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Engenharia
A saga da construção

Há uma única unanimidade, o épico feito de erguer
uma metrópole do nada em menos de quatro anos


Ronaldo Costa Couto

Foto: Marcel Gautherot/Instituto Moreira Salles
SENADO FEDERAL
Brasília - c. 1957

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Quadro: Três anos e sete meses de trabalho

Rio de Janeiro, Copacabana, 1961. A carioquinha de 5 anos adora Brasília e JK é amigo de seu pai. Ela provoca a babá:

– Quem fez o céu?

– Foi Deus.

– E o mar?

– Foi Deus.

– E eu?

– Também foi Ele, menina. Foi Deus quem fez tudo.

– É. Mas Brasília foi o Juscelino.

Polêmica muito antes de nascer, apaixonadamente idolatrada ou execrada, Brasília produziu pelo menos uma unanimidade, talvez a única: sua construção no ermo goiano em apenas 43 meses, desde a primeira vez em que JK pôs os pés no cerrado, é um feito admirável. Do governo, da arquitetura e da engenharia, dos construtores e técnicos, do exército de candangos movido a necessidade.

Palácio do Catete, meados de setembro de 1956. O Congresso aprova o projeto de lei da construção de Brasília. JK comemora a notícia com lágrimas. Diz ao velho amigo Joubert Guerra, companheiro desde os tempos de prefeito de Belo Horizonte: "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. E sabe por que o projeto foi aprovado? Eles pensam que não vou conseguir executá-lo".

Foto: Marcel Gautherot/Instituto Moreira Salles
ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS
Brasília - c. 1958


O deputado oposicionista goiano Emival Caiado, entusiasta da mudança, havia lhe contado o acontecido nas entranhas udenistas. Só aprovaram porque concluíram que Brasília inacabada seria o túmulo político do presidente. Quando o udenista Adauto Lúcio Cardoso perguntou ao líder Carlos Lacerda se a capital ia mesmo mudar, ouviu: "Vai nada. Juscelino não é de nada. Isso aí vai é desmoralizá-lo, porque ele não dará conta".

Provocação e desafio. Brasília agora, além de prioridade, é questão de honra para JK. O sucesso e a velocidade da construção passam a ser parte de seu jogo de sobrevivência e afirmação política.

A aprovação do projeto, vitória fundamental, garante a criação da Novacap, empresa que comandará o planejamento, a urbanização e a construção com carta branca. Sancionado sem alarde, converte-se em lei em 19 de setembro de 1956. JK ganha ampla liberdade de ação para construir Brasília – ainda sem definição da data de inauguração.

Mas quem dirigirá a poderosa empresa? Precisa ser alguém confiável, identificado com a causa mudancista, experiente em obras, de pulso forte. Ou seja: precisa ser o enérgico engenheiro Israel Pinheiro da Silva, homem franco, de poucas palavras e sorrisos, e de muita ação. O problema é que ele e a família estão muito bem e felizes no Rio de Janeiro. Deputado federal, preside a cobiçada Comissão de Orçamento.

É complicado tirá-lo de lá para ir trabalhar e morar no mato. Complicado e constrangedor. Por duas vezes, JK esteve com ele, rodeou, rodeou, e não fez o convite. Era urgentíssimo, precisava dar um jeito. Acionou então o PSD mineiro. Logo inventaram um pretexto e costuraram um voo de Belo Horizonte ao Rio em que os dois ficariam à vontade. O pequeno avião decolou, passou Santos Dumont, Barbacena, Juiz de Fora, e nada. JK falava sobre política, governo, Minas, Diamantina, família, o tempo e o vento, mas não entrava no assunto. Depois de Petrópolis, quase chegando, Israel resolveu a parada: "Tá bem, Juscelino, você não precisa me convidar, eu aceito".

Israel é nomeado em 24 de setembro de 1956, juntamente com o diretor executivo Bernardo Sayão – o novo bandeirante de JK, vice-governador de Goiás e exímio engenheiro construtor de estradas – e o diretor administrativo Ernesto Silva. O quarto nome saiu de lista tríplice da UDN: o deputado mineiro Íris Meinberg. Chefe do Departamento de Urbanismo e Arquitetura: Oscar Niemeyer.

