Collor perde por 441 votos e anuncia,
através de Célio Borja, que não renuncia
e que irá colaborar na transição para Itamar

O presidente Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo que ocupava desde 15 de março de 1990. O voto de 441 deputados a favor do seu julgamento no Senado, dado em alto e bom som na memorável sessão de terça-feira passada, apeou a cáfila de salteadores que ocupou a Presidência. No acaso da chamada ao microfone por ordem alfabética, coube ao deputado Paulo Romano, do PFL mineiro, o voto que emocionou o país. Foi ele, com o 336º voto, aquele que garantia a aprovação do impeachment, que deu a senha para a comemoração, para o momento de grandeza maior. O Brasil se agitou, lágrimas foram derramadas e bandeiras agitadas. Na Câmara, presidida de maneira impecável por Ibsen Pinheiro, cantou-se o Hino da Independência com fervor cívico. Ao determinar que Collor deixe de exercer os poderes presidenciais como vinha fazendo há 930 dias, a Câmara escreveu uma página gloriosa de sua história. Os 480 deputados que compareceram à sessão (441 votos a favor, 38 contra e uma abstenção, a de Gastone Righi, do PTB paulista) estiveram em sintonia com os anseios do povo brasileiro, traduzindo no plenário a imensa maioria que se rebelou contra os crimes de Fernando Collor. Aos 23 ausentes a História reservará a pecha de covardes.

Coragem teve o deputado Roberto Campos, do PDS fluminense. Acometido de uma crise de diabete, Campos saiu do leito do hospital no Rio de Janeiro e, de cadeira de rodas, deu seu voto a favor do impeachment em Brasília. Coragem, de um outro tipo, teve Ricardo Fiúza, que em nome de sua coerência aproximou-se do microfone para dar seu apoio ao presidente derrotado. Coragem maior, aquela que forja a História de um país, tiveram os parlamentares que desprezaram as verbas a fundo perdido da Fundação Banco do Brasil de Lafaiete Coutinho e da Caixa Econômica de Álvaro Mendonça e ficaram ao largo dos bilhões liberados. Preferiram ficar em paz com suas consciências - e pensaram acerca de seu futuro na política - a aceitar o dinheiro sujo do caixa clandestino destinado a salvar o mandato do presidente.

Até minutos antes da votação, Collor estava eufórico, garantindo que iria ganhar. Quando começou a chamada dos deputados, retirou-se sozinho para o seu gabinete. Numa sala ao lado, instalaram-se o seu secretário e cunhado, Marcos Coimbra, Lafaiete Coutinho, Álvaro Mendonça, o assessor Luís Carlos Chaves e seu amigo Luiz Estevão. Estavam macambúzios, derrubados. Depois da acachapante derrota, Célio Borja saiu do Ministério da Justiça para, junto com o chefe do gabinete militar, Agenor de Carvalho, o porta-voz Etevaldo Dias e Marcos Coimbra, encontrar-se com Fernando Collor. Collor determinou a Célio Borja que desse uma entrevista coletiva, dizendo que colaboraria na transição do poder para Itamar Franco. Segundo o ministro da Justiça, o presidente apeado se disse disposto a transmitir o cargo com dignidade, cumprindo as determinações da presidência do Senado e do Supremo Tribunal Federal. Itamar Franco, que acompanhou a sessão da Câmara de sua casa, divulgou uma nota dizendo que "a nação espera de seus filhos união, paz e trabalho para o resgate desta e de futuras gerações".

Nas ruas, quando começou a votação, a apreensão rapidamente deu lugar à alegria emocionada. Os votos foram acompanhados através de telões espalhados pelas principais cidades brasileiras. O 336º voto a favor do impeachment foi comemorado como um gol de final de Copa do Mundo. Em Belo Horizonte, dezenas de empresas dispensaram seus funcionários. As escolas fecharam suas portas, as universidades também. O prefeito Eduardo Azeredo, do PSDB, decretou ponto facultativa. Em São Paulo, uma concentração reuniu milhares de pessoas no Vale do Angangabaú. No Rio de Janeiro, grandes empresas, inclusive a Coca-Cola, deram folga a seus funcionários. No Recife, o comércio fechou as portas. Em Brasília, na frente do Congresso, já ao meio-dia havia 15.000 pessoas prontas para a festa.

Às vésperas de seu holocausto político, Collor ainda acenou com cargos, ao afirmar que organizava uma reforma ministerial. Tentou rachar a bancada do impeachment, dizendo-se favorável à proposta de implantar um imposto único no país. Fez de tudo, menos o que lhe cabia: defender-se, tentar demonstrar que não comandava a quadrilha da qual Paulo César Farias era apenas o operador. Às 8 e meia da manhã da terça decisiva, Collor recebeu, para uma audiência surrealista, o deputado Elísio Curvo (PRN-MS). Collor não só mostrava-se convencido de que o impeachment seria derrubado como anunciou planos para formar um novo governo, que dali para a frente seria entregue a uma equipe composta por técnicos e empresários. Também prometeu a demissão do pistoleiro Lafaiete Coutinho, presidente do Banco do Brasil. Collor repetiu a mais antiga promessa política de seu governo - a de que, dali para a frente, iria azeitar a convivência com o Congresso. Como se fosse pouco, Collor fez uma rósea previsão sobre a recuperação da economia e disse que sua popularidade subiria tanto que acabaria sendo reeleito. O objetivo era injetar ânimo em seu interlocutor, mas o efeito foi o oposto. Com números apontando para uma vitória segura da oposição, Curvo despediu-se do presidente desolado. "Deu pena", disse o deputado ao sair da sala. Curvo acabou votando a favor de Collor.

