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Gloria Kalil
   
 

Os astros amam Isabeli

Nem só de beleza se faz uma modelo de sucesso
mundial. É preciso quase uma conjunção astral:
medidas perfeitas, muito trabalho e perfil que
atenda ao desejo da moda naquele momento.
Ela conseguiu tudo isso


Bel Moherdaui


Maurício Nahas

Incríveis faróis azuis que brilham contra o fundo de uma pele cor de camélia, boca carnuda, narizinho desenhado por fadas brincalhonas – tudo isso emoldurado por um maxilar exoticamente quadrado, conferindo força e expressão ao conjunto. O corpo é um daqueles prodígios que só se vêem nas passarelas:1,77 metro de altura e 55 quilos, exíguos, sim, mas com concentrações exatamente nos lugares certos. Isabeli Fontana tem uma daquelas belezas de ofuscar, de tirar o fôlego, de confundir o interlocutor. Tem também consciência de que tanta beleza pode não ser suficiente para tornar a modelo um sucesso mundial. Aos 21 anos, quase metade deles dedicada a explorar seus muitos e evidentes predicados, ela demorou – na contagem do tempo das modelos, que pode ser de algumas fugazes temporadas –, mas foi finalmente contemplada com um lugar lá no topo. O modo como isso aconteceu é ilustrativo. Isabeli estreou em 1996, aos 13 anos, em um concurso, como a maioria das colegas, e deslanchou para uma carreira respeitável. Era a época de ouro das meninas brasileiras, um time com beldades do quilate de Ana Claudia Michels, Raica Oliveira, Fernanda Tavares, Caroline Ribeiro e Mariana Weickert. Hoje, na provecta segunda década de vida, Anas, Fernandas e Carolines nitidamente já deixaram para trás o auge da carreira. Isabeli não – está em capas e editoriais de uma infinidade de revistas, em campanhas e passarelas para onde quer que se olhe. No levantamento de um dos sites respeitados no meio da moda, o models.com, aparece como segunda top do momento em escala global, atrás da ucraniano-canadense Daria Werbowy.

Num mundo em que a beleza excepcional é o visto de entrada, o que ela tem de tão especial? Primeiro, sorte – que também pode ser definida como timing. Isabeli se beneficiou de uma das constantes mudanças nos padrões de beleza mais procurados entre as modelos. Para quem vê de fora elas parecem todas iguais: lindas, magras, etéreas. Do lado de dentro, é uma batalha constante. "O mercado de moda tem grande necessidade de mudança de tendências e estilos. É preciso justificar a troca de roupas, de corte de cabelos, de cor de maquiagem. Afinal, se não muda, não vende", explica John Casablancas, fundador da agência Elite Model, que depois de anos afastado acaba de voltar ao ofício de gerenciar modelos. Foi assim que as mocinhas andróginas foram trocadas pelas bonitas e sensuais e estas se viram atropeladas pelo padrão de beleza glacial das belgas, que agora dão lugar à mulher mais clássica. "Empurrada pela cópia e pela pirataria, a moda de alto luxo está buscando se diferenciar do resto. Para isso, aposta em uma beleza mais aristocrática. A menina com cara de Primeiro Mundo, mais sofisticada, ganhou espaço", analisa a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato.

Em outras palavras, Isabeli tem o tipo de rosto que é, literalmente, luxo puro. Para expô-lo em todo o seu esplendor, deu duas guinadas na carreira. "Eu era considerada uma modelo muito comercial e nem era cogitada para casting (como é chamada a seleção das modelos) de coisas mais 'fashion'. Um dia insisti com a minha agência e contra a vontade deles fui ao casting da Balenciaga. Lá, consegui que um assistente me desse dicas do tipo de modelo que eles queriam: dura, sem muito quadril, que anda sem rebolar. Fiz exatamente assim. Peguei o desfile e, na temporada seguinte, a campanha, para surpresa do meu agente", afirma. Quando começava a engrenar na nova fase, descobriu que estava grávida do seu companheiro na época, o modelo Alvaro Jacomossi. "Quando ela me contou, tive certeza de que sua carreira tinha acabado ali", diz a mãe da modelo, Maribel. Não tinha. Ainda amamentando o filho Zion, Isabeli teve mais duas oportunidades importantes: um trabalho com a fotógrafa holandesa Inez Van Lamsweerde – "Que me deixou com um look muito clássico", conta a modelo – e outro com o ítalo-americano Mario Sorrenti. "Conheci a Isabeli quando ela estava começando, ainda muito jovem. Desde que seu filho nasceu ela desabrochou, ficou mais madura, mais focada, mais bonita. Acho que ela é até sexy demais. Mas a moda agora pede isso", disse Sorrenti a VEJA.

Isabeli hoje tem grifes dispostas a pagar de 10 000 euros (30 000 reais) para colocá-la na passarela a 300 000 euros (quase 1 milhão de reais) por fotos em campanha publicitária. É uma jovem simples, que poderia morar em Nova York, onde tem apartamento, mas prefere passar o pouquíssimo tempo livre em Vinhedo, no interior de São Paulo, onde tem o amor do ator Henri Castelli. Seu pai era vendedor de uma malharia em Curitiba e, na primeira temporada européia, em 1997, Isabeli penou. "Às vezes a gente não tinha dinheiro para o ônibus, então andava a cidade toda. Para que eu não ficasse com bolha no pé, minha mãe calçava o meu sapato de salto e eu ia com o sapato baixo dela. No metrô, eu pulava a catraca. O dinheiro da passagem dava para comprar um pacote de macarrão", conta Isabeli.

A adaptação ao mundo do jet set também demorou. "Uma vez, acompanhei a Isabeli a uma festa na casa de Donatella Versace. Estavam lá Claudia Schiffer, Carmen Kass, todas. Eu me senti uma faxineira naquele castelo, com aquela gente montada. Não falávamos nada de inglês. Eu ficava só rindo. A Isabeli cumprimentou todo mundo e fomos embora rapidinho", conta Maribel, que deixou dois filhos e marido em Curitiba para seguir a filha mundo afora.

Hoje, no Brasil, devido à repercussão de sua separação de Jacomossi, a disputa pela guarda do filho e o namoro com um galã de novela, Isabeli já tem fama bem além dos limites do mundo da moda. "Dificilmente uma modelo transfere para uma marca algo além da beleza, o que a torna uma aposta menos arriscada. Já a celebridade pode passar valores, o que é um risco. Acontece que o arriscado, enquanto dá certo, rende muito mais retorno em vendas", avalia o publicitário Alexandre Braga, da McCann-Erickson. Essa pode ser a terceira guinada de Isabeli.