Estava quase tudo pronto para a grande aventura. Só faltava o dinheiro. Como financiar o megaprojeto, pesado até para as grandes economias desenvolvidas? JK dizia que os recursos sairiam de sua cabeça. Argumentava que o crescimento rápido resultante da escalada de investimentos produziria novo equilíbrio da economia, num patamar mais alto. Terminaria por estabilizar a moeda e as finanças públicas. Precisava desse discurso que sobrepunha a política à economia política. Tinha de fazer gastos que estarreciam e arrepiavam especialistas e assessores do porte de Roberto Campos e Lucas Lopes. O Plano de Metas exigia gastos públicos monumentais.

Prédios do Exército. Sertão de Goiás, cerradão bruto, local da construção de Brasília, 2 de outubro de 1956, dia bonito, primeira visita de JK. O veterano Douglas DC-3 embica para a pista de terra vermelha improvisada por Sayão. Pancada de pneus batendo no chão áspero, muita poeira, solavancos, e pronto. Saem JK, o marechal Teixeira Lott, ministro da Guerra, diversos outros ministros e assessores. O voo fora turbulento. Muitos estão assustados. Num pau fincado ao lado da pista, vê-se a tosca tabuleta em que o otimismo quase infinito de Sayão anotou: "Aeroporto Vera Cruz". São 11h40.

O urbaníssimo presidente mostra entusiasmo. Sob sol de estourar mamona, zanza pra lá e pra cá no meio do mato ralo e das árvores retorcidas, vestido como se fosse a restaurante sofisticado de Paris. Bem cortado terno claro, lencinho no bolso superior do paletó, camisa imaculadamente branca, bela gravata italiana, chapéu de feltro, resplandecentes sapatos pretos. Olha tudo, faz uma pergunta atrás da outra. Sonha o futuro no meio do dia e do nada. Fala de uma cidade monumental, moderna e deslumbrante.

Caminha, anda de jipe com Niemeyer até o ponto mais alto. Depois sobrevoa a área da futura Brasília no teco-teco de Sayão. Parecendo vê-los, indica e descreve palácios, praças, avenidas monumentais, estradas de acesso, um lago gigantesco, aeroporto internacional e muito mais. O avião pousa na precária pista de terra. Perplexo com o que já viu e sobretudo com o que não vira, o cartesiano marechal Teixeira Lott, fardado, olhos apertados pela luminosidade, chovendo suor, aproxima-se:

– Mas o senhor vai mesmo construir Brasília aqui, presidente?

– Vou, meu caro ministro. E aqui vou terminar o nosso governo e passar a faixa ao sucessor.

Conformado, Lott vai a Niemeyer:

– Os prédios do Exército serão modernos ou clássicos?

– Numa guerra, o senhor prefere armas modernas ou clássicas?

Mario Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal
PALÁCIO DA ALVORADA LAGO PARANOÁ
Brasília - 10 | 6 | 1960

De volta ao Rio, JK faz publicar edital de concurso para o Plano Piloto de Brasília. Era indispensável e urgente fixá-la em termos arquitetônicos e urbanísticos, projetar e desencadear as obras. "Não iniciaria a construção da capital para deixá-la, ao fim do meu governo, inacabada. Os meus sucessores a abandonariam, e a ideia morreria de novo."

Rio de Janeiro, Hotel Ambassador, Rua Senador Dantas, 12 de outubro de 1956, encontro dos chamados "boêmios patriotas" do Juca’s Bar, amigos de JK. Presentes Oscar Niemeyer e uma penca de parceiros, entre eles o seresteiro César Prates e o violonista Dilermando Reis. Surge a ideia de construir uma residência provisória para o presidente em Brasília. Niemeyer esboça o projeto na hora. Um palácio tosco, de tábuas, depois apelidado de "Catetinho", sustentado por grossos troncos de madeira de lei. Não havia tijolos nem pedras no endereço: clareira no meio do mato, Fazenda do Gama, Brasília. Prazo de construção: dez dias.

Em 10 de novembro de 1956, JK e pequena comitiva chegam no DC-3 para a festa de inauguração. Música, boa comida, boa bebida. Há uísque de qualidade, mas falta gelo. De repente, cai um pé-d’água assustador, bombardeando granizo. Assim que o temporal passa, todos correm para fora, catam o que podem, dão graças a Deus, brindam a São Pedro.

