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mestres, com carinho De um punhado de ateliês franceses
saem os complementos que infundem beleza e maestria às roupas
de alta-costura. São costureiras, bordadeiras, chapeleiros, floristas
e outros artesãos, todos unidos pela tradição, pela
habilidade, pela dedicação e pela mais preciosa das qualidades:
a paixão arrebatada pelo que fazem 
Flávia Varella, de Paris
Antonio Ribeiro  |
MUNDO
ENCANTADO
Chapelaria Michel, fundada em
1936: os estilistas sonham e os artesãos dão duro até trazer
o devaneio para a realidade | Ao
final de qualquer desfile, os aplausos são todos para o estilista. Na última
temporada de alta-costura, em Paris, John Galliano recebeu as homenagens fantasiado
de Napoleão. Karl Lagerfeld, da Chanel, percorreu a passarela vestido de
si mesmo, fazendo cintilar seu rabo-de-cavalo branco sobre os trajes negros e
tilintar os vinte anéis que usa regularmente. O momento de glória
é merecido: ao criador, as honrarias. Mas, por trás desses inventores
de obras-primas, trabalham centenas de artesãos com aptidões raras
e altamente especializadas, sem os quais vestidos e acessórios não
sairiam da imaginação dos criadores para a realidade. São
as costureiras, as bordadeiras, os sapateiros, os plumaceiros e os chapeleiros
da alta-costura. O próprio nome dessas especialidades já evoca uma
herança de séculos. É por causa da maestria o savoir-faire,
como dizem desses profissionais que a alta-costura é considerada
uma atividade exclusivamente francesa. É a exception française,
a exceção francesa, como proclamam orgulhosamente.
Boa parte da execução de um modelo de alta-costura acontece em ateliês
contratados pelas maisons para tarefas específicas. Um único modelo
pode trazer embutida a habilidade de dezenas de artesãos diferentes. A
contribuição de cada um deles permite a concretização
dos desenhos mais delirantes, das inovações que fazem da alta-costura
o laboratório que sustenta a constante efervescência da moda. No
fim do ano, Karl Lagerfeld desenhou um lindo chapéu de palha preto com
bordas largas. O problema era que sua idéia não parava na cabeça
de ninguém. Os artesãos da chapelaria Michel, fundada em 1936, foram
chamados. Depois de dezoito horas de experiências, o mestre chapeleiro Shariff
Hisaund, lançando mão de um aro invisível, chegou a um protótipo
perfeito.
Antonio Ribeiro  | Jerome
Delay/AP  |
Antonio Ribeiro  | NASCIDO
PARA BRILHAR
François Lesage, dos bordados legendários,
e vestido assinado por Karl Lagerfeld: flores, sapatos, bordados e até
a peruca de plumas de cisne branco, tudo é feito nos renomados ateliês
comprados pela Chanel | Nessas
oficinas que realizam os devaneios dos grandes estilistas e de algumas
privilegiadas clientes particulares cada etapa de produção
é feita por um especialista. São, em geral, locais de trabalho com
instalações simples, sem nada da decoração feérica
das lojas e maisons estreladas. No legendário ateliê Massaro, no
qual há 111 anos o único produto são sapatos, convivem quatro
profissionais distintos: um é responsável por fazer as fôrmas
de madeira, outro por cortar o couro, um terceiro se incumbe do solado e do salto
e o último monta tudo. Assim como as costureiras dos ateliês flou
(vestido de noite) e tailleur (de dia) não dividem trabalho, porque "têm
mãos diferentes", um montador de sapatos não se arriscará
jamais a talhar um salto. Há profissionais dedicadas apenas a montar flores
de tecidos. As camélias que tradicionalmente enfeitam as roupas Chanel
são feitas pela equipe de "floristas" do ateliê plumaceiro Lemarié.
Chegam a produzir 40 000 camélias por ano. As pétalas pré-cortadas
são arranjadas uma a uma, costuradas a mão e ganham a forma final
com o fogo de uma espiriteira.
Antonio Ribeiro  |
PÉS NA HISTÓRIA Raymond
Massaro, da família que faz sapatos finos desde 1894, no subsolo forrado
de fôrmas: "É a minha biblioteca. Conforme o tipo de calçado
que tenho de fazer, desço para buscar a referência" |
Outro departamento do Lemarié
chama a si a responsabilidade de "fazer tudo aquilo que parece impossível,
que mesmo os ateliês de costura das maisons não conseguem fazer",
como explicou a VEJA, radiante de orgulho, o responsável artístico
Eric Charles-Donatien. A seu lado, uma costureira montava uma manga em várias
camadas sobrepostas que sairá de dentro de um tailleur na altura do cotovelo.
Cada meia-manga dessas utiliza 25 metros quadrados de tule de seda franzidos milimetricamente
e demora cinco horas para ficar pronta. Desse mesmo ateliê, saíram
as delicadas perucas de plumas de cisne branco que as manequins usaram no último
desfile Chanel. De pluma em pluma, cada peruca absorveu oito horas de trabalho.
Yves Saint Laurent dizia que a alta-costura
"é um segredo cochichado de geração em geração".
