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poder da beleza Colorir, enfatizar, disfarçar:
os truques de maquiagem são uma eterna reinvenção Existem
mulheres que se levantam de manhã, passam uma água no rosto e vão
para a rua, intocadas como a natureza as fez. Benditas sejam. E existem todas
as outras que, diante do espelho, se entregam ao ritual de dar uma forcinha ao
patrimônio genético, reinventando diariamente a persona com que se
apresentam ao mundo. O tom dos lábios ora é róseo, ora carmim,
a espessura das sobrancelhas é ditada por modismos, a cor da tez desejável
pode ser alva ou mais banhada pelo sol. Mas o que deve ser ressaltado e
de que maneira é uma constante que se perpetua através dos
tempos. Algumas das maiores beldades da história humana aparecem nas fotos
destas páginas, e é notável a similaridade dos artifícios
usados, desde Nefertiti, a deslumbrante rainha que reinou no Egito há quase
3 400 anos, até Catherine Zeta-Jones, a atriz que já foi considerada
o modelo hollywoodiano de beleza deste início do terceiro milênio.
AFP  | AFP
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TRAÇO HISTÓRICO
De Nefertiti, a rainha egípcia da 18ª dinastia, passando por beldades hollywoodianas
de épocas variadas, como Greta Garbo, Elizabeth Taylor e Catherine Zeta-Jones,
a mesma constante: sobrancelhas depiladas, olhos aumentados e lábios pintados
para projetar a beleza | AP
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rainha egípcia as sobrancelhas raspadas e redesenhadas como em Greta
Garbo, a musa sueca são quase masculinas pelos padrões atuais,
mas todo o resto poderia freqüentar qualquer página de revista de
celebridades, dos lábios carnudos ressaltados pelo vermelho aos olhos contornados
com kohl, praticamente idênticos à maquiagem usada por Elizabeth
Taylor e não apenas quando interpretou uma sucessora distante de
Nefertiti, a produzidíssima Cleópatra. A ensaísta americana
Camille Paglia escreveu que "o Egito inventou o glamour, a beleza como poder e
o poder como beleza", usando o busto de Nefertiti, descoberto por arqueólogos
alemães no começo do século XX, como o marco zero dessa invenção.
As semelhanças nos truques
de maquiagem já foram estudadas por vários ramos da ciência,
desde a antropologia até a psicologia evolutiva, que busca raízes
do comportamento atual em vantagens reprodutivas incorporadas por nossos ancestrais
mais remotos. A idéia geral da maquiagem é ressaltar traços
de juventude e saúde valorizados pelos machos nas companheiras escolhidas
para perpetuar seus preciosos genes. Daí os olhos aumentados a proporções
quase infantis, as imperfeições da pele disfarçadas, as faces
artificialmente rosadas. Para a boca rubra e úmida, o antropólogo
Desmond Morris, pai de todos os "psicoevolucionismos", saiu-se com a seguinte
tese: como nas sociedades humanas as mulheres escondem sob as roupas as características
sexuais primárias, os lábios pintados emulam os genitais das fêmeas
dos grandes primatas na época do cio, como forma de chamar a atenção
dos machos. Bem, há cientistas
que fazem coisas bem piores para chamar atenção. Reduzir os truques
de maquiagem a macaquices biologicamente determinadas ou confiná-los ao
terreno da futilidade extrema é uma constante de todos os pensadores
e moralistas de raízes puritanas. Para toda uma corrente feminista,
as mulheres são seres frágeis e indefesos cruelmente manipulados
por uma indústria perversa que as obriga a se conformar a rígidos
padrões de beleza. Sêneca, o grande filósofo estóico
romano, já imprecava contra cortejos de jovens "com o rosto emplastrado
de pomada, para que nem o sol nem o frio ofendam a sua tenra pele" um sinal
de que o conceito do protetor solar não é assim tão contemporâneo.
As grandes religiões monoteístas em algum momento implicaram com
as mulheres que se maquiam e no Irã dos aiatolás fundamentalistas
chegaram a existir até bem recentemente patrulhas da sombra e do batom.
As mulheres podiam ser humilhadas e punidas pelo crime de usar maquiagem. Hoje,
muitas iranianas reconquistaram, por meio de uma espécie de resistência
nada passiva, o direito de pintar os olhos, colorir os lábios e até
de deixar umas mechas de cabelo aparecer, sob o véu ainda obrigatório.
Em face do poder da beleza, nem os aiatolás agüentaram. | |