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A
lição de elegância do
último
clássico
Com
mestre Valentino não tem circo, show
nem escândalo: só roupas bonitas e luxuosas,
que sobrevivem ao teste do tempo
e atravessam gerações

Flávia
Varella, de Paris
Reuters
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| Valentino
em desfile, um estilo "descrito em três palavras: romance,
sedução e elegância" |
Imagine-se um guarda-roupa que atravessasse gerações
e pudesse ser usado por avó, mãe e filha sem
que nenhuma delas parecesse deslocada. Que peças conseguiriam
desafiar a efemeridade que faz parte da natureza intrínseca
da moda? Apostas certas: uma bolsa Kelly, uma mala Louis Vuitton,
sapatos bicolores Chanel, jeans Levi's. O vestido muito provavelmente
seria Valentino. O último dos clássicos, ele
é o costureiro em atividade que mais encarna a idéia
de luxo e discreta elegância associada tradicionalmente
à alta-costura, antes que o mundo da moda fosse subvertido
pelo experimentalismo e pelos arroubos, às vezes cansativos,
de criadores como John Galliano, da Dior. Não se espere
circo, show nem escândalo de Valentino. Clássico,
embora não conservador, ele faz basicamente a mesma
coisa desde que começou a traçar seus croquis
detalhistas, há quase meio século: roupas bonitas
e refinadas, perfeitas para milionárias americanas,
condessas italianas e mulheres do jet set planetário
que sempre formaram sua clientela tradicional.
Ir
a um desfile de Valentino é assistir a mais um capítulo
dessa história. Num domingo parisiense, ele apresenta
a coleção outono-inverno 2004/2005. O ambiente
é formal e o público, comportado, sem os tipos
excêntricos que vicejam em volta dos estilistas de vanguarda.
Ninguém espera surpresas: o estilista italiano vai
mostrar, como sempre, as roupas mais femininas da estação
mesmo que desta vez tenha anunciado uma coleção
baseada na alfaiataria masculina. O desfile começa
só com preto e branco, muitas gravatas, camisas, saias
justas, grossos cintos metálicos. Aos poucos, as saias
esvoaçam, os decotes se revelam, entram o marrom, o
bege, o verde, o dourado. O único vestido "vermelho
Valentino", um longo tomara-que-caia com duas flores na cintura,
é muito aplaudido. É também um exemplo
perfeito da atemporalidade de suas criações.
Poderia ser usado hoje numa entrega de Oscar ou numa festa
dos tempos dourados da Riviera Francesa; envergado por Ava
Gardner, Audrey Hepburn ou Jennifer Aniston (que recentemente
vestiu mesmo um tomara-que-caia "vermelho Valentino", de 1959).
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"O
estilo Valentino pode ser descrito em três palavras:
romance, elegância e sedução", disse a
VEJA o costureiro, de 72 anos, que, desde que Yves Saint Laurent
se aposentou, é o único remanescente do tempo
em que os estilistas montavam os próprios ateliês
para vestir a alta sociedade. "A mulher Valentino é
confiante, gosta de marcar presença e de se dar prazer.
Definitivamente não é uma mulher tímida."
Quem não se entusiasma com essa mulher eternamente
repaginada diz que ele não é capaz de ousar.
"Valentino jamais inventou tendências como outros contemporâneos
seus, que desbravaram caminhos seguidos por outros. Seu negócio
é muito mais a sedução do que a criatividade",
afirma a historiadora de moda e professora do Instituto Francês
de Moda Florence Müller. Quem lhe reconhece as qualidades
atesta o inegável: suas roupas têm caimento,
proporção, leveza e acabamento impecáveis.
"Ele pode não ter um papel de primeiro plano no contexto
da história da moda do século XX, mas tem o
mérito de fazer um trabalho artesanal de altíssima
qualidade em que a mulher fica classicamente bem vestida e
bonita sem jamais ficar ridícula", explica o especialista
francês François Baudot, autor do livro La
Mode du Siècle.
