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Carta ao leitor
Apresentação
Cada uma na sua, todas ótimas

Gloria Kalil
Ruth Malzoni
Patrícia Viotti
Carolina Ferraz
Chiara Gadaleta

Afinal, o que é ser chique?
Roupas sem nenhum juízo
Um Valentino é para sempre
Uma vovó do barulho
Ícone brasileiro
A bolsa de 5.000 dólares
Celeiro de gênios
Movimento de libertação
Reengenharia matrimonial
Deu vontade de experimentar?
Auto-ajuda que funciona
Mulheres que sabem beber
Acionar em ermergências
Palavra de especialistas
Nunca diga nunca usei isso
Profissão: fashionista
 
 
     
 

A lição de elegância do último clássico

Com mestre Valentino não tem circo, show
nem escândalo: só roupas bonitas e luxuosas,
que sobrevivem ao teste do tempo
e atravessam gerações


Flávia Varella, de Paris

Reuters
Valentino em desfile, um estilo "descrito em três palavras: romance, sedução e elegância"


Imagine-se um guarda-roupa que atravessasse gerações e pudesse ser usado por avó, mãe e filha sem que nenhuma delas parecesse deslocada. Que peças conseguiriam desafiar a efemeridade que faz parte da natureza intrínseca da moda? Apostas certas: uma bolsa Kelly, uma mala Louis Vuitton, sapatos bicolores Chanel, jeans Levi's. O vestido muito provavelmente seria Valentino. O último dos clássicos, ele é o costureiro em atividade que mais encarna a idéia de luxo e discreta elegância associada tradicionalmente à alta-costura, antes que o mundo da moda fosse subvertido pelo experimentalismo e pelos arroubos, às vezes cansativos, de criadores como John Galliano, da Dior. Não se espere circo, show nem escândalo de Valentino. Clássico, embora não conservador, ele faz basicamente a mesma coisa desde que começou a traçar seus croquis detalhistas, há quase meio século: roupas bonitas e refinadas, perfeitas para milionárias americanas, condessas italianas e mulheres do jet set planetário que sempre formaram sua clientela tradicional.

Ir a um desfile de Valentino é assistir a mais um capítulo dessa história. Num domingo parisiense, ele apresenta a coleção outono-inverno 2004/2005. O ambiente é formal e o público, comportado, sem os tipos excêntricos que vicejam em volta dos estilistas de vanguarda. Ninguém espera surpresas: o estilista italiano vai mostrar, como sempre, as roupas mais femininas da estação – mesmo que desta vez tenha anunciado uma coleção baseada na alfaiataria masculina. O desfile começa só com preto e branco, muitas gravatas, camisas, saias justas, grossos cintos metálicos. Aos poucos, as saias esvoaçam, os decotes se revelam, entram o marrom, o bege, o verde, o dourado. O único vestido "vermelho Valentino", um longo tomara-que-caia com duas flores na cintura, é muito aplaudido. É também um exemplo perfeito da atemporalidade de suas criações. Poderia ser usado hoje numa entrega de Oscar ou numa festa dos tempos dourados da Riviera Francesa; envergado por Ava Gardner, Audrey Hepburn ou Jennifer Aniston (que recentemente vestiu mesmo um tomara-que-caia "vermelho Valentino", de 1959).


"O estilo Valentino pode ser descrito em três palavras: romance, elegância e sedução", disse a VEJA o costureiro, de 72 anos, que, desde que Yves Saint Laurent se aposentou, é o único remanescente do tempo em que os estilistas montavam os próprios ateliês para vestir a alta sociedade. "A mulher Valentino é confiante, gosta de marcar presença e de se dar prazer. Definitivamente não é uma mulher tímida." Quem não se entusiasma com essa mulher eternamente repaginada diz que ele não é capaz de ousar. "Valentino jamais inventou tendências como outros contemporâneos seus, que desbravaram caminhos seguidos por outros. Seu negócio é muito mais a sedução do que a criatividade", afirma a historiadora de moda e professora do Instituto Francês de Moda Florence Müller. Quem lhe reconhece as qualidades atesta o inegável: suas roupas têm caimento, proporção, leveza e acabamento impecáveis. "Ele pode não ter um papel de primeiro plano no contexto da história da moda do século XX, mas tem o mérito de fazer um trabalho artesanal de altíssima qualidade em que a mulher fica classicamente bem vestida e bonita sem jamais ficar ridícula", explica o especialista francês François Baudot, autor do livro La Mode du Siècle.

