Lista de nomes
Carta ao leitor
Primórdios
Ideia
Política
Personagem
Inovação
Arquitetura
Depoimento exclusivo
Projeto
Urbanismo
Perfis
Engenharia
Finanças
Nostalgia
Inauguração
Fotografia
Realidade
Patrimônio
Moda
Design
Cultura
História
Cotidiano
Frases
Economia
Internet

   
 

Projeto
"Era um rabisco e pulsava"

Assim Carlos Drummond de Andrade se referiu ao
relatório escrito e desenhado por Lucio Costa, um
dos documentos fundamentais - embora quase
desconhecido - da história do urbanismo brasileiro


Fábio Altman

NA ÚLTIMA HORA
O documento com 24 páginas de papel no formato A4, além de uma prancha com o traçado, é datado de 10 de março de 1957, véspera do prazo final para o concurso

Circunspecto como sempre, Lucio Costa conduzia o Hillman bege pelas ruas do Rio, do Leblon ao Centro, a caminho do Ministério da Educação e Saúde Pública, o Palácio Capanema, na Rua da Imprensa, número 16. Ali, na sobreloja do edifício projetado pelo próprio Lucio em 1937 com a ajuda de Charles-Édouard Jeanneret, dito Le Corbusier (1887-1965), e de cinco jovens arquitetos brasileiros, entre eles Oscar Niemeyer, estavam reunidos os sete membros do júri que escolheria o projeto para a construção de Brasília, além de alguns assessores.

Foto: Jean Manzon
BANDEIRA FINCADA
Lucio Costa em sua primeira visita ao cerrado depois da vitória do relatório
BRASÍLIA - 1957


Chovia naquele 11 de março de 1957, uma segunda-feira. Faltavam dez minutos para as 7 da noite, dez minutos portanto para o encerramento do prazo estabelecido para a entrega dos trabalhos ao concurso, quando o carro encostou à porta principal do prédio modernista. Um guarda chegou a reclamar da manobra, proibida. As filhas de Lucio, Maria Elisa, estudante de arquitetura, e Helena, ainda menina, saíram correndo com pranchas de cartão duro debaixo do braço. Uma das folhas levava colado o traçado da cidade, na improvável forma de avião, em escala de 1/25 000, a nanquim e colorido com lápis de cor. Outras quatro cartolinas tinham, cada uma, seis páginas datilografadas, com alguns poucos desenhos, da memória descritiva do projeto. Eram 3 857 palavras que começavam com um pedido de desculpas pela "apresentação sumária".

Um funcionário da Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital, recebeu a documentação e entregou um recibo, de número 26. O que se deu do outro lado do guichê foi revelado anos depois, em 1974, em texto para a revista Manchete, por Flávio de Aquino, arquiteto que trabalhava com Niemeyer (ele mesmo um dos jurados): "Uma hora antes, Niemeyer, Sir William Holford, André Sive, Stamo Papadaki e eu fomos jantar rapidamente no restaurante Albamar. O clima era de desolação. Lamentávamos que os trabalhos até então entregues não estivessem à altura do plano urbanístico de uma grande capital".

A chegada do papelório de Lucio, mandado a um escritório da Rua da Quitanda para ser datilografado em espaço 2, impôs novo ânimo ao grupo, depois de breve decepção. Nas palavras de Aquino: "Então nos aproximamos das pranchas. (...) Ficamos desiludidos. Niemeyer sentou-se num caixote, a cabeça entre as mãos. Mas o presidente da comissão julgadora, Sir William Holford, começou a estudar as pranchas (ele lia italiano e um pouco de espanhol). De vez em quando perguntava o significado de uma palavra. De repente exclamou, entusiasmado: "Mas esta é a maior contribuição urbanística do século XX!".

O poeta Carlos Drummond de Andrade - vizinho de mesa de Lucio no 8º andar do Ministério da Educação, parceiro no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) -, a quem couberam uma das primeiras leituras do texto e a correção ortográfica, tivera reação semelhante, descrita numa de suas crônicas. "Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização", escreveu Drummond. "Era um rabisco e pulsava."

