A questão da sucessão presidencial foi liqüidada em duas horas e quatro reuniões, entre as 3 e as 5 da tarde de segunda-feira, dia 18 de junho de 1973. O futuro presidente da República Federativa do Brasil será o general Ernesto Geisel, 65 anos, gaúcho de Bento Gonçalves, primeiro filho de um imigrante estrangeiro a ocupar a presidência. Geisel foi desde o início do atual governo presidente da Petrobrás. Os primeiros a receber a notícia, na sala de despachos do presidente Medici, foram os ministros de Estado, com exceção dos ministros Júlio Barata, do Trabalho, que está na Suíça, e Mário Gibson Barboza, do Exterior, que está na Colômbia. Foi uma reunião formal e rápida (pouco mais de 20 minutos), a ponto de manter todos os ministros de pé. Medici falou de improviso e ao final cumprimentou um a um os seus colaboradores.

Poucos minutos depois, na mesma sala, entravam os senadores Filinto Müller e Petrônio Portella, presidente e líder do governo no Senado, respectivamente, e os deputados Flávio Marcífio e Geraldo Freire, presidente e líder do governo na Câmara. A eles, Medici deu indicações sobre os prazos e os detalhes técnicos do projeto do colégio eleitoral.

Em seguida, o presidente deixou seu gabinete e atravessou um longo corredor, alcançou a sala de reuniões, onde tomou assento à cabeceira da mesa de jacarandá em torno da qual os ministros se sentam, desta vez substituídos pelos membros da Comissão Executiva Nacional da Arena.

UMA ÚNICA RESISTÊNCIA - E, diante desta significativa platéia, disse Medici: "O candidato em que me detive preenche de modo superabundante os pressupostos, havendo a mais completa segurança de que não permitirá, uma vez investido na presidência da República, sofra qualquer desvio a filosofia econômica, social e política a que se filia a ordem revolucionária. É natural, por isso, que o nome deste candidato encontre a maior receptividade em todos os setores, cabendo afirmar que, a respeito de sua indicação, se registra geral consenso. A resistência encontrada, nas consultas que formulei, a ,tal propósito, partiu do próprio candidato, que só se rendeu ao apelo que lhe dirigi quando este assumiu caráter de indisfarçável injunção, imposta com fundamento no interesse do país. Quero referir-me ao nome, sob todos os títulos ilustre, do general Ernesto Geisel".

Neste instante, alguns dos parlamentares presentes, como se já esperassem por isso, aproveitaram a pausa entre o Ernesto e o Geisel, para inundar o deputado Ernesto Pereira Lopes de abundantes sorrisos. Terminado o discurso, o presidente foi aplaudido. Convocados por um ajudante-de-ordens, chegaram garçons trazendo café e água.

Finalmente, às 5 horas da tarde, entravam na mesma sala os governadores de Estados, aos quais o presidente fez a sua quarta e última comunicação. Dez minutos depois, a estranha liberdade de se poder falar em sucessão presidencial e pronunciar o nome de Ernesto Geisel, o sucessor já previsto e, no entanto, originalmente desconhecido, tomou conta do país.

Enquanto os rádios transmitiam aos quatro ventos o anúncio do presidente Medici, e muitos políticos se apressavam a manifestar o seu apreço e até mesmo a sua alegria, não se poderia dizer que a opinião pública se rejubilasse de pura satisfação. Pelas próprias características da vida que levou o general Ernesto Geisel, um homem traz até nas feições a marca da austeridade e, nos gestos, a da discrição, não chega a ser uma personalidade popular. No entanto, uma forte satisfação se apossou da nação no mesmo momento em que ficou evidente a tranqüilidade da nação.

A MUDANÇA SEM CRISES - Uma marcha à ré no tempo, desde os episódios recentes até os remotos, passa pelas crises que turvaram todas as sucessões presidenciais, até mesmo as ocorridas à sombra da Revolução de 31 de março. Essas crises estão gravadas na lembrança dos brasileiros, hoje apaziguados pelo feliz encaminhamento de uma questão explosiva e que já foi capaz de detonar os momentos mais inquietos da vida política do país. Assim, o país saboreia agora a sensação de que, primeira vez desde 1926, o presidente da República passa a faixa a quem deseja como sucessor e vislumbra como continuador da sua obra.

Na área política, o sabor agradável do momento, que inclusive mantém o tempero da grande quermesse de um novo governo, atrai os mais variados tipos das personagens em busca de informações e de um certo divertimento. Na barraca da esquerda está loteria do Ministério. Quem acertar a da Saúde, Trabalho e Educação ganha um envelope com a fotografia do novo ministro da Fazenda. Na barraca da direita, para aqueles que têm boa pontaria e gostam de jogos perigosos, está o tiro-ao-ato: neste jogo singular, quem acerta na mosca não ganha nada, quem erra paga dobrado.

Longe da curiosidade e das especulações, o general Ernesto Geisel, a partir de agora, deverá começar a preparar-se para assumir a presidência da República.

Desde quinta-feira da semana passada telefone 247-8912, do Rio de Janeiro, não responde. O assinante Ernesto Geisel conseguiu outro número, que não consta do catálogo. Assim, talvez esteja livre de alguns dos ardorosos admiradores conquistados na última semana. Mas, mesmo conseguindo que os aplausos de ocasião não cheguem ao seu apartamento, num edifício velho, cinzento e sem elevadores, do Leblon, nada poderá conter as manifestações dos mais variados tipos de júbilo. Quando isso não podia ser feito em torno de seu nome, grassou pelo país uma epidemia de aplausos das câmaras de vereadores e das assembléias legislativas à Petrobrás. Na verdade, espargiam-se louvores ao templo numa tentativa de agradar o santo. Por isso, na quarta-feira, de sua tribuna no Senado, o líder do MDB, Nelson Carneiro, ironizava: "Nunca se falou tanto em petróleo. Nunca se elogiou tanto a Petrobrás. Tenho visto até gente vestindo ternos cor de petróleo".

