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A questão da
sucessão presidencial foi liqüidada em duas horas e quatro
reuniões, entre as 3 e as 5 da tarde de segunda-feira, dia 18 de
junho de 1973. O futuro presidente da República Federativa do Brasil
será o general Ernesto Geisel, 65 anos, gaúcho de Bento
Gonçalves, primeiro filho de um imigrante estrangeiro a ocupar
a presidência. Geisel foi desde o início do atual governo
presidente da Petrobrás. Os primeiros a receber a notícia,
na sala de despachos do presidente Medici, foram os ministros de Estado,
com exceção dos ministros Júlio Barata, do Trabalho,
que está na Suíça, e Mário Gibson Barboza,
do Exterior, que está na Colômbia. Foi uma reunião
formal e rápida (pouco mais de 20 minutos), a ponto de manter todos
os ministros de pé. Medici falou de improviso e ao final cumprimentou
um a um os seus colaboradores.
Poucos minutos depois,
na mesma sala, entravam os senadores Filinto Müller e Petrônio
Portella, presidente e líder do governo no Senado, respectivamente,
e os deputados Flávio Marcífio e Geraldo Freire, presidente
e líder do governo na Câmara. A eles, Medici deu indicações
sobre os prazos e os detalhes técnicos do projeto do colégio
eleitoral.
Em seguida, o presidente
deixou seu gabinete e atravessou um longo corredor, alcançou a
sala de reuniões, onde tomou assento à cabeceira da mesa
de jacarandá em torno da qual os ministros se sentam, desta vez
substituídos pelos membros da Comissão Executiva Nacional
da Arena.
UMA ÚNICA
RESISTÊNCIA - E, diante desta significativa platéia,
disse Medici: "O candidato em que me detive preenche de modo superabundante
os pressupostos, havendo a mais completa segurança de que não
permitirá, uma vez investido na presidência da República,
sofra qualquer desvio a filosofia econômica, social e política
a que se filia a ordem revolucionária. É natural, por isso,
que o nome deste candidato encontre a maior receptividade em todos os
setores, cabendo afirmar que, a respeito de sua indicação,
se registra geral consenso. A resistência encontrada, nas consultas
que formulei, a ,tal propósito, partiu do próprio candidato,
que só se rendeu ao apelo que lhe dirigi quando este assumiu caráter
de indisfarçável injunção, imposta com fundamento
no interesse do país. Quero referir-me ao nome, sob todos os títulos
ilustre, do general Ernesto Geisel".
Neste instante, alguns
dos parlamentares presentes, como se já esperassem por isso, aproveitaram
a pausa entre o Ernesto e o Geisel, para inundar o deputado Ernesto Pereira
Lopes de abundantes sorrisos. Terminado o discurso, o presidente foi aplaudido.
Convocados por um ajudante-de-ordens, chegaram garçons trazendo
café e água.
Finalmente, às
5 horas da tarde, entravam na mesma sala os governadores de Estados, aos
quais o presidente fez a sua quarta e última comunicação.
Dez minutos depois, a estranha liberdade de se poder falar em sucessão
presidencial e pronunciar o nome de Ernesto Geisel, o sucessor já
previsto e, no entanto, originalmente desconhecido, tomou conta do país.
Enquanto os rádios
transmitiam aos quatro ventos o anúncio do presidente Medici, e
muitos políticos se apressavam a manifestar o seu apreço
e até mesmo a sua alegria, não se poderia dizer que a opinião
pública se rejubilasse de pura satisfação. Pelas
próprias características da vida que levou o general Ernesto
Geisel, um homem traz até nas feições a marca da
austeridade e, nos gestos, a da discrição, não chega
a ser uma personalidade popular. No entanto, uma forte satisfação
se apossou da nação no mesmo momento em que ficou evidente
a tranqüilidade da nação.
A MUDANÇA
SEM CRISES - Uma marcha à ré no tempo, desde os episódios
recentes até os remotos, passa pelas crises que turvaram todas
as sucessões presidenciais, até mesmo as ocorridas à
sombra da Revolução de 31 de março. Essas crises
estão gravadas na lembrança dos brasileiros, hoje apaziguados
pelo feliz encaminhamento de uma questão explosiva e que já
foi capaz de detonar os momentos mais inquietos da vida política
do país. Assim, o país saboreia agora a sensação
de que, primeira vez desde 1926, o presidente da República passa
a faixa a quem deseja como sucessor e vislumbra como continuador da sua
obra.
Na área política,
o sabor agradável do momento, que inclusive mantém o tempero
da grande quermesse de um novo governo, atrai os mais variados tipos das
personagens em busca de informações e de um certo divertimento.
Na barraca da esquerda está loteria do Ministério. Quem
acertar a da Saúde, Trabalho e Educação ganha um
envelope com a fotografia do novo ministro da Fazenda. Na barraca da direita,
para aqueles que têm boa pontaria e gostam de jogos perigosos, está
o tiro-ao-ato: neste jogo singular, quem acerta na mosca não ganha
nada, quem erra paga dobrado.
Longe da curiosidade
e das especulações, o general Ernesto Geisel, a partir de
agora, deverá começar a preparar-se para assumir a presidência
da República.
Desde quinta-feira
da semana passada telefone 247-8912, do Rio de Janeiro, não responde.
O assinante Ernesto Geisel conseguiu outro número, que não
consta do catálogo. Assim, talvez esteja livre de alguns dos ardorosos
admiradores conquistados na última semana. Mas, mesmo conseguindo
que os aplausos de ocasião não cheguem ao seu apartamento,
num edifício velho, cinzento e sem elevadores, do Leblon, nada
poderá conter as manifestações dos mais variados
tipos de júbilo. Quando isso não podia ser feito em torno
de seu nome, grassou pelo país uma epidemia de aplausos das câmaras
de vereadores e das assembléias legislativas à Petrobrás.
Na verdade, espargiam-se louvores ao templo numa tentativa de agradar
o santo. Por isso, na quarta-feira, de sua tribuna no Senado, o líder
do MDB, Nelson Carneiro, ironizava: "Nunca se falou tanto em petróleo.
Nunca se elogiou tanto a Petrobrás. Tenho visto até gente
vestindo ternos cor de petróleo".
A INICIATIVA DA
HOMENAGEM - Desde que um político baiano, discursando na cerimônia
de posse de um poderoso, ofereceu-lhe "os mais sinceros parabéns
ao senhor e a todos os seus dignos sucessores", o aplauso político
dificilmente conseguiu ser original. Mesmo assim, a tentativa de aplaudir
chega a provocar divergências. Em Bento Gonçalves, município
gaúcho que disputa com Caxias do Sul o título de Capital
da Uva, o vereador arenista Fortunato Rizzardo, de 24 anos, orgulha-se
de ter proposto, em abril, a "criação de uma comissão
para a instalação de títulos quando da homenagem
de filhos ilustres do nosso município". Diante de tal clarividência
do Legislativo, pois, de todos os cinco irmãos da família
Geisel, o caçula, Ernesto, foi o único a nascer fora do
município de Estrela, o Executivo reage: "Não. Isso
não é certo", explica Darci Pozza, o jovem prefeito
da cidade. "Não foi idéia do Legislativo. O que o vereador
fez foi apenas uma sugestão. Não quero dizer que foi iniciativa
minha, mas, em maio, deixamos na Petrobrás um convite ao general.
