Diogo Mainardi

O papo chato das salas
de bate-papo


Ilustração Kipper


Evito qualquer contato com estranhos. Se, na fila da padaria, um simpático estranho me dá bom-dia, finjo que não ouço e viro a cara. Se outro estranho fala ao celular perto de mim, afasto-me para não escutar sua conversa. Se ele está para se afogar no mar, dou vigorosas braçadas na direção oposta. Ontem saí com um caderninho e anotei todas as palavras que dirigi a estranhos. No bar, às 10: "Um café, por favor. Obrigado". No açougue, logo em seguida: "Dois bifes de fígado, por favor. Quanto é? Obrigado". De novo no bar, às 5 da tarde: "Um café, por favor. Obrigado". Dia perfeito: no total, dezenove palavras trocadas com desconhecidos. E mais umas dezenove com as pessoas que amo. É meu ideal de convivência humana. Se todos os dias fossem assim, eu seria um homem imensamente feliz. O problema é que sempre ocorrem imprevistos. Hoje, por exemplo, telefonou-me um vendedor de móveis. Fui obrigado a desperdiçar quatro palavras: "Não me interessa, obrigado".

Para gente como eu, nada pior do que bate-papo na internet. A essência da internet é justamente essa: um monte de estranhos ociosos puxando conversa com você. Algumas semanas atrás, ao recolher material para um artigo, meti-me num bate-papo eletrônico. O que vi foi uma rapaziada analfabeta lançando desaforos. Nada contra desaforos. Na maioria dos casos, são perfeitamente justificados. Quem entra nesses bate-papos eletrônicos merece ser coberto de insultos. É a qualidade dos insultos que não satisfaz. Muito palavrão e pouco deboche. E uma infinidade de erros ortográficos. Um dos únicos avanços indiscutíveis do computador foi a correção automática, que supriu algumas das deficiências do nosso sistema educacional, reconhecidamente um dos piores do mundo. Sugiro que os provedores de acesso à internet instalem um programa de correção automática nas seções de bate-papo. A palavra grafada de maneira incorreta seria sublinhada de vermelho, para que todos os usuários pudessem ver o erro e cobrissem de insultos seu autor.


A internet se gaba de representar a modernidade, mas as seções de bate-papo pareceram-me idênticas ao velho trote telefônico. Aconselharam-me a visitá-las de madrugada, quando a rapaziada mal-educada já foi dormir. Pus o despertador para as 3 e comecei a navegar. Talvez você não saiba, mas as seções de bate-papo são divididas por salas, cada qual com um número limitado de pessoas. As salas costumam ter um tema. O UOL oferece desde a sala Gazeta de Praia Grande até a do Papo-Cabeça. (Exemplo de papo-cabeça: "O gato comeu seus dedinhos?" "Xatoooooo". "Cê pediu bakaxi?") O Terra vai do Clube do Whisky ao Digimon. O Globo, do Banheiro Feminino ao Sobrenaturais. Na verdade, as salas quase sempre permanecem desertas. Exceto as que tratam de sexo. Estas ficam lotadas. Passei uma hora espiando os internautas trocarem confidências amorosas e fui dormir. Achei ainda mais aborrecido que a rapaziada dos palavrões. Em vez de trote telefônico, pareceu-me igual a linha cruzada. Em linha cruzada, é costume você ouvir as pessoas se queixarem de úlcera ou de dor de dente. Nunca acontece de ouvir uma conversa realmente picante, como a de um juiz pedindo para um construtor depositar uma grande quantidade de dólares em sua conta bancária em Miami. Bate-papo eletrônico também é assim: uma gente anônima que, sob anonimato, fala coisas anônimas.

