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"Internet
para mim é uma religião"

Eurípedes
Alcântara
AP
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| Inauguraηγo:
Son comemora o inνcio das operaηυes da Nasdaq Japγo, em junho |
O maior investidor da nova economia, o japonês Masayoshi Son, fundador
do Softbank, explica a filosofia que o levou a ser dono de mais de 25%
da rede de computadores.
Veja
O
senhor teve uma infância pobre. Agora aparece na lista dos bilionários
como o asiático mais rico, dono de uma fortuna ainda maior que
a do sultão de Brunei. Como se sente com 43 anos e tão rico?
Son
Não muda tanta coisa. Hoje, eu posso comprar tacos de golfe sem
ter de me preocupar com o preço, e isso é muito bom. No
entanto, eu não posso comprar um bom resultado em meus jogos...
e não posso comer mais do que agüento. O dinheiro não
compra muitas coisas. Eu continuo a fazer o que fazia antes com paixão
e energia, mas não só por causa do dinheiro. Continuo porque
dessa forma eu tenho estímulo intelectual, conheço pessoas,
penso sobre novas oportunidades, ajudo gente mais jovem... É muito
estimulante.
Veja
Os analistas sustentam que o
senhor é dono de 25% da internet. Esse cálculo é
correto?
Son
Depende de como se fazem as contas... Mas é um número bem
grande. Pode até ser um pouco mais do que dizem. Hoje, dos 300
milhões de usuários da internet no mundo, cerca de 200 milhões
utilizam freqüentemente algum serviço on-line fornecido pelas
empresas da família Softbank. A maioria das pessoas não
sabe disso, porque nosso logotipo não aparece nas páginas
das empresas em que temos participação.
Veja
O senhor perdeu mais de uma centena de bilhão de dólares
neste ano. Isso não tirou sua fé na internet?
Son
Fé é uma boa palavra. Fé não se perde. A internet
é como uma religião para mim. Não posso abandoná-la
só porque tive alguns contratempos. A verdade é que chegamos
a valer 200 bilhões. Agora valemos 20 bilhões. Mas ainda
assim no ano passado esse número era de 10 bilhões, e no
anterior, apenas 2 bilhões. O mais relevante é o fato de
que no início do ano tínhamos 140 empresas na internet,
um ano antes, sessenta ou setenta, e cinco anos atrás apenas uma.
Hoje somam cerca de 500.
Veja
Exatamente quantas de suas centenas de empresas dão lucro?
Son
Eu não tenho o número exato, mas muitas delas, como o Yahoo!,
a E*Trade, a Morningstar, já dão lucro... e um bom lucro.
São empresas que chamo de nosso primeiro grupo. As outras, do segundo
e do terceiro grupo, ainda têm de progredir um pouco, mas estão
indo bem depressa.
Veja
O senhor ainda vê espaço para crescimento na indústria
da internet?
Son
Nós estamos no começo da revolução da internet
e por isso os altos e baixos devem ser encarados como as dores do parto.
Eu não posso prever para onde vai o mercado de ações,
mas estamos bem no começo dessa indústria. Acho normal a
volatilidade das ações. No futuro, a indústria de
internet deve ser bem maior do que é hoje. Mais cedo ou mais tarde,
o mercado vai entender as reais dimensões da rede. Eu lhe pergunto:
no final das contas, qual será o maior mercado, o de PCs ou o da
internet?
Veja
Com certeza, o da internet.
Son
É isso que eu penso também, assim como a maioria das pessoas.
Sempre que faço essa pergunta, nove entre dez pessoas respondem
como você. O fato é que, por enquanto, o tamanho da internet
em faturamento é apenas 10% do tamanho da indústria de computadores.
Num cálculo simples, ela pode crescer 90% em poucos anos. Em breve
deve crescer ainda mais. Não temos mais de nos preocupar com o
futuro da indústria da internet.
Veja
O senhor ainda mantém a conta de que apenas uma em cada 100
empresas de internet vai sobreviver?
Son
Acho mais prudente não quantificar, mas muitas vão desaparecer.
Outras, no entanto, serão centenas de vezes maiores que agora.
O fenômeno é conhecido. A indústria automobilística
e a de eletrônicos passaram por esse processo. A internet é
como a indústria automobilística ou a de eletrônicos
em 1920. Desde aqueles dias, muitas daquelas empresas que estavam nascendo
desapareceram, porém, as que sobreviveram tornaram-se centenas
de vezes maiores.
Veja
Sim, mas os sobreviventes nessas áreas foram apenas três
ou quatro...
Son
Não foram três ou quatro. Na indústria automobilística,
as empresas principais são hoje por volta de dez. Mas há
um grande número de companhias que vendem óleo, peças,
pneus, há oficinas mecânicas, postos de combustível.
Enfim, há um grande número de empresas que só passaram
a existir por causa dessa indústria. Assim também é
na internet: sobreviverá um número limitado de empresas
BtoB (sigla em inglês que significa Business to Business e que serve
para denominar sites que facilitam negócios entre grandes empresas),
um número limitado na área de vendas para o consumidor,
e por aí vai. Mas olhando o quadro geral teremos centenas de companhias
no mundo muito bem-sucedidas.
Veja
Centenas ainda parece pouco, ainda mais se se computarem entre elas
as empresas que já eram grandes, globais e bem-sucedidas antes
da internet...
Son
Acredito que o cenário mais provável é de um meio-termo.
As empresas tradicionais ainda terão muitas oportunidades, mas
as novas estão crescendo rapidamente. Por exemplo, comparando a
Amazon.com à Barnes & Noble (tradicional livraria americana),
apesar das críticas que vem sofrendo, a Amazon é ainda muito
maior.
