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Todas as possibilidades do concreto

Para o arquiteto Tadao Ando, a obra de Niemeyer
transcende os limites impostos pelo modernismo
de Le Corbusier

Narinder Nanu /AFP

Edifício da Assembleia Legislativa

Oscar Niemeyer é um arquiteto singular que materializou nosso sonho de "desejar criar cidades ideais de acordo com a ordem arquitetônica". Como exemplo do sonho de um arquiteto realizador de sonhos há igualmente o projeto criado por Le Corbusier para a cidade indiana de Chandigarh, no início dos anos 50. Entretanto, o impacto da capital Brasília é de uma natureza absolutamente diversa do projeto do arquiteto franco-suíço.

As duas gigantescas cúpulas alinhadas do Congresso Nacional, a residência do presidente com seus arcos em formato de bumerangue, a catedral semelhante a uma nave espacial. Em cada uma de suas obras se delineia um cenário arquitetônico enérgico e dinâmico, a ponto de eu, que comecei minhas atividades de arquiteto no Japão trinta anos depois de Niemeyer, não ter sido capaz de aceitá-las plenamente com meu bom senso.

Niemeyer trabalhou com Lucio Costa e Le Corbusier e, aprendendo arquitetura em meio ao modernismo sem se entregar aos dogmatismos fáceis, reconstituiu os princípios arquitetônicos no ambiente peculiar brasileiro, fazendo com que se desenvolvessem até criar um cenário arquitetônico moderno que só poderia surgir no Brasil.

No atual pós-modernismo, seu trabalho reveste-se de um significado ainda maior e mais profundo. Mas o que mais impressiona é o fato de Niemeyer, depois de ensaiar uma conclusão para o modernismo, não ter se contentado com essa posição gloriosa. Ele continuou a correr em direção a um novo mundo arquitetônico.

As formas ousadas e delicadas desenhadas sob estruturas acrobáticas intensificaram-se com o decorrer do tempo. Foram criadas sucessivamente, por meio de seu traço, obras que ocultam uma força que transcende os limites não apenas do modernismo como de toda a arquitetura.

Em particular, nada melhor para chamarmos de arte do que a série de obras de Niemeyer depois de seu retorno da Europa para o Brasil, quando o país voltou à democracia e ele retomou os desenhos em sua terra natal. Não posso deixar de admirar seu talento em conseguir explorar de forma tão excepcional as possibilidades do concreto como matéria-prima e a contínua sensação de tensão que nos oferece.

Mesmo com mais de 100 anos de idade, Niemeyer não deixou de trabalhar. Desejo manifestar aqui minha mais profunda gratidão e respeito ao Grande Mestre.

Arquivo Pessoal

Tadao Ando, arquiteto japonês nascido em 1941, vencedor do Prêmio Pritzker em 1995 e professor emérito da Universidade de Tóquio, é um dos nomes mais respeitados em sua atividade. Para Bono, do U2, "Ando é Paul, John, George e Ringo numa só pessoa, um budista punk com olhar presbiteriano". Autodidata, ele começou a desenhar apenas em meados dos anos 60. Antes, foi caminhoneiro e lutador de boxe. Ando chegou a lutar com Masahiko Harada, o japonês que em 1965 tirou de Éder Jofre o título mundial de peso-galo, conquistado em 1960, um pouco depois da fundação de Brasília, no apogeu dos anos JK.