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Edição Especial . 18 de setembro de 2002
 
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MÉTODOS PEDAGÓGICOS

A construção do saber

A família deve conhecer os
princípios pedagógicos da escola


Fernando Vivas
Estudantes do Miró visitam escritório de advocacia: orientação vocacional

Os educadores concordam que a qualidade de ensino de uma instituição não está diretamente ligada a sua orientação pedagógica. É perfeitamente possível que existam escolas com propostas educacionais aparentemente arrojadas e alunos mal preparados e estabelecimentos com práticas conservadoras que tenham êxito em seus objetivos. Por isso, a pesquisa VEJA-Ipsos Marplan não levou em consideração em sua avaliação a filosofia que norteia as instituições. Na hora de escolher uma escola, entretanto, é fundamental conhecer profundamente os princípios pedagógicos adotados pelos diferentes órgãos de ensino. Antes de tudo, a família deve refletir sobre o que espera do estabelecimento. Que transmita aos alunos informações, capriche nas tarefas de casa e mantenha um calendário cheio de provas e testes para avaliar a apreensão do conteúdo? Que estimule a criatividade, o espírito crítico e a iniciativa do jovem? Das respostas a essas perguntas pode começar a ser traçado o perfil que mais se encaixe nas expectativas de cada família.

É preciso também ter em mente que a escola mudou. As Diretrizes Curriculares Nacionais, adotadas a partir de 1996, deram às instituições maior flexibilidade na hora de organizar os currículos. Além da base comum, formada por linguagem, ciências da natureza, ciências humanas e matemática, 25% do conteúdo curricular fica a critério de cada escola. Assim, um estabelecimento pode optar por ministrar apenas uma língua estrangeira e caprichar em aulas de música e artes, enquanto outro pode ensinar dois idiomas e adotar a filosofia como disciplina obrigatória para todas as séries.

Atualmente, a teoria sobre aprendizagem mais em voga entre as instituições de ensino é o construtivismo. É possível dizer que nove entre dez escolas se apresentem como construtivistas. O que não quer dizer que pratiquem à risca o que pregam. Baseado em estudos do suíço Jean Piaget sobre o desenvolvimento do processo de aprendizagem das crianças, o construtivismo proposto pela psicóloga argentina Emilia Ferrero preconiza que o aluno precisa construir o próprio conhecimento. Ao contrário do que acontece na escola tradicional, em que o professor ensina e o aluno escuta, o construtivismo pressupõe uma parceria e uma troca de informações entre as duas partes envolvidas. Os materiais didáticos nunca estão prontos: são produzidos segundo as necessidades da turma. "Não dá para dizer que se trabalha com o construtivismo utilizando módulos de aulas prontos, que se repetem a cada ano", entende a diretora do Colégio Miró, Maria Cândida Muzzo.

Assim, em uma escola que realmente adote o construtivismo é praticamente impossível que dois irmãos assistam a aulas idênticas ao passarem, em anos diferentes, por determinada série. O mestre pode ser o mesmo, mas a aula e a abordagem devem variar. "Freqüentemente os pais reclamam que o irmão mais velho fez uma 4ª série diferente da que fez o caçula", conta Cândida. Em Salvador, o Miró é conhecido por praticar os princípios construtivistas até o final do ensino médio, fase em que a maioria das instituições prefere concentrar-se na preparação para o vestibular. Seu centro de estudos ministra cursos de formação freqüentados por professores dos principais colégios da cidade.

Outra característica da escola construtivista é a ênfase na formação continuada do professor e o intercâmbio constante com a coordenação. Como as aulas não se repetem de um ano para o outro, é preciso haver uma parceria também entre professor e coordenador no planejamento e no acompanhamento em sala de aula. Sem o investimento de muitas horas em reuniões, é impossível ser fiel à alma construtivista. Os deveres de casa, por exemplo, não podem ser simplesmente a definição de conceitos através de perguntas. As tarefas precisam ter um contexto, estimular o estudante a relacionar informação obtida em diversas fontes e a levar sua contribuição de volta para a classe. "É importante que os alunos vejam que o professor também estuda e também é um aprendiz", afirma Teresa Brasileiro, diretora do colégio Módulo/Criarte.

É igualmente esse tempo devotado ao planejamento que permite que a equipe desenvolva projetos interdisciplinares, outro recurso de aprendizagem que está na ordem do dia. Um evento como a Copa do Mundo, por exemplo, pode ser usado para abordar as diferenças de fuso horário na aula de geografia, discutir o conflito entre as duas Coréias, falar sobre Guerra Fria na aula de história e gerar relatórios para as aulas de português. Ao mesmo tempo, o Ministério da Educação e Cultura orienta as escolas a tratar temas como sexualidade, drogas, ecologia e multiculturalismo de forma transversal, ou seja, por meio de projetos que atravessam diversos momentos da vida escolar.

"O projeto permite que o aluno investigue e relacione conhecimentos que já fazem parte de sua realidade", define a professora Rosana Seabra. Como o professor já não é a única fonte de informação, é importante que ele busque descobrir o que os alunos já sabem sobre determinado assunto. "É imprescindível que o aluno traga seu conhecimento para a sala de aula", diz Rosana. "Projeto bom é aquele que não termina no fim do bimestre", resume a consultora Teca Soub, do Colégio Villa Lobos. "Ele continua a provocar a classe, a trazer novos problemas e a aquecer novas descobertas."

     
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