Veja
Voltemos à questão básica: será que
ainda existem na internet outras Amazon ou mesmo outro Yahoo! esperando
ser descobertos?
Son
Sim, com certeza. Quantas pessoas falavam da Ariba (empresa japonesa
BtoB) dois anos atrás? Nenhuma. Ela começou a operar
há dois anos. E de repente foi uma explosão. Até
as pessoas mais veteranas da indústria da internet notam que as
novas estrelas ainda estão esperando ser descobertas.
Veja
Os analistas consideram o gigantismo do Softbank sua maior fraqueza.
Afinal, como é possível administrar tantas empresas?
Son
Isso se deve ao desconhecimento deles sobre como funcionam a nova economia
e o Softbank. Eles têm a visão antiga de que o controle centralizado
é a chave do sucesso de uma operação. Na indústria
tradicional isso é importante. Quanto mais controle e centralização,
maior o sucesso do controle de qualidade, por exemplo, dos automóveis.
Mas esse modelo é inadequado para os novos tempos. Nós queremos
ter participações de 10%, 20% ou 40% nas companhias cujo
potencial identificamos. Não queremos ser donos delas nem gerenciá-las.
Seria tolo de nossa parte querer ensinar a Jerry Yang como tocar o Yahoo!.
A chave do sucesso na idade da informação é agilidade
e rapidez, e não controle de qualidade à moda antiga. Somos
a primeira empresa desenhada desde o começo para agir sob os preceitos
da tecnologia da informação. Por esse motivo podemos comprar
três centenas de empresas e isso não afeta em nada nossa
maneira de trabalhar. Se inventei alguma coisa, foi esse novo estilo de
organização empresarial.
Veja
A que tipo de empreendedor o senhor dá dinheiro? Que qualidades
chamam a sua atenção?
Son
Temos de analisar o modelo do negócio, o time, saber se o candidato
tem uma forte crença na internet e entusiasmo por ela. Analisamos
seus progressos, quantos clientes eles conseguiram, a receita bruta, quão
cedo irão começar a ter lucro. Temos umas 500 empresas,
já fizemos isso 500 vezes, e nos tornamos especialistas. A cada
ano nós avaliamos algo como 20.000 sócios em potencial e
escolhemos apenas uns 200.
Veja
O senhor acha que uma empresa na internet que não tenha estratégia
global tem futuro?
Son
Bem, o sucesso local é muito plausível. Relacionamento global
é de grande ajuda. Apenas as oportunidades são diferentes
quando o foco é local. Considero um bom exemplo uma empresa em
que investimos no Brasil chamada Connectmed, uma BtoB da área de
saúde. É uma companhia com base no Brasil e que está
focada no Brasil por causa do modelo do negócio. Claramente ela
tem potencial para ser grande nesse mercado. É uma companhia perfeitamente
viável, mesmo restrita somente ao Brasil.
Veja
Que tipo de conselho o senhor daria a um jovem brasileiro disposto
a ganhar dinheiro na internet?
Son
É preciso ter em mente que há duas características
que são notavelmente distintas na rede em relação
a qualquer outro meio ou negócio. É o zero e o infinito.
A internet tem custo material zero, zero fronteira, em muitos casos zero
tempo de espera entre o investimento e o retorno... enfim, muitas características
que podem ser definidas como zero. Por outro lado, ela propicia acesso
infinito à informação, alcance infinito de usuários,
uma quantidade infinita de informações que podem ser acessadas.
Essas duas características não tinham presença marcante
na indústria tradicional. Quem compreender esse balanço
e aplicar um modelo totalmente novo aos negócios pode ser extremamente
bem-sucedido. Assim, os empreendedores não deveriam ter receio
quanto a sua falta de experiência, a seu pouco capital inicial,
nem a nada que intimidasse um empreendedor da economia não digital.
Se tiverem boas idéias e entusiasmo suficiente e criarem um plano
para os negócios, têm grandes chances de se tornar milionários,
se é isso que os motiva.
Veja
Quando o Softbank comprou o banco estatal Nippon Credit Bank, o
senhor disse que seria um importante passo para reformar a cultura empresarial
japonesa. Não é um desafio um tanto impossível?
Son
O Nippon Credit é um banco de 50 bilhões de dólares
em ativos. Com ele vamos tentar modernizar a área de financiamento
no Japão, que é muito conservadora. Talvez com o banco,
cujo nome alterei para Aozora Bank, terei ainda mais poder de mudar as
coisas do que como assessor especial do primeiro-ministro do Japão.
Você tem de fazer primeiro e depois esperar pelas reações.
Há menos de dois anos a legislação japonesa proibia
que as empresas dessem opções de compra de ações
para os funcionários. Pois bem, eu decidi fazer isso. Disseram-me
que era contra a lei. Eu disse: "Pouco me importa. Vou fazer isso assim
mesmo. Se quiserem, mandem me prender". Claro que não apareceu
ninguém, e agora quem quer dar opções pode fazê-lo
sem susto. Só assim as coisas mudam no Japão.
Veja
O senhor acha o termo nova economia adequado para descrever o atual
estágio do desenvolvimento tecnológico?
Son
Nova economia? Sim. Revolução digital seria mais adequado.
Não há dúvida. Eu me considero um revolucionário.
Estou em meio a uma luta. Vivo nela cada minuto de meus dias.
Veja
Qual o ingrediente básico da revolução digital?
Son
Conexão, conexão e conexão. Não importa se
você usa sua geladeira, forno de microondas, palmtop ou PC. O que
vai colocá-lo na vanguarda da revolução digital é
estar conectado à internet.
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