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Bang É aqui que as modas nascem Engana-se quem
pensa que os estilistas se trancam numa sala para se inspirar. Pelo contrário:
eles olham para a rua, que é o berço de tudo 
Erika Palomino
Onde começa
a moda? Quem usa primeiro as peças mais diferentes, quem são os
precursores das idéias que depois serão adotadas por todos
ou por muitos? Não são, isso é certo, os estilistas, do alto
das passarelas. Nem as revistas especializadas. As ruas é que mandam, e
nelas alguns personagens funcionam como lançadores de tendências
e modismos. Não são famosos, necessariamente, mas é um tipo
de gente que, dentro de seu grupo, tem carisma e personalidade suficientes para
inventar e ser copiado. Outra contribuição desses early adopters
(aqueles que adotam antes), como a indústria os chama, é enterrar
de vez o conceito de tribos fixas. Hoje, as fronteiras flexíveis, da moda
e do comportamento, permitem que se escolha uma tribo a cada quinze minutos: a
mesma menina pode ser patricinha num momento, hippie no outro, punk num terceiro
e romântica nas horas vagas. A seguir, alguns pontos de irradiação
de novidades, e seus personagens. PERUA?
DE JEITO NENHUM
Fotos Marco Pinto  |
Uma loja vende roupas. A Daslu, epicentro
paulistano das ricas, bem-nascidas e aspirantes a tudo isso, vende um universo.
As vendedoras, todas meninas de família, com sobrenomes que são
nome de rua, são também a expressão máxima
e precursora de um estilo facilmente identificável em festas fechadas
e restaurantes caros. Elas usam primeiro; as clientes, depois. O visual começa
pelo cabelo comprido e espichado, que já exibiu obrigatórias mechas
louríssimas, mas hoje é o quase-castanho da moda. Depois vem a calça
justa, jeans ou branca. Salto alto é compulsório. Mariana Penteado,
responsável pelas compras das marcas brasileiras vendidas na loja, é
uma dessas referências uma top-dasluzete, como se diz. As roupas
são importantes Gucci, Chanel , mas usadas com descontração
estudada. "Uso quase sempre jeans, com uma parte de cima mais arrumada. Acho importante
balancear", diz Mariana. NA
VIDA, COMO NO PALCO
Rock vem, rock vai, mas fica sempre rondando no inconsciente coletivo. De dois
anos para cá, vive-se uma onda de expansão da influência do
estilo dos roqueiros sobre grandes marcas dentro e fora do Brasil. Os elementos
do visual rock são os vistos em shows desde sempre: muito preto, camiseta,
tênis All Star, jeans estragado... Onde encontrar tudo isso? Na Galeria
do Rock, claro, o reduto oficial dos roqueiros no centro de São Paulo.
Por ali circulam os personagens do gênero, em busca de novidades ou para
trocar uma idéia. "Ultimamente tenho me interessado pelo estilo dos anos
70", diz o roqueiro Zeh, 25, que toca com duas bandas, Cobras Malditas
e Orquestra Jupiteriana. "Nos shows e no dia-a-dia, o que importa para mim é
o conforto", diz o guitarrista e baterista. A tendência mais recente do
grupo roqueiro são as roupas de brechó, as camisetas estampadas
ou coloridas, com aspecto envelhecido. DA
PRAIA PARA A CALÇADA Localizada
na virada de Ipanema para Copacabana, no Posto 6, a Galeria River sempre foi freqüentada
pelos garotos espertos do Rio de Janeiro, mas lá agora passeiam com freqüência
produtores de moda e stylists, em busca de itens que façam a passagem do
esportivo para o fashion. É que o mundo do surfe transcendeu os limites
das ondas e da areia e invadiu o prêtporter, com tudo o que lhe é
característico: os recortes, as cores, a tecnologia nos materiais (que
não retêm calor e secam rápido). Com adaptações,
claro, promovidas principalmente pela entrada de garotas nesse clube do Bolinha
no lugar dos tradicionais tribais em preto-e-branco, por exemplo, usam-se
o pink e o laranja. "Adoro cores fortes", diz Marta Luciene, dona de uma
loja de beachwear no Arpoador, adepta da bermudona, camiseta e sandália
alta e que sempre corta a perna dos jeans e a gola das blusas.
CRIAR PARA SER NOTADO
Em
meados dos anos 90, bandos de garotos de periferia que adoravam tecno invadiram
os clubes dos Jardins e do centro de São Paulo. Ganharam um rótulo
cybermanos e impuseram um estilo: cabelo endurecido e (mal) tingido
à moda punk, saia, coturno, acessórios malucos. Sempre que possível,
dão uma passadinha na Galeria Ouro Fino, onde podem conferir as últimas
da moda clubber-raver aquela em que o importante, acima de tudo, é
chamar atenção. "Eu me visto conforme a situação e
a reação que quero causar nas pessoas", diz Jota Jota Davies,
30, host de noites underground, que começou cybermano mas emergiu desse
universo para se tornar uma das pessoas com o visual mais criativo de toda a cena
eletrônica na cidade. "Quando não tenho inspiração
certa, olho para meus macacões e para meus chapéus, que coleciono
desde a infância", diz Jota. GRAFITE
E ATITUDE Streetwear
é, literalmente, a moda que vem das ruas. Mais que isso, porém,
streetwear é uma linguagem que tem no conforto e na atitude seus principais
fundamentos. Proporções largas, camisetonas, acessórios a
rodo. Ou melhor: à vera, como eles dizem. A linguagem vem do hip hop, estilo
musical que se tornou uma das mais influentes correntes da moda. A expressão
visual dessa estética é o grafite, que tem tudo a ver com o aspecto
urbano. Caminhe pela Vila Madalena, em São Paulo, a qualquer hora do dia
e da noite, e esse desfile estará lá, em meio a lojinhas descoladas,
galerias e zilhões de bares e restaurantezinhos, entre chopes e muita conversa.
Detalhe: tudo parecendo normal, sem nenhum planejamento. "Jamais fico preso a
regras. Minha única regra pessoal é usar poucas cores. Gosto de
preto, branco e cinza", diz Guigo, 30, promoter de algumas das noites de
black music mais disputadas da cidade. A
RUA DAS BEM-ARRUMADAS A
Rua Oscar Freire e adjacências são o principal símbolo da
elegância paulistana despojada mas ligada no fashion e bem-cuidada. No alto
dessa passarela reinam soberanas as vendedoras das lojas da região, sempre
antenadas e produzidas. "Minhas cores preferidas são vermelho, preto e
amarelo", diz Alethea, 25, que trabalha na Doc Dog, núcleo fashion
responsável por difundir entre um público mais endinheirado itens
chiques do mundo clubber e vertentes como o boudoir (elementos femininos), o glam
(o glamour do strass e das plumas) e o fetiche (vinil e linguagem vinda do universo
sadomasoquista). "Gosto de roupas alternativas, mas não gosto de montação
fake", avisa Alethea, num recado à moça que se arruma toda para
fazer de conta que está displicentemente fazendo umas comprinhas por lá.
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