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Moda
O JK da alta-costura

O país de 1960 nasceu junto com a fama de Dener,
o costureiro que desdenhava dos políticos mas sabia
que o corte malfeito podia torná-los ridículos


Débora Chaves

Foto: Otto Stupakoff/Instituto Moreira Salles
É luxo só
O costureiro, no tempo em que não se dizia estilista, no início da década de 60:
"Tenho ho-rror a política", assim mesmo, com o hífen no lugar errado

c. 1961

Era mais fácil entender o Brasil da virada dos anos 50 para os 60 por meio dos embates didáticos – ou você era isso, ou era aquilo. O Sedan VW 1200, o primeiro Fusca, saído da linha de montagem em janeiro de 1959, ou o Simca Chambord? Juscelino ou Carlos Lacerda? PSD ou UDN? As Certinhas do Lalau, as beldades de carne (muita) e osso escolhidas pela coluna de Stanislaw Ponte Preta no jornal Última Hora, ou as garotas a traço de aquarela do Alceu, cujos desenhos apareciam em O Cruzeiro? Brasília ou Rio de Janeiro? Na moda, da fuzarca mesmo era opor a carioquíssima Casa Canadá, comandada por Mena Fiala, à paulistérrima Peleteria Americana, da uruguaia Rosa de Libman, depois chamada de Madame Rosita. Vivia-se a infância, nas coxias, de uma briga que nos vinte anos seguintes cresceria a ponto de se tornar muito divertida: Dener Pamplona, então com 24 anos, versus Clodovil Hernandes, de 23. Em 1959, o costureiro Dener ganhou os prêmios Agulha de Ouro e de Platina do reputado Festival da Moda. Em 1960, a láurea dourada ficou com Clodovil.

Em seu livro de memórias, Dener – O Luxo, de 1972, relançado em 2007, o paraense radicado no Rio conta que começara sua carreira de corte e costura, aos improváveis 13 anos, na maison carioca. Ficou pouco tempo, um ano se tanto. Sua primeira cliente: Sarah Kubitschek, "esposa de um político famoso e que precisava de um vestido de noite para a comemoração de mais uma vitória de seu marido", nas lembranças do estilista. A Canadá fez a roupa da primeira-dama para o baile de gala de 21 de abril de 1960, no Palácio do Planalto. Sarah vestia um tomara que caia de organza branco, rebordado em ponto cadeia com fios de ouro, lantejoulas, vidrilhos e cristais transparentes e dourados. Anos depois, num desses mal-entendidos que construíam a carreira polêmica de Dener, as donas da Canadá desmentiram tê-lo contratado.

Fotos Nelson Rio e Alceu Penna/Acervo Jornal Estado de Minas/O Cruzeiro
CERTINHAS DO LALAU X GAROTAS DO ALCEU
A atriz Carmem Verônica, cobiçada vedete (à esq.), apareceu ao longo de dez anos na listagem do cronista e humorista Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto; era a versão em carne e osso dos desenhos de Alceu Penna

A Canadá era a Daslu da época. Importava casacos de pele e roupas de estilistas consagrados como Christian Dior, Jacques Fath e Balenciaga, mas também produzia a sua própria coleção de alta-costura e prêt-à-porter. É provável que a maior parte das socialites presentes à noite de inauguração de Brasília vestisse alguma criação de Mena Fiala. É 100% certo que, à entrada do edifício projetado por Niemeyer, houve muita luta para não enterrar o salto alto no barro rubro-ferruginoso do cerrado – que o dissesse Ruth de Almeida Prado, quatrocentona de quatro costados, cuja foto atravessando o chão entre os 50 000 candangos que acompanhavam o festim de fogos de artifício virou notícia de jornal, pelo estrago estético.

Organza de seda pura. O vestido de gala usado por Sarah, aos 51 anos, deixava em evidência o busto e a cintura. Realçava os quadris, com camadas e camadas de tecido, como ditava a moda. Nele, foram usados 12 metros de organza de seda pura e mais de 5 000 cristais, vidrilhos e lantejoulas distribuídos pelos bordados florais. Eram tempos de fartura. Mas havia indícios, nas ruas, nas imagens repletas de fantasmas da televisão e nas revistas, de que o new look criado pelo francês Christian Dior em 1947 ainda vigorava, a meio caminho da austeridade de Coco Chanel e da explosão psicodélica que chegaria no fim da década.

Os estilos mais rebeldes popularizados pelo rock de Elvis Presley – e, no Brasil, por Celly Campello e sua turma –, bem como o tom existencialista das musas da bossa nova, pontuado pelos joelhos de Nara Leão, só despontariam realmente nos anos seguintes. No tempo da inauguração de Brasília, estavam em alta a feminilidade e o luxo. Às araras mais requintadas, o modernismo de linhas simples de Brasília ainda não chegara. No dia a dia, Sarah preferia os tailleurs que marcavam a silhueta sem exageros, mas caprichava nos acessórios, como luvas e chapéu. Suas filhas, Márcia e Maria Estela, preferiam peças mais desestruturadas, como os casaquetos e os conjuntinhos de banlon. Tudo muito comportado e clássico, como impunha o figurino de casaca de Juscelino Kubitschek, antessala da explosão colorida que culminaria no flower power dos hippies.

