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Carta ao leitor
Apresentação
Cada uma na sua, todas ótimas

Gloria Kalil
Ruth Malzoni
Patrícia Viotti
Carolina Ferraz
Chiara Gadaleta

Afinal, o que é ser chique?
Roupas sem nenhum juízo
Um Valentino é para sempre
Uma vovó do barulho
Ícone brasileiro
A bolsa de 5.000 dólares
Celeiro de gênios
Movimento de libertação
Reengenharia matrimonial
Deu vontade de experimentar?
Auto-ajuda que funciona
Mulheres que sabem beber
Acionar em ermergências
Palavra de especialistas
Nunca diga nunca usei isso
Profissão: fashionista
 
 
     
 

Patrulheiras do estilo

As inglesas Trinny e Susannah ensinam, sem
meias palavras,
como camuflar imperfeições

 
Fotos Robins Matthews/reprodução Riverhead Books

Alta, magra e com pinta de modelo, Trinny Woodall mesmo assim se vê cheia de defeitos: pernas curtas, seios pequenos, bumbum grande. E usa a própria imagem para ensinar que, quando a mulher é desse jeito, 1) blusas curtinhas e decotadas evidenciam que falta perna no encontro blusa-calça e falta recheio mais acima, e 2) camiseta larga não disfarça nada e deforma tudo – e só deve ser usada mesmo para tirar o pó da casa

Se você pensa que os britânicos são discretos, comedidos nos comentários e pouco interessados em futilidades como que roupas combinam com o quê, ainda não conheceu Trinny Woodall e Susannah Constantine, duas senhoras sem papas na língua que viraram gurus de estilo da forma mais politicamente incorreta possível: reprovando sem rodeios o tamanho da barriga e dos seios das outras mulheres e usando os defeitos do próprio corpo para mostrar o que é certo e o que é errado. De bronca em bronca, Trinny e Susannah (T&S, para os íntimos) viraram celebridades que viajam pelo mundo espalhando a palavra revelada. Começaram com uma coluna de jornal e hoje têm uma série de sucesso na televisão, What Not to Wear ("o que não vestir", batizado no Brasil de Esquadrão da Moda e exibido pelo canal a cabo People+Arts), produzida pela BBC, e mais de 1 milhão de livros vendidos pelo mundo. "Nós encontramos um novo nicho: falar de roupas do ponto de vista da mulher comum, não das celebridades. O público se identificou com isso", diz Trinny.

 

 

A dupla trabalha a partir da muito sensata idéia de que ninguém nasce com estilo e saber o que vestir é uma questão de educação, adquirida com o tempo. Para isso, três coisas são essenciais. Primeiro, saber o tipo de roupa que acentua as imperfeições de cada uma e fugir delas como vampiros quando vêem a luz do sol. Segundo, identificar os cortes e as peças que disfarçam os pontos fracos, técnica a que dão o nome de "arte da camuflagem". E, por fim, ter a preocupação de escolher a roupa certa para cada ocasião. "Fique nua na frente do espelho e veja do que você se orgulha, o que acha feio no seu corpo, o que os homens mais gostam em você. Se precisar, chame uma amiga bem sincera", recomenda Trinny, a mais falante e espirituosa das duas. No seu programa de TV, pessoas comuns são indicadas por amigos um tanto sádicos para uma recauchutagem de estilo. Os alvos são filmados secretamente no trabalho, na festinha de família, com o namorado. Depois, o material é analisado por Trinny e Susannah no escritório londrino da dupla. Diante das câmeras, para todo mundo ouvir, elas disparam seus mísseis verbais sem nenhuma compaixão pelas fraquezas humanas: "Essa calça deixa o bumbum gigante!", "Com aquela saia comprida ela parece avó dos filhos!". A "análise" é repetida frente a frente para a convidada-vítima, acompanhada de opiniões bem diretas sobre o que pode ser melhorado – neste ponto, a pobre tem de vestir, e ver detonadas, todas as suas roupas prediletas, num cômodo com espelhos em toda a volta. Depois da preleção sobre o que lhe cai bem em matéria de cores, comprimentos, decotes e outros detalhes, vem a melhor parte: um cheque de 2 000 libras (o equivalente a cerca de 10 000 reais) para um novo guarda-roupa, que a pessoa compra sozinha, mas vigiada a distância por câmeras conectadas ao escritório de Trinny e Susannah. Invariavelmente, as duas têm de sair correndo para, já na boca do caixa, salvar sua cliente de algum escorregão feio – às vezes, sob veementes protestos dela. "É um programa sobre a delicada relação da mulher com seu corpo. Por isso, precisa ter humor", diz Trinny.

