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admirável mundo novo da Daslu Em nova sede de 20
000 metros quadrados, a loja de luxo escala vários patamares: são
mais grifes famosas, mais acessórios caros e mais mordomias. Seu
objetivo: cobrir a rica clientela de mimos e estímulos para
gastar muito mais dinheiro 
Sandra Brasil
PauloVitale  |
MAQUIAVÉLICAS
Eliana, a mentora, e Donata, seu braço-direito, na entrada do novo conglomerado
de 120 milhões de reais: "É como se a gente tivesse colocado fermento
na Daslu. Agora as clientes vão passar a manhã ou a tarde inteira
aqui" | Tem variedade de loja de
departamentos, tamanho de shopping center e aura de exclusividade de butique fechada.
A nova Daslu é um empreendimento que, pelo porte e pelo conceito, não
se compara a nada a não ser à antiga Daslu multiplicada por
dez, ou mais. O prédio erguido como um casarão neoclássico
à beira de uma das combalidas avenidas marginais de São Paulo, para
acomodar o estoque de altíssimo luxo que a lei de zoneamento expulsou da
sede original, é espantoso por qualquer ângulo que se observe. São
20 000 metros quadrados, quase três campos de futebol juntos, sobrepostos
em quatro pavimentos de lojas, mais dois andares subterrâneos para as garagens.
No topo, culminando a apoteose, terraço, um espetacular salão de
festas e heliponto, indispensável para quem quer chegar e sair discretamente
ou simplesmente fugir do trânsito lá embaixo. Dentro, praticamente
todas as marcas mais chiques do planeta Chanel, Gucci, Valentino, Prada,
Louis Vuitton e um interminável etc. , distribuídas em 118
espaços. Marcas populares? Claro: Gap e Banana Republic, que estréiam
no país. E ainda dois restaurantes, um champanhe bar, um spa, um cabeleireiro,
um variado setor de decoração de interiores e o imprescindível
suporte para esta excepcional máquina de separar clientes ricas de seu
dinheiro: uma infinidade de cantos aconchegantes para um café com biscoitinhos
finos, gazebos com luz natural e muitas plantas. Banheiros são 87. "É
como se a gente tivesse colocado fermento na Daslu. Com a vantagem de termos adicionado
serviços que os clientes sempre pediam", diz Eliana Tranchesi, 49 anos,
mentora do negócio que toca com dois irmãos e uma cunhada.
PauloVitale  |
HOMENS NA MIRA
No elevador especial para transportar carros de luxo, um MiniCooper: a idéia
é ampliar o público masculino |
Ao contrário do shopping center comum, onde tudo convida o consumidor a
flanar, na Daslu, a circulação é dificílima. De propósito.
Uma loja acaba praticamente dentro da outra, com um ou outro corredor interligando
os espaços labirínticos. As doze escadas rolantes ficam bem escondidas.
Faz sentido: ninguém vai à Daslu para passear, olhar vitrines, no
máximo comprar um perfuminho. Vai consumir. Para quem não quer se
perder (literal ou financeiramente) nesse mundo que parece um Matrix do luxo,
trinta guides (assim, em inglês) estão à disposição
para conduzir o cliente diretamente ao ponto desejado. Depois de passar por um
dos 72 caixas com direito a, brasileiramente, dividir no cartão
as contas acima de 600 reais , é sair de mãos abanando, para
almoçar no restaurante ou cortar o cabelo no salão. As sacolas seguem
de elevador, perdão, minilift, para a garagem e, de lá, para o carro.
"Nossas clientes passavam em média duas horas na loja. Agora vão
ficar a manhã ou a tarde inteira", planeja a docemente maquiavélica
Eliana.
Construído em onze
meses a toque de caixa, o edifício neoclássico é todo em
tons de bege, com abundância de molduras e colunas. "Optei pelo clássico
para não correr o risco de a obra ficar ultrapassada logo, como pode acontecer
com o moderno", conjectura Eliana. "É uma construção inovadora.
Não creio que exista algo parecido em nenhum lugar do mundo", diz Guto
Milano, presidente da construtora responsável. Calcula-se que tenham sido
gastos 50 milhões de reais na decoração, bancada pela inquilina,
e 70 milhões na obra em si, financiada pelo dono efetivo do prédio,
o grupo português Ergi, que em 2002 comprou da empresa de eletricidade Eletropaulo
o esqueleto de uma sede abandonada no caminho. A Daslu fica num anexo previsto
para a central de computadores devidamente posto abaixo para dar lugar
à loja. Quem imprimiu o "estilo Daslu" ao projeto foi uma equipe especial
de catorze arquitetos e a dona, claro, que se ocupou de tudo, desde a planta
básica até as duas araras ("para dar um toque de brasilidade") acrescentadas
ao brasão da loja, um enorme D inscrito na parede principal do saguão.