Clique para ampliar

"Rabisco", como se percebe, era a palavra comum a definir o relatório de Lucio Costa. Quem primeiro o viu, por direito hereditário, foi Maria Elisa, "a cobaia ideal", segundo ela mesma diz, porque além de filha estudava arquitetura. Maria Elisa lembra de ter sido chamada pelo pai, na cobertura onde moravam no Leblon, ao voltar da praia. Ele estava no terraço de trás, onde funcionava seu escritório ("embora o escritório de Lucio fosse sua cabeça", diz ela). Animado, suando, descreveu "tintim por tintim a nova capital". Levá-la ao concurso custou apenas 25 cruzeiros. Lucio ganhou 1 milhão de cruzeiros, mas deixou o dinheiro no banco, à mercê da inflação.

Prêmio com Christian Dior. A Brasília de papel nascera um ano antes, em 1956, numa cabine do navio Rio Jachal, nos doze dias de viagem entre Nova York e o Rio de Janeiro. Lucio - viúvo, sempre acompanhado das filhas - fora aos Estados Unidos para receber homenagem, ao lado do estilista Christian Dior, da Parsons The New School for Design. O trabalho solitário, compartilhado apenas com Maria Elisa e Helena, era o conforto a uma dor incessante - em 1954, Julieta, a Leleta, mulher de Lucio desde 1929, morrera num acidente de carro na estrada Rio-Petrópolis. Lucio era quem dirigia o automóvel (o mesmo Hillman bege com o qual fora ao Palácio Capanema na undécima hora da entrega), e ele sempre alimentou, discretamente, o sentimento de culpa pela tragédia.

Clique para ampliar


A tristeza, revelam amigos, o fizera ainda mais discreto. Homem que, nas palavras de Drummond, "não tinha nem de leve ar importante, e parecia mesmo querer se ocultar de todos e de tudo, até do nome Lucio Costa, tanto que assinava os seus pareceres com um esmaecido LC, saído do toco de um lápis que era todo o seu equipamento de trabalho".

Sem vaidades evidentes, o desapego lhe permitia ter a bainha da calça feita com grampeador. A simplicidade era condição que o autorizava a trabalhar num canto absurdamente apinhado de papéis, livros e caixas e dirigir, já no fim da vida, um Fusca com um rombo no assoalho. Não que Lucio desconhecesse a importância de suas ideias na construção da arquitetura e do urbanismo brasileiros, um dos mais refinados intelectuais a escrever e pensar em português (e francês). Modesto, até os anos 1980 ele se referia à capital como "Brasília, cidade inventada". Ante o sumiço de seu nome, apagado pela notoriedade de Niemeyer, embora não cultivasse mágoa, passou a usar outra definição: "Brasília, cidade que inventei".

E que cidade era essa, nascida dos papéis hoje naturalmente amarelados? O próprio Lucio gostava de repetir, a quem lhe perguntasse, a reação do inglês Holford depois da seleção. "Li o seu texto três vezes; na primeira, não entendi; na segunda, entendi; e, na terceira, I enjoyed", disse Holford, ao explicar seu entusiasmo. Na apreciação final, ao ressaltar a simplicidade e a clareza das ideias, comparava-as aos planos de "Pompeia, de Nancy, de Londres, feito por Wren, e de Paris, de Luís XV".

Era um manifesto a anteceder uma obra de arte. "Não um manifesto como foi o dos dadaístas ou dos futuristas", diz o arquiteto Jeferson Tavares, estudioso da história de Brasília, "porque estes iam contra alguma coisa, opunham-se ao estabelecido, apenas negavam o passado".