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| Longo
com capa da coleção de 1989, com grafismos de inspiração
arquitetônica: marca registrada |
As
marcas registradas de Valentino, presentes até hoje,
já apareciam nos primeiros croquis que ele desenhava
ainda estudante ou jovem assistente de Jean Dessès
e Guy Laroche nos anos 50: a superposição de
tecidos leves, os drapeados, as estampas de peles de animais
que atualmente vivem um novo ciclo, os grafismos em preto-e-branco,
os plissados, os laços ("Indispensáveis, como
o ponto de exclamação numa frase") e, claro,
o vermelho-escarlate que virou sua cor particular ("Uma mulher
vestida de vermelho está sempre magnífica; ela
é, no meio da multidão, a imagem perfeita da
heroína"). A constância fez de seu nome sinônimo
de clássico, de roupa que não sai de moda. Seus
vestidos sobrevivem ao teste do tempo, como atestou o soberbo
longo vintage, preto com debruns brancos, usado por Julia
Roberts quando ganhou o Oscar, em 2001. Da mesma forma, a
grife onde o vermelho Valentino também aparecia,
e como, no balanço enfrenta os solavancos no
mundo da moda. Há dois anos, foi comprada pelo grupo
italiano Marzotto, um dos conglomerados da indústria
do luxo, por 200 milhões de dólares. Seguiu-se
um recente acordo de licenciamento com a Procter & Gamble,
a gigante americana dos produtos de higiene, para a criação
e comercialização de perfumes e cosméticos.
AFP
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AFP
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| Modelos
da última coleçãoe Audrey Hepburn com capa de organza,
de 1969: "A mulher fica classicamente bem vestida e bonita,
sem jamais ficar ridícula" |
"Valentino
nunca erra", diz Eliana Tranchesi, dona da butique Daslu.
Representante exclusiva de Valentino no Brasil, ela vende
cerca de seis vestidos de noite a cada mês, por preços
que variam de 6 000 a 18 000 reais. "Quem não gostaria
de se casar com um vestido Valentino?", pergunta, retoricamente.
Jacqueline Kennedy casou-se com um quando virou Onassis (um
modelo curto, moderníssimo, da legendária Collezione
Bianca, de 1968). Na semana seguinte, ele recebeu mais de
sessenta pedidos de vestido de noiva.
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| Tomara-
que-caia com flores: "Uma mulher de vermelho está sempre
magnífica" |
O
universo de Valentino é opulento, seja o que for que
esteja acontecendo no balanço. O palácio ao
lado da Praça de Espanha, em Roma, que aluga ao Vaticano
desde 1967 como ateliê, tem o teto todo trabalhado em
marchetaria e pinturas antigas. Em Paris, os compradores internacionais
escolhem seus modelos em enormes salas brancas e douradas,
com janelões que se abrem para a imponente Place Vendôme.
Num jantar para doze convidados em seu castelo do século
XVII perto de Paris, durante a semana dos desfiles de março,
o jardim em estilo francês estava iluminado por velas
a cada 50 centímetros ao longo dos arbustos geometricamente
podados. "Valentino vive cercado de requintes, mas é
um homem sem frescuras. Cansei de comer sanduíche com
ele em viagens", conta Georgina, a mulher brasileira do italiano
Ruy Brandolini d'Adda, sobrinho de Gianni Agnelli, e sua amiga
de longa data. Certa vez, falando da decoração
de suas casas, Valentino acabou definindo seu estilo "palaciano",
que Versace, anos depois, difundiu: "A gente pode exagerar,
mas com a condição de fazê-lo com elegância.
Saber ser excessivo na medida certa continua sendo a coisa
mais difícil". Excessivo na medida certa é uma
contradição em termos mas não
está nisso uma das belezas do estilo Valentino?
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Bonito,
não? É só 30 000...
Reuters
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A
roupa acima, apresentada no desfile prêt-à-porter
deste ano, vai custar, quando chegar às
lojas em outubro, pouco mais de 30 000 reais.
Quando a desenhou, Valentino quis reunir os conceitos
mais marcantes da coleção. "Ela
é sedutora, muito gráfica, joga
com a dualidade feminino/masculino e tem elementos
tipicamente Valentino, como os babados, a pele,
o cinto marcante", disse o costureiro a VEJA.
O preço, de arrepiar, é explicado
pela excepcional qualidade da mão-de-obra
e o valor agregado pelo nome famoso, claro.
Só a saia exigiu 34 horas de trabalho manual
para ser confeccionada. Nove metros e meio de
tule point d'esprit foram plissados, depois tiveram
as bordas recobertas com 3 metros de cetim e ajustadas
em camadas sobre 7 metros de forro de organza.
Preço final: 4 380 euros, mais de 15 000
reais. O bolero também é feito em
camadas, com a pele de uma raposa especial chamada
cross fox. Vai custar 3 220 euros, ou 11 300 reais.
A camisa é de cetim e organza de seda e
a gravata, de veludo.
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