Em sua última operação para manter-se no cargo, a tropa de choque de Collor tinha três recursos: convencer os deputados a fugir do plenário, a se abster e a votar contra o impeachment. Perdeu em todas, como perdera ao longo de todas as votações anteriores que resultaram na sua derrocada, desde a formação da CPI de PC Farias, há quatro meses, até a sessão memorável de terça-feira. Há cinco meses, quando Pedro Collor disse a VEJA que "PC Farias é o testa-de-ferro do Fernando", nem o PT de Luís Inácio Lula da Silva acreditava que o impeachment seria aprovado. Há quatro, quando a CPI iniciou as investigações, o então secretário de governo, Jorge Bornhausen, disse que "não ia dar em nada". O senador tucano Fernando Henrique Cardoso chegou a cunhar a teoria de que o impeachment "é que nem a bomba atômica: existe mas não é para ser usado". Do ponto de vista político, a situação de Fernando Collor complicou-se desde que a Alegria, Alegria dos estudantes secundaristas inaugurou uma grandiosa sucessão de manifestações populares. Do ângulo técnico, sua posição tornou-se insustentável no plenário do Supremo Tribunal Federal. A corte deu-lhe o golpe final, ao prescrever o voto aberto e ao rejeitar as chicanas jurídicas do Planalto que pretendiam protelar a votação até quando fosse possível. Na sessão de segunda, o deputado Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara, selou a queda de Collor ao decidir pelo voto no microfone - aquele que permitiu aos eleitores acompanharem pela televisão como seus representantes no Parlamento votavam.

Com o bunker de Collor lutando até o fim, os últimos dias foram de jogo pesado. O ex-ministro Ricardo Fiúza, que reassumiu sua vaga de deputado, e o líder do PTB, Nelson Marquezelli, ligaram para mais de 100 deputados indecisos e abertos a qualquer pressão. Na tarde de domingo, Collor encenou o ar de vitória fácil ao receber 100 manifestantes nos portões babilônicos da Dinda. Em estilo demagogo-eleitoral, com os cabelos em desalinho, punhos cerrados num grito "Vamos lá, para a vitória", Collor afastou bruscamente o microfone de uma equipe de repórteres da Rede Globo, com uma cotovelada derrubou o gravador da repórter Sônia Carneiro, da Rádio Jornal do Brasil - que certa vez lhe perguntou se estava com Aids -, e acertou, de quebra, o ombro de uma senhora que fora ali lhe emprestar solidariedade.

Collor telefonou para o governador Antônio Carlos Magalhães, e se disse convencido de suas chances. Seu interlocutor não tinha a mesma opinião. A ofensiva desesperada do final de semana surtiu efeitos temporários. O ex-presidente José Sarney, habitualmente tranqüilo, estava extremamente apreensivo. "O governo perdeu as estribeiras e partiu para o vale-tudo", dizia Sarney, ainda convalescendo de uma gripe que, em tempos normais, o teria jogado na cama. Na quinta-feira, por exemplo, ardendo em febre e com a garganta arranhando, Sarney encontrou forças para conversar com o governador de Sergipe, João Alves, e convencê-lo a cerrar fileiras pelo impeachment. No sábado, com sua tática de avançar sobre os deputados dispostos a votar contra Collor, o Planalto contra-atacou na bancada de Sergipe. Mais: a poder de promessas de verbas e cargos, conseguiu três votos na bancada do Maranhão. Sarney voltou a falar com João Alves e os deputados maranhenses. Os de Sergipe se alinharam contra Collor e, dos três do Maranhão, dois mudaram novamente de posição.

Para evitar atropelos, os parlamentares favoráveis ao impeachment montaram um bem estruturado sistema de controle dos votos. Em cada Estado havia um coordenador responsável por conferir a presença dos pró-impeachment. Nas bancadas mais numerosas, como as de São Paulo e Minas Gerais, dois deputados faziam esse controle. Além disso, cada partido acompanhava a chegada de parlamentares à Câmara. Durante o dia da votação, os deputados encarregados de checar a presença trocavam informações. Quatro deputados levaram computadores portáteis ao plenário, para cruzar informações dos coordenadores. Doente, o deputado Roberto Campos (PDS-RJ), viajou num jatinho acompanhado de um médico e dois enfermeiros para cravar seu voto pelo impeachment.

Na terça-feira, o governo estava em pedaços. Chegou ao plenário com sua tropa de choque capengando. Pela folia promovida com dinheiro público, Lafaiete Coutinho, do Banco do Brasil, e Álvaro Mendonça, da Caixa Econômica, apontaram na reta final sob interdição. Nenhum dos dois podia assinar cheques. Marcilio Marques Moreira, o fiscal do cofre em festa, depois de transferir às pressas 400 bilhões de cruzeiros para o Ministério da Ação Social, trabalhava duro para manter Collor e a si próprio, com sua adesão à tropa oficialmente anunciada pelo deputado Roberto Jefferson. "Ele é membro de carteirinha", disse Jefferson. Foi um esforço vão. E Marcílio, ele outra vez, veio a público criticar a dolarização - um contragolpe nas idéias do economista André Lara Resende, que na semana anterior desfilara por Brasília nos braços da turma de Itamar Franco. Foi um esforço inútil como todas as idéias de Marcilio para reduzir a inflação. Na manhã da decisão, a deputada Roseana Sarney, coordenadora da Comissão Pró-Impeachment, entrou no plenário distribuindo beijos. "É fatura liquidada", dizia, sorridente. De fato, a fatura estava liquidada. Fernando Collor de Mello é página virada da História brasileira. Uma página manchada de crimes que o país e as instituições que o representam souberam se livrar.

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