A INICIATIVA DA HOMENAGEM - Desde que um político baiano, discursando na cerimônia de posse de um poderoso, ofereceu-lhe "os mais sinceros parabéns ao senhor e a todos os seus dignos sucessores", o aplauso político dificilmente conseguiu ser original. Mesmo assim, a tentativa de aplaudir chega a provocar divergências. Em Bento Gonçalves, município gaúcho que disputa com Caxias do Sul o título de Capital da Uva, o vereador arenista Fortunato Rizzardo, de 24 anos, orgulha-se de ter proposto, em abril, a "criação de uma comissão para a instalação de títulos quando da homenagem de filhos ilustres do nosso município". Diante de tal clarividência do Legislativo, pois, de todos os cinco irmãos da família Geisel, o caçula, Ernesto, foi o único a nascer fora do município de Estrela, o Executivo reage: "Não. Isso não é certo", explica Darci Pozza, o jovem prefeito da cidade. "Não foi idéia do Legislativo. O que o vereador fez foi apenas uma sugestão. Não quero dizer que foi iniciativa minha, mas, em maio, deixamos na Petrobrás um convite ao general. Fizemos isso com antecedência, para que ninguém dissesse que a gente só o convida porque vai ser presidente. Agora, é claro, outros também querem aproveitar a oportunidade. E os vereadores aproveitam a sua."

Jovens como Pozza e Rizzardo, netos de imigrantes, nasceram em Bento Gonçalves quando a cidade já linha ultrapassado os 10 000 habitantes. Para eles, o lugarejo, erguido por descendentes de italianos, é uma lembrança do passado e de uma época de pouco progresso. Talvez por causa disso Pozza seja levado a generalizar sua idéia voraz do aplauso. Para algumas dezenas de velhos conhecedores da região, porém, a lembrança do jovem Ernesto Geisel chega a ser tênue. "Ele é filho do Augusto Geisel. O pai dele chegou da Alemanha no início do século e foi para Nova Teutônia, uma colônia perto daqui de Estrela", lembra Erik Peerson, que aos 80 anos ainda esculpe crucifixos de madeira e fala português com sotaque alemão apesar de ser brasileiro. "Depois ele conseguiu um emprego de professor da comunidade evangélica. Dava aula de alemão sem saber falar português direito. Aquele Augusto era muito engraçado. Foi ele quem me deu a primeira surra. Eu estava fazendo careta. Como era esperto. Quando queria castigar toda a turma, botava os alunos, uns trinta ou quarenta, de joelhos, mandava que cada um segurasse na orelha do outro e puxava a do primeiro. Com um puxão só, castigava todos."

A alguns quarteirões de distância, Henrique Beckman, aos 96 anos, acrescenta: "O Augusto começou trabalhando numa fundição, batendo ferro em bigorna. Depois que foi lecionar conheceu Lídia, minha irmã. Ele tinha então uns 20 anos. Meu pai era o pastor da comunidade. Em 1900, Augusto e Lídia casaram. Em seguida, ele fez um curso e se transformou em professor público."

Alguns anos depois do casamento, com quatro crianças, Amália, Bernardo, Henrique e Orlando, o casal chegou a Bento Gonçalves. Augusto tornara-se titular do cartório de "civile i crimi", como pronuncia o escrivão aposentado Reduvino Bertolini, de 71 anos, filho do dono do outro cartório, que ganhara um concorrente. "A Lídia estava grávida e o marido queria que a criança nascesse em Estrela", recorda. "Quando se aproximou o dia, o velho Augusto mandou buscar a diligência. É diligência mesmo, como no cinema, com quatro rodas e quatro cavalos. Mas a viagem durava de três a dez dias, dependendo da situação da estrada, e, como a diligência demorou, desistiram. E o Ernesto nasceu em Bento Gonçalves."

"O MAIS CALMO DE TODOS" - "Nessa época eu tinha 5 anos. Nós morávamos numa casa comprida. Os Geisel ocupavam a metade e na outra vivíamos eu e a família do Gasparri, meu primo. O Augusto era apolítico e apartidário, como dizia às vezes. Para ele, cada um devia lutar por seu ideal, mas nunca deveria se colocar contra o governo. Trabalhava duro e ajudava a mulher a fazer o pão da casa. Os filhos eram muito comportados e o estudo era uma espécie de religião na casa deles. O Ernesto, como era o menor, ficava um pouco fora do grupo. Era mais reservado. Depois o Augusto foi ser juiz de Paz e quando se aposentou foi para Porto Alegre. Nas férias escolares, o Henrique, o Orlando e o Ernesto apareciam aqui com a roupa da Escola Militar, com a risca vermelha na calça. O velho Augusto ficava orgulhoso. Ele queria que os filhos fossem militares. Sabe? Quem me alistou no Exército foi o Augusto. Só porque eu era vagabundo e não queria nada com nada. Ele tinha horror de vagabundo."

E, exatamente por não gostar de vadios, impedia que seus filhos brincassem fora do pátio da casa. Tendo chegado ao Brasil só, com as malas e os sonhos, Augusto Geisel, como todos os imigrantes de todas as épocas, estava sobretudo empenhado em conquistar para os filhos uma pátria e uma profissão. De casa, fiscalizava "a turma", composta pelos quatro irmãos, por Bertolini e Carlos Dreher, cujo pai tinha uma fábrica de bebidas "de pai para filho desde 1890", e por José Baldi, que, aos 70 anos, como químico aposentado, lembra-se de ter visto Ernesto "de longe, em 1967, quando ele veio aqui para a Festa Nacional do Vinho com o Castello Branco. A gente brincava, mas os guris tinham hora marcada de estudo. Uma de manhã e duas à tarde. O Bernardo era o mais solene e também o mais quieto, mas o Ernesto era o mais calmo".

Educando rigidamente seus filhos, Augusto Geisel cultivava hábitos modestos. "Ele quase não saía de casa. Retraído e econômico, raramente podia ser visto num bar. tomando café", diz Mirsilo Gasparri, de 67 anos, em seu escritório, no Rio. "Parece até que o general Geisel fez voto de pobreza. Nem carro tem. É muito gentil, mas não tem intimidade com os outros moradores", observa um velho condômino e ex-síndico do edifício Parente.

