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Adriana
Falcão
Garçom!
Para
ele, as mulheres se dividiam em dois tipos: as que dividiam os homens
em dois tipos e as que não dividiam. E ela era o tipo de
mulher que dividia os homens em dois tipos: os que sabiam chamar
o garçom e os que não sabiam.
Ele não sabia chamar o garçom. Nunca soube. Nem chamar
o garçom, nem pedir abatimento, nem passar conversa no guarda,
nem descolar convite pra festa, nem entender as mulheres, nada disso
ele sabia. Também não sabia se ela dividia mesmo os
homens em dois tipos, pelo menos não tinha certeza, nenhuma
prova concreta. Só intuía.
Mas, como homens que não sabem chamar o garçom na
maioria das vezes têm ótima intuição,
tudo levava a crer que ele estava perdido.
Logo
mais eles iam sair juntos pela primeira vez. Ele ia pegá-la
em casa (já tinha até feito uma lista de assuntos
para conversar durante o caminho), finalmente haviam de chegar ao
restaurante, iam sentar numa mesinha agradável num cantinho
aconchegante (os cantinhos aconchegantes são sempre os de
mais difícil acesso), e então, se Deus ajudasse, o
garçom ia se aproximar espontaneamente para anotar o pedido
das bebidas. Logo depois ia trazer uma vodca para ele e uma taça
de vinho branco para ela (era o tipo de mulher que pede uma taça
de vinho branco, infelizmente; devia pedir logo uma garrafa inteira)
e depois ia sumir novamente, o garçom, às vezes eles
somem mesmo.
Enquanto a taça dela estivesse até a metade, ele ainda
ia ter algum sossego. Mas assim que a taça estivesse mais
vazia que cheia, sinal de que o momento fatal não tardava
a chegar, ele não ia pensar em outra coisa a não ser
"tenho de chamar o garçom".
E como é que se chama um garçom, minha Nossa Senhora?
É
fácil. Um simples gesto. Levanta-se qualquer uma das mãos
acenando delicadamente. Só isso. É claro que o garçom
não ia ver. Faz parte. Mas se ele tentasse de novo, e mais
uma vez, se passasse a noite inteira tentando, sempre com forte
pensamento positivo, não era possível que uma hora
o garçom não visse, mesmo que fosse míope e
tivesse esquecido os óculos em casa. Ainda restava a esperança
de que outro garçom, mais atento, avisasse o colega. Afinal
não é tão impossível assim alguém
ver um homem acenando a noite inteira, com forte pensamento positivo,
dentro de um pequeno restaurante.
Imagine-se que ele obteve sucesso e o garçom finalmente atendeu
a seu chamado. Ele pediria outra taça de vinho para ela,
podia até pedir logo as três próximas, aproveitava
e já pedia o cardápio.
Imagine-se agora que a taça dela esvaziou, ele acenou, acenou
outra vez, acenou horas seguidas, ela ficou querendo outra, o garçom
não viu, ela desistiu do vinho e disse: vamos pedir logo
os pratos? Vamos. E como é que se faz para pedir os pratos?
Pede-se o cardápio. Isso! Chamando
o garçom.
E como é que se chama um garçom, minha Nossa Senhora?
Talvez ele tivesse de apelar para o grito. "Companheiro!" Não.
"O cardápio, mestre!" Pior. "Ô meu querido, a gente
queria dar uma olhadinha no cardápio." Era melhor morrer.
"Garçom!",
pura e simplesmente, ainda era a melhor opção, em
se contando com a sorte de ser ouvido. Se tudo desse certo, exibiria
a mão esquerda aberta, como se estivesse segurando um cardápio
imaginário, e faria um movimento vertical com a direita,
como se varresse o cardápio, que não estava na mão
esquerda, de cima a baixo. Ou até diria "o cardápio,
por favor!", frase que, sejamos autocomplacentes, não chega
a matar ninguém.
O cardápio chegou, imagine-se. Então era torcer para
ela escolher logo o prato antes que o garçom se fosse outra
vez. Escolheu. Pediu. Graças a Deus. Agora ele teria a refeição
inteira para pensar na maneira menos trágica de pedir a conta.
Escrevendo uma suposta conta com uma caneta imaginária? O
garçom não ia ver, é óbvio. E se pedisse
logo a conta junto com os pratos? Não. Ela podia querer uma
sobremesa. Quem sabe até, depois, um cafezinho.
Resolveu ligar para ela. "Não dá pra continuar enganando
você. Eu sou o tipo de homem que não sabe chamar o
garçom. Pronto. Confessei. Se quiser desmarcar o encontro,
pode desmarcar, eu compreendo."
E ela, que era o tipo de mulher que acreditava que só existia
um tipo de homem, o que engana as mulheres, não só
confirmou o encontro como ainda escolheu o vestido mais decotado
que tinha.
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