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Política
Por que JK construiu Brasília?

Sapo pula por precisão, não por boniteza,
ensinou Guimarães Rosa. Juscelino precisava
ficar longe do Rio, sob o risco – e com receio
– de ser deposto antes do fim do mandato


Ronaldo Costa Couto*

Foto: arquivo pessoal

A LARGADA
Antonio Soares Neto (no destaque) minutos antes de pôr Juscelino contra a parede, no primeiro comício de campanha
Jataí (GO) – 4 | 4 | 1955

Jataí, no sertão goiano, 12 000 habitantes, 4 de abril de 1955, 10 da manhã. O bimotor Douglas DC-3 PP-ANY fura as nuvens negras, circula a cidadezinha, embica exato para a pista de terra batida, desliza macio, perseguido por rio de poeira. Para, manobra, taxia, os motores são desligados. A porta se abre, um passageiro elegante, risonho, ágil e inquieto, pouco mais de 50 anos, muito bem vestido, acena entusiasmado para a pequena multidão que o espera. É Juscelino Kubitschek de Oliveira, governador de Minas até cinco dias antes, que chega para seu primeiro comício de candidato da coligação PSD-PTB à Presidência da República.

Tudo à brasileira. Foguetório, cumprimentos, muita agitação e deslocamento para a pracinha central, onde se comprime a maior multidão da história de Jataí: mais de 1 000 pessoas. Tudo pronto, comitiva e líderes goianos no palanque, cai um toró de fazer gosto. Correria, dispersão, alguém chama para o galpão da oficina mecânica. Mais de 200 pessoas entram, espremem-se, ocupam todos os espaços. Põem JK sobre a carroceria de um velho caminhão à espera de conserto.

Orador vibrante, ele dispara discurso sedutor. Fala do que fez em Minas, de democracia e desenvolvimento, industrialização, energia e transportes, fim da miséria, empregos, ocupação territorial, cumprimento fiel das leis e da Constituição. No final, inova: abre o comício para perguntas, como modo de encerrá-lo. Um primo do chefe local Serafim de Carvalho se anima. É Antonio Soares Neto, o simpático corretor de uma seguradora, 29 anos. Ofegante, voz embargada, mas tudo na ponta da língua, indaga se o candidato "mudaria a capital, conforme determinado nas Disposições Transitórias da Constituição". JK conhecia a senha de cor e salteado. Tinha lutado muito para aprovar a ideia. Mas, talentoso ator político, desses capazes de aparecer vestidos de piloto de jato supersônico, valentes e destemidos, aparentou espanto, refletiu teatralmente alguns segundos e respondeu: "Cumprirei na íntegra a Constituição. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital".

O diálogo de 4 de abril de 1955

Fotos: Paulo Vitale e AE
"O senhor mudaria a capital, conforme determinado nas Disposições Transitórias da Constituição?"
Antonio Soares Neto, corretor de seguros,
autor da pergunta decisiva

"Cumprirei na íntegra a Constituição. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital."
Juscelino Kubitschek, candidato a presidente,
aparentemente pego de surpresa

Euforia. Um trovão de palmas, gritos de entusiasmo. Era o que todos queriam saber. O sonho maior de Goiás e de quase todo o Brasil profundo. Toniquinho garante que nada foi combinado. Hoje, às vésperas dos preparativos para a celebração das cinco décadas de Brasília, ele já festejou seu cinquentenário particular. "São os 55 anos da minha pergunta", diz. O que, para muitos, soaria como arrogância, para Toniquinho, agora advogado aposentado, morando em Goiânia, é apenas o registro de um momento histórico. A pergunta o fez conhecido, a pergunta o autoriza a ter uma imagem de Juscelino no cartão de visita, a pergunta o levou a ser convidado para a inauguração de Brasília (embora, lembra com humor, de sorriso largo, tenha sido barrado no baile de gala do 21 de abril de 1960). Em suas memórias, Por que Construí Brasília, JK diz que a capital nasceu em Jataí e que ouviu a mesma indagação nos demais comícios. A ideia o ajudou a fisgar apreciável apoio no interior, inclusive no Nordeste. Venceria as eleições de 3 de outubro de 1955 com apenas 33,82% dos votos.

