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CRÔNICA
Felicidades
Adriana
Falcão
Era
aniversário dele.
Mais
um ano.
Ultimamente
os meses enlouqueceram de vez e deram pra passar assim, voando,
janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto,
setembro, pronto. Chegou de novo o aniversário dele e, depois
de tanto tempo juntos, ela já tinha larga experiência
no assunto.
Era
impossível encontrar uma idéia de presente, eis o
problema.
Pense
em um homem difícil de agradar.
Perfume?
Não
usava.
Carteira?
Perdia.
Chaveiro?
Esquecia.
Camisa,
escolhida por ela, sempre pinicava.
Sapato?
Apertava.
Meia?
Ele
sempre inventava uma tal costura incomodando não sei onde.
Calça
nunca era suficientemente confortável.
Calção,
bola de futebol, raquete de tênis?
Ele
não jogava.
Livro?
Só
ia aumentar a pilha.
CD?
Já
nem cabia mais na estante.
DVD?
Pra
ele ficar lá horas assistindo a filme sem nem olhar pra ela?
Um
simples "muitas felicidades", só isso, depois de tantas que
eles já tinham vivido?
Embaixo
do prédio, se amassando no carro, a maior bandeira.
Na
beira da praia, debaixo da lua, madrugada, com medo do guarda que
fazia ronda.
Aquele
nunca mais acabar a noite, só mais uma, só mais outra,
amanheceu, e agora?
Tabela
furada, laboratório, teste: positivo. Jura? Juro.
Quarto
da maternidade, as avós chegando loucas, os dois trancados
lá dentro pra ficarem sozinhos mais um pouco.
Nasceu.
Exagero de alegria. Os olhos dele, o queixo dela, e as novidades:
acordou, tá com fome, isso é sede, fez xixi, tá
com soluço, algodão molhado na testa, isso é
besteira, riu, chorou, dormiu. Aproveita e apaga a luz. Agora chega
aqui pertinho. Mais um pouco. Isso. Grita mais baixo pra não
acordar o bebê. Resultado: barriga de novo.
Natal
em família. Alguém viu a barba do Papai Noel que estava
guardada nesse armário? Bonecas. Velocípede. A coleção
dos discos do Chico. Lembranças. No fim da noite, um monte
de pacotes pra carregar junto com as meninas dormindo.
Mudança.
Outra vez? Ô homem pra inventar doidice! Eles nunca ficaram
sabendo se sempre dava certo porque ela confiava nele ou se ela
confiava nele porque sempre dava certo. Mudança. Outra?
No
meio das felicidades, eles também viveram muitas tristezas,
é verdade, mas isso fazia parte do pacote. Gente que se foi.
Tempo que passou. Besteira que se fez. Palavra que se disse. Coisa
que mudou. Raiva. Lágrima. Ciúme. Sem contar com um
pé quebrado e uma porta praticamente destruída.
De
repente, eles já não eram mais meninos.
Aniversário
dele.
Mais
um ano.
Pense
num homem difícil de agradar.
Foi
por isso que ela desistiu do presente e resolveu desejar muitas
felicidades, mais ainda.
Mas
o que ele gostou mesmo foi do beijo.
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