquete fabricada por um amigo do comentarista. "Era um problema pessoal entre os dois e nunca interferiu na Rede Globo", garante Ciro José.

Além do mito, de um vazio nos autodrómos e da saudade, Ayrton Senna deixou um pequeno império de grandes negócios. Ele era um dos esportistas mais bem pagos do mundo. Nos últimos dois anos, foi o piloto que mais ganhou dinheiro dentro do circuito da Fórmula 1. Em 1993, embolsou 18,5 milhões de dólares, um salário anual maior até que o do francês Alain Prost, que tinha um título mundial a mais do que o brasileiro. Fora das pistas de corrida, Ayrton estava se tornando um homem de negócios tão completo e versátil quanto o piloto tricampeão de Fórmula 1. Dos quatro andares de um edifício comercial no bairro de Santana, na zona Norte de São Paulo, ele comandava uma coleção de cinco empresas que vendem ou licenciam a marca Senna para produtos tão variados como automóveis e lanchas ou salgadinhos, revistas em quadrinhos e eletrodomésticos. Com seus negócios empresariais, comandados com a ajuda do pai Milton da Silva e do irmão Leonardo, Senna faturava cerca de 140 milhões de dólares por ano, fora os ganhos com publicidade.

Nos últimos tempos, Senna estava se dedicando aos negócios sobre duas rodas. Na semana passada, na Itália, ele lançou uma bicicleta mountain bike, fabricada pela empresa Carraro, que terá a marca Senna. Seu sobrenome irá batizar também modelos especiais das motocicletas Ducati, fabricadas pela italiana Cagiva. Os negócios mais promissores do piloto estavam concentrados no ramo de automóveis. Desde abril, oito concessionárias do país estão vendendo os automóveis alemães Audi, importados no Brasil pela Sena Import. Ele também era dono de uma revendedora de uma das maiores concessionárias Ford de São Paulo, a Frei Caneca. Apenas nessas duas empresas, Senna e seus principais sócios, o irmão Leonardo e o amigo Ubirajara Guimarães, esperavam faturar cerca de 130 milhões de dólares este ano.

Preocupado com seu futuro fora das pistas, que dizia querar abandonar em no máximo cinco anos, Senna vinha dedicando cada vez mais atenção aos negócios. Sempre que estava em São Paulo, aparecia no seu escritório, instalado no décimo-terceiro andar de um prédio no bairro de Santana. Muitas vezes ficava até depois do expediente, despachando com os principais executivos de suas empresas. A Ayrton Senna Promoções e Empreendimentos, holding dos negócios do piloto, era parceira comercial de meia dúzia de empresas. Senna entrava com parte do investimento e com o nome. Em associação com a indústria de brinquedos Tec Toy, lançou jogos de videogame. Com a fábrica de salgados Elma Chips, colocou nos supermercados os salgadinhos Becão e Bicão -- os dois cães que acompanham o personagem da revista em quadrinhos Seninha e sua Turminha, editada pela Abril Jovem. A Fast Boats, fabricante de barcos, produz desde 1992 um barco de 42 pés, para cruzeiros de médio curso, com a marca Senna. A tacada mais inesperada de Senna no mundo empresarial foi fechada no ano passado com a a De' Longhi, maior fabricante de eletrodomésticos da Itália e um dos grandes do ramo na Europa. A Ayrton Senna Participações e Promoções associou-se à empresa italiana e à Reflex, uma indústria de São Paulo que fabrica componentes para refrigeradores, para trazer cafeteiras, fornos, churrasqueiras e aspiradores de pó. O projeto do piloto era tornar-se um industrial, com a instalação de uma fábrica em Manaus, para produzir condicionadores de ar, aquecedores e fornos microondas.

Nos negócios, nas pistas e na vida, Senna era muito, muito exigente. Respirava carros e pistas e cobrava o mesmo de quem trabalhava com ele. Com sua gana perfeccionista, revolucionou a maneira de trabalhar dos pilotos da fórmula 1. Durante a temporada de campeonato, chegava cedo ao autódromo e só saia à noite. Passava o dia inteiro tratando do carro, conversando com a equipe ou dando entrevistas. Obsessivo pelo trabalho, Senna era também louco pelo movimento, pela velocidade e por todo o tipo de esportes que pudessem lhe provocar vertigens. Detestava ficar parado. Corria e fazia exercícios de musculação para manter a forma física. Até aí, estava trabalhando. Nas horas de folga, divertia-se praticando esqui aquático e jetsky, pilotando avião e helicóptero. Ele se deu um helicóptero Ecureuil de presente de aniversário, quando completou 28 anos, e tinha, em sua frota aérea, um jatinho particular, o HS 125 800, recebido da British Aerospace em 1990.