Almoço, congraçamento (lá estava Toniquinho, claro), hora de partir para o comício seguinte, em Anápolis. O DC-3 urra, patina levemente na lama, avança, posiciona-se, acelera mais, dispara bonito e empina roncando para o céu agora limpo. Embaixo, aplausos e emoção. Todos sabiam que Juscelino era homem de palavra, de grandes desafios e até de corajosas aventuras desenvolvimentistas. Provara isso na prefeitura de Belo Horizonte e no governo de Minas. Tinha experiência urbanística arrojada e inovadora: a Pampulha, com sua arquitetura precursora da brasiliense. Dispunha, portanto, de credenciais e equipe para concretizar a cidade moderna, diferente.

Município pessedista. Mas por que a escolha do Planalto Central como palco para o comício inaugural, lugar de complicado acesso e escassos eleitores? Por que não Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Recife, Salvador, Porto Alegre ou outra grande cidade? Há quem acredite que foi por ser Jataí o município proporcionalmente mais pessedista do país. Outros, que JK quis prestigiar o amigo jataiense Serafim de Carvalho, colega de curso de medicina em Minas. Com boa vontade e bastante candura, até poderia ser. Mas, nas Minas do manhoso e pragmático PSD de José Maria Alkmin, todo mundo sabe que em política a versão vale mais do que o fato. JK escolheu a simbólica e totalmente mudancista Jataí porque sabia que o coração do Brasil era o ambiente e o palco mais adequados para anunciar seu principal compromisso: a construção da nova capital e a interiorização do desenvolvimento, com ênfase em energia e transportes. A futura Brasília, centro irradiador de desenvolvimento, seria o marco de seu governo.

Foto: Jean Manzon

LÁ VAMOS NÓS
Sem estradas, intuía o presidente, a nova capital levaria a lugar nenhum. A Belém-Brasília foi instrumento crucial na retórica de Juscelino
BELÉM-BRASÍLIA – 1958

A decisão já estava tomada. O que houve em Jataí foi o anúncio do histórico compromisso público do candidato. Mais: político habilidoso e pragmático, consciente da forte resistência à mudança, principalmente no Rio, o astuto JK preferiu não tomar a iniciativa de revelá-la. Melhor fazê-lo perto do local previsto, surpreendido por justa e espontânea cobrança popular de obediência à Constituição. Coisa fácil de combinar, provocar ou induzir. Solução brilhante, engenhosa, politicamente mais palatável. Inclusive junto ao poder militar, guardião da Carta Magna e tão influente em tempos de Guerra Fria. Como um verdadeiro democrata poderia descumprir o que a Constituição mandava e o povo cobrava?

Juscelino não tirava o assunto da cabeça. Deputado constituinte em 1946, lutara duro pela mudança da capital. Ao lado de Israel Pinheiro e outros aliados, conseguiu incluir a regra declamada por Toniquinho. Dizem que foi porque ninguém acreditava que sairia do papel, e, ao não sair, a derrota política seria inevitável.

JK fez o que pôde para que a nova capital fosse no Triângulo Mineiro, perto de Tupaciguara. Perdeu por cinco votos para o Planalto Central, dos goianos. Chegou a Jataí sabendo o que queria. Sabia que os membros da Comissão de Localização, criada por decreto de Getúlio Vargas em 1953, estavam prestes a indicar o sítio da futura capital, ali ao lado. Sabia que o governador goiano Juca Ludovico iria ao limite do possível pela causa. No fim de 1954, cinco meses antes da ida a Jataí, já em pré-campanha, JK visitou Goiás. Ficou lá quase uma semana, assuntando, falando de interiorização, integração nacional, capital no Planalto.

