O fabuloso mundo da nova Daslu

Os conglomerados globais do luxo

Dior: a reinvenção
do gênio


O rosto de ouro de Isabeli Fontana

Alta-costura é risco
e fantasia


Os artesãos por trás do sonho

Moda hoje: como acertar na mistura

O xadrez chique
da Burberry


Sapatos para gastar, andar e seduzir

O brasileiro da
Calvin Klein


Os brilhantes de
Hebe Camargo


Do jeitinho das estilistas do momento

Maquiagem: o poder da beleza

Onde nascem
os modismos


Miuccia Prada faz, os outros vão atrás

A incrível transformação das gêmeas Olsen

Como é feito um vestido de 7 000 reais
Gloria Kalil
   
 

Big Bang
É aqui que as modas nascem

Engana-se quem pensa que os estilistas se trancam
numa sala para se inspirar. Pelo contrário: eles olham
para a rua, que é o berço de tudo


Erika Palomino

Onde começa a moda? Quem usa primeiro as peças mais diferentes, quem são os precursores das idéias que depois serão adotadas por todos – ou por muitos? Não são, isso é certo, os estilistas, do alto das passarelas. Nem as revistas especializadas. As ruas é que mandam, e nelas alguns personagens funcionam como lançadores de tendências e modismos. Não são famosos, necessariamente, mas é um tipo de gente que, dentro de seu grupo, tem carisma e personalidade suficientes para inventar e ser copiado. Outra contribuição desses early adopters (aqueles que adotam antes), como a indústria os chama, é enterrar de vez o conceito de tribos fixas. Hoje, as fronteiras flexíveis, da moda e do comportamento, permitem que se escolha uma tribo a cada quinze minutos: a mesma menina pode ser patricinha num momento, hippie no outro, punk num terceiro e romântica nas horas vagas. A seguir, alguns pontos de irradiação de novidades, e seus personagens.


PERUA? DE JEITO NENHUM


Fotos Marco Pinto

Uma loja vende roupas. A Daslu, epicentro paulistano das ricas, bem-nascidas e aspirantes a tudo isso, vende um universo. As vendedoras, todas meninas de família, com sobrenomes que são nome de rua, são também a expressão máxima – e precursora – de um estilo facilmente identificável em festas fechadas e restaurantes caros. Elas usam primeiro; as clientes, depois. O visual começa pelo cabelo comprido e espichado, que já exibiu obrigatórias mechas louríssimas, mas hoje é o quase-castanho da moda. Depois vem a calça justa, jeans ou branca. Salto alto é compulsório. Mariana Penteado, responsável pelas compras das marcas brasileiras vendidas na loja, é uma dessas referências – uma top-dasluzete, como se diz. As roupas são importantes – Gucci, Chanel –, mas usadas com descontração estudada. "Uso quase sempre jeans, com uma parte de cima mais arrumada. Acho importante balancear", diz Mariana.

 

NA VIDA, COMO NO PALCO

Rock vem, rock vai, mas fica sempre rondando no inconsciente coletivo. De dois anos para cá, vive-se uma onda de expansão da influência do estilo dos roqueiros sobre grandes marcas dentro e fora do Brasil. Os elementos do visual rock são os vistos em shows desde sempre: muito preto, camiseta, tênis All Star, jeans estragado... Onde encontrar tudo isso? Na Galeria do Rock, claro, o reduto oficial dos roqueiros no centro de São Paulo. Por ali circulam os personagens do gênero, em busca de novidades ou para trocar uma idéia. "Ultimamente tenho me interessado pelo estilo dos anos 70", diz o roqueiro Zeh, 25, que toca com duas bandas, Cobras Malditas e Orquestra Jupiteriana. "Nos shows e no dia-a-dia, o que importa para mim é o conforto", diz o guitarrista e baterista. A tendência mais recente do grupo roqueiro são as roupas de brechó, as camisetas estampadas ou coloridas, com aspecto envelhecido.

 

DA PRAIA PARA A CALÇADA

Localizada na virada de Ipanema para Copacabana, no Posto 6, a Galeria River sempre foi freqüentada pelos garotos espertos do Rio de Janeiro, mas lá agora passeiam com freqüência produtores de moda e stylists, em busca de itens que façam a passagem do esportivo para o fashion. É que o mundo do surfe transcendeu os limites das ondas e da areia e invadiu o prêt–porter, com tudo o que lhe é característico: os recortes, as cores, a tecnologia nos materiais (que não retêm calor e secam rápido). Com adaptações, claro, promovidas principalmente pela entrada de garotas nesse clube do Bolinha – no lugar dos tradicionais tribais em preto-e-branco, por exemplo, usam-se o pink e o laranja. "Adoro cores fortes", diz Marta Luciene, dona de uma loja de beachwear no Arpoador, adepta da bermudona, camiseta e sandália alta – e que sempre corta a perna dos jeans e a gola das blusas.

 

CRIAR PARA SER NOTADO

Em meados dos anos 90, bandos de garotos de periferia que adoravam tecno invadiram os clubes dos Jardins e do centro de São Paulo. Ganharam um rótulo – cybermanos – e impuseram um estilo: cabelo endurecido e (mal) tingido à moda punk, saia, coturno, acessórios malucos. Sempre que possível, dão uma passadinha na Galeria Ouro Fino, onde podem conferir as últimas da moda clubber-raver – aquela em que o importante, acima de tudo, é chamar atenção. "Eu me visto conforme a situação e a reação que quero causar nas pessoas", diz Jota Jota Davies, 30, host de noites underground, que começou cybermano mas emergiu desse universo para se tornar uma das pessoas com o visual mais criativo de toda a cena eletrônica na cidade. "Quando não tenho inspiração certa, olho para meus macacões e para meus chapéus, que coleciono desde a infância", diz Jota.

 

GRAFITE E ATITUDE

Streetwear é, literalmente, a moda que vem das ruas. Mais que isso, porém, streetwear é uma linguagem que tem no conforto e na atitude seus principais fundamentos. Proporções largas, camisetonas, acessórios a rodo. Ou melhor: à vera, como eles dizem. A linguagem vem do hip hop, estilo musical que se tornou uma das mais influentes correntes da moda. A expressão visual dessa estética é o grafite, que tem tudo a ver com o aspecto urbano. Caminhe pela Vila Madalena, em São Paulo, a qualquer hora do dia e da noite, e esse desfile estará lá, em meio a lojinhas descoladas, galerias e zilhões de bares e restaurantezinhos, entre chopes e muita conversa. Detalhe: tudo parecendo normal, sem nenhum planejamento. "Jamais fico preso a regras. Minha única regra pessoal é usar poucas cores. Gosto de preto, branco e cinza", diz Guigo, 30, promoter de algumas das noites de black music mais disputadas da cidade.

 

A RUA DAS BEM-ARRUMADAS

A Rua Oscar Freire e adjacências são o principal símbolo da elegância paulistana despojada mas ligada no fashion e bem-cuidada. No alto dessa passarela reinam soberanas as vendedoras das lojas da região, sempre antenadas e produzidas. "Minhas cores preferidas são vermelho, preto e amarelo", diz Alethea, 25, que trabalha na Doc Dog, núcleo fashion responsável por difundir entre um público mais endinheirado itens chiques do mundo clubber e vertentes como o boudoir (elementos femininos), o glam (o glamour do strass e das plumas) e o fetiche (vinil e linguagem vinda do universo sadomasoquista). "Gosto de roupas alternativas, mas não gosto de montação fake", avisa Alethea, num recado à moça que se arruma toda para fazer de conta que está displicentemente fazendo umas comprinhas por lá.