| | Xadrez
chique da trincheira à passarela A história
da marca que saiu da chuva para os desfiles de moda e o gosto dos modernos
em geral 
Silvia Rogar, de Londres
Divulgação  |
PARA SE MOLHAR
De capa impermeável, usada pelos militares ingleses no começo do
século XX, a vestidinho sexy de Kate Moss, no século seguinte (foto):
"Fazer uma Burberry" virou sinônimo de tirar a poeira de uma marca envelhecida
e reinventá-la em linguagem jovem e moderna |
Não muito tempo atrás, a clientela da marca Burberry dividia-se
entre velhinhas de bochechas rosadas e turistas japoneses de passagem pelo Reino
Unido. As lojas mais sofisticadas nem sequer estocavam seus produtos e a empresa
parecia condenada à caretice eterna. Fundada em 1856, fazia parte das tradições
britânicas, assim como a rainha, os sanduíches de pepino e outras
bizarrices. Até que um time de primeira linha conseguiu o que parecia impossível:
transformar a Burberry num dos maiores fenômenos da indústria da
moda na passagem para o século XXI. Virou até verbo. "Fazer uma
Burberry" significa hoje tirar a poeira de uma marca tradicional, modernizar as
coleções e, claro, vender horrores caso do inconfundível
xadrez da grife (branco, preto e vermelho sobre fundo bege), que estampa desde
roupas de modernérrimas tribos urbanas inglesas até gente da nobreza,
passando pelos hooligans, os arruaceiros fanáticos por futebol.
A reviravolta começou em 1997, quando
o grupo Great Universal Stores (GUS), que detém a maior parte das ações
da Burberry, convidou a americana Rose Marie Bravo, presidente da loja de departamentos
Saks Fifth Avenue, para ser executiva-chefe da marca. A primeira providência
dela foi buscar no mercado o que havia de mais sofisticado e comercial.
Contratou o fotógrafo Mario Testino, com seu toque de Midas à frente
de uma câmera, para cuidar das campanhas publicitárias. Recrutou
Kate Moss, a modelo que tem a imagem mais valiosa do mundo da moda, para ser a
garota-propaganda. O time ficou completo em 2000, com a chegada do estilista Christopher
Bailey, 34 anos, muito moderno e, ao mesmo tempo, tão nitidamente inglês
quanto... bem, quanto a Burberry.
O sucesso da marca é atribuído a uma democratização
não de preços (longe disso), mas de produtos. Nessa reviravolta,
a Burberry já lançou de tudo, de cobertor para cachorro a calcinhas
sensuais. "A nossa idéia é vestir do bebê à vovó,
da realeza aos cantores de rock. E tudo o que estiver no meio disso", explicou
Bailey, em entrevista a VEJA. Ele coordena mais de quinze coleções
por ano. A mais sofisticada, a Burberry Prorsum, é apresentada na Semana
de Moda de Milão e reflete na passarela aquilo que os jovens ingleses sempre
souberam fazer como poucos: misturar estampas e cores, sobrepor peças,
embaralhar o clássico com o novo. "A gente chama isso de elegância
descontraída. Usamos o tradicional de um jeito mais desalinhado, casual.
Essa brincadeira faz parte do estilo britânico de se vestir, sempre um pouco
descabelado e desarrumado", diz Bailey.
As roupas dos desfiles vendem pouco, mas servem de inspiração para
as linhas efetivamente rentáveis, como a Burberry London, coleção
mais extensa e popular que não existia antes de Rose Marie (assim como
bolsas, óculos de sol, sapatos, lingerie e linha infantil). No ano passado,
a Burberry movimentou o equivalente a mais de 3 bilhões de reais, 15% a
mais que no ano anterior. Bailey
diz que sua maior fonte de inspiração são os arquivos da
própria Burberry. "As roupas da marca sempre foram funcionais, com algum
apelo estético", diz. Funcionais, sem dúvida: quando fundou a empresa,
Thomas Burberry estava mais interessado em cobrir o corpo dos fregueses com roupas
resistentes. Sua grande tacada foi desenvolver um tecido impermeável, que
foi batizado de gabardine e virou matéria-prima de capas de chuva e da
indumentária de exploradores e esportistas. Em 1901, Burberry foi contratado
para desenhar a nova farda dos oficiais britânicos. Nascia o trench coat
("casaco de trincheira"), a capa cáqui com forro xadrez que entrou no panteão
dos clássicos desde que foi usada pelos atores Humphrey Bogart e Ingrid
Bergman no filme Casablanca e é até hoje a marca registrada
da Burberry. O grande mérito da dupla Rose Marie-Bailey foi saber pegar
um produto empoeirado, mas com pedigree, sacudi-lo e reinventá-lo em linguagem
jovem e moderna sem que perdesse um pingo da pose. | |