A grande diversão do titular do cartório de registro civil de Bento Gonçalves parece ter sido a filatelia, mas, num tributo ao otimismo, mantinha um bilhete de loteria cativo na barbearia de Giacomo Ferrari, ou Giacomin. "Toda semana ele comprava o bilhete", explica Pedro Koff, de 65 anos, secretário da Associação Comercial. "Não me lembro quando, mas um dia ele desistiu. O Giacomin estava com o número 10 615, se não me engano. Mas o Augusto Geisel não queria mais. Disse que nunca tinha ganho nada e que não comprava mais. O barbeiro levou o papel de volta. Podia ter mandado de volta pelo correio, mas guardou com ele. Depois, voltou ao Geisel. Ele reclamou. Disse que não insistisse. Aí o Giacomin explicou: 'O senhor sempre foi meu freguês. Eu guardei o número. Agora ele é seu. Está premiado com a sorte grande. Já ouvi o resultado'. " Augusto Geisel estava diante de 100 contos de réis. Saíra de seus hábitos e, pela versão de Koff, quase perdera a oportunidade. Mesmo diante da oferta, tentou recusar, pois, afinal de contas, não havia comprado o bilhete. Giacomin insistiu. "Então, ele propôs que cada um ficasse com a metade, mas o barbeiro não quis. Chegaram a um acerto quando o Augusto ofereceu-lhe um empréstimo de 20 contos sem prazo e sem juros para completar o sortimento de sua loja de artigos masculinos. E, sempre que tinha oportunidade, Geisel lembrava: 'Com a loteria do Giacomin é que consegui formar meus filhos'. "

O INCIDENTE COM CAFÉ FILHO - Mas os 100 contos não foram suficientes para formar todos. Assim, os dois mais velhos, Amália e Bernardo, ajudavam. Ela ensinava aos mais moços e ele, estudante na Escola de Química, trabalhava no correio para reforçar o orçamento doméstico. Assim, em maio de 1931, quando faleceu sua esposa Lídia, todos estavam encaminhados e Ernesto, primeiro da turma no Colégio Militar, já tenente, fora nomeado, em março, secretário do Interior do governo do Rio Grande do Norte.

As lembranças deixadas pelo irmão mais moço dos Geisel no Rio Grande do Sul foi ligeira, pois, em 1930, comandando uma bateria do destacamento Miguel Costa, marchou com as tropas que subiam com a Revolução. E em dezembro, chegou a João Pessoa. Nessa época, um pequeno descuido teria sido suficiente para que o jovem tenente, alto e solteiro, conseguisse uma razoável donataria na política atribulada do nordeste. Em Natal, segundo o depoimento de um advogado principiante, suspeito de ligações e ambições subversivas - João Café Filho - Geisel tomou posse numa "situação singular, para vigiar, se supunha, os atos do interventor Aluísio de Moura". Nessa confusa situação política, o agitador acabou preso, envolvido numa confusão típica das épocas revolucionárias. Trinta anos depois, já tendo ocupado a presidência da República, Café Filho depôs: "Fui levado à presença do secretário do Interior. Tentava reagir, protestando contra a acusação falsa e o constrangimento a que me impunham, arbitrariamente, quando Ernesto Geisel me interrompeu:

'Não mandei buscá-lo para o interrogar, mas para pedir desculpas. Apurei que toda a acusação feita contra o senhor é inteiramente improcedente e o governo está no dever de dar-lhe uma reparação, restabelecendo a verdade'. Entregou-me uma nota, perguntando se eu estava de acordo com os seus termos. Era uma retratação humilhante do governo". A nota dizia: "Pelas conclusões finais, ficou constatado que o sr. João Café Filho e outros merecem, mais do que nunca, a inteira confiança deste governo, que conta com seu inteiro apoio. Diante da clareza com que se apresenta agora a situação, o Estado vai, felizmente, começar a entrar na sua verdadeira fase revolucionária, considerada do ponto de vista da responsabilidade e reorganização".

O tenente Geisel deixou Natal em abril e lá, como na maioria dos Estados, a verdadeira fase da Revolução de 1930 demorou a chegar, quando não se perdeu pelo caminho. Era uma época tão movimentada que, nem uma Revolução tinha se consolidado, já começava outra, em 1932, em São Paulo. Nela, o jovem artilheiro combateu, ao lado das forças governistas, de julho a outubro. Pouco antes, no dia 7 de junho, o pitoresco interventor federal no Rio Grande do Sul, José Antônio Flores da Cunha, oscilava entre a adesão aos revoltosos paulistas e a fidelidade a Getúlio Vargas. Assim, procurava esconder armas ao mesmo tempo que enviava telegramas ao presidente, reiterando sua solidariedade ao governo. E, dentro de um clima de mistério, cobiçou a colaboração de dois jovens tenentes do Exército que serviam na cidade de Cachoeira: Henrique e Orlando Geisel. Talvez sem conhecer melhor o velho Augusto Geisel, de quem se dizia amigo, mandou-lhe um emissário, Glicério Alves, acompanhado de um rápido bilhete: "Distinto amigo: autorizei o ilustre doutor Glicério Alves a entender-se convosco sobre assunto de relevância. Nessas condições, peço-vos ouvirdes o meu emissário com a merecida atenção. Se, entretanto, não for possível atendê-lo, espero do vosso cavalheirismo absoluta reserva no assunto que vai ser tratado".

Alves foi a Cachoeira, falou com o velho Geisel e dele ouviu uma lacônica explicação de que, apesar de pai, respeitava o temperamento dos filhos, muito reservados, que nunca conversavam de política. Quanto ao bilhete, como prova de sua reserva, pediu ao portador que o levasse de volta. Quis o destino, porém, que Glicério Alves e Flores da Cunha acabassem brigando. Quando o fiel emissário tornou-se um cruel inconfidente, o documento foi transformado na prova de que Flores conspirara e, indiretamente, de que os Geisel não haviam sido aliciados.

Enquanto isso, de julho a outubro, o artilheiro Ernesto lutou nas forças governistas. Em dezembro, voltou ao comando de uma unidade do nordeste, a 7ª Bateria de Artilharia de Dorso, acumulando essa função com a de secretário de Finanças e Obras Públicas do interventor Gratuliano de Brito. Dividia seu tempo entre o palácio, onde morava, pois Brito também era solteiro, e a unidade, acantonada nos engenhos Tibiry e Massangana, este, pertencente ao famoso coronel Cazuza Trombone, personagem do romancista José Lins do Rego em "Fogo Morto" e "Usina".

"A meu ver, durante os dois anos em que foi secretário das Finanças, adquiriu a primeira visão administrativa de um governo", diz, em sua casa, o marechal Juarez Távora, que na época era chamado de "Vice-Rei do Norte". De fato, nesses dois anos Ernesto Geisel parece ter aprendido bastante. Mas, não se sabe como, quando chegou a João Pessoa, onde viveria como dublê de secretário e comandante de bateria, ele já tinha tomado decisões necessárias para contornar situações difíceis.

