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Declaração
de independência
O
que é ter estilo? Olhar, escolher, combinar
e não ligar muito para a opinião da platéia

Thaís
Oyama
Fotos Pedro Rubens
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| Costanza:
"A mulher com estilo consegue pinηar aquilo que lhe cai
bem e sublinha sua personalidade" |
Vai
desfile, vem desfile, entra coleção, sai coleção
e Costanza Pascolato permanece intocável em seu posto
de unanimidade
fashion. Reverenciada por clássicos
e modernos, a empresária, consultora
de moda e autora do livro O Essencial falou a VEJA
sobre estilo: o
que é, quem tem e quem precisa dele.
Veja
Qual a diferença entre ser elegante e ter estilo?
Costanza
Eu diria que existem mulheres bem vestidas e outras
com estilo. A bem vestida é aquela que compra tudo
direitinho, conforme a proposta da vitrine: veste um figurino
pronto e às vezes gasta até muito dinheiro,
mas você não reconhece o jeito dela naquela produção.
Já a mulher com estilo é a que consegue pinçar,
dentro do que a moda propõe, aquilo que lhe cai bem
e vai sublinhar sua personalidade. Ela vai pegar o sapatinho
que viu na loja, misturar com um casaco comprado há
dois anos e combinar com uma saia de que ela goste, e o resultado
vai ser uma coisa moderna, que a favoreça. A mulher
com estilo nunca será uma vítima da moda.
Veja
Exemplos, por favor.
Costanza
Acho a Fernanda Torres chiquérrima. Outro dia, ela
estava com uma t-shirt branca colada ao corpo, um saião
anos 50 de cós baixo e um chapéu. Estava maravilhosa
e era tudo a cara dela. A saia, por exemplo: não é
que ela comprou uma saia de cós baixo, que é
mais do que tendência. É que ela está
toda malhada e a saia caiu daquele jeito no corpo. E a blusa
tinha mangas compridas. Entende? Com todo mundo mostrando
os braços, o peito, ela estava toda fechadinha e nem
aí. Isso já é estilo.
Veja
Ter estilo pressupõe uma certa ousadia?
Costanza
Não é ousadia, é mais uma independência
da opinião da platéia. A Fernanda Torres não
pode tomar sol, então põe o chapelão.
Está calor, mas ela acha que seus braços estão
musculosos demais, então escolhe não mostrar.
E fica à vontade dentro daquilo que ela escolheu, porque
combina com o jeito dela. A maioria das pessoas que você
vê nas revistas de celebridades se veste para fazer
sucesso, não para ficar à vontade.
Veja
Como conciliar o estar à vontade com a elegância?
Costanza
Veja a Sofia Coppola. Ela foi ganhar o Globo de Ouro de
salto baixo! Foi com um vestidinho de jérsei preto
e sem uma jóia. E no meio daquela peruada era a mulher
mais chique da noite. Porque ela é desse jeito, o estilo
de vida dela é assim.
Veja
Como você definiria seu estilo?
Costanza
Eu ponho a mesma base e mudo os acessórios.
Veja
O que você chama de seu básico?
Costanza
Sapato baixo, calça preta e t-shirt preta. O resto
é o blazer do fulano, a jaqueta da Isabela Capeto,
as blusas da Marni. Adoro essas misturas e hoje estou legal
para fazer isso. Não faria há três ou
quatro anos porque estava me achando gorda e caída.
Tinha só um xale vermelho, que cobria tudo e pronto.
Veja
De que forma você chegou a seu estilo?
Costanza
Quando era mais jovem, usei muito a roupa para me sentir
mais segura. Podia ser a mais burra, a menos informada, mas
sabia que, na aparência, eu me segurava. Então,
me vestia para os outros. Só a partir dos 45 é
que passei a me vestir da forma que me sentia legal. Mas estilo
é uma coisa que você constrói todo dia.
Já fiz coisas horríveis, já me vesti
mal pra chuchu.
Veja
Por exemplo?
Costanza
Já usei um trench coat de cetim rosa.
Veja
Dá para nascer com estilo?
Costanza
A gente erra bastante para acertar. Acho que ninguém
tem estilo antes de uma certa idade a não ser
que você seja uma Kate Moss, que é uma menina
que tem um talento inato para inventar looks que são
copiados no mundo inteiro. Tem também aquelas mulheres
fantásticas: Jackie Kennedy, Audrey Hepburn
elas faziam o que queriam. Imagine usar sapatilhas de balé
com calça capri e camisa branca em 1956. Todo mundo
andava de salto, calça era uma coisa esportiva, não
se usava na cidade. Tinha de ter coragem para fazer aquilo.
Veja
Como descobrir o próprio estilo?
Costanza
Um bom exercício é a gente se olhar no
espelho várias vezes, friamente, da cabeça aos
pés. Observar como funciona o cabelo atrás,
de lado, de perfil. Se você consegue se ver como é
de fato, pode até achar vários defeitos, mas
vai aprender a usar o que lhe favorece.
Veja
Existe algo que derrube qualquer estilo?
Costanza
Antigamente se dizia que sapato tinha de ser preto,
bota branca jamais. Continuo achando bota branca uma coisa
monstruosa, mas o que conta hoje é a harmonia do conjunto.
O maior erro é você estar dissociada daquilo
que está usando. Imagine uma mulher exuberante, sexualmente
agressiva, que se veste toda romântica, de lacinhos.
Isso é estar dissociada da roupa: ela fica parecendo
aquele elefante da Disney que usa sapatilha de bailarina.
Veja
A valorização do estilo é coisa
recente?
Costanza
Do fim do século XIX até os anos 50, a
moda servia fundamentalmente para conferir status. As pessoas
tinham como referência o chique, que era um modelo que
a elite criava e os outros copiavam. Hoje, o contemporâneo
é o chamado high-low uma mistura do que é
mais popular com uma coisa chique, para dar essa descontração,
o ponto certo do negócio. Por isso é que eu
acho que a patricinha está fadada à extinção.
Porque ela é a representação da riqueza,
daquilo que é poderoso, caro, grifado e também
daquilo que é pronto. Elas usam tudo igual: cabelo
igual, jeito de falar igual, salto igual, combinações
iguais. Não ousam nada além daquela calça
justa e daquele top.
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