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império do luxo Adquirir, fundir, concentrar: essa
é a regra dos conglomerados de grifes de luxo, os produtores de
sonhos e lucros igualmente fabulosos. E entre eles ninguém faz isso
com mais brilho do que o grupo das quatro letrinhas que valem ouro: LVMH

Flávia Varella, de Paris
Anat Givon/AP  |
MARCA-FETICHE
Montagem cenográfica na loja da Louis
Vuitton em Hong Kong: roupas, sapatos, jóias, relógios e, claro,
bolsas | O
perfil da cliente brasileira é bem conhecido na central parisiense da Louis
Vuitton: ela cobra imediatamente as novidades lançadas na França,
prefere as bolsas grandes e gosta que o monograma famoso esteja bem à vista.
Os sapatos de saltos bem altos têm mais saída e as malas são
importantíssimas. "É obrigatório ter mala da marca, principalmente
se for celebridade", diz o diretor de marketing para a América Latina,
o argentino Ricardo Reyes. Espalhada por 52 países, mas com administração
cuidadosamente centralizada, a Louis Vuitton conhece a fundo as preferências
das clientes de suas 340 lojas, de São Paulo a Xangai, de Hong Kong a Moscou.
A grife francesa de malas e bolsas é o modelo por excelência da internacionalização
do mercado de produtos de luxo. Nave-mãe do maior grupo mundial do setor,
o LVMH, a Louis Vuitton é também o exemplo mais reluzente do sucesso
da concentração de várias grifes sob o mesmo comando financeiro.
Com um faturamento de 12,6 bilhões de euros em 2004, as cinqüenta
marcas que compõem o grupo LVMH geraram um lucro líquido de 1 bilhão
de euros 40% mais do que no ano anterior.
A reunião de marcas-fetiche num mesmo conglomerado é uma fórmula
relativamente recente no mundo da moda e do luxo. Os três maiores grupos,
LVMH, Pinault-Printemps Redoute (PPR) e Richemont (veja
quadro), foram montados há menos de vinte anos. Bernard Arnault,
dono e mentor do LVMH, foi o precursor da idéia de fazer do luxo um pólo
de atração para o dinheiro caprichoso do mercado financeiro. Sua
aparição no cenário da moda transformou o setor de produtos
de luxo, até então formado por maisons ainda ligadas ao modo tradicional
de produção, fruto de herança familiar, aperfeiçoada
por gerações, ou da obra original de um criador genial. O objetivo
tornou-se a criação de produtos de excelente qualidade, em grande
quantidade, acessíveis ao que seria uma classe média alta em escala
global, mas suficientemente raros para conservar a aura de exclusividade e o preço
elevado. "Os investidores querem rentabilidade alta e durável. E o luxo,
com a idéia embutida de perenidade e seu elevado valor de venda, oferece
tudo isso", analisa Pascal Morand, economista e diretor do Instituto Francês
de Moda. A essa realidade objetiva corresponderam o que Morand chama de "homens
com ambição e perfil para colocar a receita em prática".
Divulgação
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PRECIOSIDADE
Novos modelos de bolsas, com detalhes em pedras
semipreciosas, custam o mesmo preço de um pequeno apartamento |
Dois franceses encarnam à
perfeição esse perfil: o já mencionado Bernard Arnault, do
LVMH, e François Pinault, dono do grupo PPR. Ambos são audaciosos,
realizadores e, como exigem as boas sagas empresariais, inimigos mortais desde
que se engalfinharam pela conquista da marca italiana Gucci. O terceiro concorrente
no topo desse mercado é o grupo Richemont, que substitui o charme de um
capitão de empresa no comando da operação pela competência
anônima de uma equipe profissional baseada na Suíça. As três
holdings seguem a tática de não colocar todos os ovos numa única
cesta mesmo sendo uma cesta de ouro e pedras preciosas. O LVMH é o mais
focado no negócio do luxo: compreende fabricantes de roupas, perfumes,
jóias, relógios e bolsas, e também produtores de vinho e
lojas de departamento diferenciadas, como Le Bon Marché e Samaritaine.
O grupo Richemont é proprietário da Cartier e da Montblanc, mas
sua participação acionária na fabricante de cigarros British
American Tobacco rende mais do que as dezoito reputadas grifes sob seu controle.
No PPR, pouco mais de 10% do faturamento vem das dez marcas de luxo reunidas no
chamado Gucci Group. O grosso sai de redes gigantes como Fnac, Printemps e Conforama.
