| | Entrevista
John Galliano
Jacky Naegelen/Reuters  |
Pirata, índio, Charles Chaplin, Napoleão.
Depois de cada um de seus delirantes desfiles, John Galliano, o inglês que
virou a nova cara da Christian Dior, ainda prepara uma surpresa final: a fantasia
com que vai entrar na passarela para os aplausos. Aqui ele fala a VEJA sobre como
combinar tradição e vanguarda, fantasia e pé (de salto altíssimo)
no chão, excentricidade e vendas. Tarefas em que se sai muito bem. Desde
que ele entrou na Dior, o faturamento só tem aumentado.
COMO
O SENHOR EXPLORA NOVAS FRONTEIRAS NA MODA AO MESMO TEMPO QUE É OBRIGADO
A PRESERVAR A IMAGEM DE UMA MARCA QUE TEM MAIS DE CINQÜENTA ANOS DE HISTÓRIA?
O maior desafio é quebrar expectativas. Eu preciso trazer elementos
do novo e da tradição. Nos últimos desfiles Dior, nós
apresentamos coisas diferentes e conseguimos escapar do senso comum. Quanto mais
as pessoas comentam o cabelo, a maquiagem, o estilo, mais eu tento me livrar deles.
O meu desafio é estar sempre um degrau acima. O que é importante,
que eu acho crucial não esquecer, é ser fiel às suas idéias,
conhecer o caráter das roupas que se está criando e aí então
partir para ultrapassar fronteiras, para fazer coisas que mantenham a essência
da grife e ao mesmo tempo sejam novas, inesperadas.
E QUAL É A ESSÊNCIA DA GRIFE? A ousadia. Uma roupa Dior
é feita para uma mulher que não tem medo de arriscar-se.
COMO CONCILIAR LIBERDADE DE CRIAÇÃO
E A PRESSÃO COMERCIAL PARA VENDER CADA VEZ MAIS? Não concilio.
É preciso tentar, mas no final das contas o objetivo tem de ser criar roupas
que sejam originais, inspiradoras e que também se vendam. Não dá
para negar que existe o lado comercial. Mas hoje em dia, com o número enorme
de revistas de moda, internet e tudo o mais, as mulheres estão realmente
informadas e reconhecem os truques, as artimanhas para vender. Elas percebem isso
e não aceitam quando o nível cai. Eu tenho a sorte de ter liberdade
total de criação na Dior. Mas também posso dizer que, quanto
mais eu trabalho para a casa, mais aprendo sobre a consumidora e o que ela quer.
E de vez em quando, tanto quanto abastecer sua cabeça com idéias,
é legal também engordar seu guarda-roupa! O truque é achar
um equilíbrio entre criatividade e originalidade com apelo comercial. Ou
então ter a sorte de criar algo de apelo universal, como foi o caso da
bolsa-sela e, agora, as inovações do tailleur Bar e a bolsa detetive.
Gosto muito mais quando os produtos voam das prateleiras, assim eu sei que vou
vê-los nas ruas, usados de maneiras que nem imaginava. A
ALTA-COSTURA CONTINUA A SER INDISPENSÁVEL PARA O MUNDO DA MODA?
Além de todo o patrimônio de moda que representa, é uma parte
essencial do processo. Com tantas maisons decidindo saltar fora da alta-costura,
eu fico contente que a Dior continue a fazer. Eu e a empresa temos essa mesma
paixão. A alta-costura dá a oportunidade de mostrar toda a habilidade
dos ateliês e realmente deixar sua imaginação voar.
QUAL A RELAÇÃO ENTRE O QUE
É MOSTRADO NUM DESFILE DE ALTA-COSTURA E O QUE AS MULHERES VESTEM NAS RUAS
MESES DEPOIS? As mulheres pegam elementos e idéias, adaptam-nos
e usam do jeito delas. Alta-costura é a idéia em estado puro, a
fonte primordial de inspiração. | |