Este homem perdeu 180 bi
e ainda está otimista

Um em quatro cliques na internet passa pelos
domínios de Masayoshi Son, dono do Softbank
e sócio de 500 empresas

Laurentino Gomes

 
Fotos Antonio Milena



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Íntegra da entrevista

Se você entrar agora na internet, provavelmente vai esbarrar em algum pedaço do império de Masayoshi Son. Aos 43 anos, esse empresário japonês de ascendência coreana, conhecido como "Masa" no mundo dos negócios, tem um dedo em quase tudo que circula pela rede virtual. Pense no Yahoo!, o endereço mais visitado da internet. Ele é dono de 21%. No GeoCities, portal criado para abrigar sites pessoais e terceiro do ranking mundial em número de acessos. Ele também é sócio. No Ariba, o maior portal de negócios entre empresas do planeta. Masa tem 40%. A lista inclui ainda ETrade, maior empresa virtual de investimentos na bolsa, Webvan, maior supermercado on-line do mundo, Vivendi, gigante francês na área de mídia, e News Corp, dona do jornal inglês The Times, entre outras publicações. No Brasil, é sócio da Connectmed, um portal da área de saúde.

Masayoshi Son tem participação em pelo menos 25% da rede mundial de computadores. Isso significa que cada vez que você entrar na internet terá uma chance em quatro de clicar num site ou página em que ele seja sócio. De Tóquio, Masa controla o primeiro conglomerado virtual do planeta. É o Softbank, um banco de investimentos com participação em cerca de 500 empresas em cinco continentes. Planeja chegar a 800 até 2005. Nenhum outro investidor tem tantas empresas em tantos lugares do mundo. Presidente e fundador do Softbank, Masa tem uma fortuna pessoal estimada em 20 bilhões de dólares.

Agora, a informação mais surpreendente. Só neste ano o empresário japonês perdeu 180 bilhões de dólares. Sim, isso mesmo: ele perdeu o equivalente a um terço do produto interno bruto (PIB) brasileiro. Ou quase o PIB de dois Portugais e três Chiles. A conta é a seguinte. Em 1998, quando a valorização das ações de empresas de tecnologia ainda não se tinha transformado numa corrida maluca, seu patrimônio era estimado em 2 bilhões de dólares. Em fevereiro deste ano, às vésperas da derrocada da bolsa Nasdaq, a cifra já se havia transformado em 200 bilhões. Desde então, as ações das empresas em que ele é sócio perderam 90% do valor, o que lhe dá o patrimônio atual de 20 bilhões. Resumindo: apesar do terremoto nas bolsas, ele é hoje dez vezes mais rico do que era dois anos atrás. "A internet é como uma religião para mim", diz Masayoshi, numa entrevista a VEJA. "Não posso abandoná-la só porque tive alguns contratempos" (leia íntegra da entrevista).


William Tsui, José Bonchristiano e Ademar Larine, da Connectmed: sociedade com o Softbank

Conversador, simpático e sempre vestido de maneira informal, Masa vive de procurar oportunidades de ganhar dinheiro entre milhares de novas idéias que a todo momento surgem na internet. Na maioria das vezes, aposta em empresas desconhecidas, criadas em garagens e fundos de quintal por jovens visionários, e que podem fazer toda a diferença no futuro da nova economia. "Ele é um dos jogadores mais agressivos e mais bem-sucedidos no mundo dos negócios", definiu a revista The Industry Standard numa reportagem recente. Sua estratégia é investir no maior número possível de empresas com alguma chance de ter sucesso na internet. E, principalmente, investir cedo.

É errado, no entanto, imaginar que a lógica de Masayoshi seja a mesma de um jogador que espalha fichas a esmo em máquinas de um cassino para ver qual lhe dará a sorte grande. Ao contrário. Seus investimentos obedecem a uma triagem rigorosa. Apenas uma entre 100 empresas que se candidatam a receber seu dinheiro consegue sua aprovação. "Às outras 99 desejamos boa sorte e recusamos", ele diz.

