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Arquitetura
Niemeyer, modo de usar
Um pequeno guia para entender a importância
histórica
e o prazer estético dos edifícios federais

Texto: André Correa do Lago*
Fotos: Cristiano Mascaro
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PALÁCIO DA ALVORADA
Inaugurado em 1958, tem colunas que podem ser facilmente desenhadas por crianças |
É impossível dissociar Oscar Niemeyer de Brasília.
O Plano Piloto, realizado a partir do projeto de Lucio Costa, valoriza particularmente
a arquitetura de Niemeyer, pois as grandes avenidas, perspectivas e parques
permitem ver os edifícios de vários ângulos e de forma desimpedida.
Provavelmente, nenhuma cidade na história teve um arquiteto "oficial"
com tantas realizações e tanto poder. O resultado é um
conjunto impressionante, com melhores e piores momentos, a meio caminho entre
a irracionalidade dos que veneram Niemeyer cegamente e a daqueles que o criticam
automaticamente, ancorados numa suposta dificuldade de viver e trabalhar dentro
dos prédios por ele construídos.
Niemeyer foi escolhido para projetar todas as edificações
monumentais da nova capital por decisão de Juscelino Kubitschek. Prefeito
de Belo Horizonte, no início dos anos 1940 ele já havia pedido
ao arquiteto desenhos para as principais instalações da Pampulha,
um novo bairro da cidade. Juscelino viu sua realização estampada
nos jornais, nas revistas e nas principais publicações de arquitetura
do mundo. Entendeu, rapidamente, que a arquitetura de Niemeyer, por ser popular
e de qualidade, podia trazer ganhos políticos.
Juscelino queria o mesmo para a capital federal. Os desafios,
no entanto, eram incomparáveis: a escala era muito maior, havia pouco
prazo para projetar um grande número de obras com funções
diferentes. Era necessário criar um novo monumentalismo que simbolizasse
ao mesmo tempo uma sociedade jovem, ousada, dinâmica e democrática.
Era muita coisa. Juscelino não tinha tempo para concursos e debates,
e, como conhecia a capacidade de Niemeyer de criar formas marcantes e atraentes,
deu-lhe a tarefa. Com a fama nacional e internacional estabelecida,
parecia natural a escolha do arquiteto para o desafio de Brasília.
Depois da Pampulha, Niemeyer havia rapidamente provado que seu
talento não se limitava a apenas um grande êxito em poucos
anos já era reconhecido como um dos maiores arquitetos de sua geração.
Mostrara-se capaz de ter papel de destaque no projeto da sede das Nações
Unidas (1947), em Nova York; de realizar construções de grande
escala como o Edifício Copan (1951) e o Parque do Ibirapuera (inaugurado
em 1954), ambos em São Paulo; ou ainda o Edifício Niemeyer (1954),
em Belo Horizonte. Projetos domésticos como a Casa Cavanelas (1954),
em Petrópolis, e sua própria casa no Rio (Casa das Canoas, 1952)
completavam, em pouco mais de dez anos, uma lista que os grandes arquitetos
raramente conseguem reunir em uma carreira.
As realizações mais notáveis de Niemeyer
em Brasília são as do chamado período heroico, do início
da construção, em 1957, à inauguração, em
1960. Heroico ante os sacrifícios pessoais de trabalhar em condições
insalubres, no meio do nada, como dizia Juscelino. E ali, na poeira vermelha
do cerrado, nasceram da prancheta do arquiteto projetos que se tornariam ícones
da arquitetura mundial. O Congresso, o Palácio do Planalto, o Supremo
e a Catedral. O Alvorada, cujas portas se abriram em 1958, havia sido projetado
antes mesmo da escolha do Plano Piloto. Outra obra-prima do arquiteto na cidade,
o Palácio Itamaraty foi projetado depois do governo Juscelino e terminado
no fim dos anos 1960, já com os militares no poder.
Com esses edifícios, que apresentavam soluções
e formas ao mesmo tempo variadas, chamativas e elegantes, e com uma arquitetura
que conseguia transmitir ao conjunto uma rara coerência, Niemeyer tornou-se
definitivamente uma estrela. Firmou-se então a percepção,
pressentida por Juscelino, de que era um arquiteto diferente dos outros grandes
arquitetos, admirado por seus pares, pela crítica especializada, pelo
público mais culto e pelo "homem comum".
A arquitetura de Brasília está hoje firmada no imaginário
brasileiro. As colunas do Alvorada são um dos símbolos do país,
adotadas até nas fachadas de casas simples do interior. A entrada de
honra do Planalto levou à expressão "subir a rampa".
