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A notícia se espalhou
domingo ŕ noite. Na
segunda, no Rio e em Brasília, o povo carregou
nos ombros o corpo de seu ex-presidente
No dia 14 deste mês,
um sábado, os inevitáveis rumores de agosto fizeram mais
uma vítima: segundo informações procedentes de Belo
Horizonte, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira teria falecido
em sua fazenda no município goiano de Luziânia, próximo
ao Distrito Federal. Poucas horas depois, enquanto os ecos da falsa notícia
começavam a comover o país, repórteres prontamente
despachados por intrigados jornais cariocas encontraram Kubitschek placidamente
aboletado na sala da casa da fazenda com amigos e familiares, degustando
uma dose de uísque e assistindo pela televisão ao seriado
"O Homem de Seis Milhões de Dólares".
Cientificado dos rumores
belo-horizontinos, Kubitschek abriu seu largo sorriso e comentou: "Então,
agora sou eu? Um dia, desses vocês quase mataram o Jânio e
agora estão querendo me pegar. Mas não vão conseguir
nada, não". Depois, sorrindo sempre, o ex-presidente convidou
os recém-chegados para um brinde: "A ocasião merece,
não é? Afinal, eu acabei de ressuscitar". Ao se despedir
dos repórteres, embora ressalvando que "tudo pode mudar",
ele procurou descartar também os rumores que davam conta de seu
iminente retorno à vida pública. "Minhas únicas
pretensões no momento são plantar pasto e café",
explicou.
Horas mais tarde,
em meio a uma permanente saraivada de telefonemas de amigos alarmados
com os boatos, Kubitschek confidenciou a Vera Brant, de Brasília,
uma amiga da família há muitos anos: "É, vai
ser assim mesmo no dia em que eu morrer. Mas, 24 horas depois, ninguém
vai se lembrar mais de mim". Vera retrucou com um profético
protesto: "Aí é que está o seu engano: ninguém
esquecerá você". Oito dias depois, novamente a notícia
do falecimento de Juscelino Kubitschek de Oliveira, um dos quatro ex-presidentes
vivos do país, comoveria todo o Brasil. Desta vez, porém,
não eram rumores.
CONTRA OS RADICAIS
- Entre o brinde de Luziânia e a fatídica viagem pela
rodovia Presidente Dutra no dia 22, Kubitschek procurou viver coerentemente
sua nova condição de entusiasmado proprietário rural.
Na sexta-feira passada, no aeroporto de Brasília, enquanto aguardava
o momento de embarcar para São Paulo, ele reviu dois amigos, o
senador Franco Montoro e o deputado Ulysses Guimarães, presidente
nacional do MDB. Juntos fizeram a viagem de jato - e mais uma vez JK,
que no dia 12 de setembro completaria 74 anos de idade, pôde desfiar
alguns dos seus projetos. "Juscelino queria comprar gado e estava
cheio de planos para sua fazenda de 300 alqueires no cerrado", conta
Guimarães. "Ele já tinha plantado pastagens, 5.000
pés de café e pretendia plantar mais 50.000."
Mas, durante a viagem
até o Aeroporto de Viracopos, de onde os três seguiriam juntos
para São Paulo, Kubitschek acabou demonstrando que, apesar de seu
longo, involuntário retiro político, ainda o assaltavam
preocupações e conceitos rigorosamente atuais. "Hoje
está cada vez mais clara a necessidade de normalização
da ordem pública", disse ele a Guimarães. "Isso
é um desejo de todo o povo brasileiro, à exceção
de uns poucos radicais de direita e de esquerda. Passados doze anos, esse
sentimento é cada vez mais amplo." Segundo Montoro, ele atribuiu
as recentes bombas terroristas "ao desespero de elementos inconformados
com a perspectiva de normalização institucional". Kubitschek
ainda revelou ter notado "certa inquietação" nos
meios econômicos e bancários, com os quais estreitara seus
contatos nos últimos tempos.