Uma dessas apostas bem-sucedidas chama-se Yahoo!. O maior portal da internet tem hoje nada menos que 166 milhões de usuários – número equivalente ao de toda a população brasileira. Numa demonstração de seu raro senso de oportunidade, Masayoshi comprou 31% do Yahoo! quando o nome era conhecido ainda por um reduzido grupo de iniciados na rede mundial de computadores. Na época pagou 350 milhões de dólares. Hoje, a participação do Softbank no portal vale cerca de 30 bilhões de dólares – uma valorização de 8 500% em apenas cinco anos. Como Masayoshi é dono de 39% do Softbank, sua fatia pessoal no Yahoo! vale pelo menos 12 bilhões de dólares.

Outro exemplo é o Ariba, portal de negócios entre empresas com atuação no mundo todo. Um ano atrás, o Ariba valia 200 milhões de dólares. Hoje, é avaliado 20 bilhões. Seu faturamento saltou de 45 milhões para 279 milhões neste ano. Crescendo nesse ritmo, pode chegar a valer 100 bilhões em pouco tempo. É um dos casos mais espetaculares de valorização na história do capitalismo. O Sofbank é dono de 40% da empresa.

Uma coisa faz toda a diferença nos investimentos de Masayoshi. Ele exige que o candidato a se tornar sócio do Softbank tenha um sólido plano de negócios e consiga vislumbrar num futuro próximo uma forma de ganhar dinheiro. Tome-se o caso do Webvan, um supermercado americano totalmente virtual que, num caso raro na internet, dá lucro. Em apenas um ano, de outubro de 1999 a outubro de 2000, as receitas do Webvab deram um salto de 9 milhões para 87 milhões de dólares. O número de clientes cresceu de 47.000 para mais de meio milhão. No caminho, incorporou um concorrente, o HomeGrocer.com. "Este será o século do capital de risco e dos novos modelos de negócio que a era digital propicia", diz Jan Boyer, presidente do Softbank na América Latina.

Obviamente, como tudo na internet, Masayoshi Son ainda tem inúmeros obstáculos a vencer. O primeiro: com quase 500 empresas para administrar em cinco continentes, o Softbank se tornou uma operação complexa demais. Não existe nada parecido no mundo dos negócios. O segundo problema é que, embora alguns dos investimentos já estejam dando bons resultados, a maioria das empresas do Sofbank ainda está no vermelho. Para enfrentar esse desafio, Masa tem vendido parte de seu investimento mais valioso, o Yahoo!. Sua participação no portal, que já foi de 37%, caiu para 21% nos últimos seis meses, como forma de fazer caixa para bancar os outros investimentos.

Masa nasceu numa região pobre no sul do Japão. Passou a infância num casebre construído à beira de uma estrada de ferro na zona rural. Sua certidão de nascimento não traz o nome da rua nem qualquer outro endereço. Nos anos 70, foi para os Estados Unidos e conseguiu uma vaga no curso de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ali, construiu seu primeiro negócio vendendo consoles usados de videogames japoneses para clientes de uma rede de pizzarias. Um pouco mais tarde, fez seu primeiro milhão vendendo para a Sharp um aparelho portátil de tradução que ele mesmo desenhou. Usou o dinheiro para fundar, em 1981, o Softbank. Tinha apenas 24 anos. De lá para cá, teve uma ascensão fulminante.

Masa tem fascinação por figuras históricas. Seus livros favoritos incluem as biografias do barão do petróleo americano John D. Rockefeller, do filósofo chinês Sun Tzu e do conquistador mongol Gêngis Khan. "Os fatores-chave do sucesso são sempre os mesmos nos negócios, numa guerra, numa revolução ou numa disputa política", ensina.

E de guerra Masa entende. Na infância, era discriminado no Japão por pertencer a uma família de origem coreana. Pela mesma razão, no começo da carreira teve dificuldades para conseguir empréstimos entre a elite empresarial japonesa. Ele se virou sozinho e se vingou de diferentes maneiras do desprezo que lhe dedicaram. Primeiro, transformou-se no maior fornecedor de PCs e programas de computador no Japão. Depois, conquistou a internet japonesa. Atualmente, 85% de todos os internautas japoneses passam pelas páginas de empresas em que Masa é sócio. Também criou uma versão japonesa da bolsa Nasdaq, na qual a metade das ações negociadas é de companhias ligadas ao Softbank.

