| | Vitrine
global da fantasia A criatividade e o impacto da alta-costura
servem para chamar a atenção do mundo e legitimar os
preços do mercado do luxo 
Flávia Varella, de Paris
François Guillot/AFP  |
PICASSO PSICODÉLICO
A "noiva africana" de Jean-Paul Gaultier, exemplo da liberdade de arriscar
e do virtuosismo dos criadores: "A alta-costura não é feita para
vender, mas para encantar e aprimorar a moda" |
Duas vezes por ano, em janeiro e julho, vestidos suntuosos e extravagantes aparecem
na televisão, nas revistas, nos jornais de todo o mundo. A sofisticação,
a profusão de detalhes e a beleza das roupas arrancam suspiros. Ou gritos
de incompreensão diante da fantasia desatinada das peças, que às
vezes beira a provocação pura e simples como a "noiva africana"
na foto ao lado, que parece saída da cabeça de um Picasso experimentando
com substâncias proibidas mas foi apenas mais um dos atrevimentos do estilista
Jean-Paul Gaultier. "Para que servem essas roupas?", bradam os inconformados.
Os desfiles de alta-costura são
o ápice da criatividade, a vitrine global e o momento máximo de
autocelebração do mundo da moda. As grandes grifes costumam apresentar
entre seis e nove coleções femininas por ano. Mas apenas as duas
de alta-costura, mostradas sempre em Paris, têm repercussão planetária
garantida. Só nelas a habilidade de fazer uma roupa artesanalmente
o que os franceses chamam de savoir-faire é levada ao extremo e
pode ser admirada da ponta do chapéu ao bico do sapato, no corte e no caimento,
no acabamento, no bordado, nos laços, nas plumas. As coleções
de prêtporter, que depois das passarelas são replicadas em
escala industrial e distribuídas nas lojas por todo o mundo, podem fazer
sucesso, vender bem ou mesmo passar despercebidas, sem grandes conseqüências.
Não as de alta-costura. É por isso que as maisons chegam
a gastar o equivalente a 3,5 milhões de reais em um desfile de vinte minutos.
É por isso que seus estilistas têm a liberdade de arriscar, de esbanjar
virtuosismo e inventividade, de mostrar manequins com máscaras africanas,
vestes de faraós egípcios ou em trajes de mendigos. A consultoria
americana Right Angle Group calcula que um desfile desses gere uma cobertura nos
meios de comunicação que, se paga, sairia por oito vezes mais do
que o custo do desfile isso apenas nas revistas dos Estados Unidos.
A alta-costura serve para duas coisas: chamar
a atenção do mundo todo para determinada marca e atrair a seus ateliês
um punhado de clientes afortunadas, capazes de encomendar vestidos iguais ou inspirados
nos dos desfiles, só que feitos sob medida para elas. A primeira função
é de longe a mais importante. A esta altura todo mundo sabe que as grandes
marcas de luxo vivem majoritariamente de vender perfumes, cosméticos e
acessórios, tudo a preços olímpicos. A alta-costura alimenta
a imagem de luxo desses produtos e, como se diz no jargão do mercado, legitima
seus preços. "A atividade alta-costura como venda de vestidos caríssimos
para bailes que não existem mais é obsoleta, mas como geradora de
desejos e promotora do consumo ela é imbatível", afirma o consultor
de moda francês Jean-Jacques Picart. No sábado seguinte ao desfile
de alta-costura do inverno passado, apenas a butique da Christian Dior na Avenida
Montaigne, em Paris, recebeu a visita de 5 000 pessoas. A maioria sai com alguma
coisa nas mãos no mínimo um batonzinho.
Philippe Wojazer/Reuters  |
ELEGÂNCIA NA ESTRÉIA
Vestido da primeira coleção de alta-costura de Giorgio Armani:
"Clientes não compravam porque queriam ajustes de tamanho ou de modelo.
