Índice
Carta ao leitor
Apresentação
Cada uma na sua, todas ótimas

Gloria Kalil
Ruth Malzoni
Patrícia Viotti
Carolina Ferraz
Chiara Gadaleta

Afinal, o que é ser chique?
Roupas sem nenhum juízo
Um Valentino é para sempre
Uma vovó do barulho
Ícone brasileiro
A bolsa de 5.000 dólares
Celeiro de gênios
Movimento de libertação
Reengenharia matrimonial
Deu vontade de experimentar?
Auto-ajuda que funciona
Mulheres que sabem beber
Acionar em ermergências
Palavra de especialistas
Nunca diga nunca usei isso
Profissão: fashionista
 
 
     
 

Confesso que usei


Mariana Sgarioni

Ao revisitar certas peças no armário, muitas mulheres experimentam sensações de: 1) perplexidade; 2) arrependimento; 3) súbita necessidade de autoflagelação. Um consolo: o historiador inglês James Laver, autor do livro Taste and Fashion, formulou o seguinte conceito, hoje conhecido como lei de Laver: "Uma mesma roupa será considerada indecente dez anos antes de seu tempo; elegante a seu tempo; bizarra vinte mais tarde; e encantadora setenta anos depois". Serão as peças a seguir absolvidas um dia pelo tempo ou arderão eternamente nas chamas do inferno fashion?

 
Jeans total
A invenção de Levi Strauss, destinada a vestir mineradores na Califórnia no século XIX, virou peça incensada, reverenciada e permanentemente reinventada. O que não deu certo: look jeans total, sucesso do fim dos anos 70. Mas a grande maldade cometida contra a criação do imigrante alemão se deu quando japoneses como Kenzo e Issey Miyake levaram para Paris o pauperismo – a moda pobre –, que redundou na calça baggy, ou "saco", prova cabal da desconsideração dos estilistas para com mulheres que não têm pernas de gazela nem usam manequim 36.

 

Calça clochard e aviador

 

Com cintura altíssima, beirando os seios, e a barra curta e larga, acima dos tornozelos, a calça clochard ("mendigo", em francês) foi predecessora, em atentados à silhueta, do recente modelo "aviador", seu oposto: cós baixo e tornozelo franzido, culminando com sandália de salto altíssimo. O tempora, o mores.

 
Polainas
No século XIX, ela era um pedaço de pano que os homens usavam para evitar que resquícios de lama sujassem a barra de suas calças. O pano foi subindo e, no século seguinte, passou a ser usado por atletas e alpinistas para aquecer o tornozelo. A década de 80, pródiga em trazer trajes esportivos para o dia-a-dia – em uma operação nem sempre feliz –, transformou a polaina em um acessório cuja finalidade permanece até hoje um mistério insondável.

 
Poncho
Atravessou os Andes e ganhou as ruas na onda hippie dos anos 60. Na época, fazia o maior sentido. Volta e meia ameaça reaparecer. Só gaúchos – e gaúchas – têm habeas-corpus preventivo para usá-lo em quaisquer circunstâncias. Qual seria o pior acessório para ele? Sim, botas brancas – consideradas por especialistas o pior complemento para qualquer tipo de roupa. Com exceção de Xuxa e suas paquitas, que merecem a isenção pelo lugar ocupado na memória afetiva das criancinhas, todas as demais mulheres, com elas, ficam parecendo:
a) soldadinhas de chumbo; ou
b) profissionais da noite de baixos proventos.

 

Anos 80

 

Três sucessos da época: saia balonê, invenção do século XIX reativada por Pierre Cardin nos anos 50 e relançada por Jean-Paul Gaultier e Christian Lacroix; manga-morcego, hit dos anos 30; e blusa com ombreiras, que ilustrou a "masculinização" da moda – uma das tendências da década que é melhor esquecer.

 
Sertanejo
Nunca houve um corte como o mullet. A idéia de montar uma espécie de escultura capilar em três camadas (sendo a primeira curta e arrepiada no alto da cabeça; a segunda mais longa, descendo até a altura das orelhas; e a terceira comprida, terminando em rabicó) surgiu com a febre da moda country americana, no fim dos anos 70, e abduziu seres de todo o planeta, de David Bowie e Paul McCartney a Chitãozinho e Xororó, os quais passaram a designar o corte. Hoje virou objeto de culto na internet – centenas de endereços na rede dedicam-se à exibição de "retrospectivas mullet".

 

Alça de silicone e pochete

 

Criadas com as melhores intenções, as duas peças tiveram suas funções subvertidas. A primeira, destinada a amenizar os efeitos de decotes indiscretos, acabou por aparecer muito mais do que devia; e a segunda, feita sob encomenda para atletas em ação, involuiu rumo a cinturas sedentárias e até roupas de noite. Prova viva da circularidade da moda, ressuscitou recentemente como acessório moderníssimo, fazendo par com outra abominação, a capanga.