Por fim, comprou um antigo ícone do sistema bancário local, o falido Nippon Credit Bank, e o transformou num dos braços financeiros de seus investimentos em projetos de internet, com o nome de Aozora Bank. Masa, o antigo patinho feio do ninho empresarial japonês, é hoje a vanguarda que tenta sacudir a economia do país. "Para ser bem-sucedidos na revolução da informação, nós precisamos mudar o Japão", ele prega. Com um apetite inesgotável pelo risco, ele está determinado a imprimir fundo sua marca na rede. Vangloria-se de ter um plano de negócios para os próximos 300 anos, período em que suas empresas devem dominar a internet. Haja ambição!

 

Estranho no ninho

Pelo ranking da revista Forbes, cinco entre os dez homens mais ricos do mundo são empresários ligados à nova economia. Masayoshi Son, o único não americano desse grupo, é dono da oitava maior fortuna do planeta

60 bilhões
Bill Gates
Mesmo depois de ver as ações da Microsoft desvalorizarem-se em cerca de 50% neste ano, o fundador da gigante dos softwares continua sendo o homem mais rico do mundo. Sua fortuna encolheu em 30 bilhões do ano passado para cá.

47 bilhões
Larry Ellison
A Oracle, segunda maior fabricante de programas de computador do mundo, fundada por Ellison em 1977, valorizou-se em 500% em 1999 e o alçou ao posto de vice no ranking dos bilionários mundiais. Em 1999 estava no 23o lugar, com 9,5 bilhões de dólares.

28 bilhões
Paul Allen
Fundador da Microsoft, juntamente com Bill Gates em 1975, vendeu boa parte de suas ações da Microsoft para financiar nada menos que 61 empresas ligadas à internet, entre elas, dezenas de iniciantes.

25,6 bilhões
Warren Buffett
Presidente do fundode investimentos americano Berkshire Hathaway.

20 bilhões
Família Albrecht
Proprietária da cadeia varejista alemã Aldi Stores.

20 bilhões
Alwaleed bin Talal al Saud
Príncipe saudita.

20 bilhões
Robson Walton
Herdeiro da cadeia americana Wal-Mart.

 
19,4 bilhões
Masayoshi Son
De 1999 para 2000, pulou do 46o lugar, com 6,4 bilhões, para a 8a posição entre os homens mais ricos do mundo.

19,1 bilhões
Michael Dell
Fundador da Dell Computer, responsável por um quarto dos PCs vendidos no planeta. Atualmente, a empresa americana vende 50 milhões de dólares por dia pela internet.

10° 16 bilhões
Kenneth Thomson
Empresário canadense de comunicações, dono de 55 jornais na América do Norte.

 

O que dá certo na internet

Apesar do tombo global das empresas pontocom nas bolsas de valores, a internet é um negócio que pode dar muito dinheiro, e não apenas para grandes fabricantes de programas e equipamentos, como a Microsoft, a Oracle, a Cisco ou a Dell, todas altamente lucrativas e cuja receita escala a casa dos bilhões de dólares. Muitas das chamadas empresas "puras" de internet – criadas e desenvolvidas dentro da rede – devem resistir bem às intempéries da nova economia. A America Online, o maior provedor de acesso do mundo, é um desses exemplos. No terceiro trimestre, a AOL registrou 2 bilhões de dólares de receita e 350 milhões de lucro. O Yahoo!, popular site de busca, teve um bom lucro também: 81 milhões de dólares no terceiro trimestre de 2000. Ainda na lista das lucrativas, está o eBay, dos leilões virtuais, com lucro de 15 milhões de dólares no terceiro trimestre.

No Brasil, muita gente está no bom caminho para chegar ao lucro. Os bancos, pioneiros em explorar a web, vão ganhar dinheiro com a rede quando tiverem um terço dos clientes operando on-line. Hoje, nas maiores instituições financeiras esse número não passa de 16%. Os grandes grupos estabelecidos no mundo real que puseram um pé na internet também devem dar-se bem. Empresas que prestam serviços dirigidos à rede, como as de sistemas de segurança e comércio eletrônico, estão obtendo resultados mais rápidos. É o caso da EverSystems, que deve fechar 2000 com 28 milhões de dólares de faturamento e lucro de 11 milhões. Companhias puras também têm vez no Brasil. O BuscaPé, site de comparação de preços criado em 1998 por quatro estudantes, está faturando 150.000 reais por mês e espera equilibrar receita e gastos no final de 2001.

Sérgio Sister

 

 

 

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