Ele fez algumas queixas,
também. Confessou, por exemplo, que gostaria de reencontrar seus
arquivos, doados ao governo em 1964 e depois apreendidos pela polícia.
E lamentou as vicissitudes que precederam o lançamento de seu livro
"Meu Caminho para Brasília" - liberado com a exigência
de que não houvesse noites de autógrafos. Apesar disso,
Kubitschek tencionava escrever outro livro, desta vez descrevendo seu
tempo de exílio. E parecia extremamente bem disposto ao chegar
à Casa de Manchete, entre as árvores frondosas do Jardim
América, onde ficaria hospedado em São Paulo, a convite
do editor Adolfo Bloch.
ABRAÇOS
NAS RUAS - Kubitschek e Bloch jantaram juntos numa churrascaria e,
ainda nessa noite, o ex-presidente aceitou convite para proferir uma palestra
no Colégio I. L. Peretz no dia 29 de novembro, durante as solenidades
evocativas da partilha da Palestina. Na manhã seguinte, em companhia
do amigo Olavo Drummond, ex-deputado federal pelo PSD mineiro e procurador
da República em São Paulo, Kubitschek percorreu várias
livrarias paulistanas. "Nas ruas, ele foi muito cumprimentado e abraçado
por pessoas que o reconheciam", testemunha Drummond.
Às 11 horas
do sábado, Kubitschek acompanhou Bloch ao Aeroporto de Congonhas,
de onde o editor voltava para o Rio. E, depois da sesta habitual, ele
retocou o discurso de 3 minutos que faria à noite, no Clube Nacional,
discretamente cravado no bairro do Pacaembu. Ali, num jantar para cinqüenta
talheres, reuniam-se componentes da extinta Comissão da Bacia Paraná-Uruguai,
criada quando Kubitschek era governador de Minas Gerais. Sóbrio,
elegante em seu terno e pulôver azul-marinhos, camisa branca e gravata
azulada, Kubitschek reafirmou sua obstinada crença no desenvolvimento
com liberdade e foi aplaudido por um punhado de ilustres convivas - entre
eles os ex-governadores paulistas Lucas Nogueira Garcez, Carvalho Pinto
e Laudo Natel - e encerrou sua noite no restaurante Paddock, no centro
da cidade, ao lado do inseparável Drummond.
Na manhã de
domingo, Kubitschek acordou especialmente bem-humorado. Leu jornais, recortou
alguns artigos e reportagens, e fez questão de acompanhar, na cozinha
da Casa de Manchete, a preparação do "excelente filé"
que já lhe fora servido no dia anterior. Em seguida, saiu com Drummond
para rever amigos. Almoçaram na residência de um deles, onde
o ex-presidente se emocionou por reencontrar seu afilhado Adhemar de Barros
Neto, de 14 anos. "Ele estava ótimo de saúde, corado,
bonito e conversando muito", recorda Drummond. "E me disse que
pretendia viajar para Brasília de avião."
Por alguma razão
desconhecida, porém, Kubitschek mudou de idéia - e, em vez
de voltar a Brasília de avião, decidiu ir para o Rio de
automóvel. Assim, terminado o almoço, um carro da revista
Manchete o levou ao trevo do quilômetro 2 da via Dutra. Ali o esperava
o motorista e secretário Geraldo Ribeiro, 63 anos, ex-chefe da
garagem do Palácio do Catete e seu amigo há mais de quarenta
anos, a bordo de seu próprio carro, um Opala cinza-metálico
com teto de vinil, ano 1970, placa NW-9326 do Rio de Janeiro. Fiel a antigos
hábitos, Kubitschek se acomodou no banco traseiro, descalçou
os sapatos, abriu um saquinho de biscoitos de polvilho - e, em companhia
do velho amigo Ribeiro, partiu para a sua última viagem.
"CURVA DO
AÇOUGUE" - O trecho da via Dutra que vai do quilômetro
177 ao 164, no sentido São Paulo-Rio, é sintomaticamente
conhecido por "curva do açougue" entre experientes motoristas
de caminhão. Há duas curvas para a esquerda e, em seguida,
um acentuado declive para a direita. E justamente ali, por algum imperdoável
equivoco de engenharia, a pista se inclina ligeiramente para a esquerda.