Fizemos isso com antecedência, para que ninguém dissesse
que a gente só o convida porque vai ser presidente. Agora, é
claro, outros também querem aproveitar a oportunidade. E os vereadores
aproveitam a sua."
Jovens como Pozza
e Rizzardo, netos de imigrantes, nasceram em Bento Gonçalves quando
a cidade já linha ultrapassado os 10 000 habitantes. Para eles,
o lugarejo, erguido por descendentes de italianos, é uma lembrança
do passado e de uma época de pouco progresso. Talvez por causa
disso Pozza seja levado a generalizar sua idéia voraz do aplauso.
Para algumas dezenas de velhos conhecedores da região, porém,
a lembrança do jovem Ernesto Geisel chega a ser tênue. "Ele
é filho do Augusto Geisel. O pai dele chegou da Alemanha no início
do século e foi para Nova Teutônia, uma colônia perto
daqui de Estrela", lembra Erik Peerson, que aos 80 anos ainda esculpe
crucifixos de madeira e fala português com sotaque alemão
apesar de ser brasileiro. "Depois ele conseguiu um emprego de professor
da comunidade evangélica. Dava aula de alemão sem saber
falar português direito. Aquele Augusto era muito engraçado.
Foi ele quem me deu a primeira surra. Eu estava fazendo careta. Como era
esperto. Quando queria castigar toda a turma, botava os alunos, uns trinta
ou quarenta, de joelhos, mandava que cada um segurasse na orelha do outro
e puxava a do primeiro. Com um puxão só, castigava todos."
A alguns quarteirões
de distância, Henrique Beckman, aos 96 anos, acrescenta: "O
Augusto começou trabalhando numa fundição, batendo
ferro em bigorna. Depois que foi lecionar conheceu Lídia, minha
irmã. Ele tinha então uns 20 anos. Meu pai era o pastor
da comunidade. Em 1900, Augusto e Lídia casaram. Em seguida, ele
fez um curso e se transformou em professor público."
Alguns anos depois
do casamento, com quatro crianças, Amália, Bernardo, Henrique
e Orlando, o casal chegou a Bento Gonçalves. Augusto tornara-se
titular do cartório de "civile i crimi", como pronuncia
o escrivão aposentado Reduvino Bertolini, de 71 anos, filho do
dono do outro cartório, que ganhara um concorrente. "A Lídia
estava grávida e o marido queria que a criança nascesse
em Estrela", recorda. "Quando se aproximou o dia, o velho Augusto
mandou buscar a diligência. É diligência mesmo, como
no cinema, com quatro rodas e quatro cavalos. Mas a viagem durava de três
a dez dias, dependendo da situação da estrada, e, como a
diligência demorou, desistiram. E o Ernesto nasceu em Bento Gonçalves."
"O MAIS CALMO
DE TODOS" - "Nessa época eu tinha 5 anos. Nós
morávamos numa casa comprida. Os Geisel ocupavam a metade e na
outra vivíamos eu e a família do Gasparri, meu primo. O
Augusto era apolítico e apartidário, como dizia às
vezes. Para ele, cada um devia lutar por seu ideal, mas nunca deveria
se colocar contra o governo. Trabalhava duro e ajudava a mulher a fazer
o pão da casa. Os filhos eram muito comportados e o estudo era
uma espécie de religião na casa deles. O Ernesto, como era
o menor, ficava um pouco fora do grupo. Era mais reservado. Depois o Augusto
foi ser juiz de Paz e quando se aposentou foi para Porto Alegre. Nas férias
escolares, o Henrique, o Orlando e o Ernesto apareciam aqui com a roupa
da Escola Militar, com a risca vermelha na calça. O velho Augusto
ficava orgulhoso. Ele queria que os filhos fossem militares. Sabe? Quem
me alistou no Exército foi o Augusto. Só porque eu era vagabundo
e não queria nada com nada. Ele tinha horror de vagabundo."
E, exatamente por
não gostar de vadios, impedia que seus filhos brincassem fora do
pátio da casa. Tendo chegado ao Brasil só, com as malas
e os sonhos, Augusto Geisel, como todos os imigrantes de todas as épocas,
estava sobretudo empenhado em conquistar para os filhos uma pátria
e uma profissão. De casa, fiscalizava "a turma", composta
pelos quatro irmãos, por Bertolini e Carlos Dreher, cujo pai tinha
uma fábrica de bebidas "de pai para filho desde 1890",
e por José Baldi, que, aos 70 anos, como químico aposentado,
lembra-se de ter visto Ernesto "de longe, em 1967, quando ele veio
aqui para a Festa Nacional do Vinho com o Castello Branco. A gente brincava,
mas os guris tinham hora marcada de estudo. Uma de manhã e duas
à tarde. O Bernardo era o mais solene e também o mais quieto,
mas o Ernesto era o mais calmo".
Educando rigidamente
seus filhos, Augusto Geisel cultivava hábitos modestos. "Ele
quase não saía de casa. Retraído e econômico,
raramente podia ser visto num bar. tomando café", diz Mirsilo
Gasparri, de 67 anos, em seu escritório, no Rio. "Parece até
que o general Geisel fez voto de pobreza. Nem carro tem. É muito
gentil, mas não tem intimidade com os outros moradores", observa
um velho condômino e ex-síndico do edifício Parente.
A grande diversão
do titular do cartório de registro civil de Bento Gonçalves
parece ter sido a filatelia, mas, num tributo ao otimismo, mantinha um
bilhete de loteria cativo na barbearia de Giacomo Ferrari, ou Giacomin.
"Toda semana ele comprava o bilhete", explica Pedro Koff, de
65 anos, secretário da Associação Comercial. "Não
me lembro quando, mas um dia ele desistiu. O Giacomin estava com o número
10 615, se não me engano. Mas o Augusto Geisel não queria
mais. Disse que nunca tinha ganho nada e que não comprava mais.
O barbeiro levou o papel de volta. Podia ter mandado de volta pelo correio,
mas guardou com ele. Depois, voltou ao Geisel. Ele reclamou. Disse que
não insistisse. Aí o Giacomin explicou: 'O senhor sempre
foi meu freguês. Eu guardei o número. Agora ele é
seu. Está premiado com a sorte grande. Já ouvi o resultado'.