No meio da festa, Juscelino pede a Sayão que se instale na área. "Quando, presidente?" "Ontem." Sayão decola para Anápolis. No dia seguinte, começo da manhã, volta dirigindo um caminhão barulhento, com a mulher, Hilda, e metade dos filhos, Lia e Lílian. Feliz da vida, estaciona debaixo de uma árvore próxima e arma sua barraca de lona. Pronto: um diretor da Novacap já está morando em Brasília com a família. Juscelino: "Com Sayão à testa dos trabalhos, a atividade redobrou. Quem olhasse o local onde estava sendo iniciada a construção de Brasília sempre o veria: chapelão na cabeça; rosto queimado de sol, suando em bica. Estava em toda parte e sempre em atividade. Reservava para si as tarefas mais árduas e perigosas e as executava com seu inextinguível bom humor. À beleza viril do físico privilegiado, aliava-se invejável formação moral. Era bom por natureza e bravo por instinto".

Foto: René Burri/Magnum

PRAÇA DOS TRÊS PODERES
Cidade Livre - 1960


Sayão morreu em 15 de janeiro de 1959, com apenas 57 anos, atingido por um gigantesco galho de uma árvore de 40 metros, quando cortava a mata
fechada para dar passagem à Rodovia Belém-Brasília. Personagem perfilado na revista Life por John Dos Passos, era um mito cujo enterro parou o cerrado, num féretro de jipes, caminhões e tratores. Foi o primeiro mártir da construção de Brasília.

A Novacap, durante e depois de Sayão, tinha tarefas de dois tipos: as urgentes e as urgentíssimas. Além do concurso para o Plano Piloto, precisava iniciar o aeroporto definitivo, preparar a estratégica rodovia para Anápolis, abrir estradas entre os canteiros de obras, construir prédios provisórios para a administração e instalar-se; fazer alojamentos para funcionários e operários, providenciar às pressas os projetos da residência presidencial, de um grande hotel, do próprio aeroporto, da Usina do Paranoá; estruturar o serviço de água e esgoto, implantar imediatamente serrarias e olarias e muitíssimo mais. Contam que um engenheiro ranheta certo dia desabafou: "Se tudo aqui é prioritário, não há prioridade".

Três turnos. A burocracia é mínima. A empresa troca as complicadas licitações públicas por breves concorrências administrativas ou mesmo por administração contratada. Mandava e desmandava. Consegue impor ritmo acelerado às obras. Regime contínuo de três turnos de oito horas, rigorosa cobrança do cronograma de execução de cada obra, ataque simultâneo em várias frentes. O canteiro cresce espetacularmente a partir de fevereiro de 1957. No começo de 1958, olhos treinados já podiam perceber a estrutura da metrópole.

JK conta que só quem olhava de cima tinha ideia da magnitude, diversidade e complexidade dos trabalhos. Engenheiros e mestres de obra de mapa na mão, equipes de dezenas, centenas, milhares de homens apressados trabalhando dia e noite nos canteiros e na abertura das vias públicas. Ao longo delas, incontáveis armações de pinho para os vergalhões de ferro das vigas de cimento armado. Dúzias de caminhões rodando de um lado para outro, entupidos de material de construção. Dezenas de tratores novos de vários tipos e poderosas escavadeiras revolvendo a terra, furando buracos, criando clareiras, preparando terrenos para obras públicas. Crateras recém-abertas engolindo toneladas de concreto.

Foto: Gabriel Gondim

CATEDRAL
Cidade Livre - 1957


Redes de água, esgoto, eletricidade, edificações. Estacas sendo fincadas para suportar andaimes nos prédios que nasciam. Torres metálicas de estações de telecomunicações pontificando em vários lugares, enviando mensagens com pedidos de material indispensável à população, às construções e à manutenção dos equipamentos. Guindastes subindo e descendo com cargas trazidas ou levadas pelos caminhões, carregando material, assentando vigas. Polias girando sem parar, buzinas tocando, sirenas soando, motores acelerando. Edifícios que começam a tomar forma. Sons de motores e máquinas, barulho de metal batendo em metal, de martelos, de serras e serrotes, de preparo de cimento, carga e descarga de material, vaivém incessante.

Formigueiro de máquinas, materiais e gente. Até a inauguração, em 21 de abril de 1960, foi projetada e concluída boa parte das principais construções: o conjunto do Congresso Nacional; o Palácio do Planalto; o Supremo Tribunal Federal; onze edifícios ministeriais; o Palácio da Alvorada (inaugurado em junho de 1958); serviço de eletricidade, de água e de esgoto; mais de 3 000 moradias; hospital público com 500 leitos; instalações da Imprensa Nacional; hotel de turismo com 180 apartamentos; aeroporto provisório; escolas; clube náutico; concha acústica; estrutura básica da Catedral Metropolitana; a pequenina Ermida Dom Bosco; a Igreja de Nossa Senhora de Fátima; a estrutura básica do Teatro Nacional; a estação rodoviária; o grande eixo rodoviário e a barragem do Rio Paranoá. Faltava muita coisa ainda, deu-se a inauguração com o que existia, mas já havia uma cidade a respirar.