Foto: Agência O Globo

A JATO
Carismático e afeito ao marketing político antes de a expressão existir, JK faz um voo supersônico
RIO DE JANEIRO – NOVEMBRO DE 1957

O sapo pula não é por boniteza, porém por precisão. Fazer nova capital não era só paixão política, visão geopolítica estratégica ou meta-síntese do futuro programa de desenvolvimento. Brasília entrou para a história dos tempos de JK como a meta das metas, a de número 31, acrescentada de última hora, o ápice do presidente que queria fazer cinquenta anos em cinco.

JK disse várias vezes à filha Márcia Kubitschek que considerava o Brasil praticamente ingovernável do Rio. Que se ficasse lá e aderisse à rotina presidencial acabaria deposto. Teria de presidir com um pé no Rio e outro no Planalto – os mesmos pés com meias, em cima da mesa, que exibiria já cassado, pouco antes de morrer.

Foto: Jean Manzon

VARIG, VARIG, VARIG
Entre o Palácio do Catete e o Catetinho, em Brasília, JK aproveitava as travessias de mais de três horas para dormir
EM VOO DE CRUZEIRO – c. 1957/1960

Bravata. A segunda metade dos anos 50 era um ambiente político-militar emoldurado pela Guerra Fria, minado pelo assanhamento intervencionista de lideranças militares. Pesado, ameaçador, envenenado pela luta quase corpo a corpo pelo poder. O próprio Palácio do Catete era vulnerável. O presidente ficava exposto, acuado. No discurso de campanha de Belém do Pará, JK desabafou: "Não é possível que cinquenta cidadãos na capital da República estejam a inquietar e a ameaçar 50 milhões de brasileiros".

Vivera de perto a crise que levara ao suicídio de Getúlio Vargas, em agosto do ano anterior. Acompanhara a luta final, era seu candidato a presidente. Sabia que, no Rio, qualquer discurso político mais contundente produzia perturbações. Bastava uma declaração destemperada ou mesmo uma bravata de algum general ou almirante ou brigadeiro para traumatizar e instabilizar o governo. Até manifestações de rua de estudantes contra o preço de comida e passagens de bonde punham a Presidência da República em xeque. Clima intolerável. O Rio respirava agitação e golpismo. Era imperioso mudar. Fazer a nova capital aceleradamente, governar de lá no fim do mandato.

Carlos Murilo Felício dos Santos, primo e parceiro fiel de JK, diz que bastava juntar povo na frente do Palácio do Catete para os tanques saírem à rua, negócio perigosíssimo. Conta que Juscelino estava preocupado com essa vulnerabilidade muito antes de ser eleito. Qual a saída? A mudança da capital, para cumprir a Constituição e desenvolver o interior. Daí, ressalve-se, a incorporação de Brasília como meta-síntese.

Construir e inaugurar Brasília no horizonte de governo foi decisão audaciosa e complexa, longamente amadurecida. Por que, então, o atento Juscelino deixou nas memórias que a cidade nasceu de um aparte político, aquela pergunta de Toniquinho? Ninguém sabe. Sua delicadeza e os interesses, mistérios e manhas eleitorais do PSD mineiro terão tido peso decisivo?

Ou será que a explicação está é num certo João Guimarães Rosa, amigo fiel de JK, companheiro de farda e medicina na Polícia Militar de Minas Gerais? Rosa ensinava que "contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas passadas".

Foto: David Drew Zingg

Na velha capital
No Rio de Janeiro, definitivamente longe do poder, tirava os sapatos porque tinha um problema nos dedões, que doíam com frequência
Rio de Janeiro – 1971

* Ronaldo Costa Couto, economista e escritor, é doutor em história pela Sorbonne (Paris IV) e autor de Brasília Kubitschek de Oliveira (Ed. Record) e de Matarazzo (Ed. Planeta). Está concluindo biografia de Bernardo Sayão