" Augusto Geisel estava diante de 100 contos de réis. Saíra
de seus hábitos e, pela versão de Koff, quase perdera a
oportunidade. Mesmo diante da oferta, tentou recusar, pois, afinal de
contas, não havia comprado o bilhete. Giacomin insistiu. "Então,
ele propôs que cada um ficasse com a metade, mas o barbeiro não
quis. Chegaram a um acerto quando o Augusto ofereceu-lhe um empréstimo
de 20 contos sem prazo e sem juros para completar o sortimento de sua
loja de artigos masculinos. E, sempre que tinha oportunidade, Geisel lembrava:
'Com a loteria do Giacomin é que consegui formar meus filhos'.
"
O INCIDENTE COM
CAFÉ FILHO - Mas os 100 contos não foram suficientes
para formar todos. Assim, os dois mais velhos, Amália e Bernardo,
ajudavam. Ela ensinava aos mais moços e ele, estudante na Escola
de Química, trabalhava no correio para reforçar o orçamento
doméstico. Assim, em maio de 1931, quando faleceu sua esposa Lídia,
todos estavam encaminhados e Ernesto, primeiro da turma no Colégio
Militar, já tenente, fora nomeado, em março, secretário
do Interior do governo do Rio Grande do Norte.
As lembranças
deixadas pelo irmão mais moço dos Geisel no Rio Grande do
Sul foi ligeira, pois, em 1930, comandando uma bateria do destacamento
Miguel Costa, marchou com as tropas que subiam com a Revolução.
E em dezembro, chegou a João Pessoa. Nessa época, um pequeno
descuido teria sido suficiente para que o jovem tenente, alto e solteiro,
conseguisse uma razoável donataria na política atribulada
do nordeste. Em Natal, segundo o depoimento de um advogado principiante,
suspeito de ligações e ambições subversivas
- João Café Filho - Geisel tomou posse numa "situação
singular, para vigiar, se supunha, os atos do interventor Aluísio
de Moura". Nessa confusa situação política,
o agitador acabou preso, envolvido numa confusão típica
das épocas revolucionárias. Trinta anos depois, já
tendo ocupado a presidência da República, Café Filho
depôs: "Fui levado à presença do secretário
do Interior. Tentava reagir, protestando contra a acusação
falsa e o constrangimento a que me impunham, arbitrariamente, quando Ernesto
Geisel me interrompeu:
'Não mandei
buscá-lo para o interrogar, mas para pedir desculpas. Apurei que
toda a acusação feita contra o senhor é inteiramente
improcedente e o governo está no dever de dar-lhe uma reparação,
restabelecendo a verdade'. Entregou-me uma nota, perguntando se eu estava
de acordo com os seus termos. Era uma retratação humilhante
do governo". A nota dizia: "Pelas conclusões finais,
ficou constatado que o sr. João Café Filho e outros merecem,
mais do que nunca, a inteira confiança deste governo, que conta
com seu inteiro apoio. Diante da clareza com que se apresenta agora a
situação, o Estado vai, felizmente, começar a entrar
na sua verdadeira fase revolucionária, considerada do ponto de
vista da responsabilidade e reorganização".
O tenente Geisel deixou
Natal em abril e lá, como na maioria dos Estados, a verdadeira
fase da Revolução de 1930 demorou a chegar, quando não
se perdeu pelo caminho. Era uma época tão movimentada que,
nem uma Revolução tinha se consolidado, já começava
outra, em 1932, em São Paulo. Nela, o jovem artilheiro combateu,
ao lado das forças governistas, de julho a outubro. Pouco antes,
no dia 7 de junho, o pitoresco interventor federal no Rio Grande do Sul,
José Antônio Flores da Cunha, oscilava entre a adesão
aos revoltosos paulistas e a fidelidade a Getúlio Vargas. Assim,
procurava esconder armas ao mesmo tempo que enviava telegramas ao presidente,
reiterando sua solidariedade ao governo. E, dentro de um clima de mistério,
cobiçou a colaboração de dois jovens tenentes do
Exército que serviam na cidade de Cachoeira: Henrique e Orlando
Geisel. Talvez sem conhecer melhor o velho Augusto Geisel, de quem se
dizia amigo, mandou-lhe um emissário, Glicério Alves, acompanhado
de um rápido bilhete: "Distinto amigo: autorizei o ilustre
doutor Glicério Alves a entender-se convosco sobre assunto de relevância.
Nessas condições, peço-vos ouvirdes o meu emissário
com a merecida atenção. Se, entretanto, não for possível
atendê-lo, espero do vosso cavalheirismo absoluta reserva no assunto
que vai ser tratado".
Alves foi a Cachoeira,
falou com o velho Geisel e dele ouviu uma lacônica explicação
de que, apesar de pai, respeitava o temperamento dos filhos, muito reservados,
que nunca conversavam de política. Quanto ao bilhete, como prova
de sua reserva, pediu ao portador que o levasse de volta. Quis o destino,
porém, que Glicério Alves e Flores da Cunha acabassem brigando.
Quando o fiel emissário tornou-se um cruel inconfidente, o documento
foi transformado na prova de que Flores conspirara e, indiretamente, de
que os Geisel não haviam sido aliciados.
Enquanto isso, de
julho a outubro, o artilheiro Ernesto lutou nas forças governistas.
Em dezembro, voltou ao comando de uma unidade do nordeste, a 7ª Bateria
de Artilharia de Dorso, acumulando essa função com a de
secretário de Finanças e Obras Públicas do interventor
Gratuliano de Brito. Dividia seu tempo entre o palácio, onde morava,
pois Brito também era solteiro, e a unidade, acantonada nos engenhos
Tibiry e Massangana, este, pertencente ao famoso coronel Cazuza Trombone,
personagem do romancista José Lins do Rego em "Fogo Morto"
e "Usina".
"A meu ver, durante
os dois anos em que foi secretário das Finanças, adquiriu
a primeira visão administrativa de um governo", diz, em sua
casa, o marechal Juarez Távora, que na época era chamado
de "Vice-Rei do Norte". De fato, nesses dois anos Ernesto Geisel
parece ter aprendido bastante. Mas, não se sabe como, quando chegou
a João Pessoa, onde viveria como dublê de secretário
e comandante de bateria, ele já tinha tomado decisões necessárias
para contornar situações difíceis.
Ao chegar, foi saudado
pelo jornal "A União" como "um dos mais brilhantes
elementos do Exército", jargão que, infelizmente, está
na gaveta de todos os redatores interessados em enfeitar as mochilas de
oficiais eventualmente poderosos. Dias depois de empossado, Geisel chamou
seu chefe de gabinete, José Fernandes Júnior, que hoje é
assessor jurídico do Banco do Brasil, e, segundo seu depoimento,
"me pediu a indicação de uma boa alfaiataria, para
fazer roupas civis, dizendo que nunca iria fardado à Secretaria".