Agora, pedidos atendidos" |
O termo alta-costura é juridicamente protegido. Só pode dizer que
a faz quem atende aos critérios estabelecidos pela Câmara Sindical
da Alta-Costura, criada no século XIX. Em 1858, o inglês Charles
Frederick Worth abriu um ateliê na Rue de la Paix, em Paris, e convidou
clientes como a imperatriz Eugenia, mulher de Napoleão III, para ver seus
vestidos em modelos de carne e osso, uma novidade. Com isso, inventou tanto os
desfiles de moda como a alta-costura. Anos depois, Worth e seu filho criaram a
Câmara Sindical e os requisitos para quem quisesse integrá-la. Hoje,
as maisons devem ter uma cota básica de funcionários fixos que se
dedicam apenas à alta-costura e apresentar duas coleções
por ano com no mínimo 25 modelos cada uma. Cada peça é inteiramente
feita a mão, a única maneira de garantir que o avesso será
tão bonito e bem-acabado quanto o direito, um dogma do ofício. É
também exclusiva, ou praticamente. Um mesmo vestido terá no máximo
duas clientes, sempre de continentes diferentes.
Em geral, a roupa nasce de um croqui, que será interpretado pela funcionária
chamada première de l'atelier num protótipo feito de tecido
comum. Ao contrário das roupas prêtporter, não há
moldes de papel para orientar o corte. A roupa é cortada e alinhavada diretamente
num manequim de madeira, preparado a partir das medidas precisas da cliente. A
primeira prova é feita com o protótipo. Só então o
tecido definitivo será cortado e montado pelas costureiras, chamadas de
petites mains, mãozinhas. Seguem-se mais duas provas até
a roupa ser entregue. Nas maisons, em geral, existem dois ateliês, o flou,
onde são feitos os trajes de noite, sobretudo vestidos, e o tailleur, para
blusas e saias. "Sãos 'mãos' diferentes: a costureira de um ateliê
não é capaz de fazer bem uma peça do outro, e vice-versa",
explica Catherine Rivière, diretora de alta-costura da Dior. Um tailleur
demora 45 dias para ficar pronto. "Se a cliente estiver sempre disponível
para as provas", ressalta Catherine, que atende pessoalmente as 200 clientes habituais
da Dior alta-costura. Ela e suas assistentes viajam constantemente com vestidos
e protótipos de prova na bagagem. "Metade de nossas clientes é do
Oriente", diz. O número de
clientes de alta-costura de todas as grifes reunidas não é muito
maior do que as 200 privilegiadas que fazem suas encomendas na Dior. Pouquíssimas
são as mulheres que, como a rainha Sirikit, da Tailândia, podem encomendar
25 trajes num ano. E raras são as oportunidades, como o casamento do rei
do Marrocos, com 2 000 convidados, três dias de recepções
e trinta vestidos só para a noiva. A alta-costura é deficitária
em várias maisons porque o preço dos vestidos de 35 000 a
350 000 reais muitas vezes não cobre o custo dos materiais e da
mão-de-obra (que inclui o estilista, claro), ambos especializadíssimos
e caríssimos. Pascal Morand, economista e diretor do Instituto Francês
de Moda, estima que nas poucas empresas em que a alta-costura resiste a atividade
represente entre 2% e 3% do faturamento geral. Mesmo o sucesso nessa área
não garante a sobrevivência dessa espécie ameaçada.
O exemplo mais recente foi o de Christian Lacroix, o mestre da combinação
de padronagens e das cores ibericamente fulgurantes. Embora as encomendas de vestidos
de alta-costura fossem consideráveis, ele dava prejuízo na área
de acessórios e prêtporter e acabou vendido pelo grupo LVMH.
