Lista de nomes
Carta ao leitor
Primórdios
Ideia
Política
Personagem
Inovação
Arquitetura
Depoimento exclusivo
Projeto
Urbanismo
Perfis
Engenharia
Finanças
Nostalgia
Inauguração
Fotografia
Realidade
Patrimônio
Moda
Design
Cultura
História
Cotidiano
Frases
Economia
Internet

   
 

Cultura
A solidão dividida em blocos

Poucas cidades no país produziram uma
juventude tão crítica e irônica em relação
ao cotidiano – e isso é saudável


Sérgio de Sá*

 

Foto: Ricardo Junqueira


"Tudo numerado
é legal mas enche
o saco."

Trecho da versão não gravada de Tédio (com um T Bem Grande pra Você), da Legião Urbana


LIVERPOOL DELES

Renato Rocha (Negrete), Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá, o quarteto da Legião Urbana, diante do Congresso Nacional
Praça dos Três Poderes – 1987

Há cinquenta anos, a cidade artificial procura encontrar uma identidade que lhe seja natural. "Nós queremos ação! Acabar com o tédio de Brasília, essa jovem cidade morta! Agitar é a palavra do dia, da hora, do mês!", gritava Renato Russo, com todas as exclamações possíveis, no fim dos anos 70, quando era voz e baixo da banda punk Aborto Elétrico. Em meio à burocracia oficial, o rock ocupou o espaço urbano, os parques, as superquadras de Lucio Costa, cresceu e apareceu. Foi a primeira manifestação cultural coletiva a dizer ao país que a cidade existia fora da Praça dos Três Poderes e que, além disso, estava viva.

Na década de 80, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Detrito Federal e outros grupos, de nomes antes esquisitos e hoje nacionalmente sonoros, bagunçaram o coreto de um lugar exageradamente controlado, recém-desembarcado de uma ditadura militar próxima demais no tempo e no espaço. Depois de vinte anos de sufoco, no período pós-1964, e já com a chegada da anistia, Brasília respirou aliviada e seus filhos – poucos de sangue, muitos adotivos – puderam afirmar sem medo, mas com ironia e autocrítica: "Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, Geração Coca-Cola", também nas palavras do onipresente Renato Russo.

O atormentado líder da Legião Urbana, nascido em 1960 como Brasília – mas na Velhacap, o Rio –, inventou outro mundo para animar a adolescência brasiliense. Transformou o cotidiano aborrecido em poesia. Algo diferente do que, no Rio de Janeiro, fizeram João Gilberto, Tom e Vinicius com a bossa nova, no fim dos anos 50, retrato musical do prazer de viver à beira-mar, trilha sonora do bem-estar.

Foto: Luis Acioli

NA VIZINHANÇA
A Superquadra Sul 208 transformada em palco ao ar livre numa apresentação do Aborto Elétrico prestes a virar Legião Urbana
Brasília – 1980

O movimento candango, no grito e em acordes também dissonantes, resumiu a vontade que cerca a história da cultura na capital federal: apagar traços da ocupação militar, escapar da comodidade das repartições públicas, amenizar a pecha de lugar de corrupção e bandalheira, de endereços sem alma, formados por letras e números. Numa versão nunca gravada de Tédio (com um T Bem Grande pra Você), Renato Russo escreveu: "Tudo numerado é legal mas enche o saco".

"SQS ou SOS?", eis a questão resumida pelo poeta Nicolas Behr, representante brasiliense da chamada turma do mimeógrafo, de bar em bar vendendo seus livrinhos. Se Leo e Bia, o casal criado por Oswaldo Montenegro em 1973, viviam no centro de um planalto vazio, "como se fosse em qualquer lugar", Eduardo e Mônica descobriram outro roteiro, menos etéreo, mais real. Como os personagens da música da Legião Urbana, a cidade se encontra pelo Parque da Cidade, anda de camelo, toma conhaque, faz magia e meditação. Esbarra, assim, num cotidiano aparentemente igual ao das outras cidades. Mas talvez apenas esbarre, porque a vida em Brasília é realmente diferente, inclassificável.