Fotos divulgação e Acervo Jornal Estado de Minas/O Cruzeiro

FUSCA X SIMCA CHAMBORD
Genuíno carro de passeio brasileiro, o Sedan VW chegou às ruas em janeiro de 1959 – seu avesso foi o grandão Chambord, o primeiro automóvel de luxo fabricado no país

Moda, nos anos JK, mais do que em qualquer governo, era sinônimo de uma indústria em seu nascimento, num tempo em que tudo no país parecia nascer – moda era também instrumento de defesa do nacionalismo, bandeira a desfraldar. Produtos made in Brazil, como o algodão, eram alçados à condição de estrelas – ainda que os tecidos sintéticos promovidos pela empresa francesa Rhodia cutucassem os empresários têxteis como Lacerda fazia com Juscelino. A Rhodia, em um esperto lance de marketing, palavra recém-descoberta, promovia a Fenit, Feira Nacional da Indústria Têxtil, a precursora das atuais Fashion Weeks. Os fios plásticos dividiam a passarela com nomes como Dener, Clodovil e as mais belas modelos do pedaço. Mas havia um nó econômico, e ele conspirava a favor dos trópicos, do algodão patropi. As limitações impostas pela II Guerra para a importação de tecidos e roupas prontas tinham aberto um novo mercado, e agora era o momento de aproveitar a boa-nova.

Foto: Divulgação/ Exposição Mena Fiala

LOOK FESTA
O primeiro-casal no baile inaugural, ele de casaca, Sarah de longo tomara que caia, estola, colar de pérolas de sete voltas, luvas três-quartos e carteira dourada
Brasília – 21 | 4 | 1960


Em São Paulo, a tecelagem Santaconstancia, de Gabriella Pascolato, ensaiava as primeiras fornadas de tecidos finos como o tafetá, mas foi o bom e velho algodão que marcou a impúbere cultura de moda. A Fábrica de Tecidos Bangu passou a patrocinar concorridos desfiles beneficentes no Copacabana Palace para a escolha da Miss Elegante Bangu. Os concursos de miss, ressalve-se, eram o segundo evento mais badalado do país, suplantados apenas pela Copa do Mundo de Futebol, depois do primeiro título de Pelé, Garrincha e cia., em 1958.

Naquele ano de euforia, de gols e de Chega de Saudade, a Fenit fez história, em São Paulo, ao reunir fabricantes de tecidos, de aviamentos e de máquinas têxteis em um evento concorrido. A Rhodia atirou no que viu (os sintéticos) e acertou o que não vira (o início de uma pequena revolução de comportamento). Vestir-se, e vestir-se bem – preferencialmente de algodão, como recomendava JK –, tornou-se obrigatório em um país descalço. Em 1959, foi lançada Manequim, da Editora Abril, a primeira revista de moda feminina de tiragem nacional. Os moldes que ela oferecia transportaram a moda para dentro das casas, dos armários domésticos. Paralelamente, butiques e lojas de tecidos começavam a contratar modistas para desenhar vestidos para as clientes, no vácuo do que faziam os arqui-inimigos Dener e Clodovil.

Foto: arquivo fotográfico Bloch Editores

LOOK FAMÍLIA
Juscelino, de terno de três botões, ao lado de Sarah e das filhas, Márcia e Maria Estela. Elas vestem variações de tailleur, com casaquetos bem-comportados – o destaque é o primoroso acabamento dos botões forrados com o mesmo tecido da roupa
Brasília – 21 | 4 | 1960

Avesso da elegância. Alinhavava-se a moda brasileira, era a alegria dos primórdios, apesar das insistentes influências europeias. Nos primeiros anos de Brasília, depois da saída de Juscelino e Sarah, não houve modelo mais conhecida e celebrada que a morena primeira-dama Maria Teresa Goulart, mulher de Jango, vestida por Dener, obviamente. O estilista, para usar uma expressão atual, tinha livre trânsito no Planalto e no Alvorada. Os vestidos de Maria Teresa ajudavam a reforçar a imagem das etiquetas que tinham manufaturas no eixo Rio-São Paulo. Além de servirem aos ricos das duas cidades, passavam também a entrar no guarda-roupa das mulheres de deputados, senadores e ministros que desembarcavam em Brasília.

