| | Personagem O
presente contínuo de Oscar O passado de
arquiteto tombado sempre incomodou Niemeyer, mais interessado nos trabalhos que
faria do que naqueles já construídos  Sérgio
Rodrigues
Foto:
Rene Burri/Magnum
 | IMODESTO "As
colunas do Alvorada podiam ser mais fáceis de construir, sem aquelas curvas.
Mas foram elas que o mundo inteiro copiou" Brasília
c. 1960 |
Dias antes
de ser internado no Hospital Samaritano, no Rio, no fim de setembro, para a retirada
da vesícula e de um tumor no cólon, o arquiteto de Brasília
recebeu VEJA para dar sua versão do nascimento da cidade artificial.
Oscar
Niemeyer, o homem que ensinou o concreto armado a voar, completará 102
anos no próximo dia 15 de dezembro, mas ainda é capaz de se assombrar
quando recorda a aventura quase impossível da construção
de Brasília. "Fico espantado", diz a VEJA, corpo miúdo
engolido pela cadeira na sala dos fundos de seu escritório voltado para
o mar de Copacabana, onde, devido à dor em uma vértebra fissurada,
já não tem podido aparecer para trabalhar com a disciplina partidária
que sempre marcou sua carreira. "O problema era erguer uma cidade em menos
de cinco anos, então a minha parte era fazer uma arquitetura mais simples,
mais fácil", lembra, sob o olhar de um Dom Quixote de sucata. Uma
sombra de sorriso maroto passa por seu rosto vincado. "Mas não fiz
nada disso. Por exemplo: as colunas do Alvorada podiam ser mais fáceis
de construir, sem aquelas curvas. Mas foram elas que o mundo inteiro copiou." Espanto
é uma palavra-chave no discurso de Oscar, como o chamam amigos e colaboradores.
Resume o efeito de beleza inesperada que toda boa arquitetura deve provocar, segundo
a cartilha que ele conserva inalterada desde a juventude. A ideia é que
"o sujeito pare e se espante". No caso de Brasília, diz, "a
arquitetura de fantasia valeu a pena porque tornou a cidade mais conhecida",
mas a mesma certeza já estava em sua cabeça quando projetou, no
início dos anos 40, o curvilíneo conjunto da Pampulha por encomenda
de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte. Niemeyer sempre
enfatizou e volta a enfatizar agora, por via das dúvidas
que na capital mineira foi plantada a semente da nova capital federal. O futuro
presidente desenvolvimentista encontrara seu arquiteto. E seu arquiteto encontrara
um estilo para sempre. O busto de Lenin
sob uma das prateleiras arqueadas de livros que forram as paredes não é
o único sinal de desafio ao tempo no ar do escritório, que Niemeyer
continua perfumando com a fumaça de sua cigarrilha. "Uma coisa que
eu noto quando olho para trás é que, quando comecei Brasília,
eu pensava exatamente igual a hoje", diz, a voz baixa mas ainda clara
, cheia de curvas e chiados cariocas. Essa resistência de concreto
das ideias que o moldaram explica muita coisa, desde a coerência de sua
obra ao longo de tantas décadas até o fato de que, entrevistado
hoje, ele continua produzindo respostas às vezes com as mesmas palavras
que já estavam em seu livro Minha Experiência em Brasília,
lançado em 1961. Lá, como aqui, se encontram expressões-chave
como "liberdade plástica", as curvas femininas como inspiração,
imagens poéticas sobre "palácios suspensos, leves e brancos,
nas noites sem fim do Planalto". Foto:
Paulo Vitale
 | Avesso
a mudanças "Uma coisa que noto quando
olho para trás é que, quando comecei Brasília, eu pensava
exatamente igual a hoje", diz Rio
de Janeiro 2009 |
Envelhecimento
físico à parte, o homem mudou pouco. Tanto nas convicções
políticas continua fiel ao comunismo e admirador do ditador soviético
Josef Stalin, que diz ter sido "demonizado pela mídia"
quanto na capacidade de se entusiasmar com o trabalho. É difícil
mantê-lo interessado por muito tempo na conversa sobre uma cidade construída
há meio século, mesmo sendo a cidade um caso provavelmente único
na história de tela em branco entregue ao gênio de um arquiteto.
Niemeyer vibra mais ao falar dos prédios oficiais que o governador mineiro
Aécio Neves lhe encomendou, do teatro que está sendo erguido neste
momento na cidade argentina de Rosario ou da praça "fantástica,
monumental" que projetou para o governo do Cazaquistão. Não
é por acaso que, após uma união de 76 anos com Annita, que
morreu em 2004, ele se casou novamente há três anos com Vera Lúcia
Cabreira, 62 anos, sua secretária desde 1992. Seu tempo de vida se dilata
para abarcar uma filha, quatro netos, treze bisnetos e cinco trinetos, mas parece
um presente sem fim.