A paixão do piloto pelos aviões e pela velocidade era tanta que, em 1989, ultrapassou a barreira do som. Ele pilotou um Mirage da Força Aérea Brasileira, atingindo uma velocidade de 1 600 quilometros por hora. Depois de uma série de acrobacias, voando de cabeça para baixo e em parafuso, terminou o passeio trêmulo, muito pálido e banhado de suor. Recebeu o título de "membro honorário" da FAB e disse que o vôo foi emocionante. Em terra, Senna brincava de aeromodelismo e divertia-se correndo com carrinhos de controle remoto. Ler, só sobre automobilismo - e olhe lá. Filmes, gostava dos que tivessem muita luta e batalha. Jogava futebol, de vez em quando, mas não se saía muito bem. Era um corintiano discreto que, em 1984, quando estreou na Fórmula 1, posou para uma foto famosa: mostrou que, debaixo do macacão, vestia uma camiseta do time paulista.

Durante dez anos, sua vida foi praticamente apenas trabalho. Mas ultimamente alguma coisa estava mudando. Ele queria ter mais tempo para descansar e se divertir. Quando assinou seu contrato com a McLaren - Honda, exigiu que fosse incluída uma cláusula nova: passou a ter, garantidos, dois meses de férias por ano. Essas férias, o piloto pretendia passar no Brasil, com a família. Senna era um menino-família. Adorava estar com seus pais, com os irmãos e com os sobrinhos. A irmã, uma psicóloga, era, segundo Senna, seu anjo-da-guarda. Viviane, ligada a uma igreja evangélica, rezava durante todas as corridas, com as mãos estendidas na direção do carro de Senna. O piloto, um católico que gostava de ir à igreja durante a semana, garantia que não era supersticioso. Não usava amuletos, mas dizia que tinha uma relação muito especial com Deus, e lia seu horóscopo quase diariamente. De hábitos simples, Senna gostava de comer bife com batatas fritas e macarronada. Vestia jeans, tênis e camiseta, não fumava e não gostava de beber. Seu grande prazer era estar em casa. Sua casa em Angra, onde passava os intervalos entre as temporadas, foi cuidadosamente planejada. Construída em madeira com paredes de vidro que se abrem para o mar, a casa tem piscina, solário, quadra de tênis, dois heliportos e áreas de lazer. É o "paraíso na terra", como definia o piloto. Era ali que Senna fazia suas sessões de musculação e corria, na areia, com o sol a pico - um momento em que o calor é tão insuportável como o que se tem de agüentar num cockpit de Fórmula 1 em plena corrida.

No Brasil, quando não estava em Angra, Senna ia para a fazenda da família em Tatuí, a 130 quilômetros de São Paulo. A fazenda, avaliada em 4 milhões de dólares, serve para a criação de gado. Tem um grande lago, onde Senna andava de jetski e esquiava, e uma pista de kart de fazer inveja a qualquer kartódromo de nível internacional. A pista, com 970 metros e dez curvas, para uma velocidade média de 80 quilômetros por hora, foi aberta no final de 1991, com uma festa para 900 convidados. Após a inauguração, o piloto divertia-se correndo em sua pista particular nas horas vagas. O kart era uma paixão antiquíssima, desde que ganhou o primeiro do pai. Ele mesmo ajustava sua máquina, como conta sua mãe. No carrinho, Senna dava asas à sua paixão pela velocidade. Assim que aprendeu a andar, tornou-se um um menino tão rápido e desastrado que a mãe costumava segurá-lo pelas duas mãos para que ele não saísse trombando em tudo o que aparecesse pela frente. A mãe, dona Neide Senna da Silva, diz que fingia ignorar quando Ayrton, com apenas 8 anos de idade, tirava o carro da garagem para ousados passeios no mirante de Santana, na zona norte de São Paulo. A ousadia do menino era um problema para a família. Uma vez, ele foi flagrado por um delegado de polícia. As corridas de kart encerraram o capítulo das contravenções na vida de Senna. Ele deixou de surrupiar o carro dos pais para competir nas pistas e foi campeão paulista, nacional e sul-americano todos os anos, de 1974 a 1977.

A carreira veloz de Senna lhe rendeu muitos títulos. Por uma pesquisa encomendada por sua empresa, em 1992, o piloto soube que estava entre as dez personalidades mundiais mais conhecidas. Era o segundo para as mulheres. Até no Japão, um país difícil para os estrangeiros, Ayrton era um ídolo. Ganhou três títulos em Suzuka e conquistou o coração dos japoneses quando correu pela Honda. Foi comparado a um antigo superherói, o National Kid. Como Senna, o personagem dos desenhos animados adorava missões impossíveis. A diferença é que, sendo de ficção, era imortal.

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