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Confesso
que usei

Mariana Sgarioni
Ao
revisitar certas peças no armário, muitas mulheres
experimentam sensações de: 1) perplexidade;
2) arrependimento; 3)
súbita necessidade de autoflagelação.
Um
consolo: o historiador inglês James
Laver, autor do livro Taste and Fashion,
formulou o seguinte conceito, hoje conhecido
como lei de Laver: "Uma mesma roupa será considerada
indecente dez anos
antes de seu tempo; elegante a seu tempo; bizarra vinte mais
tarde; e
encantadora setenta anos depois". Serão
as peças a seguir absolvidas um dia pelo tempo ou arderão
eternamente nas chamas do inferno fashion?
Jeans
total
A
invenção de Levi Strauss, destinada a vestir
mineradores na Califórnia no século XIX,
virou peça incensada, reverenciada e permanentemente
reinventada. O
que não deu certo: look jeans total, sucesso do
fim dos anos 70. Mas a grande maldade cometida contra
a criação do imigrante alemão se
deu quando japoneses como Kenzo e Issey Miyake
levaram para Paris o pauperismo
a moda pobre , que redundou na calça
baggy, ou
"saco", prova cabal da desconsideração dos
estilistas para com mulheres que não têm
pernas de gazela nem
usam manequim 36. |
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Calça
clochard e
aviador
Com
cintura altíssima, beirando os seios, e a barra curta
e larga, acima dos tornozelos, a calça clochard ("mendigo",
em francês) foi predecessora, em atentados à
silhueta, do recente modelo "aviador", seu oposto: cós
baixo e tornozelo franzido, culminando com sandália
de salto altíssimo. O tempora, o mores.
Polainas
No
século XIX, ela era um pedaço de pano que
os homens usavam para evitar que resquícios
de lama sujassem a barra de suas calças. O pano
foi subindo e, no século seguinte, passou a ser
usado por atletas e alpinistas para aquecer o tornozelo.
A década de 80, pródiga em trazer trajes
esportivos para o dia-a-dia em uma operação
nem sempre feliz , transformou a polaina em
um
acessório cuja finalidade permanece até
hoje um mistério insondável. |
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Poncho
Atravessou
os Andes e ganhou as ruas na onda hippie dos anos 60.
Na época, fazia o maior sentido. Volta e meia ameaça
reaparecer. Só gaúchos e gaúchas
têm habeas-corpus preventivo para usá-lo
em quaisquer circunstâncias. Qual seria o pior acessório
para ele? Sim, botas brancas consideradas por especialistas
o pior complemento para qualquer tipo de roupa. Com exceção
de Xuxa e suas paquitas, que merecem a isenção
pelo lugar ocupado na memória afetiva das criancinhas,
todas as demais mulheres, com elas, ficam parecendo:
a)
soldadinhas de chumbo; ou
b)
profissionais da noite de baixos proventos.
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Anos
80
Três
sucessos da época: saia balonê, invenção
do século XIX reativada por Pierre Cardin nos anos
50 e relançada por Jean-Paul Gaultier e Christian Lacroix;
manga-morcego, hit dos anos 30; e blusa com ombreiras, que
ilustrou a "masculinização" da moda
uma
das tendências da década que é melhor
esquecer.
Sertanejo
Nunca
houve um corte como o mullet. A
idéia de montar uma espécie de escultura
capilar em três camadas (sendo a
primeira curta e arrepiada no alto da
cabeça; a segunda mais longa, descendo
até a altura das orelhas; e
a terceira comprida, terminando em rabicó) surgiu
com a febre da moda country
americana, no fim dos anos 70, e
abduziu seres de todo o planeta, de David Bowie e Paul
McCartney a Chitãozinho
e Xororó, os quais passaram a designar
o corte. Hoje virou objeto de culto na internet
centenas de endereços na rede dedicam-se à
exibição de "retrospectivas
mullet". |
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Alça
de silicone e pochete
Criadas
com as melhores intenções, as
duas peças tiveram suas funções
subvertidas.
A primeira, destinada a
amenizar os efeitos de decotes indiscretos,
acabou por aparecer muito
mais do que devia; e a segunda,
feita sob encomenda para
atletas em ação, involuiu rumo a cinturas sedentárias
e até roupas de noite. Prova viva da circularidade
da moda, ressuscitou recentemente como
acessório moderníssimo, fazendo par com outra
abominação, a capanga.
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