Ao chegar, foi saudado pelo jornal "A União" como "um dos mais brilhantes elementos do Exército", jargão que, infelizmente, está na gaveta de todos os redatores interessados em enfeitar as mochilas de oficiais eventualmente poderosos. Dias depois de empossado, Geisel chamou seu chefe de gabinete, José Fernandes Júnior, que hoje é assessor jurídico do Banco do Brasil, e, segundo seu depoimento, "me pediu a indicação de uma boa alfaiataria, para fazer roupas civis, dizendo que nunca iria fardado à Secretaria". E acrescenta João dos Santos Coelho Filho, de 64 anos, então chefe dos Serviços do Tesouro: "Mesmo quando ia ao quartel da Bateria, mudava a roupa e tirava as botas de soldado antes de entrar na sua sala. Não usou farda nem para tomar posse. Durante sua gestão, lá não foi ordenança ou agente de polícia".

O tenente, que já ganhara o apelido de toda sua vida - "Alemão" -, usava freqüentemente ternos de linho branco, "ou, no máximo cinza", corrige Fernandes. Rapidamente, estabeleceu um regime de trabalho pelo qual, conforme comunicou aos jornais, daria audiências às segundas, quartas, quintas e sábados, das 8h30 às 10h30, e, duas semanas depois da posse, marcou as edições do Diário Oficial com o resultado de uma relativa fúria legiferante regulando as zonas de pastagens, para que os bois não destruíssem as plantações de algodão, ofereceu um prêmio de 50% a quem pagasse impostos atrasados e abriu um crédito de 80 contos para a integralização do capital do Banco do Estado da Paraíba.

A HORA DE TIRAR O TERNO - Contudo, pelo registro da imprensa, os principais resultados do trabalho do secretário Geisel parecem ter sido a estabilização das finanças do Estado, que não tinha crédito em João Pessoa nem para comprar papel, e a liberação, pelo governo federal, dos recursos a que o Estado tinha direito pelo tributo de 2% sobre as exportações, retidos de 1908 a 1928. Depois de uma longa permanência no Rio e certamente ajudado pelo ministro da Viação de Getúlio Vargas, o paraibano José Américo de Almeida, Geisel voltou e, segundo "A União", "depois de prestar assinalados serviços ao nosso Estado, na metrópole do país, onde desenvolveu proveitosa atividade em prol dos interesses da Paraíba". E. do Rio, no dia 24 de julho de 1933, esclarecia-se a natureza dos serviços com um telegrama de Geisel ao interventor: "Recebi ontem a importância correspondente à taxa 2% ouro. Devido às últimas baixas do dólar, o mil-réis ouro sofreu depreciação, resultando em prejuízo do Estado, que, após a conversão, recebeu 5.932:227$400 réis papel. Depositei essa importância no Banco Alemão, em conta corrente movimentada por mim". Logo depois. chegava outro telegrama, do ministro José Américo: "O recebimento da taxa se deve sobretudo ao grande esforço despendido pelo tenente Geisel". Ao tenente, esse trabalho valeu um jantar no Parahyba Hotel, onde um grupo de amigos homenageou-o, segundo "A União" com o seguinte cardápio: creme de aspargos, filé de peixe à moleira, escalope à primavera, peru à brasileira, torta de amêndoas, frutas e café. Vinhos: Martini seco, Mosela RG, Champagne PA e licores. Charutos". À Paraíba, a liberação dos recursos permitiu o andamento das obras do porto de Cabedelo, por onde se escoam seus principais produtos.

Se o tenente Geisel tivesse interesses políticos no nordeste, teria continuado na Secretaria depois de 1935, mas, no jogo entre os ternos de linho e a farda, preferia a Bateria. Por isso, foi transferido para o Rio, onde serviu no Grupo Escola de Artilharia. Deixou em João Pessoa um velho Buick, um belo cavalo (Ambolê, filho de Galatéia, mãe do patriótico Mossoró), 1 500 contos de salário, uma fábrica de cimento (a antiga Companhia de Cimento Portela, atual Companhia Paraíba de Cimento Portland), o cozinheiro cabo Veludo, o chofer Pretinho e um grupo de colaboradores que ficou livre do dever de cortesia de aceitar um pouco do chimarrão de sua cuia.

ASPARGOS, PEIXE, PERU... - Lá, começou a exercitar um ardil já levemente conhecido. Demonstrando convicção e falando em tom de rigorosa seriedade, põe-se em defesa de uma tese absurda e chama o interlocutor para uma discussão. "Ele era muito difícil de aceitar despesas", diz João dos Santos Coelho. "Até com os secretários ele discutia longamente", acrescenta José Fernandes, lembrando: "Ele ia fazendo perguntas e argumentando em todos os itens, como se cada um deles fosse excessivo. Se o outro secretário não estava bem informado ou se não tinha convicção, saía só com a metade da verba".

Como no Rio Grande do Sul, deixou no nordeste a lembrança da reserva: "Ele era de poucas relações, muito introspectivo. Não ia a festas e não gostava de dançar", lembra Fernandes. "Ernesto era de pouca conversa. Ele nunca foi rapaz. Vivia estudando. As vezes jogava xadrez. Tinha muito sentido de responsabilidade", depõe o general Aldenor Valente Quinderé, seu subordinado em 1933 na 7ª Bateria.

Promovido a capitão em setembro de 1935, está, no dia 27 de novembro, entre os oficiais que, com a ajuda do então coronel Eduardo Gomes, debelaram a tentativa de levante da Escola de Aviação. A alguns quilômetros, Agildo Barata, um tenente ágil que fora de sua turma, comandava a insurreição no quartel da praia Vermelha, organizada pela Aliança Nacional Libertadora e pelo Partido Comunista. Já em João Pessoa, Geisel tivera suas primeiras experiências com a ANL, que tentara levantar o 22º Batalhão de Caçadores. Nessa ocasião, mudou o local de acampamento de sua bateria, para não vê-la envolvida.

Como capitão, Geisel casou-se com a prima Lucy Markus, filha de um descendente de alemães de Estrela e de Joana Beckman, irmã de sua mãe, Lídia. Graças à sua reserva, esculpiu um currículo exclusivamente militar. Do Grupo Escola de Artilharia passou para a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, onde novamente conseguiu o primeiro lugar da turma. Em 1942, como o Exército precisasse formar quadros para a guerra, alcançou seu irmão Orlando, que saíra duas turmas antes da sua na Academia Militar, no curso de estado-maior. Lá, os dois irmãos Geisel tiveram que disputar o único primeiro lugar, que ficou com Orlando. Ernesto foi o segundo colocado. Em seguida, foi para o Quartel General da guarnição de Porto Alegre, de onde saiu em 1944, contrariado por não ter viajado com a Força Expedicionária Brasileira, para um curso de aperfeiçoamento do Exército americano em Fort Leavenworth, no Kansas. Aos poucos, nos diversos cursos, o major Ernesto Geisel, um oficial corpulento de cabelos curtos e óculos redondos, foi aproximando-se de colegas que viriam a formar um núcleo ainda pouco pesquisado e mal definido - nos anos 50 seria confundido com a Cruzada Democrática, uma organização semi-política.

