| | Inauguração A
Lolita do Planalto O primeiro dia da capital recém-nascida Foto:
René Burri/Magnum
 | O
CHOQUE DO NOVO Mesas ao ar livre, garçons
e muita elegância na quente noite de Brasília depois do parto Praça
dos Três Poderes - 21 | 4 | 1960 |
Impaciente
como o fundador da cidade, o primeiro dia da nova capital da República
começou na véspera. Faltavam cinco minutos para a meia-noite quando,
na Praça dos Três Poderes, aos olhos de 30 000 pessoas, o cardeal
português dom Manuel Gonçalves Cerejeira, representante do papa João
XXIII, deu início à celebração de uma missa solene.
Sobre o altar, erguia-se a cruz de ferro que, 460 anos antes, abençoara
a primeira missa em terra brasileira, rezada por frei Henrique de Coimbra, capelão
da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Trazida do museu da Sé de Braga,
em Portugal, a velha cruz não foi a única relíquia incorporada
à solenidade: minutos mais tarde, no instante da Consagração,
repicou o sino cujo toque teria anunciado em Vila Rica a execução
de Tiradentes em outro 21 de abril, o de 1792. Nesse momento, as luzes da praça,
até então apagadas, se acenderam teatralmente, ao mesmo tempo em
que dois portentosos holofotes miraram o céu, cortando com seus fachos
coloridos o breu da noite planaltina. Não é de espantar que na primeira
fila o presidente Juscelino Kubitschek tenha caído no choro, cobrindo o
rosto com a mão direita. A foto estará em todos os jornais
menos na Tribuna da Imprensa, do oposicionista-mor Carlos Lacerda, que
optará por outro flagrante, no qual JK confabula com João Goulart,
para insinuar que o presidente e seu vice passaram a missa cochichando.
Acervo
Gabriel Gondim
 | CREDENCIAL
O crachá de trabalho dos jornalistas |
Lacerda,
claro, não está em Brasília. Jânio Quadros, candidato
da oposição que vencerá as eleições presidenciais
de outubro, também não. Mas outros antimudancistas deram as caras,
ainda que meio amarradas. Nenhum deles demonstrará mais fair play
do que Juracy Magalhães, o governador da Bahia. Ele havia apostado com
JK que Brasília não ficaria pronta a tempo. Bom perdedor, trouxe
uma gravata e a entregou ao presidente no dia 20. Made in USA, tem pequenos
quadrados pretos e brancos e custou 5 dólares. JK vai usá-la neste
dia 21, quando receber o corpo diplomático, e em seguida, na primeira reunião
com seu ministério.
Antes disso, porém,
ele terá outros compromissos. Na sua agenda para esta quinta-feira praticamente
não há respiros. O presidente esteve na Praça dos Três
Poderes até pelo menos 1 da manhã, pois aos 47 minutos do dia 21,
terminada a missa, ouviu-se uma saudação de João XXIII diretamente
de Roma, pelas ondas da Rádio Vaticano. Às 8 da matina, lá
estava ele outra vez na praça, para ouvir o toque de alvorada pela banda
do Batalhão de Guardas. Cinco minutos mais tarde, ali mesmo, coube-lhe
hastear a bandeira brasileira, já ostentando a novidade de uma 22ª
estrela, correspondente ao recém-criado estado da Guanabara. Fotos
Ag. O Globo e Jesco Von Puttkamer/Acervo IGPA/UCG
 | BOM
PERDEDOR Juracy Magalhães, governador
da Bahia, tinha apostado com JK que Brasília não ficaria pronta
a tempo. Bom perdedor, entregou a gravata com pequenos quadrados pretos e brancos
que o presidente usaria nas festas (à dir.) |
Às
8h30, agora sim, com a gravata de Juracy Magalhães, JK vai receber 55 embaixadores
estrangeiros no Palácio do Planalto, solenidade que não poderá
se estender além de sessenta minutos, pois para as 9h30 está marcada
a instalação simultânea dos três poderes da República,
cada qual na sua casa. Fecho do discurso de JK na rápida reunião
ministerial: "Neste dia 21 de abril consagrado ao alferes Joaquim
José da Silva Xavier, o Tiradentes, ao 138º ano da Independência
e 71º da República, declaro, sob a proteção de Deus,
inaugurada a cidade de Brasília, capital dos Estados Unidos do Brasil".
Primeiro ato do Executivo, assinado em seguida: mensagem ao Congresso Nacional
propondo a criação da Universidade de Brasília. Foto:
arquivo fotográfico Bloch Editores
 | EMOÇÃO
DE PRESIDENTE A foto do choro de JK na missa
estará em todos os jornais, menos na Tribuna da Imprensa, do oposicionista-mor
Carlos Lacerda Brasília - 21 | 4 | 1960 |
Em
outro canto da praça, à entrada do prédio do Supremo Tribunal
Federal, uma foto vai registrar a cena dos ministros chegando em revoada, com
suas togas negras agitadas pelo vento. No Congresso Nacional, contará a
Folha de S.Paulo, "o ambiente geral era de euforia e admiração".