Do lado de fora, um medalhão com uma imagem de Nossa Senhora de 2,5 metros
quadrados ocupa o alto da fachada. E só. Letreiro com nome, como se sabe,
não tem nada a ver com o jeito Daslu de ser.
Fotos divulgação  | Fotos
divulgação  |
ESTOQUE
DE RESPEITO
Vestidos da coleção primavera-verão
que começam a chegar agora às butiques européias, como o
Gucci transparente e o Valentino dourado, estarão na nova loja: ao todo,
63 grifes internacionais | Em
matéria de roupas e acessórios, são 63 grifes internacionais,
sessenta nacionais e mais as onze divisões da marca Daslu. Alguns, mais
iguais do que os outros: a Prada, somando seus quatro ambientes (feminino, masculino,
esporte feminino e esporte masculino), abocanhou 420 metros quadrados; a Louis
Vuitton tem 330; Chanel, Valentino e Gucci, em média, 200. Todos os modelos
de sapatos ficarão expostos, num total de 3 500 pares à vista. "É
olhar e experimentar. Todos os modelos e numerações estarão
nas prateleiras", diz Donata Meirelles, que comanda o alentado setor internacional
da Daslu. Joalherias são nove, entre elas a suíça Chopard,
que investiu 800 mil reais em sua primeira loja na América Latina.
Paulo Vitale  |
DESCANSO ENTRE
COMPRAS
Sofás e poltronas aconchegantes, flores,
livros, lareira, café e biscoitinhos finos: ambiente envolvente para afagar
a clientela; mas entrada, só com carteirinha | A
Daslu contabiliza hoje 45 000 clientes cadastrados, 85% deles em São Paulo,
e considera que não tem muito para onde crescer no campo feminino
praticamente toda mulher que pode pagar Daslu já compra Daslu. Os homens,
portanto, são o novo alvo preferencial. Para cumprir a meta de reunir no
mínimo 13 500 novos clientes no cadastro, acumulam-se os atrativos. Primeiro:
eles poderão, sim, circular nas lojas chiquérrimas do térreo
e em quase todas as demais dependências; continua vetada, por não
ter provadores reservados, boa parte do 1º andar, guardada por cachorros
de cimento em tamanho natural com a inscrição antigamente reservada
às categorias inferiores: "Men are not allowed" (assim, em inglês).
No 2º andar, a farra do alto consumo está liberada. Alinham-se a primeira
loja Apple do Brasil; uma loja multimarca de eletrônicos com TVs de plasma
de 71 polegadas (300 mil reais); uma revendedora de automóveis (Pajero,
Jaguar, Volvo e MiniCooper, que se revezarão no espaço, transportados
por um elevador com capacidade para 35 toneladas); outra de lanchas Ferretti;
outra de miniaturas de aviões; uma tabacaria; uma loja de vinhos e um ateliê
de alfaiataria. Entre as grifes masculinas, Giorgio Armani, Ermenegildo Zegna
e Hugo Boss. E um helicóptero Robinson de verdade dependurado do teto,
que não está à venda é só enfeite.
Paulo Vitale  |
TOPO DO
MUNDO Heliponto, para os apressados:
e ainda salão de festa com 3 000 metros quadrados, 72 caixas, 22 elevadores,
doze escadas rolantes e quatro carrinhos de golfe | No
3º andar, ficam o cabeleireiro e o spa este com produtos exclusivos
do dermatologista americano Nicholas Perricone, papa de preparados de alto impacto
como o DMAE. Quatro carrinhos de golfe fazem o trajeto da entrada da garagem até
um elevador que sobe direto para a área especial para adolescentes, poupando-lhes
a fadiga de gastar os próprios pezinhos. No 4º e último piso,
o salão de 3 000 metros quadrados tem destino certo: ser alugado por 80
000 reais para festas e tirar o fôlego dos 1 350 convivas que se deslumbrarão
com a imponência do ambiente. Para ter acesso à Daslu com
exceção do espaço de festas e dos restaurantes, com entradas
separadas , todas as pessoas precisarão de uma carteirinha. Clientes
antigos a receberão pelo correio; novatos terão de tirar a sua antes
de entrar. A idéia de que a nova Daslu, sem o clima reservado da antiga,
se transforme em atração turística é uma das coisas
que fazem Eliana Tranchesi segurar com força o alentado cordão de
ouro no qual a coleção de medalhas, na azáfama dos preparativos
para a inauguração do complexo, chegava a dezoito. O escopo e a
ambição do projeto justificam a ansiedade mas vai ser difícil
encontrar santo suficientemente forte para impedir que a nova Daslu vire um pólo
de atração de parar, literalmente, São Paulo. | |