"Os carros que trafegam no sentido do Rio são invariavelmente
atraídos para o lado de dentro da pista e podem capotar ou pegar
a contramão", diz o investigador Manuel Geraldo, da delegacia
de polícia de Resende, no Estado do Rio.
Habituado às
tragédias rodoviárias que celebrizaram esse trecho - o qual,
por ter sido recapeado recentemente, ainda não dispõe de
faixas de segurança -, Manuel Geraldo não pareceu especialmente
impressionado quando soube, no começo da noite de domingo, que
a estrada acabara de fazer mais duas vítimas fatais. A informação
dizia que às 17h55, depois de ter sido fechado por um ônibus,
um Opala havia se desgovernado, atravessando o canteiro central a mais
de 100 quilômetros por hora e colidido violentamente com um caminhão
Scania Vabis de Orleans, Santa Catarina, placa ZR-0938, dirigido a 80
quilômetros horários por Ladislau Borges, 47 anos. Dentro
do automóvel, jaziam dois corpos irreconhecíveis.
"Fiz o que pude,
mas não consegui desviar", diria depois Borges, que fazia
a rota Ceará-São Paulo transportando 30 toneladas de gesso
numa carreta de doze rodas acoplada ao caminhão. Ele acabara de
ouvir pelo rádio da cabina o primeiro tempo do jogo Vasco e Botafogo,
no Maracanã, quando percebeu que o Opala ultrapassava o canteiro
e vinha em sua direção. "Joguei a carreta para a direita
e percebi que o motorista tentava controlar o carro para entrar entre
o caminhão e o canteiro", recorda Borges. "Mas não
foi possível evitar o choque." O Opala colidiu com a roda
dianteira direita da carreta e foi arrastado por cerca de 40 metros até
um capinzal às margens da rodovia. Com o impacto, o pesado caminhão
ficou parcialmente fora da pista. Borges, por sorte, não sofreu
ferimentos graves - mas pouco depois seria confrontado com a tragédia.
CHORO E CONGESTIONAMENTO
- Os efeitos do impacto foram terrivelmente mais destruidores sobre o
lado esquerdo do Opala - justamente o lugar em que Kubitschek estava sentado,
com as pernas cruzadas. Dezenas de motoristas que vinham mais atrás
estacionaram seus veículos nos acostamentos, retiraram Borges da
cabina, mas nada puderam fazer quanto aos dois corpos presos nas ferragens.
Ribeiro parecia enrijecido ao volante, o que alimentou suspeitas de que
ele talvez tenha sofrido um ataque cardíaco ao tentar evitar o
desastre. E o passageiro do banco de trás, irreconhecível,
só pôde ser identificado pelos documentos encontrados em
seu paletó.
O natural choque da
morte seria, então, brutalmente ampliado: a carteira de identidade
nº 1.633.333, expedida pelo Instituto Félix Pacheco, informava
que o morto era Juscelino Kubitschek de Oliveira. Além dela, o
ex-presidente portava a carteira de sócio de um clube e uma passagem
aérea em seu nome para o vôo das 18 horas do dia 20 entre
Brasília e Rio. Aturdidos pela descoberta, muitos motoristas choravam
copiosamente. E logo se formou um imenso congestionamento em ambas as
pistas da via Dutra, que só ensaiariam um lento retorno à
normalidade às 21 horas do domingo, quando os corpos foram finalmente
retirados das ferragens por bombeiros e patrulheiros rodoviários,
e levados para o necrotério de Resende.
Às 20 horas,
o delegado Valdir Guilherme já havia anunciado a identidade dos
mortos. Informada em seu apartamento no Rio, a esposa do ex-presidente,
dona Sara Kubitschek, recusava-se a acreditar na notícia. "É
a segunda vez que dizem isso", insistia. De qualquer forma, logo
seguiria para Resende a secretária da família Kubitschek,
Edna Andrade Couto. Foi ela quem providenciou o traslado para o Rio, feito
por uma Kombi do serviço funerário de Resende, seguida por
numerosos veículos de amigos do ex-presidente.
