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24 de setembro de 2003
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Felicidades

Adriana Falcão

Era aniversário dele.

Mais um ano.

Ultimamente os meses enlouqueceram de vez e deram pra passar assim, voando, janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, pronto. Chegou de novo o aniversário dele e, depois de tanto tempo juntos, ela já tinha larga experiência no assunto.

Era impossível encontrar uma idéia de presente, eis o problema.

Pense em um homem difícil de agradar.

Perfume?

Não usava.

Carteira?

Perdia.

Chaveiro?

Esquecia.

Camisa, escolhida por ela, sempre pinicava.

Sapato?

Apertava.

Meia?

Ele sempre inventava uma tal costura incomodando não sei onde.

Calça nunca era suficientemente confortável.

Calção, bola de futebol, raquete de tênis?

Ele não jogava.

Livro?

Só ia aumentar a pilha.

CD?

Já nem cabia mais na estante.

DVD?

Pra ele ficar lá horas assistindo a filme sem nem olhar pra ela?

Um simples "muitas felicidades", só isso, depois de tantas que eles já tinham vivido?

Embaixo do prédio, se amassando no carro, a maior bandeira.

Na beira da praia, debaixo da lua, madrugada, com medo do guarda que fazia ronda.

Aquele nunca mais acabar a noite, só mais uma, só mais outra, amanheceu, e agora?

Tabela furada, laboratório, teste: positivo. Jura? Juro.

Quarto da maternidade, as avós chegando loucas, os dois trancados lá dentro pra ficarem sozinhos mais um pouco.

Nasceu. Exagero de alegria. Os olhos dele, o queixo dela, e as novidades: acordou, tá com fome, isso é sede, fez xixi, tá com soluço, algodão molhado na testa, isso é besteira, riu, chorou, dormiu. Aproveita e apaga a luz. Agora chega aqui pertinho. Mais um pouco. Isso. Grita mais baixo pra não acordar o bebê. Resultado: barriga de novo.

Natal em família. Alguém viu a barba do Papai Noel que estava guardada nesse armário? Bonecas. Velocípede. A coleção dos discos do Chico. Lembranças. No fim da noite, um monte de pacotes pra carregar junto com as meninas dormindo.

Mudança. Outra vez? Ô homem pra inventar doidice! Eles nunca ficaram sabendo se sempre dava certo porque ela confiava nele ou se ela confiava nele porque sempre dava certo. Mudança. Outra?

No meio das felicidades, eles também viveram muitas tristezas, é verdade, mas isso fazia parte do pacote. Gente que se foi. Tempo que passou. Besteira que se fez. Palavra que se disse. Coisa que mudou. Raiva. Lágrima. Ciúme. Sem contar com um pé quebrado e uma porta praticamente destruída.

De repente, eles já não eram mais meninos.

Aniversário dele.

Mais um ano.

Pense num homem difícil de agradar.

Foi por isso que ela desistiu do presente e resolveu desejar muitas felicidades, mais ainda.

Mas o que ele gostou mesmo foi do beijo.

         
     
 
 
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