"Brasília não é um lugar qualquer", resume o ator Adriano Siri, da Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo, sucesso de bilheteria em todo o país. "Tem esse propósito inicial de abrigar poderes, autoridades, embaixadas, mas, ao mesmo tempo, traz algo nas características urbanas que nos diferencia. A cultura, naturalmente, deixou-se marcar por isso." Ele lembra que Brasília, como nenhuma outra cidade brasileira, concentrou gente vinda de todos os lugares e que uma tradição ainda está por se constituir – a cidade é jovem demais para contar uma história. "Em nossos espetáculos, conseguimos fazer humor com as realidades regionais sem forçar a barra", afirma Siri. Cinquenta anos, em qualquer cronologia urbana, é muito pouco tempo.

Caipirice. Não se pode dizer que Brasília, aos 50, seja apenas a cidade de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. "Não podemos esquecer da tradição e da vida anterior ao concreto, do sertão e sua cultura", afirma o violeiro mineiro-brasiliense Roberto Corrêa. Brasília, portanto, alia a saudável caipirice de origem (não confundir com a breguice sertaneja que a cidade abarcou, em especial nos doze anos de governo Joaquim Roriz) ao cosmopolitismo que nasce do casamento do modernismo arquitetônico com uma população de alto poder aquisitivo, viajada.

Em Renato Russo: o Filho da Revolução (Agir), o jornalista Carlos Marcelo mostra como o líder da Legião Urbana e as turmas que gravitavam na esfera do rock foram os primeiros adolescentes a poder assumir sem medo a identidade da cidade em construção, com todas as suas inquietações e imperfeições. "Nas composições iniciais, no fim dos anos 70, Renato Russo utilizou a estética e a sonoridade punk, que tinham acabado de surgir na Inglaterra e nos Estados Unidos, para amplificar o impacto das letras que escrevia sobre a situação política do Brasil e do que observava no cotidiano da capital", afirma Marcelo. "Essa mistura em iguais proporções de ingredientes cosmopolitas e nacionais é bem característica da juventude brasiliense daquela época."

Para o jornalista, a angústia resumida nas letras do roqueiro é a tradução das dores do parto e do crescimento da cidade. "Elas captaram a atmosfera daquele tempo, entre o fim do regime militar e a democratização, como se fossem polaroides", diz. Para Carlos Marcelo, "Renato foi o primeiro a cantar, com todas as letras, a angústia de morar numa cidade sufocada, de estar cheio de se sentir vazio", completa, numa referência a trecho da letra da canção Baader-Meinhof Blues, uma das tantas que misturavam estado de espírito com o desenho urbano.

Foto: J.Franca/Correio Braziliense/D.A. Press

NOVIDADE NAS RUAS
Pichação na entrequadra comercial da Asa Sul celebra o nascimento da banda
recém-criada, a Aborto Elétrico

Brasília – 1980

O mundo, naqueles dias dos anos 70 e 80, andava mesmo complicado. Para levantar a poeira da inércia bem acomodada na tranquilidade planejada das superquadras, a arte do rock encontrou Brasília, ao mesmo tempo em que, inevitavelmente, estabelecia uma mirada estrábica: um olho nos pilotis e nos cobogós, outro nas informações que circulavam mundo afora. Com baixo, guitarra, bateria e um plugue na tomada de Londres ou Nova York, partiu para a ação debaixo dos blocos, como são chamados os edifícios residenciais no Plano Piloto de Lucio Costa.

Dos gramados abertos brasilienses às salas esfumaçadas do Rio ou de São Paulo, foi um pulo, ou melhor, um mosh, como os punks definem o salto do músico aos braços da plateia, num movimento de euforia, mas arriscado. As bandas desembarcavam com um poderoso cartão de visita: "somos de Brasília", como quem dizia "somos de Manchester", o que significava som de qualidade, pulsante, novo – e muito barulho. O reconhecimento colou inclusive na geração posterior, a de Raimundos, Maskavo e Natiruts, já nos anos 90.