Às 2h45 de
segunda-feira, o corpo de JK chegou ao Instituto Médico Legal do
Rio de Janeiro, em cujas imediações, mantidas a distância
por quarenta soldados da Polícia Militar, cerca de 200 pessoas
esperavam. Enquanto isso, já informada oficialmente do falecimento
pelo secretário da Segurança do Rio, general Ignacio Domingues,
dona Sara abria a porta de seu apartamento aos jornalistas e fazia um
único pedido: "Não me fotografem, pelo amor de Deus".
CALMANTES -
"Ele era tão bom companheiro. Agora estou sozinha." Dona
Francisca, cozinheira de Kubitschek desde que ele deixou a presidência,
ouviu a frase da patroa e chorou com ela. A essa altura, o apartamento
dos Kubitschek, em Copacabana, já começava a receber amigos,
parentes e ex-assessores de JK. Por volta de meia-noite e meia chegava
Maristela, a filha adotiva do ex-presidente, em companhia do marido Rodrigo,
filho do ex-ministro Lucas Lopes. Em prantos, explicava que soubera da
notícia pouco antes, num sítio de Araras, onde passava o
fim de semana. Márcia, a outra filha, só abraçaria
a mãe às 4 da manhã, ao regressar às pressas
de Porto Alegre.
Já vestida
de negro e sob efeito de calmantes, ministrados por dr. Aluísio
Salles, médico e amigo da família, dona Sara recebia então
os cumprimentos de Abelardo Jurema, líder de JK na Câmara
dos Deputados, Fernando Nóbrega, ex-ministro do Trabalho, Indústria
e Comércio, o escritor Josué Montello, e Paschoal Carlos
Magno, ex-assessor especial para assuntos culturais e estudantis, que
chorava copiosamente. "Foi o único homem público que
respeitou os direitos da mocidade brasileira", repetia Magno.
Também se chorava
muito a 764 quilômetros dali, nas ruas de Diamantina (MG). Na terra
natal de "Nonô", fecharam-se lojas, bares e escolas -
inclusive a faculdade de Odontologia, que Kubitschek fundou há
23 anos, quando governador de Minas. Seus conterrâneos relembravam
com saudade a última visita do filho ilustre, em janeiro último.
Todas as tardes, subia ele até um cruzeiro fincado no alto de uma
das montanhas que cercam a cidade e de lá, silencioso, contemplava
o espetáculo do pôr-do-sol.
AMIGO DOS MOTORISTAS
- No Rio, a manhã de segunda-feira começava a nascer
quando o Instituto Médico Legal deu por terminada a autópsia
do ex-presidente. Pouco depois das 6 horas, todo coberto de pétalas
de rosas e cravos vermelhos, o corpo de Kubitschek chegava à sede
da revista Manchete, na praia do Russel, onde seria velado. E ali começaria
o que foi a maior homenagem popular já prestada pelo Rio de Janeiro,
nos últimos vinte anos, a qualquer figura política brasileira.
Logo se formou uma fila de centenas de metros de extensão, que
esperava pacientemente sua vez de entrar no saguão do prédio
- quem entrava não queria sair. Algumas pessoas gritavam, a maioria
chorava. E explosões de afeto se sucediam umas após as outras.
De repente, por exemplo,
uma voz se ergueu, enérgica: "Depressa, queremos ver nosso
amigo, o amigo dos motoristas". Quem gritava, entre soluços,
era um homem alto, forte, de óculos. Levado para junto do corpo,
discursou: "Que Santo Pai e Nossa Senhora de Fátima lhe dêem
o reino dos céus. Tudo de bom para você, Juscelino. Descanse
em paz, meu presidente". Minutos depois, mais calmo, o homem se identificava
- José Gomes, "um simples motorista", pioneiro de Brasília,
a quem JK abraçou um dia, "apesar de eu estar todo sujo".
