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Perfis
A voz dos pioneiros

Texto: Fábio Altman
Fotos: Paulo Vitale
O faz-tudo do começo da aventura
Ernesto Silva já estava lá quando JK fez
a visita inaugural ao Planalto Central
Em 12 de setembro de 1958, um versinho publicado no Correio
da Manhã carioca debaixo do título "Brasília e
as musas" resumia o papel de três dos principais personagens da construção
da cidade:
"O açúcar e o mel são filhos de Israel.
A carne e o pão são filhos do Sayão.
E o resto?
É do Ernesto".
Israel era Israel Pinheiro (1896-1973), presidente da Novacap,
a Companhia Urbanizadora da Nova Capital. Sayão era Bernardo Sayão
(1901-1959), já mítico construtor de estradas, responsável
pela Belém-Brasília, também diretor da empresa que tocava
as obras. Ernesto Silva, o único da trinca ainda vivo, é chamado
pelos amigos de "o pioneiro do antes". Tem 95 anos recém-completados.
Foi ele quem recebeu a comitiva de Juscelino na primeira vez em que o presidente
pôs os pés no ponto do cerrado onde hoje está a capital.
Numa das imagens históricas dos primórdios, aquela em que JK aparece
tomando café na Fazenda do Gama, em 2 de outubro de 1956, diante de porcos
e galinhas, lá está ele, com o mapa da região nas mãos.
De 1953 a 1955, indicado por Getúlio Vargas, ele fora secretário
da Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil. Era,
portanto, já naquela época, memória viva, incontornável.
Ernesto, nascido no Rio, pediatra de formação, cuidou
de alguns dos problemas mais complexos dos primeiros anos de Brasília:
os sistemas educacional e de saúde. Dificuldades? Recorria-se ao Ernesto.
Ele negociava com os moradores de barracões e tendas, montados dentro
do terreno do Plano Piloto, de modo a transferi-los para regiões mais
distantes, na gênese das chamadas cidades-satélite. "Tenho
orgulho de viver num lugar que ajudei a construir", diz, em voz baixa,
embora não esconda saudosista decepção com o inchaço
da metrópole, "que foi pensada para ter 500 000 habitantes
e hoje tem cinco vezes mais." O fundador mora na Superquadra Sul 105, uma
das primeiras, ainda com o formato original.
É personagem tão antigo, mas tão antigo na
história brasiliense, que parece já ter chegado idoso (tinha 40
anos). É o próprio Ernesto quem conta uma outra história
curiosa a envolver seu nome. É o relato publicado em 1962 na revista
da Associação Atlética Banco do Brasil. Está assim
no original: "Depois de mais de duas semanas em que se falou, demasiadamente,
nas escolas, sobre a fundação de Brasília e seus construtores,
a professora aproveita a data de 21 de abril para falar também de Tiradentes.
Quais os companheiros de Tiradentes, pergunta a mestre. A resposta: Ernesto
Silva e Bernardo Sayão".
Foto: Mário Fontenelle | Arquivo Público do DF
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Café com porcos e galinhas
Juscelino visita a Fazenda do Gama, na cerimônia de boas-vindas
Planalto Central - 2 | 10 | 1956 |
Régua e compasso de um tempo sem GPS
O engenheiro Augusto Guimarães Filho tirou
a cidade do
papel para erguê-la no chão
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Houve um momento fundamental na construção de Brasília,
sem o qual ela jamais sairia do papel: a transferência do desenho em escala
1/25 000 para o chão de verdade. A tarefa coube ao engenheiro civil
Augusto Guimarães Filho, hoje com 97 anos, homem de sorriso aberto e
rigor cartesiano. Augusto trabalhara com Lucio Costa no Parque Guinle, no Rio,
nos anos 40. Na época do concurso de Brasília, projetavam juntos
a sede do Banco Aliança, incorporado pelo Itaú, na praça
carioca Pio X. Viam-se todos os dias, e no entanto Guimarães só
soube que Lucio desenhara o traçado vencedor da nova capital ao ler a
notícia no jornal. O convite para trabalhar com Brasília foi tratado
como missão. Lucio fez duas únicas observações:
a primeira é que estaria subordinado a Oscar Niemeyer. A segunda: Niemeyer
é que montaria a equipe. Guimarães foi nomeado chefe da Divisão
de Urbanismo da Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital, sediada no
Rio, em 1957.
