O fabuloso mundo da nova Daslu

Os conglomerados globais do luxo

Dior: a reinvenção
do gênio


O rosto de ouro de Isabeli Fontana

Alta-costura é risco
e fantasia


Os artesãos por trás do sonho

Moda hoje: como acertar na mistura

O xadrez chique
da Burberry


Sapatos para gastar, andar e seduzir

O brasileiro da
Calvin Klein


Os brilhantes de
Hebe Camargo


Do jeitinho das estilistas do momento

Maquiagem: o poder da beleza

Onde nascem
os modismos


Miuccia Prada faz, os outros vão atrás

A incrível transformação das gêmeas Olsen

Como é feito um vestido de 7 000 reais
Gloria Kalil
   
 

O admirável mundo novo da Daslu

Em nova sede de 20 000 metros quadrados, a
loja de luxo escala vários patamares: são mais
grifes famosas, mais acessórios caros e mais
mordomias. Seu objetivo: cobrir a rica clientela
de mimos – e estímulos para gastar muito mais dinheiro


Sandra Brasil


PauloVitale
MAQUIAVÉLICAS
Eliana, a mentora, e Donata, seu braço-direito, na entrada do novo conglomerado de 120 milhões de reais: "É como se a gente tivesse colocado fermento na Daslu. Agora as clientes vão passar a manhã ou a tarde inteira aqui"

Tem variedade de loja de departamentos, tamanho de shopping center e aura de exclusividade de butique fechada. A nova Daslu é um empreendimento que, pelo porte e pelo conceito, não se compara a nada a não ser à antiga Daslu – multiplicada por dez, ou mais. O prédio erguido como um casarão neoclássico à beira de uma das combalidas avenidas marginais de São Paulo, para acomodar o estoque de altíssimo luxo que a lei de zoneamento expulsou da sede original, é espantoso por qualquer ângulo que se observe. São 20 000 metros quadrados, quase três campos de futebol juntos, sobrepostos em quatro pavimentos de lojas, mais dois andares subterrâneos para as garagens. No topo, culminando a apoteose, terraço, um espetacular salão de festas e heliponto, indispensável para quem quer chegar e sair discretamente ou simplesmente fugir do trânsito lá embaixo. Dentro, praticamente todas as marcas mais chiques do planeta – Chanel, Gucci, Valentino, Prada, Louis Vuitton e um interminável etc. –, distribuídas em 118 espaços. Marcas populares? Claro: Gap e Banana Republic, que estréiam no país. E ainda dois restaurantes, um champanhe bar, um spa, um cabeleireiro, um variado setor de decoração de interiores e o imprescindível suporte para esta excepcional máquina de separar clientes ricas de seu dinheiro: uma infinidade de cantos aconchegantes para um café com biscoitinhos finos, gazebos com luz natural e muitas plantas. Banheiros são 87. "É como se a gente tivesse colocado fermento na Daslu. Com a vantagem de termos adicionado serviços que os clientes sempre pediam", diz Eliana Tranchesi, 49 anos, mentora do negócio que toca com dois irmãos e uma cunhada.

PauloVitale
HOMENS NA MIRA
No elevador especial para transportar carros de luxo, um MiniCooper: a idéia é ampliar o público masculino


Ao contrário do shopping center comum, onde tudo convida o consumidor a flanar, na Daslu, a circulação é dificílima. De propósito. Uma loja acaba praticamente dentro da outra, com um ou outro corredor interligando os espaços labirínticos. As doze escadas rolantes ficam bem escondidas. Faz sentido: ninguém vai à Daslu para passear, olhar vitrines, no máximo comprar um perfuminho. Vai consumir. Para quem não quer se perder (literal ou financeiramente) nesse mundo que parece um Matrix do luxo, trinta guides (assim, em inglês) estão à disposição para conduzir o cliente diretamente ao ponto desejado. Depois de passar por um dos 72 caixas – com direito a, brasileiramente, dividir no cartão as contas acima de 600 reais –, é sair de mãos abanando, para almoçar no restaurante ou cortar o cabelo no salão. As sacolas seguem de elevador, perdão, minilift, para a garagem e, de lá, para o carro. "Nossas clientes passavam em média duas horas na loja. Agora vão ficar a manhã ou a tarde inteira", planeja a docemente maquiavélica Eliana.

