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Os homens e as mulheres que enfrentam diariamente o desafio de diminuir
as agressões ao
mundo natural
 

Os heróis do planeta

Os homens e as mulheres que enfrentam diariamente
o desafio de diminuir as agressões ao mundo natural

Marcelo Ventura

A maioria das pessoas, quando pensa em ecologistas, imagina um grupo de jovens rebeldes protestando das maneiras mais ousadas com o objetivo de chamar a atenção para a causa ambiental. O trabalho mais produtivo de preservação da natureza é bem mais silencioso e invisível. Ele é feito com fundamento científico e sacrifício pessoal. VEJA consultou ONGs nacionais e estrangeiras, entidades oficiais, como o Ministério do Meio Ambiente e o Banco Mundial, e escolheu quinze profissionais, cujos perfis são reproduzidos nas páginas seguintes. São heróis que, pela obstinação e empenho, se tornaram modelos de ambientalistas.


O antropólogo que ajuda os índios a pescar

 

Pedro Martinelli

O antropólogo Carlos Alberto Ricardo adotou a região do Alto Rio Negro, no extremo noroeste do Estado do Amazonas, como segundo lar. Desde 1987, ele fincou raízes na cidade de São Gabriel da Cachoeira, a 860 quilômetros de Manaus. Na região, ajudou os índios a demarcar uma das principais reservas do país, habitada por 30.000 indivíduos de 22 etnias. Hoje, Ricardo divide seu tempo entre São Gabriel e São Paulo, onde fica a sede do Instituto Socioambiental, ONG que ajudou a fundar. Está envolvido num projeto que promete recuperar a pesca indígena nos rios da Bacia do Rio Negro, atividade que decaiu muito nos últimos anos. Para isso, ajuda os índios a criar peixes nativos em cativeiro, que são distribuídos em viveiros e lançados aos rios. "A idéia é mostrar que os índios também podem ter seus projetos de desenvolvimento sustentado."

 

A dama do fundo do mar

A bióloga americana Sylvia Earle é uma das maiores especialistas em oceanos do mundo. Estudiosa de plantas marinhas, é também recordista de mergulhos - passou mais de 6.000 horas da vida debaixo d'água, em cinqüenta expedições de pesquisa. É cientista-chefe da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa) e exploradora residente da National Geographic Society. Com seu empenho, conseguiu fazer com que o governo americano dobrasse o volume de recursos destinados às pesquisas marinhas. Seu argumento é poderoso: os mares são a fronteira final da vida. "Da saúde dos oceanos depende toda a vida humana, já que eles cobrem dois terços da Terra e são responsáveis por 97% da água total do planeta."

 

A voz da sabedoria

Quando o entomologista Edward Wilson fala, os ecologistas de todo o mundo apuram os ouvidos e prestam muita atenção. Aos 73 anos, esse professor da Universidade Harvard é considerado um dos homens mais influentes dos Estados Unidos. Wilson ficou famoso na década de 60 ao lançar as bases da sociobiologia. Ele descobriu que as formigas se comunicam por substâncias químicas e vivem em uma sociedade formada por castas sociais. Um formigueiro age como se fosse um organismo único - um por todos, todos por um. A partir desse e de outros estudos com insetos, escreveu o livro Sociobiology: the New Synthesis, em que defende a ousada tese de que o comportamento humano tem determinantes biológicos muito mais fortes do que se imaginava até então. Em O Futuro da Vida, lançado neste ano, Wilson prevê que, se o homem não mudar sua conduta, metade das espécies de animais e plantas sumirá do planeta em 100 anos.

 

O chamado das florestas

Preservar animais e recuperar a mata nativa numa região onde só há 2% de vegetação natural e o resto é disputado entre fazendeiros e sem-terra é o desafio a que se propôs o casal Claudio e Suzana Padua. Os dois trabalham no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do Estado de São Paulo. Lá, conquistaram a confiança dos assentados que receberam terras nos arredores do Parque Morro do Diabo e estão conseguindo que ele replantem parte da floresta. O primeiro resultado do trabalho deles já pode ser visto. Com o replantio da mata nativa, mais de 800 micos-leões-pretos, animais nativos da região e ameaçados de extinção, voltaram a viver em paz na região. Claudio e Suzana se converteram ao ambientalismo há pouco tempo. Ele era executivo de uma indústria farmacêutica e ela, decoradora. Claudio envolveu-se na preservação dos primatas e foi estudar biologia na Flórida. "Achei que ele estava louco", diz Suzana, que pouco depois foi fisgada pela mesma obsessão do marido e se transformou em educadora ambiental.