Mais tarde, o mesmo grupo, com o nome de "Sorbonne", deixaria sua marca na história dos anos 60. O Estado Novo tinha formado uma elite militar indigesta para seus cenários políticos, bem como para a maioria de seus figurantes. Contudo, se é difícil se estabelecer uma unidade de ação permanente entre esses oficiais, mais árdua é a tarefa de localizar o major ou coronel Geisel em ações políticas. "Ele sempre foi preservado. Em primeiro lugar, era inabordável em questões alheias às funções militares. Além disso, era um oficial respeitado pela tropa. E, nesses casos, se ele se envolve em política, perde o respeito. Por isso, durante muitos anos nós soubemos que poderíamos contar com Geisel. O importante era impedir que o prejudicassem", revela um velho colega da Cruzada Democrática.

Antes mesmo dos "cruzados", que se opunham aos hereges liderados pelo general Estillac Leal durante o governo constitucional de Vargas, o essencial era derrubar o Estado Novo. Nessa tarefa, em novembro de 1945, tiveram um destacado papel as tropas sob o comando do general Alcio Souto, no Rio de Janeiro. Mais tarde, ele seria o chefe da Casa Militar do presidente Eurico Gaspar Dutra. E, o chefe de seu estado maior no dia da deposição do ditador, Ernesto Geisel, tinha sua primeira função junto à Presidência da República. Entrava no Palácio do Catete como um dos chefes de Seção do Conselho de Segurança Nacional, de onde surgiu em 1948, como adido militar, com destino a Montevidéu.

De volta ao Brasil, é um dos funda dores da Escola Superior de Guerra cuja doutrina haveria de prestar uma colaboração tão grande para a mudança das instituições políticas brasileiras quanto os templos positivistas do fim do século passado para a queda da monarquia.

"Acho que comigo trabalhou o melhor Corpo Permanente que a Escola já teve", diz Juarez Távora, seu antigo comandante. "Veja só o nível: Ernesto Geisel, Carlos Muricy, Rodrigo Octávio, Golbery do Couto e Silva, Bizarria Mamede e o Landri Salles Gonçalves, entre outros. Foi ali que eu comecei a ver de perto a inteligência do Ernesto. Quando eu chegava de manhã na Escola e me contavam que se tinha trabalhado até tarde, eu já sabia. Eram Golbery e o Ernesto de um lado e o Rodrigo Octávio de outro que discutiam até duas, três da manhã. Uma discussão sadia, evidentemente."

"O PRESIDENTE DA EMPRESA" - Apesar dessa grande atividade na ESG, Geisel passou virtualmente despercebido ao mais profundo pesquisador de seu pensamento e de suas atividades, o professor americano Alfred Stepan, autor do livro "Military in Politics, Changing Patterns in Brazil". Nele, Geisel é citado formalmente, enquanto outros oficiais ganham inúmeras referências. Vivendo numa espécie de perseguição da impessoalidade, Ernesto Geisel talvez tenha sido um dos oficiais do Exército que mais próximo esteve de resumir toda sua biografia conhecida ao lacônico e numerológico verbete do almanaque. Na Petrobrás, o noticiário distribuído à imprensa durante 'os últimos quatro anos, raramente trazia seu nome. Mencionava apenas "o residente da empresa". E, numa cidade de demonstrações de poder e importância como o Rio, pode-se dizer que ter chegado à posição de virtual presidente a República sem precisar tirar o número do telefone do catálogo, é algo próximo do sonho de existir sem ser conhecido. (Seu irmão Orlando também tem o número no catálogo e, apesar de ser ministro do Exército, está registrado como coronel.)

Em 1954, com o suicídio de Getúlio Vargas e a posse de Café Filho, o coronel Ernesto Geisel, comandante da Artilharia de Costa, viu a saída dos postos-chaves do Exército de alguns dos condottieri que haviam sobrevivido ao Estado Novo e, em fevereiro de 1955, voltava ao Palácio do Catete, agora como subchefe da Casa Militar, para onde fora o general Juarez Távora. Mesmo tendo entrado duas vezes no casarão de três andares e sete águias, Geisel não demorou na função. Saiu em maio.

Quando a unidade militar conquistada para derrubar Getúlio foi fracionada, com o surgimento da candidatura Juarez Távora, o ex-subchefe da Casa Militar voltava a ocupar uma função civil: era o superintendente da Refinaria de Cubatão, da Petrobrás, lugar atualmente ocupado por um dos filhos de seu irmão Bernardo, que preside a Aços Finos Piratini, depois de ter sido, no último governo Meneghetti (1962-66), secretário de Minas e Energia. Um ano depois, quando já tinha voltado ao Exército e comandava uma guarnição em Quitaúna, SP, sofreu a grande dor de sua vida que, segundo o depoimento de alguns colegas, embranqueceu-lhe a cabeça em poucos meses. Num fim de tarde, quando atravessava uma linha férrea com sua bicicleta, o filho Orlando foi colhido por um trem, morrendo. Seria o único Geisel da nova geração a seguir a carreira militar. (O general tem atualmente uma filha, Amália Lucy, apelidada de Mosa, que leciona no Colégio Pedro 11 e secretaria a Seção do Patrimônio do Conselho Federal de Cultura.)

Saindo de Quitaúna, Geisel chegou, em abril de 1957, à Seção de Informações do Estado-Maior do Exército, função que acumulou, durante quase um ano, com a de representante do então Ministério da Guerra no Conselho Nacional de Petróleo. Lá, foi o relator do processo que deveria dispor sobre o destino da futura fábrica de borracha sintética.

Tratava-se de resolver se o empreendimento deveria ser entregue a alguma das duas empresas privadas interessadas ou à Petrobrás. Em seu parecer, o coronel Geisel reconhecia que as propostas das empresas de capital privado eram tecnicamente adequadas, eram "inconvenientes quanto à estrutura do respectivo capital e não oferecem vantagens em relação ao dispêndio de divisas.

Em seguida apontava que a Petrobrás, sem interromper seu programa, poderia explorar a fábrica. Finalmente, depois de relacionar dados técnicos que evidenciavam as vantagens potenciais da empresa estatal, argumentava: "O desmedido lucro, assim proporcionado pela indústria, contraindica a atribuição do empreendimento ao capital privado, parecendo mais razoável utilizar esse lucro como recurso complementar no desenvolvimento futuro da indústria nacional de petróleo". Por sete votos contra um, estava criada a Fabor, Fábrica de Borracha Sintética, da Petrobrás. O presidente do CNP, o general Mário Poppe de Figueiredo, rompendo o hábito de só votar em casos de empate, fez questão de endossar o relatório de Geisel.