E acrescenta João dos Santos Coelho Filho, de 64 anos, então
chefe dos Serviços do Tesouro: "Mesmo quando ia ao quartel
da Bateria, mudava a roupa e tirava as botas de soldado antes de entrar
na sua sala. Não usou farda nem para tomar posse. Durante sua gestão,
lá não foi ordenança ou agente de polícia".
O tenente, que já
ganhara o apelido de toda sua vida - "Alemão" -, usava
freqüentemente ternos de linho branco, "ou, no máximo
cinza", corrige Fernandes. Rapidamente, estabeleceu um regime de
trabalho pelo qual, conforme comunicou aos jornais, daria audiências
às segundas, quartas, quintas e sábados, das 8h30 às
10h30, e, duas semanas depois da posse, marcou as edições
do Diário Oficial com o resultado de uma relativa fúria
legiferante regulando as zonas de pastagens, para que os bois não
destruíssem as plantações de algodão, ofereceu
um prêmio de 50% a quem pagasse impostos atrasados e abriu um crédito
de 80 contos para a integralização do capital do Banco do
Estado da Paraíba.
A HORA DE TIRAR
O TERNO - Contudo, pelo registro da imprensa, os principais resultados
do trabalho do secretário Geisel parecem ter sido a estabilização
das finanças do Estado, que não tinha crédito em
João Pessoa nem para comprar papel, e a liberação,
pelo governo federal, dos recursos a que o Estado tinha direito pelo tributo
de 2% sobre as exportações, retidos de 1908 a 1928. Depois
de uma longa permanência no Rio e certamente ajudado pelo ministro
da Viação de Getúlio Vargas, o paraibano José
Américo de Almeida, Geisel voltou e, segundo "A União",
"depois de prestar assinalados serviços ao nosso Estado, na
metrópole do país, onde desenvolveu proveitosa atividade
em prol dos interesses da Paraíba". E. do Rio, no dia 24 de
julho de 1933, esclarecia-se a natureza dos serviços com um telegrama
de Geisel ao interventor: "Recebi ontem a importância correspondente
à taxa 2% ouro. Devido às últimas baixas do dólar,
o mil-réis ouro sofreu depreciação, resultando em
prejuízo do Estado, que, após a conversão, recebeu
5.932:227$400 réis papel. Depositei essa importância no Banco
Alemão, em conta corrente movimentada por mim". Logo depois.
chegava outro telegrama, do ministro José Américo: "O
recebimento da taxa se deve sobretudo ao grande esforço despendido
pelo tenente Geisel". Ao tenente, esse trabalho valeu um jantar no
Parahyba Hotel, onde um grupo de amigos homenageou-o, segundo "A
União" com o seguinte cardápio: creme de aspargos,
filé de peixe à moleira, escalope à primavera, peru
à brasileira, torta de amêndoas, frutas e café. Vinhos:
Martini seco, Mosela RG, Champagne PA e licores. Charutos". À
Paraíba, a liberação dos recursos permitiu o andamento
das obras do porto de Cabedelo, por onde se escoam seus principais produtos.
Se o tenente Geisel
tivesse interesses políticos no nordeste, teria continuado na Secretaria
depois de 1935, mas, no jogo entre os ternos de linho e a farda, preferia
a Bateria. Por isso, foi transferido para o Rio, onde serviu no Grupo
Escola de Artilharia. Deixou em João Pessoa um velho Buick, um
belo cavalo (Ambolê, filho de Galatéia, mãe do patriótico
Mossoró), 1 500 contos de salário, uma fábrica de
cimento (a antiga Companhia de Cimento Portela, atual Companhia Paraíba
de Cimento Portland), o cozinheiro cabo Veludo, o chofer Pretinho e um
grupo de colaboradores que ficou livre do dever de cortesia de aceitar
um pouco do chimarrão de sua cuia.
ASPARGOS, PEIXE,
PERU... - Lá, começou a exercitar um ardil já
levemente conhecido. Demonstrando convicção e falando em
tom de rigorosa seriedade, põe-se em defesa de uma tese absurda
e chama o interlocutor para uma discussão. "Ele era muito
difícil de aceitar despesas", diz João dos Santos Coelho.
"Até com os secretários ele discutia longamente",
acrescenta José Fernandes, lembrando: "Ele ia fazendo perguntas
e argumentando em todos os itens, como se cada um deles fosse excessivo.
Se o outro secretário não estava bem informado ou se não
tinha convicção, saía só com a metade da verba".
Como no Rio Grande
do Sul, deixou no nordeste a lembrança da reserva: "Ele era
de poucas relações, muito introspectivo. Não ia a
festas e não gostava de dançar", lembra Fernandes.
"Ernesto era de pouca conversa. Ele nunca foi rapaz. Vivia estudando.
As vezes jogava xadrez. Tinha muito sentido de responsabilidade",
depõe o general Aldenor Valente Quinderé, seu subordinado
em 1933 na 7ª Bateria.
Promovido a capitão
em setembro de 1935, está, no dia 27 de novembro, entre os oficiais
que, com a ajuda do então coronel Eduardo Gomes, debelaram a tentativa
de levante da Escola de Aviação. A alguns quilômetros,
Agildo Barata, um tenente ágil que fora de sua turma, comandava
a insurreição no quartel da praia Vermelha, organizada pela
Aliança Nacional Libertadora e pelo Partido Comunista. Já
em João Pessoa, Geisel tivera suas primeiras experiências
com a ANL, que tentara levantar o 22º Batalhão de Caçadores.
Nessa ocasião, mudou o local de acampamento de sua bateria, para
não vê-la envolvida.
Como capitão,
Geisel casou-se com a prima Lucy Markus, filha de um descendente de alemães
de Estrela e de Joana Beckman, irmã de sua mãe, Lídia.
Graças à sua reserva, esculpiu um currículo exclusivamente
militar. Do Grupo Escola de Artilharia passou para a Escola de Aperfeiçoamento
de Oficiais, onde novamente conseguiu o primeiro lugar da turma. Em 1942,
como o Exército precisasse formar quadros para a guerra, alcançou
seu irmão Orlando, que saíra duas turmas antes da sua na
Academia Militar, no curso de estado-maior. Lá, os dois irmãos
Geisel tiveram que disputar o único primeiro lugar, que ficou com
Orlando. Ernesto foi o segundo colocado. Em seguida, foi para o Quartel
General da guarnição de Porto Alegre, de onde saiu em 1944,
contrariado por não ter viajado com a Força Expedicionária
Brasileira, para um curso de aperfeiçoamento do Exército
americano em Fort Leavenworth, no Kansas. Aos poucos, nos diversos cursos,
o major Ernesto Geisel, um oficial corpulento de cabelos curtos e óculos
redondos, foi aproximando-se de colegas que viriam a formar um núcleo
ainda pouco pesquisado e mal definido - nos anos 50 seria confundido com
a Cruzada Democrática, uma organização semi-política.