Também na fila,
esperando sua vez, uma procissão de notáveis: o arquiteto
Oscar Niemeyer, o urbanista Lúcio Costa, os marechais Odylo Denis
e Cordeiro de Farias, o ministro Nascimento Silva, da Previdência
Social, o governador carioca Faria Lima, o prefeito Marcos Tamoyo, o historiador
Hélio Silva, os ex-governadores Chagas Freitas, Carlos Lacerda
e Negrão de Lima. Às 11h45, após vencer uma barreira
humana firmemente disposta a não dar passagem, conseguiu-se afinal
levar o caixão para a rua. Mas não para o carro fúnebre
- a multidão fez questão de carregar o corpo. E nos ombros
do povo, a urna do ex-presidente percorreu, em uma hora e 5 minutos, os
2 quilômetros que separam o local do velório do Aeroporto
Santos Dumont.
LENÇOS BRANCOS
- À frente do cortejo, amparada pelas duas filhas, dona Sara
mostrava-se plácida. A certa altura da caminhada, contudo, sentiu-se
mal e precisou tomar água mineral para prosseguir. À sua
volta, das calçadas e das janelas ao longo do aterro do Flamengo,
lenços brancos se agitavam. E a massa do cortejo, a cada quarteirão
mais volumosa, cantava - o Hino Nacional, o Hino à Bandeira, a
"Valsa do Adeus" e, com especial pungência, os versos
do "Peixe Vivo": "Como poderei viver / Como poderei viver
/ Sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia..."
No aterro do Flamengo,
alguns soldados montavam as arquibancadas para o desfile de 7 de Setembro.
Da multidão, que naquela hora entoava o Hino Nacional, subiram
alguns apelos apaixonados: "Tirem o chapéu", gritava-se.
Os pedidos foram prontamente atendidos. Às 12h50 o féretro
chegou ao aeroporto e só então, colocada não se sabe
por quem, uma bandeira do Brasil cobriu o caixão. A multidão
queria entrar na pista, pretensão vigorosamente impedida pela polícia.
De qualquer forma, continuavam os gritos de despedida. "Este foi
o brasileiro maior." Ou: "Como este, não vamos ter nunca
mais".
Na pista, três
táxis aéreos aguardavam a família Kubitschek e o
corpo do ex-presidente para levá-los ao Aeroporto do Galeão,
de onde seguiriam, num Boeing 727 da Varig, para Brasília. Quando
os familiares já se dirigiam aos aviões, um auxiliar de
dona Sara tentou alcançá-los, argumentando que precisava
levar as lentes de contato da ex-primeira dama. O guarda que barrava sua
entrada pegou então as lentes para conferir. Desastradamente, elas
caíram no chão e se perderam. Antes de entrar no Boeing,
enfim, dona Sara virou-se várias vezes para a multidão que
de longe não parava de gritar, acenar e cantar, e ergueu o braço
em agradecimento. Dizia: "Muito obrigada por tudo isso. Muito obrigada
por essa manifestação".
MOTOQUEIROS -
Tensa, conduzida por amigos até as escadas do jato particular,
dona Sara, acompanhada das filhas Márcia e Maristela, embarcava
para uma viagem carregada de significação: ia levar o corpo
de seu marido até a cidade que ele criara, Brasília. Ali,
na sua capital, eleita por ele como última morada, se repetiria,
dezenas de vezes ampliada, a formidável cena de adeus dos brasileiros
a JK. Desde cedo, pessoas se dirigiam ao aeroporto que, até às
16 horas, quando o Boeing chegou a Brasília, já havia servido
2.420 cafezinhos e esgotado todos os refrigerantes de seu bar e do restaurante.
Os balcões das companhias aéreas estavam vazios - simplesmente,
todos os funcionários tinham ido para a pista. Do lado de fora,
centenas de táxis puseram-se em fila atrás da Kombi que
levaria o corpo de JK até a Catedral.