O NOME NOS DEBATES - Ainda no Conselho, o coronel deu um importante parecer na questão do aumento da capacidade de refino de Capuava, um dos poucos complexos petrolíferos do país explorados por grupos particulares. Geisel concedeu o aumento, desde que o produto beneficiado fosse entregue à Petrobrás, ficando a refinaria com a vantagem adquirida pela redução dos custos resultantes do aumento de sua capacidade. Recentemente, como a Petrobrás estava com capacidade ociosa, o aumento, concedido a título precário, foi suspenso. Essas posições fizeram com que, pela primeira vez, seu nome começasse a ser mencionado em debates parlamentares.

Pouco depois da posse de Jânio Quadros na Presidência da República, quando Geisel comandava a guarnição militar do Planalto, foi designado para uma função transitória relacionada com política petrolífera. Dias depois, brandindo um editorial do "Correio da Manhã", o senador Lima Teixeira repetia as palavras do jornal: "Porque foi nomeado um coronel? E por que precisamente o coronel Ernesto Geisel, tido e havido como chefe do Serviço Secreto do Exército, eminência parda da política petrolífera brasileira? Por quê? É preciso, de uma vez por todas - e esta é a oportunidade - esclarecer o papel do coronel Geisel na política de bastidores do petróleo nacional. E nós cobramos o esclarecimento do presidente Jânio Quadros".

Infelizmente, a oportunidade passou, mas os quatro anos de gestão do general Geisel na Petrobrás parecem ter sido suficientes para provar que as eminências pardas e os bastidores das preocupações do senador não estavam exatamente na empresa estatal. E, algumas semanas depois, havia grande preocupação em torno da necessidade de um esclarecimento de Jânio Quadros. A questão a clarificar, porém, não era a atuação de Geisel na política petrolífera, e sim a renúncia do presidente. No dia 25 de agosto de 1961, nem mesmo o mais previdente e imaginativo dos oficiais de Estado-Maior poderia supor o que acontecia no Alvorada. Passada a tormenta da crise, existem hoje algumas pessoas convencidas de que Jânio não renunciaria se alguém o trancasse numa sala ou também se, em vez de nomear o general Pedro Geraldo de Oliveira para a chefia de sua Casa Militar, tivesse indicado Geisel, que promoveu a general classificando-o de "o melhor oficial do nosso Exército".

A verdade é que a crise escapuliu de todas as mãos, menos daquelas, mais habilidosas e educadas na cautela, filiadas ao Partido Social Democrático. Os três ministros militares, general Odílio Denys, brigadeiro Gabriel Grum Moss e almirante Sílvio Heck, divulgaram um manifesto recusando-se a empossar o vice-presidente João Goulart, que viajava pela China. Numa descrição simplista, a decisão dos ministros não foi aceita pelos políticos e claramente rejeitada pelo governador Leonel Brizolla, do Rio Grande do Sul, cunhado de Jango. Em poucos dias, formou-se uma cadeia de emissoras, intitulada Rede da Legalidade. Na essência, lutava com palavras pela defesa da Constituição, que, em 1964. haveria de ser atropelada.

A CRISE DO PARLAMENTARISMO - O general Geisel, transformado em chefe da Casa Militar do presidente interino, o deputado Paschoal Ranieri Mazzilli, não tinha a menor simpatia por Goulart e parece indubitável que se opunha abertamente à sua posse. Contudo, o dispositivo dos ministros militares estava rachado. No Boletim Reservado n.º 1 000, o comandante do 111 Exército, general Machado , comunicava a Brasília que não aceitava ordens que considerasse desprovidas de base legal.

Nesse sentido, parece bastante razoável a explicação oferecida por um oficial general ao professor Stepan: "Os militares ativistas são sempre uma minoria. Um movimento para derrubar um presidente precisa da opinião pública para convencer os próprios militares. Isto aconteceu em 1945, em 54 e em 64. Em 1961, porém, os chefes militares agiram contra a opinião pública. Por isso, tiveram que recuar".

A tarefa de recuar sem desmoralizar as Forças Armadas, impedindo que elas aprofundassem a divisão surgida, coube ao general Ernesto Geisel. Há alguns anos, o então deputado Ernani do Amaral Peixoto recordava que, como presidente do PSD, negociara longamente com o chefe da Casa Militar a conciliação através da aprovação do regime parlamentarista. "Eu estava conversando no gabinete com o Mazzilli e o general, quando entraram os três ministros. Geisel lhes teria dito que, sem poder manter a palavra de que Goulart seria empossado, no regime parlamentarista, pediria afastamento do cargo. Então, os quatro reuniram-se numa sala contígua e, na volta, o compromisso, que havia sido acertado anteriormente com os presidentes de partidos políticos, seria mantido". Mais tarde, Amaral foi procurá-lo para cumprimentá-lo "pela extrema correção com que conduzira os entendimentos".

A pouca simpatia de Geisel por Goulart nunca deixou de ser clara. Assim mesmo tendo impedido - exclusivamente pela palavra empenhada e pela inocuidade do gesto - que um grupo de oficiais sabotasse o pouso do avião do vice-presidente, no dia 7 de setembro de 1961, enquanto a Rede da Legalidade tomava posse, Geisel demitia-se e ia para o "corredor", designação utilizada para definir o oficial deixado sem função.

Finalmente, acabou nomeado para o comando da Artilharia Divisionária de Curitiba. Estava nesse posto quando, no auge das pressões para o fim do parlamentarismo, no dia 13 de setembro de 1962, o general Jair Dantas Ribeiro, comandante do III Exército, enviou um telegrama ostensivo ao ministro da Guerra informando que "encontro-me sem condições para assumir, com segurança e êxito, a responsabilidade do cumprimento da missão, se o povo se insurgir contra o fato de o Congresso recusar a convocação de um plebiscito para antes, ou, no máximo, simultaneamente às eleições de outubro próximo". Como subordinado de Ribeiro, Geisel telegrafou-lhe, reservadamente, informando-o de que, na sua jurisdição, tinha condições de cumprir sua missão com segurança, em qualquer caso. Noticiou-se na imprensa que seu telegrama fora rude, teve o cuidado de desmentir essa informação, mas nunca revelou seu texto, cujo original, ao que se sabe, foi consumido num incinerador depois de ter atingido o período rotineiro de vida no arquivo.