Visitantes ilustres. Na inauguração, a Novacap contabilizou 360 000 metros quadrados de construção concluída, mais de 106 000 em final de execução e 37 000 em andamento. Portanto, mais de 500 000 metros quadrados de área construída ou semiconstruída em apenas três anos e meio, não incluídas as edificações a cargo dos institutos de Previdência, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, da Fundação da Casa Popular e de outras entidades. As atividades privadas começavam a florescer.

JK visitava as obras duas vezes por semana do início de 1957 ao fim de 1958, quando concluiu que Brasília já estava garantida. Decolava do Rio depois do expediente, pousava no cerrado por volta de 11 da noite, inspecionava obras até de madrugada e voltava ao Rio. No começo, no surrado mas seguro Douglas DC-3, dormindo numa cama estreita. Depois, num quadrimotor turboélice Viscount, mais veloz e espaçoso. Trazia visitantes ilustres do mundo inteiro, mostrava a cidade, orgulhava-se.

Em 1º de novembro de 1956, havia 232 operários em toda a área. Em fevereiro de 1957, cerca de 3 000 candangos e mais de 200 máquinas em atividade incessante. Em julho de 1957, o ano da criação da Cidade Livre, depois Núcleo Bandeirante, já havia 12 700 residentes. Taguatinga, a maior cidade-satélite, é de 1958. Início de 1959: mais de 30 000 candangos no canteiro de obras, população total superior a 60 000 habitantes.

Candango típico. O cearense José Alves de Oliveira, Seu Zé, acha que nasceu em 1938, mas não tem certeza. É um candango típico, adora Brasília. Tem quatro filhos e quatro netos. Não esquece um só dia a filha que perdeu para o câncer há alguns anos. Comeu nuvens de poeira na construção do Congresso Nacional e dos ministérios. A seu modo, no português possível, descreve os primeiros tempos:

"Vim mais meu pai no pau de arara, numa carroceria braba de caminhão. Levou foi muitos dia. Aí fiquei no acampamento duma firma que eu trabalhei nela, a Construtora Nacional. Construindo aquele colosso onde tem aquelas duas bacia grande em cima da laje, uma virada pra riba e outra virada pra baixo (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Trabaiei muito lá. Trabaiei adoidado! Vi quando tava só nos buraco e nas ferrage, na armação. Aqueles prédio e também os dos ministero. Trabaiava de servente. Pegava às 7 da manhã e largava às 6 horas da tarde. Quando apertava muito o serviço, a gente ia até as 10 da noite a semana todinha. Tinha um intervalinho no meio do dia. Aí a gente ia pro acampamento da Nacional, que era ali perto, naquele cerradão bravo. Era gente dimais!

"Eles armaro certinho aquelas bacia de lá, as duas já redonda. Eu vi aquilo no ferro puro-puro! Sem concreto, sem nada. Aí ia fazendo as ferrage e as fôrma de madeira pra botar o concreto. Por dentro, aquilo é tudo ocado. Tem uma escada arrodiando por dentro, a gente começava de baixo e saía lá em cima do derradeiro negoço. Assim uma roda, abeirando as parede. Tanto a bacia de boca pra riba como a outra de boca pra baixo é um sistema só, arrodiando. Agora, depois de tudo prontinho, eu num vi mais como é que ficou. Depois de pronto eu não voltei lá, não. A gente não pode entrar lá dentro. Deixam, não. Só quando tava na obra mesmo. Até que não tenho muito vontade de ir lá, não. Dumingo era o dia da gente fazê as compra. Tudo lá no Núcleo Bandeirante, que era onde tinha as coisa. Naquele tempo, a gente num via muié aqui. Era só a piãozada. E, se tinha alguma, era muito difice. Num podia nem chegá perto. A barra era pesada".

"Encheu, viu?!" A maioria das empreiteiras era paulista, predominavam os trabalhadores nordestinos. Dizia-se que mineiro mandava, paulista ganhava dinheiro, nordestino trabalhava e Goiás sempre saía lucrando. Além da cidade, o governo Kubitschek construiu mais de 20 000 quilômetros de rodovias, grande parte para interligar Brasília às várias regiões do país. Mais de 5 600 quilômetros de estradas já existentes foram asfaltados.

