| |

Como alimentar
6 bilhões de pessoas?
Novos
projetos e programas de incentivo
à agricultura
mostram que é possível sonhar com um mundo sem fome
Luiz
Guilherme Megale
Um
dos objetivos mais ambiciosos da Organização das Nações
Unidas neste início de século é erradicar a
fome no planeta. O prazo estabelecido dá conta da dimensão
do desafio. A ONU acha que a fome pode ser debelada em 100 anos.
A meta foi cravada em 1997 e reafirmada em junho deste ano durante
uma conferência internacional em Roma. A organização
estabeleceu que, em treze anos, o número de famintos e desnutridos
no mundo será reduzido pela metade, ou seja, em 400 milhões
de pessoas, o equivalente a pouco mais de toda a população
da União Européia. É uma tarefa complexa. Os
programas aplicados na década de 90 conseguiram reduzir o
número de famintos em 6 milhões de pessoas por ano.
Para chegar ao número proposto seria necessário incluir
pelo menos 22 milhões no grupo dos bem alimentados a cada
ano. A fome é um problema grave porque conjuga fatores políticos,
econômicos e ambientais. Secas prolongadas, tempestades, esgotamento
do solo, falta de planejamento agrícola dos governos, ausência
de estrutura, guerras e convulsões sociais comprometem as
colheitas em dezenas de países. Os dados da Organização
para Alimentação e Agricultura (FAO) das Nações
Unidas apontam que a imensa maioria dos 840 milhões de famintos
e desnutridos do planeta está nos países do Terceiro
Mundo, boa parte deles distribuída entre a Ásia e
a África. Mas nos cálculos entram também 11
milhões de pessoas que vivem em países industrializados
e outros 30 milhões nos países em desenvolvimento.
O desafio já tem preço: 24 bilhões de dólares
anuais, a ser bancados tanto pelos países ricos como pelos
pobres. O difícil é encontrar governos e entidades
dispostos a bancar a conta. Tanto nos países ricos como nos
pobres eles relutam em gastar tanto.
No
ano passado, menos de 10% do total de famintos do planeta foi atendido
pelos projetos do Programa Mundial de Alimentação
(WFP), braço da ONU para a distribuição de
alimentos. Ao todo, 84 países são beneficiados por
programas da entidade. A ajuda, no entanto, está diminuindo
devido a uma queda brutal no volume de doações. Na
Coréia do Norte, país de regime comunista que enfrenta
uma colossal crise agrícola, o WFP parou de distribuir ração
de cereais a 3 milhões de pessoas nas províncias em
que a situação econômica é um pouco melhor.
Nos próximos dois meses, esse número deve aumentar
em mais 1,5 milhão. Essas pessoas dependerão totalmente
do programa de distribuição de comida do governo norte-coreano,
que fornece 300 gramas de cereal por dia a 23 milhões de
habitantes. Essa quantidade é a metade do total recomendado
pelas organizações internacionais. A crise alimentar
na Coréia do Norte é gravíssima. Estima-se
que 2 milhões de norte-coreanos tenham morrido de fome entre
1997 e 2000. Na Ásia estão em situação
semelhante países como Bangladesh, Camboja e Afeganistão.
A África é o continente mais castigado do planeta.
O bolo de famintos é de 180 milhões de pessoas, e
21 países enfrentam situação de emergência.
| Números
|
|
840 milhões
|
 |
|
Esse
é o número de famintos e desnutridos no
mundo. A maioria deles está na África
e na Ásia
|
|
24 bilhões
de dólares
|
 |
| É
o que a ONU calcula ser necessário gastar a cada
ano para erradicar a fome do planeta nos próximos
100 anos |
|
Enquanto
uma fórmula global de socorro ainda não sai do papel,
alguns países já procuram combater o problema com
os recursos que têm à mão. Nos anos 70, Nigéria
e Gana apresentavam os piores índices de subnutrição
do mundo. Na época, 44% dos nigerianos e 62% dos ganenses
passavam fome. A situação praticamente se inverteu
graças à iniciativa dos dois países de plantar
mandioca, tubérculo que cresce em solo seco e suporta bem
as altas temperaturas africanas. Após dez anos de pesquisas,
o governo da Nigéria introduziu, em 1984, o plantio em áreas
secas de terras improdutivas. No país, a mandioca é
usada na preparação do gari, uma espécie de
arroz, degustado com vários tipos de tempero. Logo, a demanda,
especialmente nas grandes cidades, aumentou, o que incentivou os
fazendeiros a expandir o cultivo e a procurar novas espécies
da planta. Em 1992, o consumo anual de gari já havia dobrado,
de 63 para 129 quilos per capita. Hoje, na Nigéria, a subnutrição
atinge apenas 8% da população. Em Gana, a produção
de mandioca vinha crescendo sem parar desde 1990 e só recentemente
estacionou, segundo especialistas, porque se atingiu o equilíbrio
entre a oferta e a procura. Em 1998, o consumo anual do tubérculo
chegava a 232 quilos por habitante. Graças a ele, apenas
um em cada dez ganenses passa fome atualmente.
|
A
receita que vem da Ásia
A
maior
parte dos famintos
e desnutridos do
mundo está nos países da Ásia. Mas o
mesmo continente que tem estatísticas tão
assustadoras
oferece também
algumas das mais
eficientes fórmulas para vencer o problema. Países
como a Tailândia assumiram a desnutrição
e a fome como prioridades e investiram em programas de apoio
ao desenvolvimento rural. O índice de pobreza do país
encolheu de 32,6% da população, em 1988, para
11,4% em 1996. Na China, políticas semelhantes fizeram
com que o número de desnutridos caísse em 74
milhões de pessoas desde 1992
|
|
|