De deslumbramento até, pode-se dizer: acostumados ao mobiliário
pesado e vetusto do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, "os senadores,
sentados em suas cadeiras, faziam-nas girar, examinando o funcionamento de tudo
e apreciando a decoração do plenário e das galerias".
Alguns, "mais expansivos, pareciam crianças examinando a nova casa
e reencontrando companheiros". Os oposicionistas, como era de esperar, se
opunham "diversos achavam que a decoração do plenário
carecia de suficiente solenidade, ou faziam reparos sobre o funcionamento da casa".
Contrariando
previsões de que alguns parlamentares teriam como cama uma "folha
de jornal", que nem no samba O Orvalho Vem Caindo, de Noel Rosa, nenhum
deles ficou sem pouso. Mas ocorreram problemas, alguns dos quais resolvidos de
maneira pouco ortodoxa. Como ainda não existiam acomodações
para todos e o Brasília Palace Hotel estivesse lotado, houve deputados
e senadores dividindo um mesmo teto, no que a Tribuna da Imprensa classificou
de "coletivismo". O sufoco imobiliário contribuiu para estressar
o deputado maranhense José Neiva Moreira, responsável pela mudança
da Câmara e do Senado, que baixou no hospital. Foto:
Sergio Jorge
 | LUZES
TEATRAIS Depois do repicar do sino, portentosos
holofotes iluminam o breu da noite planaltina na véspera do grande dia Brasília
- 20 | 4 | 1960 |
O deputado
cearense Ozires Pontes, tendo encontrado sem mobília o apartamento que
lhe foi destinado, "saiu para a rua com um revólver" (o relato
é do jornalista José Amádio, da revista O Cruzeiro,
simpática a JK), "parou um caminhão e requisitou
os móveis que iam nele", reservados para seu colega paraense Océlio
Medeiros. Outro, contou ainda José Amádio, "figura de prestígio
na República", mandou um avião buscar travesseiros e cabides
no Rio de Janeiro. Muita gente reclamou da espera nos três únicos
restaurantes de nível em funcionamento, mas também do sanduíche
de mortadela a 70 cruzeiros. (O salário mínimo era de 5 900 cruzeiros,
ou 392 dólares, que em 2009 corresponderão a 735 reais.) Foto:
arquivo público do DistritoFederal
 | A
TURMA DANÇOU POUCO No baile de gala houve
mais interesse pelo Palácio do Planalto do que pela orquestra de Bené
Nunes Brasília - 21 | 4 | 1960 |
Cinquentão
meio calvo. Nos palácios da Praça
dos Três Poderes, mais de uma pessoa, não necessariamente capiau,
entrou com tudo nas paredes envidraçadas, "modernidade" à
qual nem todos estavam habituados. No prédio do Congresso, um segurança
barrou a entrada de um cinquentão meio calvo, porque ele vestia blusão
em vez de paletó, até que alguém identificasse o visitante:
Oscar Niemeyer. O deputado gaúcho Clóvis Pestana tornou-se pioneiro
em acidentes de trânsito brasilienses ao ser atropelado, sem maior gravidade,
por uma Rural Willys uma das estrelas da incipiente indústria automobilística
nacional, ao lado do DKW-Vemag, do Fusca (que ainda não tinha o apelido),
do Dauphine, do Aero-Willys, do Simca Chambord e, sensação das sensações,
do luxuo-so FNM 2000, fabricado no país sob licença da italiana
Alfa Romeo e batizado "JK". Foi ao volante de um desses reluzentes xarás
que Juscelino, na tarde do dia 20, fez sua entrada apoteótica em Brasília,
vindo do Catetinho, para receber a chave da cidade das mãos de Israel Pinheiro,
o presidente da Novacap. O cortejo de mais de 200 carros atrás do JK de
JK levantou tanta poeira que, segundo a Folha de S.Paulo, os motoristas
nada viam "além de 4 metros". Foto:
Jesco Von Puttkamer/Acervo IGPA/UCG
 | AO
VIVO, EM PRETO E BRANCO Mas foi também
a estreia brasileira de uma novidade americana, o videoteipe Brasília
- 21 | 4 | 1960 |
Roupas
de domingo. A poeira, inelutavelmente, esteve não
só no ar como no centro das conversas. "As cores predominantes da
moda feminina em Brasília serão areia, brique, bege e marrom",
vaticinara com sarcasmo a Tribuna da Imprensa. Outros jornais, sem ignorar
a poeirada, deram mais ênfase aos encantos das mulheres presentes. "A
beleza arquitetônica de Brasília está de um certo modo empanada
pela beleza e graça de um mundo de lindas mulheres que, ainda hoje, chegam
para as festas da inauguração", galanteou a Última
Hora. O Cruzeiro amalgamou mulher e cidade para ver em Brasília "um