Mais tarde, o mesmo
grupo, com o nome de "Sorbonne", deixaria sua marca na história
dos anos 60. O Estado Novo tinha formado uma elite militar indigesta para
seus cenários políticos, bem como para a maioria de seus
figurantes. Contudo, se é difícil se estabelecer uma unidade
de ação permanente entre esses oficiais, mais árdua
é a tarefa de localizar o major ou coronel Geisel em ações
políticas. "Ele sempre foi preservado. Em primeiro lugar,
era inabordável em questões alheias às funções
militares. Além disso, era um oficial respeitado pela tropa. E,
nesses casos, se ele se envolve em política, perde o respeito.
Por isso, durante muitos anos nós soubemos que poderíamos
contar com Geisel. O importante era impedir que o prejudicassem",
revela um velho colega da Cruzada Democrática.
Antes mesmo dos "cruzados",
que se opunham aos hereges liderados pelo general Estillac Leal durante
o governo constitucional de Vargas, o essencial era derrubar o Estado
Novo. Nessa tarefa, em novembro de 1945, tiveram um destacado papel as
tropas sob o comando do general Alcio Souto, no Rio de Janeiro. Mais tarde,
ele seria o chefe da Casa Militar do presidente Eurico Gaspar Dutra. E,
o chefe de seu estado maior no dia da deposição do ditador,
Ernesto Geisel, tinha sua primeira função junto à
Presidência da República. Entrava no Palácio do Catete
como um dos chefes de Seção do Conselho de Segurança
Nacional, de onde surgiu em 1948, como adido militar, com destino a Montevidéu.
De volta ao Brasil,
é um dos funda dores da Escola Superior de Guerra cuja doutrina
haveria de prestar uma colaboração tão grande para
a mudança das instituições políticas brasileiras
quanto os templos positivistas do fim do século passado para a
queda da monarquia.
"Acho que comigo
trabalhou o melhor Corpo Permanente que a Escola já teve",
diz Juarez Távora, seu antigo comandante. "Veja só
o nível: Ernesto Geisel, Carlos Muricy, Rodrigo Octávio,
Golbery do Couto e Silva, Bizarria Mamede e o Landri Salles Gonçalves,
entre outros. Foi ali que eu comecei a ver de perto a inteligência
do Ernesto. Quando eu chegava de manhã na Escola e me contavam
que se tinha trabalhado até tarde, eu já sabia. Eram Golbery
e o Ernesto de um lado e o Rodrigo Octávio de outro que discutiam
até duas, três da manhã. Uma discussão sadia,
evidentemente."
"O PRESIDENTE
DA EMPRESA" - Apesar dessa grande atividade na ESG, Geisel passou
virtualmente despercebido ao mais profundo pesquisador de seu pensamento
e de suas atividades, o professor americano Alfred Stepan, autor do livro
"Military in Politics, Changing Patterns in Brazil". Nele, Geisel
é citado formalmente, enquanto outros oficiais ganham inúmeras
referências. Vivendo numa espécie de perseguição
da impessoalidade, Ernesto Geisel talvez tenha sido um dos oficiais do
Exército que mais próximo esteve de resumir toda sua biografia
conhecida ao lacônico e numerológico verbete do almanaque.
Na Petrobrás, o noticiário distribuído à imprensa
durante 'os últimos quatro anos, raramente trazia seu nome. Mencionava
apenas "o residente da empresa". E, numa cidade de demonstrações
de poder e importância como o Rio, pode-se dizer que ter chegado
à posição de virtual presidente a República
sem precisar tirar o número do telefone do catálogo, é
algo próximo do sonho de existir sem ser conhecido. (Seu irmão
Orlando também tem o número no catálogo e, apesar
de ser ministro do Exército, está registrado como coronel.)
Em 1954, com o suicídio
de Getúlio Vargas e a posse de Café Filho, o coronel Ernesto
Geisel, comandante da Artilharia de Costa, viu a saída dos postos-chaves
do Exército de alguns dos condottieri que haviam sobrevivido ao
Estado Novo e, em fevereiro de 1955, voltava ao Palácio do Catete,
agora como subchefe da Casa Militar, para onde fora o general Juarez Távora.
Mesmo tendo entrado duas vezes no casarão de três andares
e sete águias, Geisel não demorou na função.
Saiu em maio.
Quando a unidade militar
conquistada para derrubar Getúlio foi fracionada, com o surgimento
da candidatura Juarez Távora, o ex-subchefe da Casa Militar voltava
a ocupar uma função civil: era o superintendente da Refinaria
de Cubatão, da Petrobrás, lugar atualmente ocupado por um
dos filhos de seu irmão Bernardo, que preside a Aços Finos
Piratini, depois de ter sido, no último governo Meneghetti (1962-66),
secretário de Minas e Energia. Um ano depois, quando já
tinha voltado ao Exército e comandava uma guarnição
em Quitaúna, SP, sofreu a grande dor de sua vida que, segundo o
depoimento de alguns colegas, embranqueceu-lhe a cabeça em poucos
meses. Num fim de tarde, quando atravessava uma linha férrea com
sua bicicleta, o filho Orlando foi colhido por um trem, morrendo. Seria
o único Geisel da nova geração a seguir a carreira
militar. (O general tem atualmente uma filha, Amália Lucy, apelidada
de Mosa, que leciona no Colégio Pedro 11 e secretaria a Seção
do Patrimônio do Conselho Federal de Cultura.)
Saindo de Quitaúna,
Geisel chegou, em abril de 1957, à Seção de Informações
do Estado-Maior do Exército, função que acumulou,
durante quase um ano, com a de representante do então Ministério
da Guerra no Conselho Nacional de Petróleo. Lá, foi o relator
do processo que deveria dispor sobre o destino da futura fábrica
de borracha sintética.
Tratava-se de resolver
se o empreendimento deveria ser entregue a alguma das duas empresas privadas
interessadas ou à Petrobrás. Em seu parecer, o coronel Geisel
reconhecia que as propostas das empresas de capital privado eram tecnicamente
adequadas, eram "inconvenientes quanto à estrutura do respectivo
capital e não oferecem vantagens em relação ao dispêndio
de divisas.
Em seguida apontava
que a Petrobrás, sem interromper seu programa, poderia explorar
a fábrica. Finalmente, depois de relacionar dados técnicos
que evidenciavam as vantagens potenciais da empresa estatal, argumentava:
"O desmedido lucro, assim proporcionado pela indústria, contraindica
a atribuição do empreendimento ao capital privado, parecendo
mais razoável utilizar esse lucro como recurso complementar no
desenvolvimento futuro da indústria nacional de petróleo".