 
Fotosdivulgação/Robins Matthews

Mais "gente como a gente", Susannah Constantine tem uns bons quilinhos a mais, um pouco de barriga e seios grandes. Sabe muito bem disfarçar tudo isso, mas, para efeito didático, mostra que 1) blusa franzida, de manga fofa, deixa sem forma até quem já não tem forma, e 2) tecidos que se moldam ao corpo, e ainda por cima estampados, potencializam todas as imperfeições

Com a mesma franqueza, as apresentadoras falam de seus próprios defeitos e se criticam mutuamente. A cheinha Susannah, 41 anos e mãe de dois filhos, reconhece ter barriguinha saltada, seios grandes, pescoço curto e braços gordos. Magra e alta, Trinny, 40 anos, não tem muito do que reclamar, mas lista defeitos: perna curta, pouco peito, bumbum grande. Elas dizem que aprenderam sobre estilo no dia-a-dia, sem cursos ou grandes técnicas. Trinny atuou no mercado financeiro, numa empresa onde era a única mulher entre trinta homens, e em relações públicas (quando precisou adequar seu guarda-roupa a um salário apertado). Susannah foi jornalista e circulava em colunas sociais. Apresentadas por amigos comuns, descobriram que compartilhavam o mesmo interesse por estilo e começaram a assinar, em 1996, uma coluna no jornal Daily Telegraph. Não se consideram ligadas à indústria da moda – não sentam na primeira fila de desfiles, não são amigas de estilistas, não vestem só roupas de grife. "Falamos sobre o corpo, não sobre moda propriamente. Nem sei o que os estilistas fizeram para esta estação", esnoba Trinny. No mundo de What Not to Wear, ser estiloso não tem nada a ver com seguir tendências. Tudo muito combinadinho, criticam, é sinal de que a pessoa comprou o que a vendedora da loja empurrou. Festas glamourosas, onde todo mundo quer saber "de quem" é o vestido, são atraso de vida. "Em festas, o melhor mesmo é usar sua roupa predileta, que faça você se sentir linda e segura", aconselham. Trinny e Susannah nunca estiveram no Brasil, mas acreditam que a pressão em relação ao físico esmerado seja maior no país. "Pelo que sei, a cirurgia plástica é uma obsessão. Um erro – os homens nem notam a diferença. Aprender a se vestir é a melhor saída", diz Susannah. Pulando de um estereótipo ao outro, acham também que as brasileiras têm vantagens em relação às inglesas: autoconfiança e mais conhecimentos sobre como valorizar o próprio corpo. Um conselho genérico? "Agradeçam por ser como são", propõe Trinny. "Os homens apreciam mais as curvas do que um corpo de modelo."

 

Não, não e não  
Divulgação/Robin Matthews


A especialidade de Trinny e Susannah é ensinar, impiedosamente, o que não usar. Por exemplo:

Tops pequenos, que deixam parte da barriga de fora, são péssimos para quem tem pernas curtas. Fica parecendo que faltou perna para que o cós da calça encontrasse o fim da blusa.

Tentar esconder gordurinhas da cintura embaixo de camiseta larga é bobagem. A mulher vira um ser humano deformado, principalmente se tiver bumbum grande.

Para quem tem seios grandes, a pior camiseta é a sem mangas e sem decote, que deixa os seios iguais a dois balões cheios de água. Já as sem-seios devem evitar usar corpetes, que ficam inúteis sem nada para preencher.

Quem tem bumbum grande, infelizmente, não pode usar a saia em forma de A da moda, sob o risco de parecer uma grávida ao contrário.

Pescoço curto pode ser disfarçado com brinco comprido, gola de camisa levemente erguida ou decote em V. Gargantilha, jamais.

Férias de praia não são desculpa para andar mal arrumada. Short fica ótimo com biquíni, mas horrível se usado com maiô.

Os melhores investimentos em qualquer guarda-roupa: um sutiã que seja perfeito para seus seios e um casaco bem cortado, que esconda todos os seus pecados