brotinho, ainda inexperiente, ainda inculto, sem maquilagem", a própria
"Lolita do Planalto". Sem derramamentos dessa ordem, a imprensa estrangeira
fez de Brasília um grande assunto. No âmbito doméstico, uma
das novidades do 21 de abril de 1960 foi o lançamento de um diário
que recuperou o título daquele que é considerado o primeiro jornal
brasileiro, o Correio Braziliense, criado por Hipólito José
da Costa em 1808. No mesmo dia, os Diários Associados, de Assis Chateaubriand,
também inauguraram a TV Brasília, que pôs no ar a primeira
rede de televisão do país, levando imagens da festa até Belo
Horizonte e Rio de Janeiro. Foi também a estreia brasileira do videoteipe. Foto:
René Burri/Magnum
 | RETIRANTES
A família nordestina na Praça dos
Três Poderes tinindo de nova Brasília
| 1960 |
Correndo de lá para
cá, de compromisso em compromisso, em meio a fraques, casacas, cartolas
e uniformes militares, foram poucos os eventos a que o presidente JK não
compareceu. Esteve na cerimônia de instalação da Arquidiocese
de Brasília, quando tomou posse o primeiro arcebispo da cidade, dom José
Newton de Almeida Baptista; na sessão conjunta do Congresso Nacional, aplaudido
de pé durante intermináveis minutos; na inauguração
do Monumento Comemorativo da instalação do governo federal em Brasília,
ao lado do "Príncipe dos Poetas Brasileiros", Guilherme de Almeida,
que desfiou os versos de sua "Prece Natalícia a Brasília";
na parada militar; no desfile em homenagem aos 60 000 candangos que construíram
a cidade, e que agora, com sua família e suas roupas de domingo, por ela
passea-vam, orgulhosos, misturados a cerca de 150 000 visitantes segundo alguns
cálculos, ou 250 000, segundo outros. Foto:
arquivo público do Distrito Federal
 | EXCURSÕES
As estimativas vão de 150 000 a 250 000
pessoas na jornada inaugural Brasília
- 21 | 4 | 1960 |
Às
22h30, quando já rolava no Eixo Monumental uma grande festa popular, JK
vestiu casaca para, com dona Sarah, recepcionar 3 000 convidados num baile no
Palácio do Planalto, ao som da orquestra do pianista Bené Nunes.
"Nunca verei um espetáculo mais chique do que a inauguração
de Brasília", exagerou na revista Manchete o colunista Jacinto
de Thormes. Em O Cruzeiro, José Amádio informará que
"a turma dançou pouco", mas "comeu e bebeu muito".
Às 2 da manhã do dia 22, o presidente bateu em retirada, não
sem antes recomendar às filhas, Márcia e Maria Estela, que não
passassem das 3. Depois de ter conseguido antecipá-lo em alguns minutos,
JK prolongara por duas horas o dia mais glorioso de sua vida. Foto:
arquivo público do Distrito Federal
 | VISITANTES
Antes da chegada de deputados e senadores, o
passeio público no Congresso Nacional Brasília
- 21 | 4 | 1960 |
Foto:
René Burri/Magnum
 | Discurso JK
vai ao púlpito do Palácio do Planalto. Ali, em janeiro do ano seguinte,
ele passaria o cargo a Jânio Quadros Brasília
- 21 | 4 | 1960 |
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Fauna O roedor
do cerrado Juscelinomys candango,
a espécie identificada em 1960, está provavelmente extinto Acervo
Museu Nacional
 | BICHO
EMPALHADO O feioso animal foi descoberto e classificado
por um biólogo mineiro |
Não
foi preciso uma CPI ou um repórter arguto para descobrir em Brasília
uma espécie até então desconhecida de roedor, exatamente
no ano em que os poderes da República lá se instalaram, nem parece
ter havido malícia na divulgação do achado. O descobridor
foi o biólogo mineiro João Moojen de Oliveira (1904-1985), que em
1960 deparou no cerrado com um animal de pequeno porte (14 centímetros
mais uns 10 centímetros de cauda) da família Cricetidae e, em homenagem
ao construtor da cidade, batizou-o de Juscelinomys candango. Como até hoje
apenas nove indivíduos foram avistados, o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) decidiu incluir o roedor
na lista das espécies provavelmente extintas. Bem mais tarde (1999), a
cientista americana Louise H. Emmons encontrou na Bolívia uns parentes
do animal descrito no Brasil e decidiu estender a eles a denominação
Juscelinomys. A Moojen se deve ainda a descoberta, também no Planalto Central,
de uma nova espécie de jararaca.
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