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cima do salto Cada vez mais bonitos, mais chiques e mais
ornamentados, os sapatos viram objeto de culto. E a maioria das mulheres
se prostra 
Sílvia Mascella
Fotos divulgação  | ação
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PELES E PENAS
Seja contrastando cristais com maciez na sandália Gucci (à
esq.) ou plástico com penas de faisão na Roger Vivier (à
dir.), estes sapatos têm três pontos em comum, todos bem altos:
preço, salto e potencial erótico | Eles
são irresistíveis. Têm curvas sensuais, formatos surpreendentes,
cores provocantes, materiais inusitados. Melhor ainda: num mundo em que manequim
acima de 40 parece uma anomalia, caem bem até em quem está acima
do peso. Para muitas mulheres, comprar um par de sapatos é prazer capaz
de aliviar demissão, dor-de-cotovelo, traição, coração
partido e até algum desastre na cadeira do cabeleireiro. As egípcias,
3 000 anos antes de Cristo, já ornamentavam os pés com jóias.
No Império Romano, as sandálias das imperatrizes exibiam (como hoje,
aliás) tiras incrustadas com pedras preciosas. Um sapatinho de cristal
(tremendamente incômodo, com certeza, mas quem é que vai se importar
com isso numa hora dessas?) uniu Cinderela a seu príncipe encantado e desde
então muitas mulheres viveram infelizes para sempre por não ter
um igual. "Um belo par de sapatos faz a mulher se sentir tão poderosa que
pode mudar totalmente a maneira como ela se porta", garante Tamara Mellon, presidente
da empresa que fabrica os cobiçadíssimos Jimmy Choo.
Tesouro muitas vezes enterrado no closet feminino, disponível apenas aos
olhos (maravilhados) da dona, sapatos abrem na alma e no talão de
cheques das mulheres uma comporta difícil de ser controlada. Que
o confirmem a voraz ex-primeira-dama filipina Imelda Marcos (3 000 pares), sua
colega de consumo Lily Marinho (confissão presente no livro Roberto
& Lily), a mitológica Evita Perón (900 pares) e, distante
em número mas não menos impressionante, a empresária Lucília
Diniz (300 pares, sendo que o preferido, uma sandália Louis Vuitton, ela
quase não usa "para não gastar"), a atriz Cláudia Raia (300
pares), Hebe Camargo (200 pares) e muitas, muitas outras. Por que tanto encanto?
Enquanto uma bonita bolsa, de grife importante, satisfaz o senso de estilo e alimenta
a auto-imagem social, os sapatos fazem tudo isso e ainda agem numa área
muito mais sensível: a do erotismo. Belos sapatos aumentam o potencial
de sedução, e não é preciso ser nenhum podólatra
para entender por que o fetichismo em torno dos pés tem um capítulo
especial na história do comportamento erótico. Em termos bem objetivos,
o sapateiro chique Fernando Pires, conhecido pelos modelos escancaradamente fetichistas,
resume: "Eu procuro fazer produtos que seduzam as mulheres. Elas, por sua vez,
vão seduzir seus namorados e maridos e causar inveja nas amigas". Quanto
mais alto o salto, maior a obsessão. Ao forçar para cima o arco
do pé, um par de saltos altos obriga a mulher a empinar seios e nádegas
e adotar um andar ondulante, entendido pelos que gostam de dominar como uma oferta
e pelos que gostam de ser dominados como uma ordem. Aí reside, justamente,
o fascínio do salto agulha, diz a inglesa Caroline Cox, autora de Stiletto:
ele torna a mulher, ao mesmo tempo, "submissa e agressiva, fetiche e fetichista,
predadora e presa". Prazer escondido
por saias volumosas que se arrastavam no chão, só no começo
do século XX os sapatos femininos avançaram à cena aberta.
Nas maisons de alta-costura, em Paris, e nos ateliês italianos, calçados
se casaram com luxo pelas mãos de artesãos refinados como André
Perugia, Salvatore Ferragamo e Roger Vivier, até hoje sinônimos de
excelência em calçados. A Vivier, falecido em 1998, credita-se a
invenção do salto agulha. "Roger deixou um legado de estilo único,
muito elegante. O que eu faço é interpretar esse estilo para o mundo
moderno", diz seu substituto, o francês Bruno Frisoni. A marca Perugia deixou
de existir, mas a Ferragamo, fundada em 1927, permanece em plena atividade, tocada
pelos herdeiros. Seguindo a trilha
dos três desbravadores, diversos sapateiros de luxo se destacaram na história
recente dos calçados. Atualmente, imperam o canadense Patrick Cox, o sino-malásio
Jimmy Choo, o cidadão do mundo Manolo Blahnik (nasceu nas Ilhas Canárias,
foi educado na Suíça e mora em Londres), o italiano Sergio Rossi
e o francês Christian Louboutin. Estes, os independentes, visto que todas
as grandes grifes de luxo Gucci (a sandália de pele e cristais
da foto da esquerda), Chanel, Yves Saint Laurent, Prada, Valentino
lançam a cada temporada sua própria, exclusiva e cara coleção
de calçados. Um Jimmy Choo imprime na etiqueta até 1 700 dólares
(4 200 reais) quando o sapatinho tem detalhes preciosos. "Nossos calçados
são feitos a mão, por artesãos italianos. Os materiais são
selecionados com muito rigor e todos os detalhes são perfeitos", justifica
Tamara, da Jimmy Choo. Frisoni, da Vivier, criador de uma obra-prima com tira
transparente e calcanhar e salto recobertos de delicadas penas de faisão
(3 900 dólares, ou 9 700 reais), destaca a sofisticação dos
materiais. "Um macio par de botas de pele de cobra ocupa na mala o mesmo espaço
que uma sapatilha", argumenta. E pergunta: "Não é um luxo viajar
chique e levando pouco peso?". Única resposta possível, acompanhada
de um suspiro profundo: "Se é". | |