François Lesage, 76 anos, "nascido sobre um monte de miçangas e
lantejoulas", como gosta de lembrar, é o retrato disso. Em 1949, herdou
a oficina de bordado que seu pai havia comprado da família Michonet, que,
por sua vez, a mantinha desde 1868. Raymond Massaro, 75 anos, faz calçados
(ele não usa jamais a palavra "sapato") no 1º andar de um prédio
vizinho à Praça Vendôme, lugar em que seu clã vem se
dedicando a essa atividade desde 1894. É o mesmo endereço onde foi
feito, em 1958, o primeiro e antológico Chanel com calcanhar de fora e
bico de cetim preto. "A sandália bicolor Chanel foi o primeiro calçado
a usar elástico na tira que o prende acima do calcanhar. Com isso foi possível
eliminar a fivela", relembra Massaro. O savoir-faire desses mestres vem da tradição,
da experiência transmitida de artesão a artesão e, principalmente,
da paixão dedicada ao que fazem um ramo em que os franceses, em
diversas áreas, são insuperáveis.
Antonio Ribeiro  |
MAR DE PLUMAS
Artesã do ateliê Lemarié monta um vestido com plumas de avestruz:
departamento especial só para executar "tudo aquilo que parece impossível
para os outros" | No
subsolo do prédio do ateliê Massaro, quatro caves são entupidas
por cerca de 10 000 fôrmas de pé. "É a minha biblioteca",
diz Massaro. "Conforme o tipo de calçado que tenho de fazer, eu desço
para procurar uma fôrma que sirva como referência. Eu preciso vê-las,
tocá-las. Ninguém nem nenhum computador seria capaz de organizá-las
para mim", afirma. O uniforme de Massaro é um avental branco todo manchado
de graxa por cima de um elegante conjunto de camisa, gravata e malha. Com o avental,
ele trabalha nas oficinas. Quando o tira, é para receber as clientes, tirar
suas medidas, fazer uma das duas provas, a do protótipo em camurça
ou a do sapato já pronto, ou então para ir até o escritório
dos estilistas que só confiam nele para materializar suas idéias.
Às vésperas de um desfile, Massaro chega a percorrer cinco vezes
em um mesmo dia o caminho entre seu ateliê e o do estilista envolvido, até
chegar ao sapato que vai deixar as duas partes satisfeitas. "Eu adoro trabalhar
para a alta-costura. Sem os desafios que os estilistas impõem, a gente
corre o risco de ser um sapateiro de mulheres ricas e um tanto velhas", brinca.
No ateliê de François
Lesage também não há computador. Nem máquinas de bordado
ou costura. A ampliação da padronagem para o tamanho da roupa a
ser bordada é feita a mão pela desenhista. A perfuração
do tecido também. As 35 000 amostras de bordados com trabalhos feitos
para nomes legendários como o fundador da alta-costura Charles Frederick
Worth, Madame Vionnet, Elsa Schiaparelli, Christian Dior, Yves Saint Laurent e
praticamente todas as maiores grifes da moda estão guardadas em
caixas de papelão etiquetadas pela data e nome do cliente. O mesmo esquema
serve para o armazenamento de 60 toneladas de aviamentos. "É preciso ter
tudo à mão, e à vista, para imaginar o que ficará
melhor num bordado", diz Lesage.
A combinação de seu talento, da habilidade de suas 35 bordadeiras
e da infinidade de tipos de miçangas, canutilhos, paetês, pedras,
fios, fita e um longo etc. resulta em roupas excepcionais. Entre as proezas alcançadas
por Lesage estão bordados que funcionam como franjas, bordados que simulam
rendas e matelassê ou que, em forma de cordões de ouro, broches ou
alças de pedras preciosas, substituem as jóias. Em 1988, com 250
000 lantejoulas de 22 cores, 200 000 miçangas e 250 metros de fitas, Lesage
reproduziu os girassóis e as íris de Van Gogh em duas blusas imaginadas
por Yves Saint Laurent. Dez anos depois, graças a ele, Jean-Paul Gaultier
apresentou um prodigioso vestido imitando pele e cabeça de pantera, todo
bordado com miçangas. A chapelaria
Michel foi criada numa época em que as mulheres não saíam
às ruas com a cabeça descoberta. Os funcionários do Lemarié
dizem não conhecer outro ateliê especializado em plumas no mundo.
Monsieur Massaro conta que seu pai tinha cerca de 300 clientes que encomendavam
aproximadamente dez pares de calçados por ano cada uma. Hoje, ele tem 3
000 clientes, mas raramente elas aparecem por lá mais de uma vez ao ano.
O preço de um bordado Lesage é cobrado por hora de trabalho empregado.
Nos estoques do Lemarié há plumas de pássaros ameaçados
de extinção ou protegidos, como a ave-do-paraíso e o faisão
venerado. Uma vez utilizadas, nunca mais serão repostas. Na chapelaria
Michel, funciona a última máquina de costura de fita de palha do
mundo, e só restam vinte agulhas. A produção em escala, a
mecanização, a padronização, tudo hoje em dia parece
ameaçar a continuidade desses produtores de milagres de beleza estonteante.
Massaro, Lesage, Lemarié e Michel foram comprados pela Chanel. "Eu não
tenho filho homem para herdar o negócio. A venda foi a forma que encontrei
de perenizar a tradição da minha família", diz Massaro. Lesage,
além da venda, criou em 1992 uma escola de bordadeiras. Nas mãos
das grandes grifes, a arte desses mestres ganhou uma sobrevida. Merece ser sorvida
como um vinho raro, que ninguém sabe quanto tempo ainda vai durar.
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