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pitonisa de Milão Com sua habilidade de perceber
antes o que o público deseja, Miuccia Prada dita o rumo que a
moda vai tomar 
Erika Palomino
Uma
única estilista consta da lista da revista Time das 100 pessoas
mais influentes do mundo: na seção Artistas, crava seu nome a italiana
Miuccia Prada, menos pelos números da marca que dirige e muito mais por
sua incrível percepção, ou "intuição", como
ela define. Aos 55 anos, tímida, avessa a entrevistas, festas e eventos
(a antítese, portanto, de seus pares, Donatella Versace à frente),
Miuccia representa, na moda, a intérprete de seu tempo, uma verdadeira
antena parabólica de vontades. Mais que isso: ela antecipa vontades, lançando
em seus desfiles em Milão uma moda que ainda nem sabíamos que queríamos.
Munida desse talento, transformou a Prada, uma centenária marca italiana
de bagagens (herança do avô), na mais copiada grife de moda do planeta,
presente nas vitrines pop dos bairros idem em pontos tão distantes quanto
o Harajuku, em Tóquio, e o Bom Retiro, em São Paulo. O visual anos
50 que se adota agora, de cintura marcada e saia rodada, usado com escarpim, apareceu
pela primeira vez na passarela de Miuccia, há quase dois anos, reinterpretado
em proporções atuais e materiais tecnológicos. Mesmo quem
não conhece a Prada e se conhecesse talvez achasse muita coisa "feia"
ou "estranha" possivelmente tem alguma coisa calcada nela no guarda-roupa:
uma bolsa, um sapato, uma estampa, uma fivela ou até o simpático
e mundialmente imitado berloque de robozinho.
Stefano Rellandini/Reuters  |
MÍNIMA EXPOSIÇÃO
Doutora em ciências sociais, ex-comunista e avessa a festas: Miuccia
é a antítese dos colegas estilistas | O
processo de "pradização" da moda se desenvolve desde meados dos
anos 80, quando Miuccia lançou a célebre linha de bolsas e mochilas
pretas de náilon que popularizou o material e detonou a febre pelo triângulo
metálico invertido em que se lê o nome da casa. É da mesma
época o tênis com cara de sapato (ou será sapato com cara
de tênis?) que chegou, viu e venceu no mundo dos calçados. Ela havia
assumido há poucos anos a empresa, ocupando o lugar da mãe. A contragosto,
diga-se: mímica com cinco anos de aprendizado, doutora em ciências
sociais, na época Miuccia era militante feminista e membro do Partido Comunista
Italiano. Sem jamais perder o estilo: panfletava nos anos 70 vestindo Yves Saint
Laurent e André Courrèges, os grandes nomes da época. A experiência
de menina rica que circulava à vontade nos meios de esquerda provavelmente
ajudou Miuccia a apreender melhor que a maioria, e a explorar com maestria, a
essência burguesa da moda desde que, no fim do século XV, os nobres
passaram a multiplicar novas maneiras de vestir para se diferenciar da burguesia,
que teimava em copiá-los justamente para poder se sentir com um pé
na aristocracia. Essa engrenagem, que desde então só se acelerou,
foi plenamente colocada por Miuccia a seu serviço desde a aclamada estréia,
em 1989, quando seu rigoroso minimalismo ajudou a desconstruir a exuberante estética
dos anos 80. No momento em que todos haviam aderido ao preto simples e seco, Miuccia
e seu inigualável timing coloriram e estamparam as roupas. E assim caminhava
a moda, bem decorativa, cheia de cores e otimismo, quando, nos desfiles do início
deste ano para o inverno 2006, Miuccia de novo virou a casaca. Abriu seu desfile
com uma série de vestidos e casacos pretos, e o escuro voltou imediatamente
a ser fashion. Literalmente: no dia seguinte, pretinhos ocupavam a maioria das
cadeiras na primeira fila, aquelas em que se sentam as influentes editoras de
moda.
Stefano Rellandini/Reuters  |
ARTE PLUMÁRIA
Seduzidas por tudo o que é Prada, as poderosas da primeira fila
aprovam desde a ausência de cores até extravagâncias como a
antológica saia de penas de pavão |
Um dos segredos de Miuccia Prada é exatamente esse: ter sido adotada desde
o início pela elite da moda, que, bem estimulada, usa antes as coisas mais
excêntricas, sejam elas sapatos plataforma prateados, seja uma pouco confortável
mas deslumbrante saia de penas de pavão, e as transforma em objeto de cobiça
planetária. As mesmas moças elegantes costumam receber de Miuccia,
em primeiríssima mão, as chamadas "bolsas da estação".
Imediatamente todas as outras mulheres presentes em Milão precisam ter
a sua e, até o fim do mês dos lançamentos, não restará
uma única peça nas lojas. Outro segredo de Miuccia nem é
segredo e tem nome e sobrenome: seu marido, Patrizio Bertelli, o comandante da
virada que pôs a Prada no patamar dos grandes conglomerados de luxo, valendo
2 bilhões de dólares. O segundo homem forte da tropa de Miuccia,
depois de Bertelli, é Fabio Zambernardi, o discreto e educado diretor de
acessórios da marca que, na prática, atua como seu braço-direito.
Zambernardi é tido como o responsável por injetar mais juventude
e humor tanto na Prada quanto na segunda linha, a Miu Miu, uma transposição
em materiais mais baratos das propostas da marca-mãe, retocadas pela energia
que vem das ruas e com um pé no estilo vintage.
Como moda é comércio, e Miuccia é Miuccia, ela decidiu a
certa altura fazer do ato de comprar Prada uma espécie de experiência
cultural. Contratou o visionário arquiteto holandês Rem Koolhaas,
a quem encomendou uma loja com jeito de galeria, sem nome na fachada, onde os
produtos teriam status de obra de arte. O endereço do Soho, aberto em dezembro
de 2001, virou ponto turístico de Manhattan. O nome do projeto não
poderia ser mais sugestivo: Prada Universe. De fato, das profundezas do universo
da moda, como uma sacerdotisa que fala por enigmas, Miuccia Prada comanda o espetáculo.
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