O telegrama, porém, custou-lhe o comando: ele foi transferido para uma função burocrática no Ministério do Exército.

Mesmo envolvido em tantos acontecimentos políticos, Geisel limitava-se a, quando necessário, tangenciar as crises. Depois delas, sempre voltava à caserna como retornou da Paraíba e nisso, depois de 35 anos de exercícios e de disciplina, moldou-se seu prestígio junto à tropa.

Não se pode dizer que tenha sido um "troupier", nem um oficial capaz de ser tragado pelos debates de intelectuais e políticos. Um velho costume, de falar, às vezes, algumas oitavas acima do tom normal, tornou-o relativamente temido. Essa circunstância, aliada à distância em que mantém interlocutores que não conhece ou conhece mal, ou ainda, conhece bem e não aprecia, edificou a suposição de que seja irascível. "No início, é uma geleira. Depois, torna-se afável. Mas o que ele é, mesmo, é calmo. Naquela confusão toda de 1961 nunca enervou-se reconhece uma secretária do gabinete militar da época. Por outro lado, inúmeras pessoas asseguram que nas conversas com seu irmão Orlando, freqüentemente exalta-se. "Mas é exatamente porque os dois se conhecem e se entendem muito bem. Ele primeiro levanta. Depois, fica vermelho."

Em 1964, devido à mitologia que cerca a crônica oral do temperamento dos generais de prestígio, quase houve uma grave colisão de mitos. O general Humberto de Alencar Castello Branco, escolhido para a presidência, queria convidar o general Ernesto Geisel para a chefia de sua Casa Militar, mas vacilava, porque ele seria muito fechado. Enquanto isso, Geisel, depois de convidado, teria temido não se entender bem com Castello, que seria muito fechado. Quando o governo terminou, eram amigos pessoais e não se pode dizer que o general tenha sido apenas um fiel cumpridor de ordens.

Há inúmeros episódios em que influiu decisivamente e a intervenção federal em Goiás, cortando o mandato do governador Mauro Borges, foi sem dúvida alguma um deles. Na discussão aberta no Ministério para resolver o destino que seria dado ao projeto de instalação de uma estação de satélites de comunicações, sua atuação, ao lado de técnicos do Contel, derrotou os ministros que pretendiam entregar a exploração das linhas do satélite à ITT. Dessa decisão, nasceu, como empresa viável, deixando de ser o que se chamava de "um conjunto de salas alugadas num prédio da avenida Presidente Vargas", a Embratel.

SEM CAMISA, NA PRAIA - Mas, se em alguns episódios foi voto vencedor, em outros, saiu vencido. E na reunião que decidiu a desencampação das refinarias particulares, teria sido o único voto contrário. Essa informação é impossível de ser confirmada pois as reuniões do Conselho de Segurança Nacional são altamente secretas; contudo, se o julgamento dos indícios pode levar a alguma conclusão, ela parece ser verdadeira.

Houve também momentos em que desempenhou missões que poderiam vir a ser consideradas impossíveis à primeira vista. Conta o deputado Joaquim Coutinho, da Arena pernambucana: "Eu só o vi uma vez. Eu estava na chefia da Casa Civil do governo de Pernambuco e ele foi lá, enviado pelo presidente Castello Branco para investigar as denúncias de torturas contra presos políticos. Fez questão de conversar a sós com os presos. Tenho a impressão de que foram tomadas providências". A acreditar-se em fontes suspeitas por terem o vício da facção, ainda que exercida contra o governo brasileiro, as providências foram tomadas, e isso é reconhecido até mesmo em publicações de radicais foragidos e exilados que, a partir das próximas semanas, haverão de combatê-lo da mesma forma como combatem o atual governo.

No entanto, qualquer tentativa de compreensão rigorosa do general Ernesto Geisel esbarra na discrição de seus hábitos. É capaz de praticar ostensivamente gestos de simplicidade que chegam a intimidar algumas pessoas. Descalço, segurando uma camisa e vestindo um calção azul, caminha cerca de uma hora pela praia do Leblon. Não cai na água, conversa com velhos amigos, como o general Landri Salles e reencontra colegas de trabalho, como o ex-ministro da justiça, Carlos Medeiros Silva. ("O que estariam conversando durante uma caminhada pela praia do Leblon o general Ernesto Geisel e o ministro Medeiros?", perguntava, há quase dois anos, o colunista Ibrahim Sued.) "Ele não é de falar muito. Só pergunta pelo trabalho da gente. Já ouvi falar que ele vai ser presidente da República. O que acho? Não sei. É um homem muito bom e simpático", informa um dos banhistas do Leblon.

No edifício Parente, onde foi síndico há muitos anos, vota com a maioria. Quando a filha do morador do primeiro andar queria transgredir o regulamento para continuar com um cachorrinho, foi consultado e disse que se todos estivessem de acordo, ele não tinha nada a opor. Da mesma forma, quando a construtora Gomes de Almeida e Fernandes procurou o condomínio para oferecer um preço pelo prédio, segundo informa um dos moradores, repetiu a sua posição.

Essas características pessoais, capazes de revelar uma pessoa calma, bastante diferente do típico e enervante vizinho criador de casos, não são, porém, suficientes para permitir maiores sondagens em torno do que fará ou deixará de fazer na presidência da República. Da mesma forma, o fato de ter ido inúmeras vezes a Porto Alegre visitar a irmã mais velha, Amália (que em 1971 fraturou o ilíaco direito), em aviões de carreira, recusando-se a usar o jatinho da Petrobrás, é um indício de que, muito além da honestidade pessoal, cultiva também rigoroso desprezo pelos penduricalhos que o poder patrocina.

Olhado a partir de suas relações com o movimento ectoplásmico conhecido como "linha dura", que afligiu o governo Castello, pode ser confundido, equivocadamente, com um liberal. Visto através de uma pesquisa de seus votos no Superior Tribunal Militar onde permaneceu até o fim do governo Costa e Silva, pode ser entendido como um duro. Por muitas vezes preferiu votar em separado, negando recursos que a maioria dos demais ministros havia acolhido. Assim, dois elementos acessórios, isolados, levam cada um a uma conclusão límpida. Juntos, não levam a lugar algum.