Até a formação do Lago Paranoá virou polêmica. Quase concluída a barragem, o engenheiro e cronista Gustavo Corção dizia que não haveria acumulação de água, devido à porosidade do solo do cerrado. Isso incomodava JK, deixava-o tenso, mesmo diante das boas informações técnicas. Quando tudo ficou pronto e a água se acumulou, enviou um telegrama a Corção: "Encheu, viu?!".

Muita obra, portanto muita corrupção, como manda o adágio? Certamente houve, talvez não ainda em escala industrial. Nisso, os tempos eram menos bicudos. Pioneiros lembram episódios de pequena corrupção. Como caminhões que chegavam lotados de areia numa construção, eram pesados, saíam novamente, davam uma volta, eram pesados de novo, e assim por diante.

O arquiteto e pesquisador paulistano Rodrigo Amaral descobriu que na Novacap de Israel Pinheiro quem comprava não pagava nem recebia o material. Quem pagava não comprava nem recebia. E quem recebia não comprava e não pagava. Por que o cuidado? Porque corriam rios de dinheiro público no cerrado brasiliense. Gastos colossais, impressionante quantidade e diversidade de obras, controle interno precário, controle externo distante. No começo, nem bancos havia. Tudo era pago com dinheiro vivo, armazenado numa robusta construção da Novacap na Candangolândia, com grossas paredes de concreto, comandada por Israel. Diziam os adversários que até material de construção era trazido de avião, a custo exorbitante. Denunciavam roubalheira e escândalos, armavam investigações.

Onde está o homem, está o perigo. Onde estão os empreiteiros também? O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, gostava de contar uma anedota em que Deus e o diabo resolvem fazer as pazes. Para comemorar, combinam construir sólida ponte entre o céu e o inferno. Acertam o projeto, marcam a inauguração para um ano depois. Dois meses, o trecho do capeta já desponta e o de Deus, não. Seis meses, o diabo tem 50% prontos e Deus, nada. Quase um ano, satanás pede audiência e reclama: "Minha parte já está quase concluída e nem sinal do resto. Assim não dá!" Deus: "Preciso de sua ajuda. Não há empreiteiros aqui no céu. Estão todos no inferno".


Tecnologia

Nem tudo que é sólido se desmancha no ar

O aço – e não o concreto – salvou do atraso os principais prédios

"Não há arquitetura sem tecnologia" é uma das mais conhecidas definições de Oscar Niemeyer, o mais dedicado defensor do uso do concreto armado, um dos primeiros a utilizá-lo em formas curvas. Niemeyer, no olhar leigo, é sinônimo de concreto. Na construção de Brasília, contudo, ante a pressão do tempo imposta por JK, houve extraordinários avanços no emprego do aço. Típico das edificações americanas, base dos edifícios de Chicago, raríssimas vezes ele tinha sido usado no Brasil. O aço, e não o concreto, nasceu com Brasília.

As construções com moldes de madeira recheados de cimento pediam tempo, significavam lentidão. Com estruturas metálicas, apenas depois revestidas de concreto, tudo era mais rápido. O Brasília Palace Hotel, de 1958, utilizou 905 toneladas de aço, fabricadas em Volta Redonda e transportadas de trem até Anápolis (GO) e por rodovia até Brasília. Para as obras dos ministérios e dos anexos do Congresso, inaugurados em 1959 e 1960, foram importadas 15 000 toneladas de uma empresa americana.

Como não houvesse técnicos no Brasil, a montagem ficou a cargo da americana Reymond Pill, estabelecida como Construtora Planalto. A dificuldade: mão de obra que soubesse trabalhar com o novo material. "Antigamente, quando se terminava uma estrutura, viam-se apenas lajes e apoios", dizia Niemeyer, anos após a construção de Brasília. "A arquitetura vinha depois, secundária, e eu queria o contrário, essa junção das estruturas com a arquitetura." As imagens dos esqueletos de aço de Brasília em construção são algumas das mais bonitas daquele tempo.

