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O melhor da cidade
Guia 2002/2003 |
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CRÔNICA
Antes
dos chefs
A
velha e a nova cozinha
que deliciam os paulistanos
Ivan
Angelo
Numa
fase como direi? Mais romântica? Mais ingênua?
certamente menos pretensiosa, muitos dos restaurantes de São
Paulo nasceram da combinação de alguma nostalgia com
a oportunidade.
Um
casal húngaro saudoso das comidas da mãe, ou de uma
avó, dispunha-se a repetir com temperos locais um goulash
familiar, compartilhado com a distinta freguesia. Um babbo e uma
mamma iam para a cozinha com os fratelli e botavam as lembranças
na panela. Um toureiro, que em uma tarde de maus touros e piores
pressentimentos fugira dos chifres em Sevilha, trocava a arena pela
cozinha e com suas paellas arrancava olés dos paulistanos.
Uma solitária baronesa russa renunciava ao orgulho e atendia
no máximo três casais por noite, previamente agendados,
para fruírem um frango à Kiev e uma vodca caseira
destilada por ela que chamava delicadamente as senhoras de barinya.
Um patriarca libanês convocava a mulherada da casa para a
produção de esfihas e quibes e instalava-se no caixa
com ares de comandante de navio.
Os
que eram realmente profissionais montavam grandes restaurantes no
centro e arredores, ou em hotéis de luxo, e serviam o que
se chamava de "cozinha internacional", hoje olhada com desdém
pelos mais esnobes. Dela constavam pratos que podiam ser reconhecidos
sem embaraço em dois ou três países, com nomes
como filé à Rossini, espaguete à parisiense,
steak à Diana, filé à Chateaubriand... Nessa
época, os cozinheiros ainda eram chamados de cozinheiros.
Hoje,
nos restaurantes da moda, se diz chef, palavra francesa que, entre
outros chefes, designa o da cozinha. Em português, quando
o número de ajudantes era grande, dizia-se cozinheiro-chefe.
Com leve ironia usava-se também mestre-cuca, do inglês
cook, cozinheiro. Agora, obrigatoriamente em francês, e obrigatoriamente
sem complementos, se diz chef, apenas. É fino. Quando alguém
se referir ao personagem, por favor, deixe o "f" soar mudo, alongado:
chefff... É chique.
Nestes
tempos autorais, chefs são artistas, criadores prestigiados.
Já se vão tornando celebridades, personagens obrigatórios
de revistas de muitas figuras e poucas palavras, lado a lado com
as estrelas da televisão, os pintores decorativos, os escritores
de best-sellers e os designers de moda (antigamente chamados de
costureiros). Lançam pratos para a estação
como estes lançam uma coleção para a primavera.
Pratos
com grife são mais um fenômeno do consumo, como as
inovações dos automóveis, dos programas para
computador, dos tênis, das roupas. São "modelos novos".
O
problema para a classe média é que todo modelo novo
custa mais caro. A boa comida vai sendo elitizada. O que não
deixa de ser, também, uma novidade, pois algum tempo atrás
o luxo não era necessário. Não se fazia comida
para imitar Nova York.
O
processo de criação de restaurantes como empreendimento
familiar, nesta cidade de imigrantes, proporcionou uma variedade
extraordinária de sabores, estilos e sotaques, com qualidade.
Nossa culinária nasceu como expressão da metrópole.
Foi assim também com Nova York, antes da tentação
parisiense.
Não
há o que lamentar, porém. Ganhamos o estilo novo sem
perder o velho. Poucas coisas o paulistano faz com tanto prazer
quanto "comer fora". Há os que gostam de ir sempre ao mesmo
restaurante e os que adoram variar. Entre os últimos está
um par de amigos meus. Há nove anos, desde que se juntaram,
nunca repetiram restaurante, nunca. Têm uma técnica.
Chegam e avisam:
Gostamos de tudo. Qual é o melhor prato que vocês fazem?
O melhor, a unanimidade, o que não tem erro.
Garantem
que nunca se decepcionaram.
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