É um velho hábito seu evitar trabalhar com grandes equipes de assessores diretos. Cerca-se de poucos colaboradores que, contudo, são instruídos para trabalhar apenas com ele, sem a prerrogativa de reabrir questões fechadas ou de rever decisões tomadas por órgãos da administração. Graças a esse princípio, que é uma resultante de sua formação como oficial de estado-maior, suas assessorias tanto no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Castello, de onde saíram centenas de cassações, quanto na Petrobrás, de onde poderiam ter jorrado belíssimas informações cobertas de dividendos, sempre foram silenciosas.

A PRECIPITAÇÃO DAS LISTAS - Reduzindo-se todas as dúvidas à sua expressão mais simples, pode-se acreditar que o general Ernesto Geisel não seja uma pessoa interessada em cultivar um grande e eufórico círculo de relações pessoais. Sua esposa,dona Lucy, limita-se a trabalhar em benefício de uma associação de crianças excepcionais e de sua atividade social sabe-se apenas que, há mais de dez anos, uma vez por semana reúne-se com um grupo de esposas de militares, hoje, quase todos da reserva, para um chá. Exatamente por isso, de cada dez pessoas capazes de ser atendidas por ele pelo telefone, uma pelo menos pode acreditar ou deixar-se levar a acreditar que está destinada a importantes funções no seu governo. Como as informações não vazam, as listas proliferam com evidentes equívocos. Em algumas, mais da metade dos colaboradores podem ser encontrados nas fotografias oficiais do governo Castello Branco. Noutras, a Petrobrás muda-se para Brasília.

Todas, porém, resultam de uma pressa exclusiva dos curiosos, pois, com quase um ano de distância entre a indicação e a posse, o novo presidente deve estar mais uma vez seguro de sua calma. Pode-se acreditar apenas que venha a ser formada uma equipe minúscula de colaboradores pessoais mas, desses, como ocorreu nos últimos quatro anos na Petrobrás, dificilmente sairá o nome do próprio presidente.

Além dessas indagações nominais, existem as dúvidas ao portador, de caráter geral, todas relacionadas com o futuro político do país. Nelas, as previsões, como uma bola de tênis, saltam de um lado para o outro. Se o general é um liberal, então, anda com a chave da reabertura no bolso. Mas. se o general é um duro, traz o cadeado. E todos estão dispostos a provar tanto uma coisa quanto outra.

De certa maneira o mais acertado, e também o mais prudente, seria começar quaisquer previsões a partir de suas evidências indiscutíveis: o general Ernesto Geisel é um militar disposto a exercer toda a autoridade que um cargo lhe confere. Durante o governo Castello, como secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, solicitava informações a inúmeras repartições públicas que, baseadas em regulamentos, negavam-nas. Contudo, como ao chefe da Casa Militar nada se deve negar, as informações eram oferecidas, verbalmente, por intermediários. Com outras repartições, o sistema funcionava. Mas com o general Geisel não funcionou. Pediu por ofício e respondeu por ofício, insistindo. As informações, dizia, não podiam ser negadas ao Conselho de Segurança Nacional. A questão foi conduzida a um árbitro e Geisel venceu. Não queria nada por baixo do pano.

Durante o governo Costa e Silva, cuja candidatura combateu junto a Castello Branco, seu nome nunca esteve relacionado com qualquer opinião política. E, mesmo nos dias em que os estudantes, em passeatas, pichavam todas as paredes externas do simpático edifício do Superior Tribunal Militar, no Rio, quando muitos ministros davam suas opiniões, Geisel estava desaparecido. Naquela época ele representava um general-de-exército que ia para o STM logo depois da promoção, percorrendo ao contrário as escadarias do tribunal, pois, normalmente os generais são indicados quando, próximos da compulsória, são transferidos para uma função onde a aposentadoria só chega aos 70 anos.

Agora, serão necessários alguns pequenos exemplos para que uma multidão de curiosos se convença de que o candidato tudo fará para que não surja sequer uma sombra de governo paralelo. Por enquanto, o general ainda circula relativamente anônimo. No dia 11, quando foi almoçar, com um grupo de colaboradores da Petrobrás na Cantina Roma, um dos melhores restaurantes italianos de São Paulo, não foi imediatamente reconhecido, mas bastaram alguns minutos para que os garçons, orgulhos, anunciassem aos outros fregueses que, numa pequena sala, estava o próximo presidente da República. Do que falou, não se sabe. E nisso aliaram-se a discrição de seus convidados com a do próprio maitre Casalena: "Aqui somos surdos e mudos. Não sabemos de nada". Lá, soube-se apenas que o presidente da Petrobrás comeu quatro camarões, fatias de salmão e um filé grelhado com palmito e batatas. Confirmando a indiscrição de que é um apreciador de bons vinhos, tomou um Valpolicella Bolla, da safra de 1969. Aliás, segundo um amigo, esta é a única bebida alcoólica que ele admite.

"EIS-ME NESSAS FUNÇÕES..." - Ainda restarão ao general Geisel algumas semanas para novas visitas às unidades da Petrobrás em todos os Estados. Contudo, como ocorreu com o telefone, aos poucos o cerco irá se fechando. Deverá deixar o apartamento do edifício Parente, onde se habituou a viver entre duas salas e três quartos, pelos grandes e calorentos espaços do Palácio da Alvorada. A roda de chá de sua esposa estará desfalcada. A filha, Amália Lucy, deverá deixar o emprego onde visivelmente aprecia o trabalho, a menos que venha a permanecer no Rio.

Contudo, o curto discurso que o tenente Ernesto Geisel, um gaúcho louro, alto, de terno branco, fez ao assumir a Secretaria da Fazenda da Paraíba, no tumultuado ano de 1932, talvez seja, de todos, um dos melhores indicadores da visão que ele tem do novo emprego que o Estado obriga-o, a cumprir:

"Exmo. sr. interventor do Estado:

Convidado para o desempenho de cargo de secretário da Fazenda, Agricultura e Obras Públicas do Estado da Paraíba, procurei eximir-me o mais que pude a tão altas responsabilidades. Quis o destino, porém, por circunstâncias superiores, que, por fim, eu não recusasse a honra do convite. Eis-me investido nessas funções que dizem de perto com os problemas vitaes da Paraíba. Nada me é permitido prometer, à míngua de capacidade para o desempenho delas. Entretanto, asseguro aos paraibanos que tudo que couber em mim de dedicação. esforço e tenacidade, darei à incumbência do exercício do cargo que acabo de assumir. O equilíbrio das finanças, o soerguimento econômico desta unidade federativa, que já conquistou um conceito elevado no pais, serão objeto de desvelados cuidados com que procurarei manter as vossas tradições de honestidade e de trabalho e a confiança em mim depositada pelo governo".