O belo desenho, alimentado pela elegância discreta dos Kubitschek e pela permanente estica de Maria Teresa, viveu o apogeu junto com o crescimento de Brasília. Parecia piada, soou como provocação, mas há muita graça no comentário de Dener, feito quando o casal Goulart foi para o exílio, com o golpe militar de 1964. A bagunça política daqueles anos era o avesso da elegância da esposa do presidente. Numa conversa com um policial que o procurara por telefone, por conhecer suas ligações com o casal presidencial, Dener deu uma resposta ácida ao homem que desejava saber se ele estava realmente revoltado, como dissera aos jornais. A resposta, irônica: "Revoltadíssimo, meu senhor. O que Maria Teresa fez foi um crime, um crime! Fiz vestidos para todas as ocasiões, para casamentos, para funeral, para solenidades oficiais. Só não fiz um vestido para deposição, porque ela não pediu. Maria Teresa poderia usar um tailleur marrom, cinza-grafite ou um tailleur preto com blusa branca. Pois não é que ela perdeu a cabeça, ficou nervosa, sei lá, e vai para o exílio de tailleurzinho azul-turquesa!". Era bocomoco demais.

Dener, em seu livro de memórias, foi claro. "Tenho ho-rror a política", escreveu, assim mesmo, com o hífen em posição errada a separar os horrores. "De políticos eu quero distância, salvo se forem também homens de sociedade ou se forem casados com mulheres elegantes e tiverem de esperá-las no meu ateliê ou pagar suas contas." Pode-se ler esse comentário no avesso, como os bem-acabadíssimos forros de Dener: ele não era tão arredio assim aos políticos, sabia como a boa costura podia servir aos que mandavam e como o pano feio e mal cortado os tornaria ridículos.

Foto: Luiz Carlos Barreto/Acervo Jornal Estado de Minas/O Cruzeiro

Fraque e cartola
O ministro das Relações Exteriores, Horácio Lafer (à esq.), o governador da Bahia, Juracy Magalhães, e Israel Pinheiro, presidente da Novacap, no traje oficial das autoridades
BRASÍLIA - 21 | abril | 1960

 

Personagem
A primeira valsa do presidente

Martha Garcia, a miss Brasília 1959, brotinho típico de um tempo charmoso, lembra-se dos galanteios do baile inaugural

Foto: arquivo pessoal

POLEGADAS NO LUGAR
Martha, que não era a Rocha: 1,70 metro de altura e medidas consideradas perfeitas, com 92 centímetros de busto, 58 de cintura e 92 de quadris
Brasília – 1959

A primeira valsa do pé de valsa Juscelino no baile da inauguração da capital foi com Martha Garcia, miss Brasília 1959. Dançaram ao som da orquestra de Bené Nunes. Olhos verde-água e um corpo escultural, a carioca de 20 anos era o brotinho bossa-nova típico dos anos 50. Parecia saída dos traços do desenhista Alceu Penna. Era moça habituée do circuito Praia de Copacabana/Confeitaria Colombo/Teatro Municipal, endereços que o ilustrador e figurinista visitava em busca de inspiração para tratar em sua coluna semanal de moda e comportamento em O Cruzeiro.

Martha, que não era a Rocha, tinha 1,70 metro de altura e medidas consideradas perfeitas (92 centímetros de busto, 58 de cintura e 92 de quadris). Causava sensação por onde passava, a ponto de O Cruzeiro facilitar sua participação na olimpíada "cultural" que indicaria a candidata carioca ao primeiro concurso de miss da futura capital federal. "O pessoal da revista queria muito que eu ganhasse; então ganhei", conta, sem rodeios, Martha, hoje com 71 anos.

No Brasília Palace Hotel, construído por Niemeyer nas cercanias do Palácio da Alvorada, Martha não teve nenhum empurrão extra, mas ainda assim desbancou quinze candidatas e levou o título. Recebeu o cetro e a coroa das mãos do procurador-geral da República, Carlos Medeiros, e alguns prêmios: um maiô verde da marca Catalina, uma geladeira Gelomatic, isqueiro-relógio de ouro e um contrato de seis meses para atuar como garota-propaganda do café brasileiro no exterior. As revistas de então também falam de um terreno em Brasília com uma casa projetada por Oscar Niemeyer que teriam sido oferecidos posteriormente por Israel Pinheiro, o presidente da Novacap, comandante da construção da capital. Martha não se lembra da oferta de terreno nem da casa – doar pedaços de terra no cerrado era comum, e mais comum ainda era inventar que os terrenos tinham sido oferecidos. Era um modo de celebrar o nascimento de Brasília, a vastidão a ser ocupada.

Martha não se esquece, isso sim, do início de namoro com o jornalista Justino Martins, 24 anos mais velho, diretor da revista Manchete, com quem se casaria e teve uma filha. Guarda também, como lembrança recorrente, a cantada que recebeu do presidente bossa-nova. "Fingi que não entendi e continuei dançando", diz. É recordação que pode soar ofensiva aos familiares de JK, injusta pela impossibilidade de ele confirmar o galanteio, mas desculpável no ambiente falsamente ingênuo daqueles anos dourados.