Desse ponto de vista, entende-se
que Brasília esteja "tão longe", como ele diz ao justificar
uma de suas muitas lacunas de memória sobre os anos de 1956 a 1960. É
possível que a distância seja uma metáfora daquela, geográfica,
que quase o fez desistir da encomenda de JK ao pisar pela primeira vez na desolação
poeirenta do Planalto Central. Nesse caso, porém, trata-se de uma distância
medida no tempo e não no espaço. Nas palavras de Niemeyer, os cinquenta
anos da capital do país ora se espicham em "oitenta", ora sofrem
um abatimento para virar "quarenta, sei lá". Não se trata
de falta de lucidez, mas de desapego a detalhes. Da experiência de Brasília
ele preservou, como repetiu em centenas de entrevistas, o prazer da convivência
com os amigos que levou consigo "nem todos arquitetos, alguns só
para a gente poder conversar e esquecer a arquitetura" e os animados
saraus promovidos por JK ao som do violão de Dilermando Reis. Mas guardou
sobretudo a sensação de ter vivido uma utopia igualitária,
morando nas mesmas casas geminadas dos operários e comendo ao lado deles
no mesmo restaurante, "como uma grande família, sem preconceitos nem
desigualdades". Pronta a cidade, registrou em Minha Experiência...
sua decepção com o fim do sonho: "Agora tudo mudou, e sentimos
que a vaidade e o egoísmo aqui estão presentes e que nós
mesmos estamos voltando, pouco a pouco, aos hábitos e preconceitos da burguesia
que tanto detestamos". Foto:
Arquivo Público do Distrito Federal
 | MAQUETE
O arquiteto no escritório da Novacap vislumbra a
cidade que começa a nascer Brasília
c. 1957/1960 |
Antes
do choque de realidade, contudo, houve tempo de escrever um épico. "Era
aquele sol, a terra vazia e cheia de poeira. Tínhamos de tomar banho de
manhã e à noite. Era uma coisa radical", recorda. Coube ao
arquiteto escolher ou algum verbo semelhante que inclua uma dose de aleatório,
como seria de esperar em terreno quase desprovido de marcos e acidentes
o local onde seria fincado o Palácio da Alvorada, antes de existir o Plano
Piloto, "com capim a nos bater nos joelhos". Os projetos saíam
de sua prancheta diretamente para a mesa do calculista, Joaquim Cardozo, e o próprio
original seguia então para a obra. "Não havia programas",
diz Niemeyer, referindo-se à falta de informações minimamente
precisas sobre as construções que lhe cabia projetar. Na companhia
de Israel Pinheiro, presidente da Novacap, visitava pessoalmente as instalações
governamentais no Rio de Janeiro para contar salas, medir espaços
e depois multiplicar tudo por dois ou três. O que ainda seria pouco. "O
Palácio do Planalto foi feito para 150 pessoas. Tem 600", diz. O clima
de improviso não excluía questões financeiras. Niemeyer concebeu
tudo o que Brasília tem de monumental recebendo um salário de funcionário
público, mas, quando faltou dinheiro para construir o chamado Catetinho,
a residência de madeira que abrigaria o presidente da República durante
as obras, o próprio arquiteto e outros amigos de JK levantaram empréstimo
num banco. Foto:
Arquivo do Memorial JK
 | ARQUITETO
OFICIAL Com JK, uma relação de
pouca amizade mas muita confiança, desde os primeiros projetos da Pampulha Brasília
1959 |
"Foi um período
que me afastou de muita coisa", lembra. Seu pai, também chamado Oscar,
morreu quando ele estava "no meio do deserto". Por questões de
segurança, sua mulher, que ficou no Rio, deixou a Casa das Canoas, a bela
residência de concreto e vidro que ele construíra no início
dos anos 50 (hoje tombada pelo Patrimônio Histórico e parte da Fundação
Oscar Niemeyer), e se mudou para um apartamento. Avesso a viagens aéreas,
o arquiteto sofreu um grave acidente de carro a caminho do Rio que o deixou preso
"por um mês" a uma cama de hospital. Niemeyer parece levar em
conta todo esse investimento pessoal quando, comentando a recente polêmica
sobre o projeto da monumental Praça da Soberania, que a comunidade brasiliense
rejeitou, declara magoado: "Eu achei que tinha o direito de fazer essa praça".
O tombamento da capital do país o incomoda. "Se o Brasil fosse tombado,
o prefeito Pereira Passos não teria feito essa avenida tão importante",
diz, referindo-se à Rio Branco, artéria de inspiração
parisiense rasgada no centro do Rio de Janeiro no início do século
XX. "Tudo muda. Quando a água do polo derreter, o mar vai subir e
todas as cidades litorâneas terão de ser modificadas", especula.
A Praça da Soberania está na gaveta, mas o presente contínuo
de Oscar Niemeyer ainda tem vista para o futuro.
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