Com eles, um bando
incontável de motoqueiros e uma faixa: "Ao querido presidente
Juscelino, nossa eterna gratidão". No estacionamento superlotado,
dezenas de carros tinham fitas negras amarradas nas antenas. O cortejo
assim formado rumaria então para a Catedral de Brasília,
onde desde cedo também crescia a multidão. A cada instante,
espontaneamente, surgia um padre oferecendo-se para rezar a missa fúnebre.
Já pelas 11 da manhã, o volume de presentes à catedral
era suficiente para exigir o envio de policiais. Mas, na alma brasiliense
em luto, não haveria lugar para barreiras nem para os naturais
choques entre populares e o policiamento - como se verificaria por todo
o resto do dia. Diante dos cordões de isolamento, os argumentos
de quem queria passar se revelaram sempre mais fortes.
O ex-deputado federal
Sílvio Braga, por exemplo, exibiu como senha sua condição
de político cassado, subitamente valorizada. "Sou um ex-deputado,
cassado pela Revolução", anunciou-se ele a um guarda
perplexo, "vim aqui para prestar minha última homenagem ao
ex-presidente". E passou: Pelas 15 horas, a igreja recebia as primeiras
coroas de flores, depositadas inicialmente sobre o catafalco junto ao
altar e, mais tarde, alinhadas sobre o tapete central, que ficou totalmente
coberto. Essas mesmas flores, quando o caixão já estava
no altar, seriam tiradas das coroas e jogadas até o grupo que rodeava
o corpo de JK.
Nesse grupo, o cacique
Mário, da tribo dos xavantes da reserva de São Marcos, com
outros índios e uma índia grávida, que chorava, contrastava
com políticos da mais pura linhagem. Estavam todos lá: Magalhães
Pinto, Ulysses Guimarães, Marcos Freire, Petrônio Portella,
Paulo Brossard, Fernando Lyra. Isto é, nem todos: os que se atrasaram
e tentaram entrar na catedral depois do corpo não conseguiram mais
atravessar a massa reunida e sempre crescente. Os populares, por seu turno,
iam empurrando os que se encontravam às portas ou junto ao espelho
d'água que circunda a catedral. Muitos acabaram caindo na água
- e, molhados até o joelho, descobriram um dos melhores locais
para observação da missa. O celebrante, entre tantos disponíveis,
era justamente o mais indicado: dom José Newton, arcebispo de Brasília,
com o auxílio de diversos sacerdotes.
LUTO OFICIAL -
Através de milhares de rádios de pilha, a multidão
se informava do que acontecia ali mesmo na igreja e em outras cidades
do país. Uma das informações mais esperadas só
chegaria justamente nessa hora em que todos rumavam para a catedral, ou
se espremiam em seus arredores: o governo decretava luto oficial de três
dias pela morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ainda
não se sabia, entretanto, a razão do atraso. Na verdade,
o próprio presidente Ernesto Geisel só foi tomar conhecimento
da morte de JK na manhã de segunda-feira, segundo se presume, pela
sinopse da Agência Nacional que lhe é encaminhada às
7 da manhã. "Como é que não me avisaram antes?",
inquiriu contrariado o presidente, às 9h30, aos ministros Golbery
do Couto e Silva, Hugo Abreu e João Paulo dos Reis Velloso, que
o esperavam ao pé da rampa frontal do Palácio do Planalto,
no momento em que ele chegava para o trabalho.
Não se ouviram
as explicações, mas é certo que a maioria dos membros
do Ministério já sabia da morte de JK desde a noite anterior
- só que ninguém quis tomar a iniciativa de telefonar para
o presidente, que subiria a rampa do palácio gesticulando mais
do que de hábito. Iniciou-se, então, uma reunião
com aqueles três ministros, conforme estava previsto na agenda -
mas, fora do previsto, a eles logo se juntariam os ministros do Exército,
general Sílvio Frota, e da Justiça, Armando Falcão.