Niemeyer, ao contrário da maioria de seus colegas, nunca fez "arquitetura
para arquitetos". Seus edifícios são criados de maneira que
tenham qualidades perceptíveis em diferentes dimensões, a depender
do observador, do mais ingênuo ao mais exigente. A saber, os quatro passos
fundamentais, gradativos, para entender Niemeyer:
1. Os prédios, para quem os vê de relance, apresentam
formas marcantes, belas e simples;
2. Para aqueles que os observam com maior atenção
e um pouco mais de tempo, novas características se revelam, sobretudo
as notáveis diferenças segundo o ângulo pelo qual o conjunto
está sendo visto;
3. Entrar nas obras eis o segredo do terceiro momento
é um passeio por soluções originais, principalmente no
tocante aos acessos (escadas, rampas, pontes); e
4. Uma quarta dimensão é destinada aos observadores
com maior interesse nas artes, que podem se deleitar com o detalhamento engenhoso,
as ideias inesperadas e a contribuição de diferentes artistas,
cujas intervenções são desenvolvidas em conjunto com o
arquiteto.
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CAPELA DO PALÁCIO DA ALVORADA
A transparência, por meio de imensos vidros, como sinônimo
de inventividade |
O apelo popular da arquitetura niemeyeriana vem das duas primeiras
dimensões: com apenas um olhar ou uma foto, o edifício é
reconhecível, é um marco, é um ícone. O próprio
Niemeyer traduziu essa condição: "Quando me pedem um prédio
público, procuro fazer diferente, criar surpresa, porque sei que os pobres
poderão, ao menos, passar e ter um momento de prazer ao ver uma coisa
nova". As colunas do Alvorada, as cúpulas do Congresso Nacional
e a rampa externa do novo Museu Nacional (2006) podem ser facilmente desenhadas
por crianças, apesar de sua complexidade e sofisticação.
O arquiteto criou uma ponte entre suas obras e aquelas pessoas que, geralmente,
são indiferentes à arquitetura. Na realidade, eliminou a distância
que a maioria dos arquitetos estabelece com o público.
A terceira dimensão é perceptível por meio
da circulação entre os espaços. A entrada do Alvorada,
por exemplo, é claramente indicada pela ruptura do ritmo das colunas,
que dá acesso a um hall de pé-direito alto. Sobe-se por uma rampa
que dirige o olhar para uma parede de azulejos dourados, para chegar aos salões
que abrem caminho a uma varanda de piso preto que reflete a colunata ininterrupta.
Nesse trajeto, a sensação de que se está entrando em um
palácio é muito clara. A transparência, a originalidade
das colunas e a forma de circular em seu interior mostram uma grande inventividade.
O Alvorada é, indiscutivelmente, o primeiro palácio do movimento
moderno: país nenhum tinha posto antes de 1958 seu presidente numa caixa
de vidro. A mesma atenção à circulação
como se fosse um rito de iniciação pode ser sentida na
Catedral: a entrada é feita por uma rampa que desce em um túnel
negro, de maneira a tornar ainda maior o impacto de ver a claridade do interior
do templo e a leveza da estrutura. Circular pelo Congresso ou pelo Planalto
provoca sensações similares.
A quarta dimensão, a mais complexa, está particularmente
presente no Palácio Itamaraty, onde jardins de Roberto Burle Marx e obras
de Athos Bulcão, Bruno Giorgi, Maria Martins e tantos outros artistas
podem ser contemplados em espaços imensos e estruturalmente ousados,
com iluminação e ventilação naturais. A escadaria
curva da entrada está entre as mais belas do século XX. O acabamento
excepcional, que associa o concreto aparente aos melhores materiais, contribui
para que seja impossível a indiferença.
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PALÁCIO ITAMARATY
A escadaria curva da entrada está entre as mais belas do século
XX |
Apesar de Niemeyer sempre ter favorecido a importância da
intuição ao se referir à forma de trabalhar, seus edifícios
são o resultado de um talento inegável, polido por um longo processo
de formação e ampla cultura. Nas suas melhores obras, as quatro
dimensões de sua arquitetura recebem grande atenção. Nas
realizações mais recentes, como o Museu Nacional e a Biblioteca,
ambos no Setor Cultural Sul, ou quando o projeto é mal executado, como
o "minhocão" da Universidade de Brasília ou o Museu
do Índio, não é o caso: apenas duas ou três camadas
de percepção se verificam.
Mas mesmo quando os projetos não estão entre os
mais bem-sucedidos há um padrão de qualidade. Impõem-se,
portanto, admiração e carinho pelo que representam para nossa
história os edifícios do início da aventura brasiliense.
A descoberta mais atenta dos melhores edifícios de Niemeyer na capital
está certamente entre as experiências mais enriquecedoras da cultura
de nosso tempo.
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ITAMARATY
Reúne arquitetura ao paisagismo de Burle Marx e a obras de Athos Bulcão,
Maria Martins e Bruno Giorgi |
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CONGRESSO NACIONAL
Com apenas um olhar ou uma foto, o edifício é reconhecível,
é um marco, um ícone |
* André Correa do Lago, diplomata e crítico de arquitetura, é
o autor de Oscar Niemeyer: uma Arquitetura da Sedução (BEI,
2007) e editor do livro sobre os cinquenta anos de Brasília a ser publicado
em 2010 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
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