Faroeste caboclo. Brasília, descobriu-se, tinha carne e osso – e se tinha ambos é porque também tinha alma, embora quase sempre fosse melancólica. "A superquadra nada mais é / do que a solidão dividida em blocos", lugar em que "burocratas de verdade só fazem amor / em almofadas de carimbo", escreveu o poeta Behr. Outras vezes, além de triste, foi raivosa. Havia uma saída, e ela não era o aeroporto, como manda um chavão ainda hoje insistentemente repetido. "Meu Deus, mas que cidade linda!", gritavam e gritam os brasilienses em coro e com orgulho no verso de Faroeste Caboclo, a enorme e irônica canção narrativa da Legião, prestes a se transformar em filme. "E num ônibus entrou no Planalto Central / Ele ficou bestificado com a cidade / Saindo da rodoviária viu as luzes de Natal / – Meu Deus, mas que cidade linda."

"Ainda não há um modus operandi para lidar com Brasília, mas ela sempre mostrou disposição de olhar para fora", diz o cineasta José Eduardo Belmonte, diretor de Se Nada Mais Der Certo, vencedor do Festival do Rio em 2008. "Esse diálogo existencial com o mundo é uma característica bem brasiliense." Paulista de nascimento, Belmonte passou a adolescência na capital federal. "Meu último filme foi feito em São Paulo, mas é tão brasiliense quanto os outros. Capta um espaço abstrato, irreal, em que a cidade aparece de modo difuso, quase apenas um conceito."

Foto: Arnoldo Jacob/Agência JB

Assim era mais fácil
Para Tom e Vinicius, no apartamento de cobertura do poeta no Rio, fazer música era só traduzir o bem viver à beira-mar
Rio de Janeiro - c. 1960

Normalidade inexistente. Talvez seja a mesma Brasília da canção homônima dos Paralamas do Sucesso, trio que confunde sua origem entre o Rio e o Distrito Federal, porque Herbert Vianna e Bi Ribeiro começaram a tocar por lá. Na letra de Herbert, tudo é igual e estranho, mas os monumentos, os palácios, as avenidas, os eixos não são nomeados. "Quartos de hotel são iguais / Dias são iguais / Os aviões são iguais." A cidade, na canção, não existe. Na capital política, dar nomes é sempre um risco. Pode comprometer.

Entre o concreto e o abstrato, Brasília continua a buscar uma normalidade inexistente. Mas "ainda é cedo", diz o refrão de Renato Russo. Para a cinquentona Brasília, paradoxalmente adolescente, há muito a aprender. Ela não tem os 444 anos do Rio de Janeiro, tampouco os 455 de São Paulo. A música urbana foi – e continua sendo – uma forma de fugir da frieza da cidade recém-nascida.

Há exatos 25 anos, quando a Legião Urbana lançou seu primeiro disco (Legião Urbana), ela também tornou nacionalmente visível a impossibilidade que o artista brasiliense tem de fugir da maquete, mesmo quando há ímpetos de destruí-la. No encarte do velho vinil, a cidade aparece nos traços do baterista Marcelo Bonfá. Os quatro integrantes da banda são como gigantes que deixam rastros para sempre marcados no solo seco do cerrado, no rabisco de Lucio Costa ocupado pelas obras de Niemeyer. Eram desenhos aparentemente ingênuos, mas ajudavam a mostrar o que a juventude brasiliense pensava de si mesmo, e sua relação com o traçado urbano. Brasília ainda não sabia o que era e talvez ainda não saiba – mas é certo que já produziu uma cultura só dela, saudavelmente crítica e nada indulgente.

 

Linguística
O português de todas as origens

O modo de falar da capital

Gustavo Nogueira Ribeiro

O sotaque não é carioca. Mesmo assim, o erre é carregado. Não é nordestino, mas, ao ser contrariado, o brasiliense imediatamente dispara um "oxe". Brasília tem ou não tem sotaque, afinal? Sim e não. Stella Bortoni, doutora em linguística e organizadora do livro O Falar Candango, a ser publicado pela Editora Universidade de Brasília em 2010, explica: "A marca do dialeto do Distrito Federal é justamente a falta de marcas. A mistura faz com que os sotaques das diferentes regiões do país percam muito de sua peculiaridade".