Por sete votos contra um, estava criada a Fabor, Fábrica de Borracha
Sintética, da Petrobrás. O presidente do CNP, o general
Mário Poppe de Figueiredo, rompendo o hábito de só
votar em casos de empate, fez questão de endossar o relatório
de Geisel.
O NOME NOS DEBATES
- Ainda no Conselho, o coronel deu um importante parecer na questão
do aumento da capacidade de refino de Capuava, um dos poucos complexos
petrolíferos do país explorados por grupos particulares.
Geisel concedeu o aumento, desde que o produto beneficiado fosse entregue
à Petrobrás, ficando a refinaria com a vantagem adquirida
pela redução dos custos resultantes do aumento de sua capacidade.
Recentemente, como a Petrobrás estava com capacidade ociosa, o
aumento, concedido a título precário, foi suspenso. Essas
posições fizeram com que, pela primeira vez, seu nome começasse
a ser mencionado em debates parlamentares.
Pouco depois da posse
de Jânio Quadros na Presidência da República, quando
Geisel comandava a guarnição militar do Planalto, foi designado
para uma função transitória relacionada com política
petrolífera. Dias depois, brandindo um editorial do "Correio
da Manhã", o senador Lima Teixeira repetia as palavras do
jornal: "Porque foi nomeado um coronel? E por que precisamente o
coronel Ernesto Geisel, tido e havido como chefe do Serviço Secreto
do Exército, eminência parda da política petrolífera
brasileira? Por quê? É preciso, de uma vez por todas - e
esta é a oportunidade - esclarecer o papel do coronel Geisel na
política de bastidores do petróleo nacional. E nós
cobramos o esclarecimento do presidente Jânio Quadros".
Infelizmente, a oportunidade
passou, mas os quatro anos de gestão do general Geisel na Petrobrás
parecem ter sido suficientes para provar que as eminências pardas
e os bastidores das preocupações do senador não estavam
exatamente na empresa estatal. E, algumas semanas depois, havia grande
preocupação em torno da necessidade de um esclarecimento
de Jânio Quadros. A questão a clarificar, porém, não
era a atuação de Geisel na política petrolífera,
e sim a renúncia do presidente. No dia 25 de agosto de 1961, nem
mesmo o mais previdente e imaginativo dos oficiais de Estado-Maior poderia
supor o que acontecia no Alvorada. Passada a tormenta da crise, existem
hoje algumas pessoas convencidas de que Jânio não renunciaria
se alguém o trancasse numa sala ou também se, em vez de
nomear o general Pedro Geraldo de Oliveira para a chefia de sua Casa Militar,
tivesse indicado Geisel, que promoveu a general classificando-o de "o
melhor oficial do nosso Exército".
A verdade é
que a crise escapuliu de todas as mãos, menos daquelas, mais habilidosas
e educadas na cautela, filiadas ao Partido Social Democrático.
Os três ministros militares, general Odílio Denys, brigadeiro
Gabriel Grum Moss e almirante Sílvio Heck, divulgaram um manifesto
recusando-se a empossar o vice-presidente João Goulart, que viajava
pela China. Numa descrição simplista, a decisão dos
ministros não foi aceita pelos políticos e claramente rejeitada
pelo governador Leonel Brizolla, do Rio Grande do Sul, cunhado de Jango.
Em poucos dias, formou-se uma cadeia de emissoras, intitulada Rede da
Legalidade. Na essência, lutava com palavras pela defesa da Constituição,
que, em 1964. haveria de ser atropelada.
A CRISE DO PARLAMENTARISMO - O general Geisel, transformado em
chefe da Casa Militar do presidente interino, o deputado Paschoal Ranieri
Mazzilli, não tinha a menor simpatia por Goulart e parece indubitável
que se opunha abertamente à sua posse. Contudo, o dispositivo dos
ministros militares estava rachado. No Boletim Reservado n.º 1 000,
o comandante do 111 Exército, general Machado , comunicava a Brasília
que não aceitava ordens que considerasse desprovidas de base legal.
Nesse sentido, parece
bastante razoável a explicação oferecida por um oficial
general ao professor Stepan: "Os militares ativistas são sempre
uma minoria. Um movimento para derrubar um presidente precisa da opinião
pública para convencer os próprios militares. Isto aconteceu
em 1945, em 54 e em 64. Em 1961, porém, os chefes militares agiram
contra a opinião pública. Por isso, tiveram que recuar".
A tarefa de recuar
sem desmoralizar as Forças Armadas, impedindo que elas aprofundassem
a divisão surgida, coube ao general Ernesto Geisel. Há alguns
anos, o então deputado Ernani do Amaral Peixoto recordava que,
como presidente do PSD, negociara longamente com o chefe da Casa Militar
a conciliação através da aprovação
do regime parlamentarista. "Eu estava conversando no gabinete com
o Mazzilli e o general, quando entraram os três ministros. Geisel
lhes teria dito que, sem poder manter a palavra de que Goulart seria empossado,
no regime parlamentarista, pediria afastamento do cargo. Então,
os quatro reuniram-se numa sala contígua e, na volta, o compromisso,
que havia sido acertado anteriormente com os presidentes de partidos políticos,
seria mantido". Mais tarde, Amaral foi procurá-lo para cumprimentá-lo
"pela extrema correção com que conduzira os entendimentos".
A pouca simpatia de
Geisel por Goulart nunca deixou de ser clara. Assim mesmo tendo impedido
- exclusivamente pela palavra empenhada e pela inocuidade do gesto - que
um grupo de oficiais sabotasse o pouso do avião do vice-presidente,
no dia 7 de setembro de 1961, enquanto a Rede da Legalidade tomava posse,
Geisel demitia-se e ia para o "corredor", designação
utilizada para definir o oficial deixado sem função.
Finalmente, acabou
nomeado para o comando da Artilharia Divisionária de Curitiba.
Estava nesse posto quando, no auge das pressões para o fim do parlamentarismo,
no dia 13 de setembro de 1962, o general Jair Dantas Ribeiro, comandante
do III Exército, enviou um telegrama ostensivo ao ministro da Guerra
informando que "encontro-me sem condições para assumir,
com segurança e êxito, a responsabilidade do cumprimento
da missão, se o povo se insurgir contra o fato de o Congresso recusar
a convocação de um plebiscito para antes, ou, no máximo,
simultaneamente às eleições de outubro próximo".
Como subordinado de Ribeiro, Geisel telegrafou-lhe, reservadamente, informando-o
de que, na sua jurisdição, tinha condições
de cumprir sua missão com segurança, em qualquer caso. Noticiou-se
na imprensa que seu telegrama fora rude, teve o cuidado de desmentir essa
informação, mas nunca revelou seu texto, cujo original,
ao que se sabe, foi consumido num incinerador depois de ter atingido o
período rotineiro de vida no arquivo.