Foi sem glamour nem estardalhaço
que Bernard Arnault entrou no mundo da moda em 1984, ao comprar uma empresa têxtil
em dificuldades. A Christian Dior, em banho-maria desde a morte do costureiro-fundador,
em 1957, fazia parte do pacote. Três anos depois, Louis Vuitton e a vinícola
Moët-Hennessy decidiram se fundir. Mesmo com participação pequena
no novo grupo, Arnault invocou os xamãs da reestruturação
financeira e conseguiu o comando. Ao longo dos anos 90, lançou-se numa
campanha de aquisição sistemática de empresas de nome já
consolidado (e finanças nem tanto), com o objetivo de penetrar em vários
setores sem os eventuais custos e riscos de criar uma nova grife. Apenas entre
1999 e 2000, amealhou mais de vinte marcas conhecidas. Agressivo e exigente, casado
com uma pianista ele próprio arrisca umas notas no Steinway , tornou-se
o símbolo global do mercado. "As aquisições constantes permitiram
ao LVMH atingir a envergadura de número 1 do luxo. Mas depois de 2000,
com o luxo em crise, a estratégia mudou e algumas empresas foram vendidas.
O objetivo agora é obter alta rentabilidade explorando ao máximo
as marcas mais fortes", analisa a professora Nathalie Chappe, especialista em
estratégias econômicas.
A entrada em cena das grandes holdings coincide com a internacionalização
do mercado do luxo. "É difícil dizer quem é o ovo e quem
é a galinha, mas o fato é que hoje a moda está de tal forma
globalizada que só as marcas que têm o apoio financeiro dos grandes
grupos sobrevivem em grande escala", explica o consultor de moda Jean-Jacques
Picart. A foto de ícones da moda como Iman ou Naomi Campbell (que também
é garota-propaganda), com bolsinhas maravilhosas penduradas no braço,
aparece ao mesmo tempo em revistas do Japão e do México. As bolsas
precisam estar disponíveis em várias partes do mundo, ao mesmo tempo,
sob o risco de perder mercado, embora deixar um gostinho de espera acirre o fetiche
no Brasil, por exemplo, há atualmente uma fila pelo modelo Denim, a bolsa
de jeans lançada em outubro e cobiçadíssima pela clientela.
Uma grife de escala mundial custa caro. Com a internacionalização,
os custos de comunicação explodiram e hoje chegam a representar
entre 5% e 10% do faturamento. "É uma porcentagem similar à de empresas
como a Procter & Gamble, que trabalham com produtos de consumo em massa. As
maisons que não têm um apoio financeiro estão desarmadas num
cenário assim", compara o economista Pascal Morand. Para controlarem melhor
a imagem da marca e a qualidade dos produtos, as grandes grifes reduziram os contratos
de licenciamento e centralizaram a fabricação de seus produtos,
além de optar cada vez mais pela venda em lojas próprias. A racionalização
de custos compensa mas, até chegar lá, tome injeções
de dinheiro.
Jennifer Graylook/AP  |
GLAMOUR VENDE Naomi
e Iman fazem propaganda: produtos têm de estar disponíveis no mundo
todo mas o gostinho da espera acirra o fetiche |
Nesse ramo, todo investimento tem objetivo definido: alimentar incessantemente
a imagem glamourosa da marca. É isso que vai fazer com que alguém
pague 300 reais numa camiseta que, em tese, pode ser comprada a 30 ou 3 em
outro lugar. Ou que uma bolsa como o novo e recordista modelo com pedras semipreciosas
da Louis Vuitton chegue a custar o equivalente a 76 720 reais o preço
de um pequeno apartamento em São Paulo. A Louis Vuitton trabalha com uma
margem de lucro de mais de 45% e mesmo assim consegue aumentar seus preços.
No ano passado, para compensar a diferença cambial entre o dólar
e o euro, os artigos com o prestigioso monograma LV tiveram dois aumentos de 5%
nos Estados Unidos. E continuaram vendendo. A diversificação de
produtos abrigados sob o guarda-chuva da marca-âncora é outro mantra.
Centenária no ramo de bolsas, malas e artigos de couro, a Louis Vuitton
agora tem também roupas, sapatos, jóias e relógios. Grifes
originalmente de roupas hoje obtêm mais da metade do faturamento do ramo
de acessórios e de perfumes.
Apesar dos sobressaltos da economia mundial, o império de Arnault sobrevive
e se expande. Seu patrimônio pessoal é de 17 bilhões de dólares,
a segunda maior fortuna da França. Christian Dior, a grife favorita, explodiu
com a chacoalhada que representou, em 1996, a escolha por Arnault do inglês
John Galliano (veja reportagem). Há quinze
anos, a Louis Vuitton tem crescimento anual de dois dígitos. Embora algumas
marcas como Donna Karan, Fendi e Givenchy continuem deficitárias, Emilio
Pucci, a grife italiana ressuscitada por ele, quadruplicou seu tamanho desde que
foi adquirida pelo grupo, e Marc Jacobs, o queridinho das americanas modernas,
tem tido taxas de crescimento anual de 20%. "Quando começou, Arnault não
conhecia nada da moda", conta o consultor Picart, que tem o manda-chuva do LVMH
como cliente. "Mesmo hoje nunca está presente no estúdio de criação.
Mas ele pode se gabar de ter mudado o sentido da moda. Ele nos ensinou que não
se deve pensar em sucesso de uma coleção, e sim no sucesso de uma
proposta comercial de longo prazo." Ou seja, introduziu uma premissa básica
do mundo dos negócios no universo dos vendedores de sonhos. | |