Mas o tempo impõe marcas, e já é possível percebê-las. Para Ana Vellasco, também da Universidade de Brasília, o modo de falar candango fica evidente na melodia. "Não se fala tão cantado quanto no Nordeste. As pronúncias do ‘t’ e do ‘d’ se aproximam do modo como o carioca fala, mas o ‘s’ é à mineira", diz. O "português candango" já tem suas expressões únicas. Só em Brasília se anda de camelo ou de baú. A arquitetura, mandatória, também ajuda a criar um glossário de termos brasilienses. Afinal, onde mais se dirige por uma tesourinha?

 

PEQUENO GLOSSÁRIO

Foto: arquivo Bloch Editores
CRUZAMENTOS
Eixo Rodoviário, marco da circulação de carros da capital de pouquíssima sinalização luminosa, em decorrência do desnível de ruas e avenidas
Brasília – 1961


Baú –
ônibus

Camelo – bicicleta

Cobogó – não é expressão genuinamente do cerrado, mas ali vicejou; é o elemento vazado da arquitetura, as tramas que desenham as fachadas dos edifícios, de modo a ampliar a ventilação e a iluminação. A palavra, surgida em 1930, no Recife, vem das iniciais do sobrenome dos engenheiros Amadeu Oliveira Coimbra, o Co; Ernest Boeckmann, o Bo; e Antonio de Góis, o Gó

Tesourinha – conjunto de retornos em um cruzamento em formato de trevo

Véi – amigo, cara, sujeito

 

Etimologia
O gentílico do cidadão do Distrito Federal?

Candango ou brasiliense, a depender das origens
e da posição geográfica na cidade

Foto: Marcel Gautherot/Instituto Moreira Salles

OITO METROS DE ALTURA, DE BRONZE
O monumento de Bruno Giorgi Os Candangos, originalmente chamado de Os Guerreiros, a primeira homenagem aos 60 000 trabalhadores que construíram Brasília
Praça dos Três Poderes – c. 1960

O gentílico de Brasília: candango ou brasiliense? A primeira expressão tem ar mais antigo e ligeiramente pejorativo. A segunda, tom moderno com jeito de dinheiro novo. Candango apareceu pela primeira vez em um dicionário na compilação de Cândido de Figueiredo, em 1899. Era, na origem, o nome que os africanos davam aos portugueses, corrupção da palavra candongo, da língua quimbundo ou quilombo. Designava gente de mau gosto, desprezível e abjeta. Desembarcou no Brasil com os escravos. Inicialmente indicava os senhores portugueses dos engenhos de açúcar. Com o tempo, invertido o alvo da depreciação, passou a nomear o mestiço do índio e do negro, sinônimo de cafuzo.

Foi natural, nesse caminho, a apropriação do candango para definir os brasileiros – majoritariamente do Norte e Nordeste – que desembarcavam no Planalto Central para inventar uma cidade de 1957 a 1960. Juscelino Kubitschek, em sua campanha para transformar a criação da capital em jornada épica, tratou de alimentar um outro sentido da palavra. Candango, para JK, em entrevista ao Diário Carioca, era o avesso da "triste aparência de um inválido abatido, com que Euclides da Cunha retratou o sertanejo". E mais: "Vocês não o encontrarão no companheiro candango, a quem devemos essa cidade".

Tudo muito bem, embora, como ressalta o filólogo Antenor Nascentes, "em matéria de linguagem só há um ditador: o uso". Como ninguém pode decretar este ou aquele gentílico, nem mesmo JK, o cotidiano tratou de criar um novo – brasiliense –, menos charmoso, de menor carga histórica, mas naturalmente óbvio. Tentou-se, como quase tudo na artificialidade da cidade, definir a palavra usada para nomear seus cidadãos antes da construção. "Brasília teve nome antes de ter casas", afirma o pioneiro Ernesto Silva, referência obrigatória quando se trata de buscar a origem de tudo. Hoje, apenas os mais antigos, herdeiros dos operários pioneiros, se autointitulam candangos. Os moradores do Plano Piloto são brasilienses.

 

* Sérgio de Sá, jornalista e professor da Universidade Católica de Brasília, é neto de Bernardo Sayão, pioneiro de Brasília