Passavam então de 11 da manhã e o governo, mais alguns minutos
depois, anunciaria a decisão tomada diante da morte do ex-presidente.
"A decisão
de luto oficial já estava tomada desde cedo", esclareceu o
assessor de Imprensa da Presidência da República, Humberto
Barreto. "Não importa", insistiu ele, "se o decreto
foi assinado uma ou duas horas depois." As cópias do decreto,
de qualquer modo, só chegaram à Sala de Imprensa às
14h30. Os repórteres comunicaram a Barreto todas as dúvidas
durante a espera, falando desde o precedente aberto - afinal, dos três
ex-presidentes agora vivos, dois foram cassados pela Revolução
(João Goulart e Jânio Quadros) - até o fato de o último
dia de luto coincidir com as festividades do Dia do Soldado.
Segundo admitiu Humberto
Barreto, a coincidência, realmente, foi discutida. Ao mesmo tempo,
lembrava-se a ausência de membros do governo na catedral. No final
da tarde, em substituição ao ministro Falcão - ocupado
com obrigações ligadas à reforma do Judiciário,
explicou -, Humberto Barreto voltaria a falar sobre a homenagem oficial.
O governo não mandaria representante aos funerais, informou então.
"A homenagem que o governo entendeu ser necessária e justa",
disse Barreto, "foi decretar luto oficial por três dias."
CANTO E PRANTO
- A maciça presença popular em torno da catedral, enquanto
isso, prosseguia de forma freqüentemente pouco comum para um velório.
Aos que queriam homenagear Kubitschek, parecia prevalecer, em meio a toda
emoção, uma tranqüilidade que, num repente, transformava-se
em alegria inesperada. Os que atiravam flores sobre o caixão, por
exemplo, em seguida irromperam em aplauso. E por longos minutos, em vez
de contenção e reverência, a Catedral de Brasília
se encheu de palmas.
Haveria talvez algum
orgulho, algum sentimento indefinível de vitória a animar
os brasilienses por verem sua terra servir de túmulo ao idealizador
e fundador da cidade. Este era, aliás, o desejo de Juscelino Kubitschek.
Este foi, também, o apelo dramático de sua filha Márcia,
ainda em Porto Alegre, quando soube da notícia. "Meu pai será
sepultado em Brasília, custe o que custar", ela exclamou no
Aeroporto Salgado Filho, enquanto esperava a liberação do
taxi aéreo que a levaria ao Rio, no final da noite de domingo.
Poucas horas antes, a notícia da morte de JK havia chegado ao ginásio
de esportes do Internacional, o "Gigantinho", onde se realizava
um espetáculo de balé promovido por Márcia.
Seu desejo, afinal,
seria atendido. Excedendo por certo, em repercussão e características,
as mais exageradas previsões de amor da população
de uma cidade. Iniciada a missa, às 17 horas, tornou-se difícil
terminá-la - a emoção popular emperrava os acertos
logísticos. "O Brasil perdeu um homem que não guardava
ódios nem rancores", pregava dom José Newton, quando
foi interrompido pelos gritos de fora e de dentro da igreja. "Juscelino!
Juscelino!", ecoava por Brasília. Só às 17h30
a grita se acalmaria, quando dona Sara, tomando do microfone, proclamou:
"A melhor maneira que a família tem de agradecer ao povo é
deixar que ele carregue o caixão até o cemitério".
SEPULTURA 36 -
Foi possível, então, levar a cabo a cerimônia. Conduzido
pelos milhares de mãos, o caixão de JK ergueu-se sobre a
multidão, que gritava seu nome e, como no Rio, entoava o "Peixe
Vivo". Fora da igreja, dois carros do Corpo de Bombeiros esperavam,
junto a uma carreta que conduziria o corpo.
Mas o transporte não
se faria tão simplesmente. A multidão, prontamente, se apossou
do caixão. Eram cerca de 80.000 pessoas, espalhadas entre a catedral
e a plataforma rodoviária, e cada tentativa dos bombeiros para
colocar o caixão na carreta era repelida aos gritos de "O
povo leva, o povo leva" - e nessa disputa, o féretro acabou
desviado para o gramado da Esplanada, onde os carros dos Bombeiros não
conseguiam chegar.