 

Os salvadores das tartarugas

Uma cena chocante mudou a vida do oceanógrafo Guy Marcovaldi, no fim da década de 70. Durante uma viagem ao Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte, viu pescadores virar de ventre para cima onze grandes tartarugas que haviam ido à praia para desovar. Depois, eles começaram a degolar os animais. A cena não era uma barbaridade isolada, mas sim uma prática comum no litoral brasileiro que estava levando as tartarugas marinhas à extinção. Marcovaldi decidiu dedicar sua vida a salvar esses bichos. Ao lado da mulher, Maria Angela, a Neca, dirige um dos mais bem-sucedidos programas ecológicos brasileiros, o Projeto Tamar. Vinte bases do projeto cobrem 1.000 quilômetros de costa e envolvem 680 pessoas. Até o fim do ano, 600.000 tartarugas chegarão ao mar em segurança depois de nascer nas praias protegidas pelo projeto.

 

O homem que secou a Amazônia

Arquivo/Janduari Simões


O americano Daniel Nepstad, 44 anos, produziu a prova de que os mais céticos precisavam para se convencer que a Amazônia, por mais imponente e continental que seja, é frágil e corre perigo. Nepstad produziu uma seca artificial prolongada na floresta tropical brasileira. Seu estudo começou em 1995, quando cobriu 1 hectare de floresta. Ele usou calhas e coberturas especiais para impedir que a água das chuvas chegasse ao solo. Na pesquisa, Nesptad descobriu que a floresta não resistiria à seca por mais de três anos. Um único foco de incêndio poderia provocar, naquelas circunstâncias, um desastre ecológico de proporções dantescas. Nepstad tornou-se um pregador que alerta o mundo sobre os impactos do desenvolvimento na região. "Temos de tentar fazer com que as ações de governo se antecipem à pobreza humana típica das ocupações na Amazônia. Isso ajuda a evitar danos à natureza", diz o pesquisador, que foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

 

O dinheiro que vem do mato

Para o executivo John Forgach, a ecologia é um excelente negócio. Depois de passar anos à frente de instituições financeiras do porte do Chase Manhattan, e contribuir "romanticamente" com organizações que cuidam da preservação de aves em risco, ele resolveu transformar seu respeito pela natureza em ações concretas. Ele tem conseguido. Forgach é dono da A2R, empresa especializada em criar e administrar fundos ambientais para financiar ações ligadas ao manejo sustentável. A primeira injeção de recursos no Brasil foi de 1,5 milhão de dólares aplicados na Muaná Alimentos, indústria extrativista de palmito na Ilha de Marajó que estava em dificuldades. Hoje a empresa é responsável por 5% do mercado mundial e pretende duplicar sua participação depois que o produto receber um "selo verde", o que deve ocorrer em breve. Em São Paulo, a A2R tem participação na Santo Onofre, uma das principais companhias do mercado em agricultura orgânica.

 

O pesquisador das neves eternas

O local de trabalho de Lonnie Thompson, 54 anos, fica a 5.000 metros de altitude e ele não é piloto comercial nem astronauta. Thompson é o maior especialista nas neves eternas, aquela cobertura perene que fica no topo das montanhas mais altas do planeta. Como essa cobertura foi formada em alguns casos há centenas de milhares de anos, elas guardam marcas de como era o clima do planeta em períodos imemoriais. Em outubro, Thompson publicou um artigo na revista Science sobre as análises de blocos de gelo do Kilimanjaro, no Himalaia, na Tanzânia. Concluiu que, até 2015, o pico imortalizado pelo escritor Ernest Hemingway não terá mais neve. É a comprovação dos efeitos do aquecimento global do planeta. Em 1972 ele fez previsão semelhante em uma geleira do Peru, que virou um lago seis anos depois.

 

Jane, a senhora dos macacos

The Jane Goodall Institute


O trabalho da primatologista inglesa Jane Goodall mudou a forma como os homens vêem os chimpanzés. Foram seus estudos na década de 60 que provaram que eles são muito mais próximos de nós do que se pensava. Descobriu que eram organizados em castas sociais, que eles criavam "ferramentas" que os ajudavam no dia-a-dia e que também faziam conchavos e decidiam o futuro de seus grupos - incluindo até assassinato de líderes rivais. Virou uma celebridade do ambientalismo ao militar em defesa dos chimpanzés e hoje, aos 68 anos, faz palestras mundo afora sobre preservação do meio ambiente. Uma de suas últimas aparições foi na Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 10, na África do Sul, onde criticou a falta de decisões dos participantes do encontro e a perda das oportunidades criadas pela Rio 92, há dez anos.

 

A poluição das queimadas

Ao estudar as queimadas da Amazônia nos primeiros anos da década de 90, o físico Paulo Eduardo Artaxo descobriu um dado chocante sobre esses incêndios. A emissão de gases poluentes por dia durante o período de queimadas chegava a ser até três vezes maior que a poluição de São Paulo num dia de estado de alerta. Com esse dado nas mãos, os ambientalistas tiveram um motivo a mais para pressionar o governo a reprimir as queimadas. Atualmente professor do departamento de física aplicada da Universidade de São Paulo (USP), Artaxo não abandonou mais os estudos sobre a região. Ele coordena o Instituto do Milênio da Amazônia, com 120 pesquisadores de doze Estados, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. "É um trabalho integrado que tem como objetivo verificar o impacto das alterações de uso do solo e o efeito nos climas regional e global", explica.

 

 

 
 
     
   
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