O telegrama, porém,
custou-lhe o comando: ele foi transferido para uma função
burocrática no Ministério do Exército.
Mesmo envolvido em
tantos acontecimentos políticos, Geisel limitava-se a, quando necessário,
tangenciar as crises. Depois delas, sempre voltava à caserna como
retornou da Paraíba e nisso, depois de 35 anos de exercícios
e de disciplina, moldou-se seu prestígio junto à tropa.
Não se pode
dizer que tenha sido um "troupier", nem um oficial capaz de
ser tragado pelos debates de intelectuais e políticos. Um velho
costume, de falar, às vezes, algumas oitavas acima do tom normal,
tornou-o relativamente temido. Essa circunstância, aliada à
distância em que mantém interlocutores que não conhece
ou conhece mal, ou ainda, conhece bem e não aprecia, edificou a
suposição de que seja irascível. "No início,
é uma geleira. Depois, torna-se afável. Mas o que ele é,
mesmo, é calmo. Naquela confusão toda de 1961 nunca enervou-se
reconhece uma secretária do gabinete militar da época. Por
outro lado, inúmeras pessoas asseguram que nas conversas com seu
irmão Orlando, freqüentemente exalta-se. "Mas é
exatamente porque os dois se conhecem e se entendem muito bem. Ele primeiro
levanta. Depois, fica vermelho."
Em 1964, devido à
mitologia que cerca a crônica oral do temperamento dos generais
de prestígio, quase houve uma grave colisão de mitos. O
general Humberto de Alencar Castello Branco, escolhido para a presidência,
queria convidar o general Ernesto Geisel para a chefia de sua Casa Militar,
mas vacilava, porque ele seria muito fechado. Enquanto isso, Geisel, depois
de convidado, teria temido não se entender bem com Castello, que
seria muito fechado. Quando o governo terminou, eram amigos pessoais e
não se pode dizer que o general tenha sido apenas um fiel cumpridor
de ordens.
Há inúmeros
episódios em que influiu decisivamente e a intervenção
federal em Goiás, cortando o mandato do governador Mauro Borges,
foi sem dúvida alguma um deles. Na discussão aberta no Ministério
para resolver o destino que seria dado ao projeto de instalação
de uma estação de satélites de comunicações,
sua atuação, ao lado de técnicos do Contel, derrotou
os ministros que pretendiam entregar a exploração das linhas
do satélite à ITT. Dessa decisão, nasceu, como empresa
viável, deixando de ser o que se chamava de "um conjunto de
salas alugadas num prédio da avenida Presidente Vargas", a
Embratel.
SEM CAMISA, NA
PRAIA - Mas, se em alguns episódios foi voto vencedor, em outros,
saiu vencido. E na reunião que decidiu a desencampação
das refinarias particulares, teria sido o único voto contrário.
Essa informação é impossível de ser confirmada
pois as reuniões do Conselho de Segurança Nacional são
altamente secretas; contudo, se o julgamento dos indícios pode
levar a alguma conclusão, ela parece ser verdadeira.
Houve também
momentos em que desempenhou missões que poderiam vir a ser consideradas
impossíveis à primeira vista. Conta o deputado Joaquim Coutinho,
da Arena pernambucana: "Eu só o vi uma vez. Eu estava na chefia
da Casa Civil do governo de Pernambuco e ele foi lá, enviado pelo
presidente Castello Branco para investigar as denúncias de torturas
contra presos políticos. Fez questão de conversar a sós
com os presos. Tenho a impressão de que foram tomadas providências".
A acreditar-se em fontes suspeitas por terem o vício da facção,
ainda que exercida contra o governo brasileiro, as providências
foram tomadas, e isso é reconhecido até mesmo em publicações
de radicais foragidos e exilados que, a partir das próximas semanas,
haverão de combatê-lo da mesma forma como combatem o atual
governo.
No entanto, qualquer
tentativa de compreensão rigorosa do general Ernesto Geisel esbarra
na discrição de seus hábitos. É capaz de praticar
ostensivamente gestos de simplicidade que chegam a intimidar algumas pessoas.
Descalço, segurando uma camisa e vestindo um calção
azul, caminha cerca de uma hora pela praia do Leblon. Não cai na
água, conversa com velhos amigos, como o general Landri Salles
e reencontra colegas de trabalho, como o ex-ministro da justiça,
Carlos Medeiros Silva. ("O que estariam conversando durante uma caminhada
pela praia do Leblon o general Ernesto Geisel e o ministro Medeiros?",
perguntava, há quase dois anos, o colunista Ibrahim Sued.) "Ele
não é de falar muito. Só pergunta pelo trabalho da
gente. Já ouvi falar que ele vai ser presidente da República.
O que acho? Não sei. É um homem muito bom e simpático",
informa um dos banhistas do Leblon.
No edifício
Parente, onde foi síndico há muitos anos, vota com a maioria.
Quando a filha do morador do primeiro andar queria transgredir o regulamento
para continuar com um cachorrinho, foi consultado e disse que se todos
estivessem de acordo, ele não tinha nada a opor. Da mesma forma,
quando a construtora Gomes de Almeida e Fernandes procurou o condomínio
para oferecer um preço pelo prédio, segundo informa um dos
moradores, repetiu a sua posição.
Essas características
pessoais, capazes de revelar uma pessoa calma, bastante diferente do típico
e enervante vizinho criador de casos, não são, porém,
suficientes para permitir maiores sondagens em torno do que fará
ou deixará de fazer na presidência da República. Da
mesma forma, o fato de ter ido inúmeras vezes a Porto Alegre visitar
a irmã mais velha, Amália (que em 1971 fraturou o ilíaco
direito), em aviões de carreira, recusando-se a usar o jatinho
da Petrobrás, é um indício de que, muito além
da honestidade pessoal, cultiva também rigoroso desprezo pelos
penduricalhos que o poder patrocina.
Olhado a partir de
suas relações com o movimento ectoplásmico conhecido
como "linha dura", que afligiu o governo Castello, pode ser
confundido, equivocadamente, com um liberal. Visto através de uma
pesquisa de seus votos no Superior Tribunal Militar onde permaneceu até
o fim do governo Costa e Silva, pode ser entendido como um duro. Por muitas
vezes preferiu votar em separado, negando recursos que a maioria dos demais
ministros havia acolhido. Assim, dois elementos acessórios, isolados,
levam cada um a uma conclusão límpida. Juntos, não
levam a lugar algum.
É um velho
hábito seu evitar trabalhar com grandes equipes de assessores diretos.