Finalmente, debaixo
da plataforma rodoviária, apesar dos gritos de "Não
deixa, não deixa", os bombeiros conseguiram colocar o corpo
sobre a carreta. Quinze minutos depois, ainda no eixo monumental, a população
recuperaria o caixão, seguindo-se o cortejo pela avenida W 3, já
completamente congestionada. Novamente, então, recolocou-se o caixão
na carreta. O ritmo do cortejo, entretanto, seria determinado pela massa
de acompanhantes que insistia em seu refrão de "O povo leva",
eventualmente trocado por "Devagar com JK". Mais de quatro horas
se passariam, assim, antes que o corpo de Juscelino Kubitschek alcançasse
o Campo da Esperança, onde seria a 35.666ª pessoa a ser sepultada.
Sua sepultura, de nº 36, fica a 10 metros da de seu amigo Bernardo
Sayão, o primeiro a ser enterrado em Brasília, em 1959 -
após morrer num acidente quando comandava a abertura da Belém-Brasília,
obra de que JK se orgulhava quase tanto quanto a construção
da nova capital. Bem em frente, está fincada a grande cruz do cemitério,
que representa a Boa Esperança.
IMPOSSÍVEL
ADIAR - No cemitério, pela última vez, cairia um esquema
armado, sem contudo causar maiores tumultos. A pedido de um primo do ex-presidente,
Ildeu de Oliveira, a Polícia Militar havia organizado um itinerário
pelo qual todo o público pudesse entrar na Capela 1 e sair rapidamente.
Aos milhares, porém, as pessoas foram se ajuntando pelas imediações
da sepultura, muitos subiram nas árvores e, novamente, ouviu-se
a voz sóbria, já um pouco fraca àquela altura, de
dona Sara Kubitschek. Sobre um banquinho, apoiada no ombro do deputado
mineiro Renato Azeredo, suposto herdeiro dos votos de JK em Minas, ela
pedia que desimpedissem a entrada da capela. Em resposta, além
do atendimento do pedido, ouviu: "Viva JK", "Viva a democracia".
E, uma vez mais, o "Peixe Vivo".
Às 23h10, assim,
o corpo de Juscelino Kubitschek de Oliveira chegou à beira do túmulo.
A distância, ouviam-se cânticos ainda, quando soou o toque
de silêncio. Finalmente, às 23h35, o corpo de JK baixava
à sepultura. Terminava, àquela hora, uma longa segunda-feira.
Pela televisão, pelo rádio, o país inteiro acompanhara
o fim de um de seus ídolos mais amados. Os tribunais superiores
de Brasília, o Senado, a Câmara, todos haviam prestado a
ele sua homenagem. O Executivo reservou-lhe o luto oficial, acrescido
da quase despercebida presença de um de seus ministros - Severo
Gomes, da Indústria e do Comércio - no cemitério.
Também de luto estava a remota Presidente Juscelino, uma vila a
68 quilômetros de Natal.
O mesmo ocorreria
em praticamente todos os municípios e Estados. Isoladamente, no
alto de um barranco próximo ao bairro da Serra, em Belo Horizonte,
um favelado fixou cartazes de cartolina falando de JK. Velhos companheiros
e velhos adversários de batalhas políticas, por todas as
partes, manifestavam a mesma tristeza. Um imenso vazio estava aberto,
a partir daquele instante em que a terra do planalto central começou
a cair sobre o corpo do ex-presidente. Nesse momento, uma extenuada dona
Sara saía do Campo da Esperança para uma rápida passagem
pela casa de um parente, retornando ao Rio na primeira hora da madrugada
de terça-feira. Naquela noite, Juscelino Kubitschek dormiria sozinho
e para sempre na cidade que construiu e que deixou como símbolo
maior de uma vida inteira dedicada à sua pátria.
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