Foto: Marcel Gautherot/Instituto Moreira Salles
CONGRESSO NACIONAL
Os dois edifícios anexos à Câmara e ao Senado, com 28 andares cada um,
usaram aço importado dos Estados Unidos

Brasília - c. 1958


Incentivo fiscal

A zona franca da cidade livre

O aglomerado provisório, isento de impostos, cresceu tanto
que foi impossível tirá-lo do lugar

"A mãe de Brasília" é o apelido do Núcleo Bandeirante, que, na sua gênese, em dezembro de 1956, foi a Cidade Livre. Com residências e lojas erguidas de madeira, telhas metálicas e amianto, de modo a evidenciar sua suposta vocação efêmera, brotou como centro urbano para receber os trabalhadores que construiriam Brasília. Era livre porque, tal qual as zonas francas, não cobrava impostos. Os lotes destinados ao comércio, indústria e serviços foram arrendados pelo prazo máximo de quatro anos. Calculava-se que, ao fim das obras, os moradores voltassem à terra natal ou se transferissem para o Plano Piloto e vizinhança. A ideia original de funcionar como mero almoxarifado do que ocorria ali ao lado, nos andaimes da construção brasiliense, não funcionou.

Ficou tristemente conhecida, entre os moradores, uma frase de Israel Pinheiro, presidente da Novacap: "Em abril de 1960, mando os tratores para esmagar tudo". Eles nunca chegaram, porque, antes de a Brasília do Plano Piloto existir, a Cidade Livre virara uma aglomeração urbana incontornável, ímã de riquezas. A JBS-Friboi, a maior empresa do mundo no setor de carnes, começou a crescer ali, pelas mãos de José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, o pai dos atuais dirigentes da companhia. Em 1957, com apenas cinco funcionários, ela virou fornecedora de carne para as construtoras da capital, cujos operários viviam na Cidade Livre.

Eram mais de 20 000 pessoas. Quando o governo começou a se movimentar de modo a tirá-las do lugar, houve protestos, brigas e manifestações. A ideia era levar a população para as vizinhas Taguatinga ou Gama, ou mesmo para o Plano Piloto. Em 1961, no governo de Jânio Quadros, a pressão popular chegou ao ápice, no Congresso, na forma de lei. Nascia o Núcleo Bandeirante, hoje com mais de 40 000 moradores – uma cidade de vida mais real, a rigor, do que aquela cultivada nas superquadras do Plano Piloto.

Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

ESPERANÇA AO CHEGAR
Candangos desembarcam na Cidade Livre. Em menos de três anos, eles já eram 20 000. Revoltados, não aceitaram deixar o lugar que virou urbe antes da capital
Cidade Livre - c. 1957-1960



Tragédia

A ordem: É proibido parar

O suposto assassinato de operários num canteiro
de obras ainda hoje é um fantasma brasiliense

Um mito ronda a construção de Brasília: a suposta matança, em 8 de fevereiro de 1959, um domingo de Carnaval, de um grupo de operários da construtora Pacheco Fernandes. Os crimes teriam sido cometidos pela Guarda Especial de Brasília (GEB), vinculada à Novacap. Desde sempre, o episódio faz parte da história secreta da construção. Em diversas versões, os mortos vão de um a onze, com mais de sessenta feridos e paralisações em solidariedade aos assassinados. Os motivos: uma briga corriqueira, na cozinha, entre dois trabalhadores ou a explosão de protestos pela má qualidade da alimentação do acampamento, ao lado do Palácio da Alvorada. Os policiais – um efetivo de 300 pessoas, recrutadas entre os próprios candangos – tinham justificada fama de agressividade, eram eles que impunham o toque de recolher. Cortavam a água para impedir banhos, e sem banho ninguém ousaria procurar prostitutas na Cidade Livre. Os soldados usavam uniformes de cor cáqui, feitos com sobras das roupas da Força Aérea Brasileira. Eram chamados a manter a ordem porque Brasília não podia parar.

Depoimentos contraditórios impediram um desfecho para o caso, agora transformado em lenda. Um cozinheiro diz ter visto operários sendo mortos na cama, ainda adormecidos. Houve relatos de corpos jogados no Lago Paranoá, ainda seco. As investigações nada comprovaram, e prevaleceu a suspeita de que a escaramuça, real, tenha sido ampliada por líderes sindicalistas – ou tirada do mapa pelas autoridades, a mando de Israel Pinheiro. Não houve condenações. Não se conhecem o nome dos mortos ou sepulturas. O massacre virou lenda – menor apenas que uma outra, segundo a qual dezenas de operários morreram ao erguer os "28" (referência aos 28 andares de cada um dos dois edifícios anexos do Congresso, aqueles que formam um "H" entre as cúpulas), e ainda hoje seus fantasmas rondam o lugar, tal qual os arranca-línguas que, no folclore de Goiás, atacam os bois no pasto.

Foto: Mário Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal

REFEITÓRIO
Operários comem no canteiro do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários.
A alimentação era um dos principais problemas da companhia que administrava as obra
s
Brasília - 24 | 5 | 1958