| | Urbanismo O
futuro que nunca será Os traçados
derrotados no concurso revelam como poderia ter sido a capital  Débora
Rubin
 | Projeto
classificado em 2º lugar Autores:
Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves |
Durante
apenas cinco dias, de 12 a 16 de março de 1957, o júri internacional
avaliou 26 projetos para a construção de Brasília. O edital
estabelecia alguns parâmetros para nortear a seleção: a capital
deveria ser diferente de qualquer outra cidade, para expressar "a grandeza
de uma vontade nacional". Sua principal característica deveria ser
a administração pública, para onde todas as funções
convergiriam. Quatro projetos atenderam a essas exigências, e competiram
até o final.  |  | Projetos
empatados em 3º lugar | Autores:
Rino Levi, Roberto Cerqueira César, L.R. Carvalho Franco e Paulo Fragoso | Autores:
Marcelo e Maurício Roberto, do escritório M.M.M. Roberto |
Houve
confusão. O arquiteto Paulo Antunes Ribeiro, representante do Instituto
de Arquitetos do Brasil, não concordou com a escolha do plano de Lucio
Costa. Alegou pressa na decisão, reclamou de arbitrariedade e sugeriu que
fossem reunidos os onze melhores projetos. A partir deles, propunha montar um
grupo de trabalho para pensar o desenho da nova capital. Israel Pinheiro, o presidente
da Novacap, rechaçou a ideia. Diz Oscar Niemeyer, um dos jurados: "O
IAB queria anular o concurso e dele se ocupar oficialmente. Israel surpreendeu-se,
pedindo a Antunes Ribeiro que me procurasse. A conversa foi curta e radical. Disse-lhe
que encontravam da minha parte todos os obstáculos na defesa do plano de
Lucio, praticamente o vencedor". Os derrotados re-clamaram de jogo de cartas
marcadas. VEJA recriou Brasília tal como
foi imaginada pelo segundo colocado e pelos dois grupos que empataram em terceiro
lugar. Saiba como Brasília ficaria abaixo. Modernista
de carteirinha O projeto mais próximo dos rigorosos
preceitos de Le Corbusier perdeu por pouco A trinca
de arquitetos era a mais ligada às normas pétreas do modernismo,
estabelecidas pelos congressos internacionais de arquitetura moderna, os Ciam,
liderados pelo franco-suíço Le Corbusier dos anos 20 aos 50. "Menos
é mais", na definição do alemão Mies van der
Rohe, e "a forma segue a função", do americano Louis Sullivan,
eram as regras fundamentais. Mais até que o projeto vencedor de Lucio Costa,
propunham nítido isolamento entre os setores administrativo, residencial
e comercial. Na apresentação do trabalho, foram usadas as divisões
urbanas estabelecidas pelos textos de Le Corbusier: "habitar, trabalhar e
circular". Os edifícios teriam doze pavimentos (Lucio projetou prédios
com seis andares). No desenho, a Brasília
de Milman, Rocha e Gonçalves teria semelhança com aquela estabelecida
pela dupla Lucio Costa-Oscar Niemeyer. No lugar da "asa" brotava um
"L" a acompanhar o Lago Paranoá. Havia a premonitória
indicação de residências na beira da água, tal como
se vê hoje nas mansões que beijam o Lago Sul. "Era um projeto
inteligente, linear, que previa o crescimento da cidade", diz Aline Moraes
Costa Braga, a autora da dissertação (Im)Possíveis Brasílias.
Tato Araujo
 2º
LUGAR Autores: Boruch
Milman, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves Avaliação
dos jurados Prós muito
atraente a localização das habitações na península
densidade aproximadamente exata Contras
centro comercial isolado e formalizado numa série rígida
de superblocos de tamanho igual não utilização
da parte mais elevada do terreno Com
jeitão dos Jetsons Torres de 300 metros de altura
desafiavam os engenheiros e o prazo O arquiteto
modernista Rino Levi já era uma celebridade no fim dos anos 50. Fora presidente
do escritório paulistano do Instituto de Arquitetos do Brasil em 1954 e
1955. Para Brasília, imaginou torres gigantes, de 75 a oitenta andares,
com 300 metros de altura, 400 de largura e 18 de profundidade pouco menores,
portanto, que a Torre Eiffel. Seriam bairros verticais, superblocos a arranhar
o céu. Alguns pavimentos, entre os andares, funcionariam como ruas, com
serviços e comércio. Para fazer
a interligação de tudo, existiriam elevadores de dois tipos: os
grandes, que levariam às avenidas; e os menores, para transportar as pessoas
para casa. Os jurados ficaram impressionados, mas jogaram a toalha ante a impossibilidade
de construção dessa cidade futurista dos Jetsons no prazo político
de três anos estabelecido por Juscelino. Os próprios autores, no
memorial descritivo do projeto, deram as pistas da derrota no concurso: "Talvez
esta seja a cidade do século XXI e os homens que a projetaram e a calcularam
já estejam com seus passos trilhando as vias super-rápidas do ano
2000 para diante". Ficou para depois, ou nunca. Tato
Araujo
 3º-
LUGAR (empatado) Autores:
Rino Levi, Roberto Cerqueira César, L.R. Carvalho Franco e Paulo Fragoso Avaliação
dos jurados Prós Boa aparência
Boa orientação Contras
Do ponto de vista plástico, são os edifícios
de apartamentos que dão feição à capital não
os edifícios governamentais Altura desnecessária; resistência
aos ventos Ao perdedor, um lugar na Belém-Brasília O
traçado foi usado por Paragominas, no Pará, que o atribui erroneamente
a Lucio Costa Parecem imensos quiosques. As sete unidades
urbanas previstas pelo escritório M.M.M. Roberto teriam 72 000 moradores.
No centro de cada unidade haveria um setor governamental. "A ideia era fazer
uma capital com caráter de cidade do interior", diz a arquiteta Aline
Moraes Costa Braga, autora de (Im)Possíveis Brasílias, dissertação
de mestrado pela Unicamp. O projeto é
pivô de um imbróglio em Paragominas, no Pará, à margem
da Belém-Brasília. Os documentos oficiais do município perpetuam
um erro informam que o traço urbano é resultado de uma planta
de Lucio Costa, "a qual havia concorrido, junto a outras, para o projeto
de construção de Brasília, classificando-se assim em quarto
lugar". Os desenhos teriam sido presenteados, em 1958, ao fundador da cidade
por Jofre Mozart Parada, geólogo muito próximo a JK. Houve, portanto,
uma involuntária troca de autoria. Apresentado à confusão,
Márcio Roberto, filho de um dos autores do projeto que obteve o terceiro
lugar no concurso, parece perplexo. "Que absurdo", diz. "Mas naquele
tempo não havia mesmo muito respeito a direitos autorais." Maria Elisa
Costa, filha de Lucio, também nunca ouvira falar da história. A
falsa informação é repetida na justificativa do projeto de
lei nº 554, de 2007, que tramita no Congresso, para a criação
de uma zona de exportação em Paragominas. Pode-se constatar a semelhança
dos croquis de 1957 com o traçado de Paragominas por meio do Google Earth.
Tato Araujo
 3º-
LUGAR (empatado) Autores:
Marcelo e Maurício Roberto, do escritório M.M.M. Roberto Avaliação
dos jurados Prós O programa
para construção e financiamento é prático e realista
O estudo sobre a utilização da terra é
o melhor e mais completo do concurso Contras
É válido para qualquer cidade numa região
plana; não é especial para Brasília Não
é o plano para uma capital nacional | |