Longo com capa da coleção de 1989, com grafismos de inspiração arquitetônica: marca registrada

As marcas registradas de Valentino, presentes até hoje, já apareciam nos primeiros croquis que ele desenhava ainda estudante ou jovem assistente de Jean Dessès e Guy Laroche nos anos 50: a superposição de tecidos leves, os drapeados, as estampas de peles de animais que atualmente vivem um novo ciclo, os grafismos em preto-e-branco, os plissados, os laços ("Indispensáveis, como o ponto de exclamação numa frase") e, claro, o vermelho-escarlate que virou sua cor particular ("Uma mulher vestida de vermelho está sempre magnífica; ela é, no meio da multidão, a imagem perfeita da heroína"). A constância fez de seu nome sinônimo de clássico, de roupa que não sai de moda. Seus vestidos sobrevivem ao teste do tempo, como atestou o soberbo longo vintage, preto com debruns brancos, usado por Julia Roberts quando ganhou o Oscar, em 2001. Da mesma forma, a grife – onde o vermelho Valentino também aparecia, e como, no balanço – enfrenta os solavancos no mundo da moda. Há dois anos, foi comprada pelo grupo italiano Marzotto, um dos conglomerados da indústria do luxo, por 200 milhões de dólares. Seguiu-se um recente acordo de licenciamento com a Procter & Gamble, a gigante americana dos produtos de higiene, para a criação e comercialização de perfumes e cosméticos.

 
AFP
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Modelos da última coleçãoe Audrey Hepburn com capa de organza, de 1969: "A mulher fica classicamente bem vestida e bonita, sem jamais ficar ridícula"

"Valentino nunca erra", diz Eliana Tranchesi, dona da butique Daslu. Representante exclusiva de Valentino no Brasil, ela vende cerca de seis vestidos de noite a cada mês, por preços que variam de 6 000 a 18 000 reais. "Quem não gostaria de se casar com um vestido Valentino?", pergunta, retoricamente. Jacqueline Kennedy casou-se com um quando virou Onassis (um modelo curto, moderníssimo, da legendária Collezione Bianca, de 1968). Na semana seguinte, ele recebeu mais de sessenta pedidos de vestido de noiva.

 
Tomara- que-caia com flores: "Uma mulher de vermelho está sempre magnífica"

O universo de Valentino é opulento, seja o que for que esteja acontecendo no balanço. O palácio ao lado da Praça de Espanha, em Roma, que aluga ao Vaticano desde 1967 como ateliê, tem o teto todo trabalhado em marchetaria e pinturas antigas. Em Paris, os compradores internacionais escolhem seus modelos em enormes salas brancas e douradas, com janelões que se abrem para a imponente Place Vendôme. Num jantar para doze convidados em seu castelo do século XVII perto de Paris, durante a semana dos desfiles de março, o jardim em estilo francês estava iluminado por velas a cada 50 centímetros ao longo dos arbustos geometricamente podados. "Valentino vive cercado de requintes, mas é um homem sem frescuras. Cansei de comer sanduíche com ele em viagens", conta Georgina, a mulher brasileira do italiano Ruy Brandolini d'Adda, sobrinho de Gianni Agnelli, e sua amiga de longa data. Certa vez, falando da decoração de suas casas, Valentino acabou definindo seu estilo "palaciano", que Versace, anos depois, difundiu: "A gente pode exagerar, mas com a condição de fazê-lo com elegância. Saber ser excessivo na medida certa continua sendo a coisa mais difícil". Excessivo na medida certa é uma contradição em termos – mas não está nisso uma das belezas do estilo Valentino?

 

Bonito, não? É só 30 000...

 
Reuters

A roupa acima, apresentada no desfile prêt-à-porter deste ano, vai custar, quando chegar às lojas em outubro, pouco mais de 30 000 reais. Quando a desenhou, Valentino quis reunir os conceitos mais marcantes da coleção. "Ela é sedutora, muito gráfica, joga com a dualidade feminino/masculino e tem elementos tipicamente Valentino, como os babados, a pele, o cinto marcante", disse o costureiro a VEJA. O preço, de arrepiar, é explicado pela excepcional qualidade da mão-de-obra – e o valor agregado pelo nome famoso, claro. Só a saia exigiu 34 horas de trabalho manual para ser confeccionada. Nove metros e meio de tule point d'esprit foram plissados, depois tiveram as bordas recobertas com 3 metros de cetim e ajustadas em camadas sobre 7 metros de forro de organza. Preço final: 4 380 euros, mais de 15 000 reais. O bolero também é feito em camadas, com a pele de uma raposa especial chamada cross fox. Vai custar 3 220 euros, ou 11 300 reais. A camisa é de cetim e organza de seda e a gravata, de veludo.