Projeto em mãos, ele definiu para que lado Brasília
ficaria em relação à nascente do sol. Bateu o martelo
e, nesse caso, literalmente da Estaca Zero, a cruz formada pelos eixos
Monumental e Rodoviário, o início de tudo. Ao cotejar a documentação
topográfica previamente apresentada com o solo brasiliense, descobriu
que havia erros. A solução foi "puxar" a cidade 800
metros ao sul. Tudo feito no lápis, sem os recursos modernos, como o
GPS. "Mas garanto que o computador não daria mais precisão
ao que fizemos", afirma. "Apontamos retas, curvas e cotas altimétricas
sem erros." Sua equipe tinha onze pessoas.
Foto: Casa de Lucio Costa
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Braço direito
De óculos, ao lado de Lucio Costa,
no escritório do Ministério
da Educação,
no Rio. Guimarães só soube da escolha
do concurso pelos jornais do dia
Rio de Janeiro - c. 1957/1960 |
A partir do Rio, lembra Guimarães, tudo era feito com zelo
matemático e improvisação heroica. À falta de mesas,
ele encomendou trinta portas e cavaletes. "Apenas pedi aos arquitetos e
engenheiros que usassem meias brancas, porque teriam de tirar os sapatos para
subir nas instalações", ri. Aos que criavam desenhos de pessoas
e bonequinhos para ilustrar as plantas, recurso lúdico tradicional dos
arquitetos, pedia que fossem apagados. "O projeto já foi aprovado,
não precisa de frescura não, quem vai manipular isso é
o pessoal lá na obra."
Guimarães, modesto, resume seu trabalho a mera transposição
das ideias defendidas por Lucio Costa no memorial descritivo da nova cidade.
"Peguei aquele relatório e o botei para construir sem nenhuma dificuldade",
diz. "Não tive de perguntar a ele absolutamente nada, tudo estava
dito ali." No escritório do pequeno apartamento onde vive, em Niterói,
Guimarães tem pendurada na parede a cópia ampliada do Plano Piloto
de Lucio Costa que ele usou entre 1957 e 1960 para pôr de pé uma
cidade inteira.
O construtor da pista do aeroporto
Nas memórias de Atahualpa da Silva Prego
há espaço
até para brincadeiras com Lucio Costa
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Um livro-diário comprado na Papelaria União, no Rio
de Janeiro, em 1956, já com as páginas naturalmente amareladas
guarda um dos tesouros de Brasília. É o relato minucioso do engenheiro
Atahualpa Schmitz da Silva Prego, o responsável pela construção
da pista do aeroporto. Sem ela, Juscelino não teria feito as sucessivas
viagens ao Planalto Central. Construí-la era fundamental, porque parte
do material da construção de Brasília foi levada por aviões.
O livreto é o "Diário Ar-7", sigla emprestada do nome
da obra. Atahualpa guarda-o com carinho, matéria-prima para um livro
de memórias que lançará em breve. A leitura de uma das
primeiras entradas, em 25 de outubro de 1956, é um retrato de quão
pioneiros foram os primeiros homens e mulheres a desbravar a região.
"Permaneci em Luziânia à procura de pessoal carpinteiro, tábuas,
caibros, pregos etc.", escreve o engenheiro. "Enviei, pelo telégrafo,
mensagens para a firma no Rio. Obtive informações sobre a estrada
Vianópolis-Luziânia, de 18 léguas. Reservei na pensão
Juca da Ponte acomodações para a chegada de motoristas, de nossos
primeiros caminhões, com materiais e equipamentos para oficina. Observei
que toda tarde costuma chover na região."
Foto: Arquivo Público do DF
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O mestre do asfalto
O encontro de Atahualpa (no destaque) com o presidente e Israel Pinheiro, de mão na boca.
"Sinal de que ele já estava com vontade de sair", ri o engenheiro
Brasília - c. 1957/1960
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Atahualpa, de 83 anos, hoje vive num casarão no Alto da
Boa Vista, no Rio. É homem bem-humorado, capaz de misturar numa mesma
frase detalhes técnicos do solo de laterita, típico do cerrado,
com lembranças daquele tempo em que os políticos tinham de obedecer
aos engenheiros, porque eles é que sabiam o que dava para erguer ou não.
Ele se recorda com saudosismo, rindo sozinho, do modo como reencontrou um dos
personagens cruciais na aventura imaginada por JK.