Construído em onze meses a toque de caixa, o edifício neoclássico é todo em tons de bege, com abundância de molduras e colunas. "Optei pelo clássico para não correr o risco de a obra ficar ultrapassada logo, como pode acontecer com o moderno", conjectura Eliana. "É uma construção inovadora. Não creio que exista algo parecido em nenhum lugar do mundo", diz Guto Milano, presidente da construtora responsável. Calcula-se que tenham sido gastos 50 milhões de reais na decoração, bancada pela inquilina, e 70 milhões na obra em si, financiada pelo dono efetivo do prédio, o grupo português Ergi, que em 2002 comprou da empresa de eletricidade Eletropaulo o esqueleto de uma sede abandonada no caminho. A Daslu fica num anexo previsto para a central de computadores – devidamente posto abaixo para dar lugar à loja. Quem imprimiu o "estilo Daslu" ao projeto foi uma equipe especial de catorze arquitetos – e a dona, claro, que se ocupou de tudo, desde a planta básica até as duas araras ("para dar um toque de brasilidade") acrescentadas ao brasão da loja, um enorme D inscrito na parede principal do saguão. Do lado de fora, um medalhão com uma imagem de Nossa Senhora de 2,5 metros quadrados ocupa o alto da fachada. E só. Letreiro com nome, como se sabe, não tem nada a ver com o jeito Daslu de ser.

Fotos divulgação
Fotos divulgação
ESTOQUE DE RESPEITO
Vestidos da coleção primavera-verão que começam a chegar agora às butiques européias, como o Gucci transparente e o Valentino dourado, estarão na nova loja: ao todo, 63 grifes internacionais

Em matéria de roupas e acessórios, são 63 grifes internacionais, sessenta nacionais e mais as onze divisões da marca Daslu. Alguns, mais iguais do que os outros: a Prada, somando seus quatro ambientes (feminino, masculino, esporte feminino e esporte masculino), abocanhou 420 metros quadrados; a Louis Vuitton tem 330; Chanel, Valentino e Gucci, em média, 200. Todos os modelos de sapatos ficarão expostos, num total de 3 500 pares à vista. "É olhar e experimentar. Todos os modelos e numerações estarão nas prateleiras", diz Donata Meirelles, que comanda o alentado setor internacional da Daslu. Joalherias são nove, entre elas a suíça Chopard, que investiu 800 mil reais em sua primeira loja na América Latina.


Paulo Vitale
DESCANSO ENTRE COMPRAS
Sofás e poltronas aconchegantes, flores, livros, lareira, café e biscoitinhos finos: ambiente envolvente para afagar a clientela; mas entrada, só com carteirinha

A Daslu contabiliza hoje 45 000 clientes cadastrados, 85% deles em São Paulo, e considera que não tem muito para onde crescer no campo feminino – praticamente toda mulher que pode pagar Daslu já compra Daslu. Os homens, portanto, são o novo alvo preferencial. Para cumprir a meta de reunir no mínimo 13 500 novos clientes no cadastro, acumulam-se os atrativos. Primeiro: eles poderão, sim, circular nas lojas chiquérrimas do térreo e em quase todas as demais dependências; continua vetada, por não ter provadores reservados, boa parte do 1º andar, guardada por cachorros de cimento em tamanho natural com a inscrição antigamente reservada às categorias inferiores: "Men are not allowed" (assim, em inglês). No 2º andar, a farra do alto consumo está liberada. Alinham-se a primeira loja Apple do Brasil; uma loja multimarca de eletrônicos com TVs de plasma de 71 polegadas (300 mil reais); uma revendedora de automóveis (Pajero, Jaguar, Volvo e MiniCooper, que se revezarão no espaço, transportados por um elevador com capacidade para 35 toneladas); outra de lanchas Ferretti; outra de miniaturas de aviões; uma tabacaria; uma loja de vinhos e um ateliê de alfaiataria. Entre as grifes masculinas, Giorgio Armani, Ermenegildo Zegna e Hugo Boss. E um helicóptero Robinson de verdade dependurado do teto, que não está à venda – é só enfeite.


Paulo Vitale
TOPO DO MUNDO
Heliponto, para os apressados: e ainda salão de festa com 3 000 metros quadrados, 72 caixas, 22 elevadores, doze escadas rolantes e quatro carrinhos de golfe

No 3º andar, ficam o cabeleireiro e o spa – este com produtos exclusivos do dermatologista americano Nicholas Perricone, papa de preparados de alto impacto como o DMAE. Quatro carrinhos de golfe fazem o trajeto da entrada da garagem até um elevador que sobe direto para a área especial para adolescentes, poupando-lhes a fadiga de gastar os próprios pezinhos. No 4º e último piso, o salão de 3 000 metros quadrados tem destino certo: ser alugado por 80 000 reais para festas e tirar o fôlego dos 1 350 convivas que se deslumbrarão com a imponência do ambiente. Para ter acesso à Daslu – com exceção do espaço de festas e dos restaurantes, com entradas separadas –, todas as pessoas precisarão de uma carteirinha. Clientes antigos a receberão pelo correio; novatos terão de tirar a sua antes de entrar. A idéia de que a nova Daslu, sem o clima reservado da antiga, se transforme em atração turística é uma das coisas que fazem Eliana Tranchesi segurar com força o alentado cordão de ouro no qual a coleção de medalhas, na azáfama dos preparativos para a inauguração do complexo, chegava a dezoito. O escopo e a ambição do projeto justificam a ansiedade – mas vai ser difícil encontrar santo suficientemente forte para impedir que a nova Daslu vire um pólo de atração de parar, literalmente, São Paulo.