Outro jeito de entrar em contato com desconhecidos através da internet é o correio sentimental. Publica-se um anúncio exaltando as próprias virtudes e aguardam-se eventuais respostas dos interessados, pelo e-mail. Dei uma olhada nos serviços oferecidos pelos provedores e escolhi o Amigos Virtuais, do UOL. Para participar dessa seção é necessário preencher um longo questionário, que destruiu minha auto-estima. "Escreva algo bem chamativo sobre você", diz o questionário. Eu não tenho nada de chamativo. "E um bom motivo para as pessoas escreverem para você." Pensei bastante e não consegui descobrir nenhum bom motivo. "Última chance de dizer algo inteligente sobre você." E perdi minha última chance. O questionário também é muito pormenorizado no que se refere ao aspecto físico dos anunciantes, indo de sua cor de pele até o uso de aparelho nos dentes. Há perguntas metafísicas: "Se você pudesse ser teletransportado agora, para onde iria?" Há perguntas sobre suas mais profundas convicções: "Por quem você arriscaria sua vida?" E, entre as áreas de interesse, ao lado de baralho, literatura ou futebol, encontra-se, curiosamente, homossexualismo. Primeiro, os brasileiros censuram as novelas de TV; depois, consideram o homossexualismo uma mera área de interesse. Falta critério neste país. Seja como for, completei o questionário e fiquei esperando ansiosamente as respostas de minhas pretendentes. Fracasso. A única que me escreveu foi a pouco seletiva Marta: "Estou desesperada por amigo. Se quizer (sic) saber mais de mim, me escreva. Um beijo deste tamanho ó". Bateu-me uma forte depressão.

Mas a internet não tem só gente desconhecida. Diariamente, os provedores convidam celebridades para bater papo com os navegantes. É o fascínio da internet: ela cria a ilusão democratizante de que todos, diante do computador, são iguais. Nem todas as celebridades que batem papo na rede, porém, merecem o título de celebridades. Acabo de ver o programa de hoje do Terra. A primeira entrevistada é Gogoy Zucolli, taróloga, que faz previsões para 2001. A seguir, vem o DJ Rica Amaral, organizador da rave XXXperience. Por fim, Simone Ruhmann, estrela do ensaio fotográfico de Drauzzio Tuzzulo. Os provedores também fornecem o endereço eletrônico de personalidades, para que você possa escrever diretamente para elas. Fiz uma tentativa. Escrevi para Zé do Caixão, Fernando Henrique Cardoso e Vampeta. O único que respondeu foi Vampeta. Ou melhor, seu respondedor automático, que me enviou a seguinte mensagem: "Continue acessando o site Vampeta para concorrer a prêmios e ficar por dentro das novidades relacionadas a seu ídolo". Vampeta não é meu ídolo. Meu ídolo é Romário. Só que não encontrei o endereço dele.

Os freqüentadores de internet fazem questão de emitir opiniões sobre tudo. Existem seções dedicadas especialmente a isso. São os chamados fóruns ou murais, espaços em que os internautas debatem filmes, política, esportes, religião ou notícias de jornal. Quer saber o que Kleber Antonio pensa a respeito das privatizações? Ou a opinião de Gilvane Sabino sobre o espiritismo? Ou o que Patriky sentiu quando perdeu a namorada para seu melhor amigo? Não? Eu também não quero. Por mais que os internautas insistam em nos dizer. Uma maneira bem mais rápida de dar a própria opinião é a Enquete. Todos os dias os provedores lançam uma pesquisa bastante esquemática. Basta apertar um botãozinho para manifestar seu apoio à eutanásia, ou escolher o roteirista de Star Trek X, ou eleger seu tipo preferido de biquíni, ou protestar contra o crescimento do bairro da Granja Viana.

Como sempre desconfio dos brasileiros, resolvi comparar nossos bate-papos com os estrangeiros. Escolhi o que me pareceu mais sério: Abuzz. Você faz uma pergunta e os leitores do jornal The New York Times, por algum motivo, respondem. Levei vários dias para inventar uma pergunta que sintetizasse minhas atuais dúvidas e preocupações em relação ao mundo. Afinal, resolvi perguntar qual era a melhor cura para os gases intestinais de meu filho recém-nascido. Recebi dezenas de respostas. Em todas, transparecia a suspeita de que eu era um mau pai, e que deveria consultar um psicólogo. Francamente, sinto-me mais em casa com os palavrões da rapaziada analfabeta.

 

 

 

 

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