Jean-Pierre Muller/AFP  |
EXPLOSÃO NA DESPEDIDA
O último desfile de Christian Lacroix, mestre das cores exuberantes:
no fim da II Guerra, havia 100 casas que faziam alta-costura; hoje, são
menos de dez | Ainda
assim, a empresa suportou as contas no vermelho durante anos, aguardando o retorno
indireto. "A alta-costura é o que justifica a sofisticação
do nosso prêtporter", costuma dizer a presidente da Chanel, Françoise
Montenay. François Lesage, cuja oficina de bordado trabalha para os grandes
criadores há quase 150 anos, resume: "A alta-costura não é
feita para vender; a noção de preço não faz parte
do jogo. Ela é um monumento cultural que serve para encantar e aprimorar
a moda, só". Nos dois meses que antecedem os desfiles, os ateliês
das maisons param com as encomendas para se dedicar às roupas cujo único
objetivo é deslumbrar. Na Dior, o número de costureiras passa das
setenta regulares para 100. No último desfile Chanel, um único vestido
foi trabalhado durante 450 horas pelas costureiras da casa e consumiu mais 350
para ser bordado no ateliê de monsieur Lesage. "A alta-costura é
um laboratório onde testamos a viabilidade de novas idéias e técnicas.
Com tantas maisons deixando a atividade, é uma chance poder continuar mostrando
toda a habilidade dos ateliês e realmente deixar a imaginação
voar", disse John Galliano a VEJA .
No fim da II Guerra Mundial, havia mais de 100 maisons que faziam alta-costura.
Hoje são menos de dez. Em 2004, houve vinte desfiles em quatro dias. Neste
ano, dezesseis em três dias. A cada véspera das semanas de desfile,
a imprensa de moda faz reportagens sobre a crise da alta-costura e se pergunta
se ela está acabando. Cada desistência é contabilizada como
uma pá de cal. E foram muitas recentemente: Yves Saint Laurent, Emanuel
Ungaro, Givenchy, Balmain, Donatella Versace, Hanae Mori. Lacroix, com nova direção,
muito provavelmente será o próximo. Agora, os pilares do setor são
Chanel, Dior e o italiano Valentino, que faz alta-costura há meio século
e é um dos poucos para quem os vestidos sob medida representam uma atividade
importante mesmo financeiramente. O mais recente membro é Jean-Paul Gaultier,
bancado pelo grupo Hermès, que começou a mostrar sua alta-costura
em 1997. O desfile de estréia de Giorgio Armani neste ano foi visto como
uma lufada de esperança. O estilista italiano, que é dono de sua
própria marca, disse que decidiu se lançar na alta-costura porque
via vestidos caríssimos e sofisticados não serem vendidos em suas
lojas, mesmo havendo clientes que os adoravam. "Elas não compravam porque
precisavam de ajustes de tamanho ou queriam uma manga diferente, um colo menos
decotado. Agora faremos como for pedido", explicou Armani. Os 32 modelos mostrados
na maioria "glamourosos vestidos em rabo de peixe, elegantes e perfeitamente
usáveis", dentro da visão prática do estilista custarão,
sob medida, entre 60 000 e 200 000 reais.
Além de chamar atenção e despertar desejos consumistas, os
desfiles servem para apresentar o tema em torno do qual uma grife vai desenvolver
suas linhas de prêtporter e acessórios e até sua estratégia
de marketing para a estação. Um bordado em canutilhos e miçangas,
por exemplo, pode virar uma estampa de blusas prêtporter. No ano passado,
Karl Lagerfeld convidou Nicole Kidman para assistir ao desfile. Os fotógrafos,
que haviam sido obrigados a comparecer vestidos de preto, provocaram um tsunami
humano para fotografá-la. Pouco depois, surgiu nas revistas e em outdoors
a nova publicidade do perfume Chanel nº 5, com Nicole Kidman posando de diva,
assediada por paparazzi (e caída nos braços de Rodrigo Santoro).
E agora, nesta primavera européia, as vitrines da loja estão decoradas
com uma manequim cercada de flashes, câmeras e bustos de fotógrafos.
Tudo bem pensado e planejado, sem nada da "maluquice" das passarelas. | |