Cerca-se de poucos colaboradores que, contudo, são instruídos
para trabalhar apenas com ele, sem a prerrogativa de reabrir questões
fechadas ou de rever decisões tomadas por órgãos
da administração. Graças a esse princípio,
que é uma resultante de sua formação como oficial
de estado-maior, suas assessorias tanto no Conselho de Segurança
Nacional durante o governo Castello, de onde saíram centenas de
cassações, quanto na Petrobrás, de onde poderiam
ter jorrado belíssimas informações cobertas de dividendos,
sempre foram silenciosas.
A PRECIPITAÇÃO
DAS LISTAS - Reduzindo-se todas as dúvidas à sua expressão
mais simples, pode-se acreditar que o general Ernesto Geisel não
seja uma pessoa interessada em cultivar um grande e eufórico círculo
de relações pessoais. Sua esposa,dona Lucy, limita-se a
trabalhar em benefício de uma associação de crianças
excepcionais e de sua atividade social sabe-se apenas que, há mais
de dez anos, uma vez por semana reúne-se com um grupo de esposas
de militares, hoje, quase todos da reserva, para um chá. Exatamente
por isso, de cada dez pessoas capazes de ser atendidas por ele pelo telefone,
uma pelo menos pode acreditar ou deixar-se levar a acreditar que está
destinada a importantes funções no seu governo. Como as
informações não vazam, as listas proliferam com evidentes
equívocos. Em algumas, mais da metade dos colaboradores podem ser
encontrados nas fotografias oficiais do governo Castello Branco. Noutras,
a Petrobrás muda-se para Brasília.
Todas, porém,
resultam de uma pressa exclusiva dos curiosos, pois, com quase um ano
de distância entre a indicação e a posse, o novo presidente
deve estar mais uma vez seguro de sua calma. Pode-se acreditar apenas
que venha a ser formada uma equipe minúscula de colaboradores pessoais
mas, desses, como ocorreu nos últimos quatro anos na Petrobrás,
dificilmente sairá o nome do próprio presidente.
Além dessas
indagações nominais, existem as dúvidas ao portador,
de caráter geral, todas relacionadas com o futuro político
do país. Nelas, as previsões, como uma bola de tênis,
saltam de um lado para o outro. Se o general é um liberal, então,
anda com a chave da reabertura no bolso. Mas. se o general é um
duro, traz o cadeado. E todos estão dispostos a provar tanto uma
coisa quanto outra.
De certa maneira o
mais acertado, e também o mais prudente, seria começar quaisquer
previsões a partir de suas evidências indiscutíveis:
o general Ernesto Geisel é um militar disposto a exercer toda a
autoridade que um cargo lhe confere. Durante o governo Castello, como
secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, solicitava
informações a inúmeras repartições
públicas que, baseadas em regulamentos, negavam-nas. Contudo, como
ao chefe da Casa Militar nada se deve negar, as informações
eram oferecidas, verbalmente, por intermediários. Com outras repartições,
o sistema funcionava. Mas com o general Geisel não funcionou. Pediu
por ofício e respondeu por ofício, insistindo. As informações,
dizia, não podiam ser negadas ao Conselho de Segurança Nacional.
A questão foi conduzida a um árbitro e Geisel venceu. Não
queria nada por baixo do pano.
Durante o governo
Costa e Silva, cuja candidatura combateu junto a Castello Branco, seu
nome nunca esteve relacionado com qualquer opinião política.
E, mesmo nos dias em que os estudantes, em passeatas, pichavam todas as
paredes externas do simpático edifício do Superior Tribunal
Militar, no Rio, quando muitos ministros davam suas opiniões, Geisel
estava desaparecido. Naquela época ele representava um general-de-exército
que ia para o STM logo depois da promoção, percorrendo ao
contrário as escadarias do tribunal, pois, normalmente os generais
são indicados quando, próximos da compulsória, são
transferidos para uma função onde a aposentadoria só
chega aos 70 anos.
Agora, serão
necessários alguns pequenos exemplos para que uma multidão
de curiosos se convença de que o candidato tudo fará para
que não surja sequer uma sombra de governo paralelo. Por enquanto,
o general ainda circula relativamente anônimo. No dia 11, quando
foi almoçar, com um grupo de colaboradores da Petrobrás
na Cantina Roma, um dos melhores restaurantes italianos de São
Paulo, não foi imediatamente reconhecido, mas bastaram alguns minutos
para que os garçons, orgulhos, anunciassem aos outros fregueses
que, numa pequena sala, estava o próximo presidente da República.
Do que falou, não se sabe. E nisso aliaram-se a discrição
de seus convidados com a do próprio maitre Casalena: "Aqui
somos surdos e mudos. Não sabemos de nada". Lá, soube-se
apenas que o presidente da Petrobrás comeu quatro camarões,
fatias de salmão e um filé grelhado com palmito e batatas.
Confirmando a indiscrição de que é um apreciador
de bons vinhos, tomou um Valpolicella Bolla, da safra de 1969. Aliás,
segundo um amigo, esta é a única bebida alcoólica
que ele admite.
"EIS-ME NESSAS
FUNÇÕES..." - Ainda restarão ao general
Geisel algumas semanas para novas visitas às unidades da Petrobrás
em todos os Estados. Contudo, como ocorreu com o telefone, aos poucos
o cerco irá se fechando. Deverá deixar o apartamento do
edifício Parente, onde se habituou a viver entre duas salas e três
quartos, pelos grandes e calorentos espaços do Palácio da
Alvorada. A roda de chá de sua esposa estará desfalcada.
A filha, Amália Lucy, deverá deixar o emprego onde visivelmente
aprecia o trabalho, a menos que venha a permanecer no Rio.
Contudo, o curto discurso
que o tenente Ernesto Geisel, um gaúcho louro, alto, de terno branco,
fez ao assumir a Secretaria da Fazenda da Paraíba, no tumultuado
ano de 1932, talvez seja, de todos, um dos melhores indicadores da visão
que ele tem do novo emprego que o Estado obriga-o, a cumprir:
"Exmo. sr.
interventor do Estado:
Convidado para o desempenho de cargo de secretário da Fazenda,
Agricultura e Obras Públicas do Estado da Paraíba, procurei
eximir-me o mais que pude a tão altas responsabilidades. Quis o
destino, porém, por circunstâncias superiores, que, por fim,
eu não recusasse a honra do convite. Eis-me investido nessas funções
que dizem de perto com os problemas vitaes da Paraíba. Nada me
é permitido prometer, à míngua de capacidade para
o desempenho delas. Entretanto, asseguro aos paraibanos que tudo que couber
em mim de dedicação. esforço e tenacidade, darei
à incumbência do exercício do cargo que acabo de assumir.
O equilíbrio das finanças, o soerguimento econômico
desta unidade federativa, que já conquistou um conceito elevado
no pais, serão objeto de desvelados cuidados com que procurarei
manter as vossas tradições de honestidade e de trabalho
e a confiança em mim depositada pelo governo".
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