Índice
Carta ao leitor
Apresentação
Cada uma na sua, todas ótimas

Gloria Kalil
Ruth Malzoni
Patrícia Viotti
Carolina Ferraz
Chiara Gadaleta

Afinal, o que é ser chique?
Roupas sem nenhum juízo
Um Valentino é para sempre
Uma vovó do barulho
Ícone brasileiro
A bolsa de 5.000 dólares
Celeiro de gênios
Movimento de libertação
Reengenharia matrimonial
Deu vontade de experimentar?
Auto-ajuda que funciona
Mulheres que sabem beber
Acionar em ermergências
Palavra de especialistas
Nunca diga nunca usei isso
Profissão: fashionista
 
 
     
 

Fashionistas, graças a Deus


Erika Palomino


Pedro Rubens


Eu adoro a moda porque tenho obsessão pelo novo. E, se a moda pudesse ser definida em uma palavra, ela seria mudança. Império do efêmero, a moda é uma incansável, autofágica e ansiosa engrenagem de novidades. Nós, fashionistas, queremos uma revolução por temporada. Nem sempre ela acontece, claro. Na maior parte das vezes, são silenciosas transformações que vão acontecendo debaixo de nossas barbas, até a explosão do novo. E ele pode vir a qualquer momento. Daí nossa necessidade, que beira literalmente o desespero, de estar dentro da sala de um desfile. Tudo pode acontecer ali, é possível alguém mudar a história da moda a qualquer instante.

Em quinze anos cobrindo moda, tive a oportunidade de presenciar cenas incríveis, coleções históricas, o desabrochar de jovens talentos e a emergência de grifes desconhecidas. Algumas imagens ficaram registradas para sempre em minha memória. A coleção hippie da Gucci, que colocaria Tom Ford no mapa, na primeira vez em que participei da temporada de Milão. Ou a celebração futurista de Thierry Mugler, com Nadja Auermann como um andróide e Jerry Hall de Vênus, no desfile de sua retrospectiva, em Paris. O desfile de formatura de Alexandre Herchcovitch, com os modelos puxando bonecos de bebês ensangüentados. O circo fantástico do terror para Alexander McQueen, em Londres. O esquadrão de clones de Tilda Swinton, para a dupla holandesa Viktor & Rolf. A coleção sexy de Miuccia Prada, quando ela abriu o desfile com Eva Herzigova, até então esquecida top dos anos 90.

Modelos também definem o Zeitgeist da moda. E eu vi Linda Evangelista, única, no auge do glamour, e seu pivô imbatível. Testemunhei o caminhar inigualável de Naomi Campbell, a insolência adolescente da baixinha Kate Moss (que depois se tornaria um mito), o rosto perfeito de Christy Turlington, a sensualidade de Betty Prado, a determinação de Gisele Bündchen atravessando a passarela. Uma temporada de moda se faz também da delícia de detectar uma ou outra celebridade da hora nos desfiles: Madonna, Bruce Willis (num desfile de Versace), Beyoncé na primeira fila da brasileira Rosa Chá, em Nova York. Fora da platéia, as festas da moda respondem por situações inusitadas, como um memorável fim de noite na casa de Azzedine Alaïa, um dos magos dos anos 80, no Marais, informalmente. Nunca vou esquecer. E também Tina Turner, bem ao meu lado, fervendo no grande baile de Armani. E o lançamento do perfume da Dior no Lido, com as coristas e o povo fashion enlouquecido.

Moda também é stress, e muito. A correria, a pressão e a competitividade fazem parte desse mundo, tanto quanto o jet lag, as olheiras e a vida de cigano, sem rotina, sem horário, sem tempo. Quando tudo dá errado, apela-se para a máxima dos fashionistas: ora, são apenas roupas...