No caso de Lucio Costa, o relatório que engendrara Brasília era o casamento de alguns dos pilares do modernismo - na linha de Le Corbusier e dos congressos internacionais de arquitetura moderna (Ciam), nos anos 1920 a 1950 - com a tradição brasileira. "Era um olhar antropofágico como fora o da Semana de Arte Moderna de 1922", diz Tavares. "Era a soma do antigo, da arquitetura colonial, com as imposições do novo." Visto aos olhos de hoje, pode-se dizer que misturava Ouro Preto com Brasília. Não havia contradição por ser ao mesmo tempo defensor do patrimônio - cargo de Lucio no ministério - e criador de uma cidade do amanhã.

Clique para ampliar

Há, no documento de Brasília, lírico à Drummond e seco como João Cabral de Melo Neto, ao menos uma frase antológica, usada para definir o que brotava do traço: "Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse - dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz".

Moderno, e não modernista. A cruz era o mais evidente símbolo de apego às tradições. Lucio não escondia o aborrecimento quando era chamado de "modernista". Preferia ser identificado como "moderno", e ponto. Admitia ter bebido nas premissas de Le Corbusier, nos princípios da cidade-parque, dos espaços abertos, dos pilotis, como fizera com o Parque Guinle, no Rio, dos anos 1940. "Mas ele buscou na tradição suas escalas", diz Maria Elisa. Para ela, "o gabarito de seis andares nas quadras brasilienses nada tem a ver com os Ciam, é o gabarito tradicional pré-elevador; a escala monumental assumida, determinante do caráter de capital que Brasília tem desde o início, também não tem nada a ver com os Ciam".

O urbanista, sempre discretamente, só mostrava real aborrecimento quando lhe diziam que Brasília era cidade sem vida, que do papel saíra fria. Em novembro de 1984, numa de suas raras visitas à capital, ele teve reação inteligente ao ser entrevistado na plataforma da rodoviária pelo Jornal do Brasil, tendo às costas o Congresso e a Esplanada dos Ministérios. Olhava para os ônibus, para o comércio de camelôs, para o bruaá. "Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. É o Brasil... Eles estão com a razão, eu é que estava errado."

CROQUIS
No navio Rio Jachal, em 1956, na travessia de doze dias de Nova York ao Rio, Lucio já esboçava o traçado urbano da capital, inclusive o desenho dos edifícios administrativos depois eternizados por Oscar Niemeyer

Lucio Costa, nascido em Toulon, na França, em 1902, morreu aos 96 anos. Seu principal legado, este que era um rabisco e pulsava, hoje está em um conjunto de seis gavetas de aço de um arquivo que dorme num contêiner no qual foi instalado um duto de ar condicionado. O lugar, precário mas criativo, amorosamente cuidado por familiares e amigos, com dinheiro próprio e da Petrobras, está dentro do Jardim Botânico, no Rio, nas instalações do Instituto Antonio Carlos Jobim. As gavetas mais baixas do armário têm os traços de Lucio, separados por folhas de papel vegetal. As de cima, as partituras e letras originais de Dorival Caymmi (1914-2008). Ao lado, em sala contígua, o acervo de Tom Jobim (1927-1994). Lucio Costa, o urbanista, ajudou a definir o Brasil, por meio do relatório que antecede Brasília, tanto quanto Caymmi e Jobim fizeram com a música.

Só não teve o mesmo renome por humildade. Numa carta escrita à revista americana Time em maio de 1960, ele retrucava reportagem que, para tratar do caos e das brigas políticas na inauguração de Brasília, destacara a ausência do inventor nas festividades. Escreveu Lucio: "Senhores. Acompanhei e aprovei o desenvolvimento do projeto de Brasília a partir do escritório da Novacap no Rio, e acredito que a execução da ideia original se mostrou melhor do que o esperado. Não vou até lá por dois motivos: em primeiro lugar, porque desejo deixar todo o crédito de expressão arquitetônica e da construção propriamente dita da cidade para Niemeyer e Israel Pinheiro; em segundo lugar, porque minha mulher, Leleta, teria adorado estar lá, e prefiro compartilhar com ela a impossibilidade de fazê-lo".