|
|

Saúde
Jovens por mais tempo A pesquisa
genética e o conhecimento do papel da dieta e dos exercícios
aumentam a chance de amadurecer em grande forma 
Por Roberta Viganó
Ernani D'Almeida  | Suzana
Vieira, de 64 anos, é um exemplo de disposição,
bom humor e beleza plena. "Não calculo nada. Deixo
a vida me levar, porque o bom sempre acontece. Amo viver, me divirto bastante
e curto fazer tudo o que me oferecem", afirma
a atriz recém-casada, que malha três vezes por semana e diz comer
de tudo (menos açúcar). | Até 2050, a expectativa de
vida dos brasileiros, hoje de 71,7 anos, deve, conforme o IBGE, aumentar em uma
década alcançando um índice semelhante ao dos japoneses
(que, por sua vez, terão atingido uma expectativa de 85 anos). No passado,
a curva ascendente da longevidade devia-se sobretudo a progressos básicos,
como o acesso universal a vacinas ou à água tratada. A ascensão
dos próximos anos será produzida por um fenômeno muito mais
complexo o progresso da medicina em novos campos, como o da prevenção
de doenças pela análise do DNA, cirurgias até agora tecnicamente
impossíveis e pesquisas que determinarão com precisão o papel
da má alimentação no surgimento de determinadas doenças.
O papy boom, nome dado ao choque
demográfico que o envelhecimento da população provocará
nos próximos anos (numa contraposição ao baby boom pós-II
Guerra Mundial), terá um impacto ainda não equacionado na economia,
afetando o futuro dos sistemas de aposentadoria. Se é difícil prever
como a sociedade sustentará os aposentados de 2050, é bem mais fácil
concluir sobre a situação de saúde que eles terão:
estarão em condições físicas bem melhores que os das
gerações anteriores. Festejar o centésimo aniversário,
privilégio atualmente de apenas 0,01% da população brasileira,
será regalia para uma parcela bem maior em 2050. Segundo estimativas da
Organização Mundial de Saúde, o número de centenários
no mundo chegará a 2,2 milhões, quinze vezes mais do que o registrado
atualmente. O Brasil deve alcançar a nona posição nesse ranking.
É justamente com os centenários
que os pesquisadores vêm descobrindo lições preciosas sobre
os fatores decisivos para uma vida prolongada e saudável. O papel da genética
está cada vez mais bem estabelecido. Após estudar 400 pessoas com
mais de 95 anos e seus descendentes, o médico israelense Nir Barzilai,
diretor do Instituto para Pesquisa do Envelhecimento da Faculdade de Medicina
Albert Einstein, em Nova York, analisa a influência dos genes na probabilidade
de ultrapassar os 80 anos. "Uma vez que esses centenários estudados não
tiveram doenças relacionadas à idade, como diabetes ou distúrbios
cardiovasculares, suspeita-se que eles possuam variações genéticas
que os ajudem a ultrapassar a barreira dos 100 anos", afirma Barzilai.
Os estudos indicam que, até os 80
anos, muitos fatores individuais influem na longevidade; depois dos 80, a genética
é fundamental. Para o médico brasileiro Angelo Bos diretor
de um estudo do Instituto Nacional do Envelhecimento, uma agência federal
americana , a biologia molecular tem ajudado a entender a predisposição
genética de algumas pessoas a desenvolver doenças que afetam a saúde
e a longevidade. Entretanto, a chave do envelhecimento bem-sucedido, com qualidade
de vida, não está na ausência de doenças, e, sim, na
preocupação que o indivíduo tem com a manutenção
do bem-estar desde a fase adulta. "A
partir de uma certa idade, a genética pode ser determinante, mas a vida
social e os exercícios físicos e mentais ao longo do tempo influenciam
na chegada a esse ponto e, depois, na caminhada até os 100 anos com lucidez
e disposição", diz o médico americano Roy G. Smith, responsável
pelos estudos do envelhecimento na Faculdade de Medicina Baylor, em Houston, no
Texas. Smith pesquisa proteínas presentes no cérebro e na hipófise
que, reativadas na velhice, parecem ter efeito positivo sobre a memória,
o aprendizado e o humor. Isso ajudaria a explicar a relação apontada
em vários estudos, mas ainda não comprovada cientificamente, entre
um estado de espírito jovial e uma vida longa, e pode teoricamente desembocar
em medicamentos que devolvam ao sistema nervoso central parte do vigor da juventude.
"Um tratamento com essas pequenas moléculas poderá ser uma maneira
eficaz de retardar o envelhecimento, evitar doenças ou, por exemplo, melhorar
a tolerância do corpo a uma quimioterapia", afirma o pesquisador.