Em 1938, Atahualpa costumava jogar bola com a garotada na Rua
Gustavo Sampaio, no bairro do Leme, no Rio. De uma casa ao lado do campinho
de paralelepípedos saía, quase diariamente, um cidadão
alto, de chapéu-panamá, com feições próximas
às de Santos Dumont. "Farto bigode, sisudo em seu porte circunspecto",
conta. Invariavelmente, o Lancia Sport conversível não pegava,
e a meninada era convocada a empurrar a baratinha. Não tardou para que
o dono do automóvel, cujo nome as crianças desconheciam, fosse
apelidado de Calhambeque.
Em abril de 1957, dezenove anos depois, portanto, das peladas
no Leme, houve alvoroço com a chegada de uma comitiva ao Catetinho, a
residência de JK no Planalto Central, construída com projeto de
Oscar Niemeyer. Conta Atahualpa, ligando os dois episódios de sua linha
do tempo particular: "Avancei um pouco mais numa das frestas de curiosos,
entre ombros, cabeças e barrigas, e vi olhando para a enorme cópia
vegetal da planta um personagem de minha meninice. Era o urbanista Lucio Costa,
era o Calhambeque". Atahualpa diz ter saído de fininho para ver
se do lado de fora do Catetinho havia um Lancia como o de antigamente. Ele nunca
fez esse relato a Lucio, por receio de constranger o urbanista de Brasília.
Ele ainda chora por Juscelino
Subchefe do Gabinete Civil, Affonso Heliodoro
conversava com o
presidente até no banheiro
Nada parece enfraquecer o coronel reformado Affonso Heliodoro,
subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República de 1957
a 1961. Aos 93 anos, altivo, capaz de subir e descer as escadas de sua casa
no Lago Sul de Brasília com facilidade, não toma remédios.
Duas pílulas diárias de vitamina A e ácido fólico
bastam para mantê-lo firme. Ele só perde o prumo quando
lembra ter sonhado com Juscelino Kubitschek na noite anterior, os dois numa
cerimônia oficial, e chora. Por quê? "Porque ele era um homem
admirável."
O adesivo no vidro de trás do carro dá pistas do
fascínio de Heliodoro pelo criador de Brasília: "JK. Procura-se
outro". Como outro não há, o presidente virou um mito a ditar
a vida do amigo, dormindo ou acordado. Pastas de plástico guardam a troca
de correspondência e os documentos relativos ao Plano de Metas de Juscelino,
que Heliodoro ajudou a administrar. Há uma carta de 18 de julho de 1964,
tradução da proximidade de ambos. "Todas as manhãs,
ao despertar, penso que ainda vou encontrá-lo no meu quarto e no meu
banheiro para os primeiros comentários do dia", escreve JK. "Hábito
velho que trouxemos de Minas, levamos ao Rio, transportamos para Brasília
e novamente para o Rio."
Heliodoro viu JK pela primeira vez em 1933. O futuro presidente
era capitão-médico no Hospital Militar da Força Pública,
em Belo Horizonte. Heliodoro começava a trilhar carreira na PM. Nascera
também em Diamantina e tinha sido aluno da mãe de JK. "Juscelino
tinha 31 anos, eu apenas 17, mas fizemos sólida amizade", conta
Heliodoro. "Era homem carismático, de conversa fácil, adorava
contar histórias." Mesmo depois da morte de JK, em 1976, Heliodoro
continuou a ajudar o amigo. Em 1981, às vésperas da inauguração
do Memorial JK, Heliodoro foi convocado inúmeras vezes pelo general Newton
Cruz, comandante militar do Planalto, para ouvir que "o pessoal do setor
militar não gostou do monumento, porque é evidente, na estátua
que ficará postada lá em cima, a referência à foice
e ao martelo dos comunistas". Houve pressões para não subi-la.
Oscar Niemeyer e Sarah Kubitschek ameaçaram entrar na Justiça.
Coube a Heliodoro ser a ponte entre a família e o governo militar. Ele
tentava convencer os generais de que o símbolo comunista, embora evidente,
era miragem. Até que veio a ordem do presidente João Baptista
Figueiredo: "Sobe a estátua". Subiu, e Affonso Heliodoro tomou
posse como o primeiro diretor do memorial.
Foto: Arquivo pessoal
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Fidelidade
Heliodoro acompanhou JK durante décadas de cafés da manhã, dos anos 30 ao exílio,
em Paris e Nova York, depois do golpe de 1964
Rio de Janeiro - c. 1957/1961 |
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