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A reinvenção do gênio

A história se repete, e a marca Dior, com toda
a sua aura de glamour, sobrevive nas mãos – e
na imaginação delirante – do inglês John Galliano

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No dia em que apresentou sua primeira coleção, 12 de fevereiro de 1947, Christian Dior já foi considerado "um gênio", "um revolucionário". Estreante aos 42 anos, o costureiro decidiu baixar as bainhas até a canela e restabeleceu a idéia de que roupas são feitas não apenas para ser bonitas, mas para causar impacto. Suas saias longas, rodadas, os vestidos opulentos, com cintura finíssima, ombros bufantes e peito de pomba, causaram uma euforia quase histérica. A coleção ganhou da imprensa o nome de New Look. Nos bailes, que à época se sucediam aos jantares, as mulheres ricas e célebres compareciam "em Dior". Nas ruas, viam-se tanto mulheres que imitavam o novo estilo quanto manifestações contra ele. Na penúria do pós-guerra, era um escândalo usar 15 metros de tecido em roupas que antes precisavam de 3. O hoje histórico vestido Diorama, um sorvedouro de 40 metros de pano, provocava amor e ódio.

Dois anos depois da inauguração fulgurante, a maison Dior já era responsável por 5% das exportações francesas. Seu estilo ultrafeminino era um sucesso. Christian Dior, porém, achava que moda era mudança e apresentava uma nova silhueta a cada estação. Em 1954 ele mudou tudo com a Linha H (H de haricot vert, uma vagem comprida e reta): nada de busto nem cintura acentuados, mas vestidos tubulares que escondiam as formas. O vestido-saco revolucionou corpos e mentes. Com a morte precoce de Christian Dior, em 1957, de um ataque cardíaco, a maison passou para as mãos de Yves Saint-Laurent, seu segundo, e depois para Marc Bohan e Gianfranco Ferré. O brilho foi se apagando até se aproximar da morte por irrelevância quando outro astro incendiou o universo Dior: John Galliano, o estilista que assumiu a marca em 1996, com o respaldo de Bernard Arnault e seu poderoso grupo LVMH.

Quando Arnault colocou Galliano, um punk, iniciante, e ainda por cima inglês, à frente da cultuada Maison Dior, os franceses ficaram indignados. Um ano depois, a grife recomeçou a dar dinheiro. "Até a metade dos anos 90, a Christian Dior tinha a imagem de vestidos da Bela Adormecida, de roupas caretas. A reviravolta se deu com Galliano. Houve dois escândalos que fizeram a marca explodir: sua simples contratação e a coleção dos mendigos", diz a diretora-geral da Dior Brasil, Rosangela Lyra. A velha senhora, de repente, rejuvenesceu.

Ou enlouqueceu? Desde o sucesso de seu desfile de graduação na escola de moda Saint Martins de Londres, em que as modelos ostentavam galhos de árvore na cabeça e acenavam com peixes mortos nas mãos, Galliano se convenceu de que o esquisito, mesmo chocante, vende. Já colocou nas passarelas da Dior trapezistas, acrobatas chineses, monges Shaolin, freiras, esfinges e os já mencionados mendigos. Muitas de suas idéias, devidamente expurgadas de extravagâncias, ganharam as ruas. "Os vestidos e as saias de tecidos moles, escorregadios, as mangas e barras desfiadas, tudo o que é inspirado na lingerie que se usa hoje tem sua influência", enumera a historiadora francesa de moda Florence Muller. "Galliano é um gênio na sua maneira de misturar a inspiração com o comercial de modo impecável e consistente", afirma o diretor-presidente da Dior, Sidney Toledano.

Como seu antecessor, John Galliano tem vocação inata para o marketing. Nos anos 50, Dior inventou as licenças, sistema em que outros fabricantes ganham o direito de fazer produtos com o nome da marca em troca de royalties. Foi também um dos primeiros a montar uma loja da grife para a venda de acessórios. Dior dava palestras e entrevistas, era arroz-de-festa e organizava desfiles badaladíssimos em várias partes do mundo, como um em 1951 no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Com temperamento complicado, à altura da imagem cuidadosamente cultivada de gênio rebelde, Galliano fala pouco em público, mas não precisa nem abrir a boca para virar notícia. No seu último desfile de alta-costura, modelos exibiram vestidos românticos em estilo império, recobertos de bordados preciosíssimos, enquanto uma banda de hard rock tocava e destruía seus instrumentos a chutes e pauladas. Um sucesso.