Se no processo do envelhecimento cerca de
70% das interferências estão relacionadas a fatores ambientais e
30% aos genes, segundo o médico Emílio Antônio Jeckel Neto,
especializado em biologia do envelhecimento da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, as descobertas recentes não invalidam
a importância dos conhecimentos já estabelecidos sobre o estilo de
vida para quem deseja retardar o processo de envelhecimento e prevenir câncer
e doenças cardíacas: atividades físicas regulares e moderadas;
hábitos saudáveis como não fumar; e, sobretudo, uma alimentação
balanceada e literalmente colorida. "Deixando de lado o fator genético,
a alimentação é a principal responsável pela longevidade
e pela qualidade de vida na terceira idade, seguida pela atividade física
regular", explica o geriatra e nutrólogo Nelson Iucif Júnior, diretor
clínico da Associação Brasileira de Nutrologia.
As dietas da moda, que elegiam grupos inteiros de alimentos como vilões,
vêm perdendo prestígio. Hoje, os especialistas recomendam não
descartar carboidratos, gorduras e proteínas. O mais importante é
a moderação. "Parece que comer pouco prolonga a vida, principalmente
quando conseguimos aliar qualidade nutricional e prazer no que comemos", afirma
a nutróloga Ellen Simone Paiva, diretora-clínica do Centro Integrado
de Terapia Nutricional. Essa é a tese por trás de best-sellers recentes,
como As Mulheres Francesas Não Engordam (editora Campus/Elsevier).
Segundo a autora, Mireille Guiliano, o segredo para comer de tudo sem culpa e
não engordar é dar ênfase ao frescor dos alimentos, à
variedade, ao equilíbrio, à quantidade das porções
e, principalmente, ao prazer de sentar-se à mesa e apreciar uma boa comida
ou um bom vinho. "As francesas não são neuróticas e não
seguem regimes radicais. Mudar hábitos pode ajudar qualquer um a viver
em forma e com saúde", diz Mireille, que vive nos Estados Unidos.
Todos esses cuidados não dispensam
a prevenção com exames e consultas. "Não basta saber o que
causa doenças. Deve-se procurar não estar doente. As pessoas às
vezes acham que são imunes, inclusive os médicos", diz o professor
Jarbas Dinkhuysen, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Avaliações
do coração, por exemplo, são indispensáveis a partir
dos 40 anos, e até antes, se houver histórico familiar. O mesmo
se aplica a várias outras doenças.
| A AGENDA SAUDÁVEL Exames
preventivos podem ser decisivos para prolongar a vida com qualidade. Abaixo, uma
lista dos principais check-ups periódicos. Em todos os casos, porém,
é o médico que deve determinar quais os exames e qual a freqüência
deles para cada paciente PARA ELES Antes
dos 40 anos
Devem-se fazer auto-exames testiculares esse tipo de câncer é
mais comum até os 35 anos A partir
dos 40 anos
Eletrocardiograma e teste de esforço anuais, para prevenir o infarto
Exame
de próstata, caso haja histórico de câncer na família
A partir dos 50 anos
O exame periódico da próstata é indispensável
PARA ELAS
Até
os 40 anos
Visitas anuais ao ginecologista. O exame papanicolau, em mulheres que já
tiveram relação sexual, permite descobrir um câncer do colo
uterino
A partir dos 25 anos, mulheres com histórico familiar de câncer de
mama devem fazer mamografias periódicas A
partir dos 40 anos Recomendam-se
mamografias anuais, eletrocardiograma e teste de esforço para o coração
as mortes por infarto têm aumentado entre mulheres
A
cada dois anos, pelo menos, uma densitometria óssea deve investigar o risco
de osteoporose PARA AMBOS
Até os 50 anos
Controlar a cada três anos a pressão arterial (ou anualmente, se
houver histórico familiar que o recomende)
A cada dois anos, exame de sangue para medir colesterol, triglicérides,
glicemia, glóbulos brancos e vermelhos; exame de urina e provas hepáticas
Exames periódicos da visão 50
anos
Controle anual da pressão
Exame de sangue oculto a cada quatro anos, pelo menos 60
anos
Além dos exames acima, vacinas contra a gripe e outras doenças respiratórias
Fontes: Artur Katz (oncologista clínico),
Jarbas J. Dinkhuysen (cardiologista), Lister de Macedo Leandro (ginecologista),
Milton Godoy (cardiologista), Silvio Bromberg (mastologista) e Virgilio Centurion
(oftalmologista) | |
| OS MANDAMENTOS DA BOA SAÚDE 1.
Não fuja dos exames É normal ter medo da doença,
não do diagnóstico 2.
Conheça seus genes Seu médico fará bom uso
do histórico de doenças da família
3. Acredite em dieta saudável Alimentação
correta prolonga a vida. Má alimentação... 4.
Tenha atividades prazerosas O baixo nível de stress tem efeitos
de longo prazo na saúde 5.
Reconheça seus limites Noitadas e excessos em geral um dia
apresentarão a conta | | |