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Nostalgia
Encanto não se transfere
Como foram os melancólicos (mas nem tanto)
últimos
dias do Rio de Janeiro como sede do governo

Sérgio Rodrigues
Foto: Aliam Milan/Agência Tyba
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Noite ilustrada
À porta do Teatro Municipal, em noite de gala, o chofer do Simca Chambord
à espera
dos passageiros
Rio de Janeiro - 3 | 3 | 1959 |
No dia 21 de abril de 1960, o último do Rio de Janeiro
como capital da República, dois de seus principais cronistas nenhum
deles carioca de nascimento, o que era típico de uma metrópole
que se pretendia a "síntese do Brasil" viveram experiências
opostas. O capixaba Rubem Braga se desgarrou dos amigos que iam conferir o desfile
das escolas de samba na Avenida Rio Branco, um evento sintomaticamente bagunçado,
promovido sem dinheiro e com escassez de policiamento pelo Departamento de Turismo
da prefeitura para comemorar o nascente estado da Guanabara. Depois de ver no
Leme os fogos de artifício que saudaram a meia-noite, Braga entrou solitário
numa boate e, ao sair, constatou melancolicamente que a lua minguante era agora
uma "lua estadual".
Naquele momento, o pernambucano Nelson Rodrigues estava longe
de tudo isso do Rio e da melancolia , em plena festa de inauguração
de Brasília, esta sim uma comemoração rica, financiada
por um "crédito especial de
Cr$ 150 milhões", como noticiou na primeira página o jornal
antibrasiliense Tribuna da Imprensa. Contrariando sua lendária
aversão a viagens, Nelson tinha aceitado carona num dos ônibus
que o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR)
onde um de seus filhos prestava serviço militar alugara para levar
oitenta estudantes secundaristas aos festejos. A caravana saiu do Rio no dia
20 para uma desconfortável viagem de vinte horas. Em troca da hospedagem
no Planalto Central, o maior dramaturgo brasileiro negociou enviar para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, uma crônica a ser publicada
no dia 22, o primeiro da Federação redesenhada.
O cisma aberto em sua elite cultural deixa claro que o Rio de
Janeiro chegou aos últimos momentos de seus 71 anos como capital da República
e dos 197 desde que se tornara sede da colônia, em 1763
imerso em confusão. Uma confusão construída paralelamente
ao trabalho dos candangos, crônica por crônica, samba por samba,
conversa por conversa, pelo menos desde o início de 1957, quando começou
a ficar evidente até para os céticos que Juscelino Kubitschek
não estava brincando ao dizer que levaria a capital embora. Aquilo seria
bom para o Brasil, mas ruim para a cidade? Um desastre para ambos? Excelente
para todos, com exceção dos barnabés? O Rio, agora autônomo,
ganharia mais atenção de seus governantes? Brasília dividiu
os brasileiros em duas facções, a dos "mudancistas"
e a dos "antimudancistas". Era natural que a capital preterida fosse
palco das principais batalhas.
Quem não chora não mama
Havia muita reclamação, mas a população
do Rio
aceitara Brasília Ibope*
80% acreditavam que JK tinha acelerado o desenvolvimento brasileiro
73% aprovavam a mudança da capital
62% acreditavam que a nova capital traria benefícios ao
país
24% desaprovavam a iniciativa
* Pesquisa realizada em março de 1960 |
Não se tratava de mera rixa de literatos. A novidade de
concreto armado que brotara em tempo recorde no meio de Goiás era um
ímã de aventureiros em busca de enriquecimento rápido,
mas deixava apavorados os funcionários públicos federais habituados
à vizinhança da praia e ao consumo elegante na Galeria Menescal
destes, apenas 1,1% tinha sido transferido para Brasília a tempo
da inauguração. Políticos amotinados ameaçavam criar
um Senado paralelo no Rio, alegando falta de condições de trabalho
na Novacap. Na área da cultura popular, o racha ganhou corpo nos sambas
antípodas de Billy Blanco e Ataulfo Alves. O primeiro, que em 1957 chegou
a ter sua execução proibida extraoficialmente na Rádio
Nacional, apregoava que, por não ser "índio nem nada",
não iria para Brasília, "nem eu nem minha família".
O segundo rebuscava a rima com o nome da nova capital para tomar o rumo oposto: "Levo comigo Conceição
e Dorotília / violão e tamborim. / Vou fazer samba em Brasília".
A imprensa guardou os melhores registros da briga. O título
da crônica que pagou a hospedagem de Nelson Rodrigues em Brasília
e que mereceu chamada de primeira página na Última Hora era "A derrota dos cretinos". Não foi Rubem Braga o
alvo escolhido pelo autor entre os antimudancistas que, sobretudo no Rio e em
São Paulo, pululavam na imprensa e nos meios políticos
estes puxados pela retórica inflamada do udenista Carlos Lacerda, dono
da Tribuna da Imprensa e líder das manobras que haviam tentado
impedir JK de tomar posse. "A derrota dos cretinos" fazia mira no
poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, outro carioca de adoção,
que em uma crônica no Correio da Manhã tinha criticado a
poeira vermelha do Planalto Central. Em transe épico o mesmo que
o levara a declarar que, "a partir de Juscelino, surge um novo brasileiro"
, Nelson imaginou o dia em que veria Drummond num canteiro de obras da
nova capital, "dando rijas e sadias marteladas".
Havia mudancistas mais sóbrios. O escritor paraibano José
Lins do Rego defendia a tese corriqueira de que o governo federal precisava
se isolar dos "problemas locais" de uma grande cidade. Os antimudancistas
também tinham colorações variadas. Enquanto o maranhense
Josué Montello lamentava a partida das autoridades federais, "grandes
figuras que se ajustavam à importância" do relevo carioca,
Rubem Braga mal disfarçava o despeito ao prever que "pelo menos
no caráter" faria bem ao Rio a migração da "fauna
mais graúda dos animais de rapina" para o Planalto Central. O ciúme
era tão disseminado que chegava a ser explícito no texto publicado
por David Nasser na revista O Cruzeiro de 7 de maio de 1960: "Obrigado,
Juscelino, por haveres trocado esta cidade por uma paixão recente. O
Rio te agradece por Brasília, a noiva que preferiste a um velho amor".
Café society. Tratava-se, porém, de um ciúme
temperado por autossuficiência. Ao mesmo tempo em que listava as mazelas
urbanas que poderiam ter sido resolvidas pelos dutos de dinheiro canalizados
para Brasília falta de água crônica, enchentes, trânsito
engarrafado, favelização , a imprensa da cidade fazia variações
sobre o tema "Encanto não se transfere", ilustrado por uma
foto da Praia de Copacabana no Jornal do Brasil de 21 de abril de 1960.
O "encanto" não englobava pouca coisa. O Rio acabava de adicionar
mais um tijolinho ao edifício de sua fama internacional com o sucesso
do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, Palma de Ouro em Cannes. Exportava
para o resto do Brasil, via colunismo social e revistas de grande vendagem como O Cruzeiro e Manchete, um espetáculo de boa vida e elegância
conhecido como café society e simbolizado pela sofisticação
da boate Sachas, frequentada até por JK. E embalava tudo isso na
batida da bossa nova, produto de sua classe média praiana, que naquele
ano de 1960 venderia nos Estados Unidos mais de 1 milhão de cópias
de Samba de Uma Nota Só e Desafinado. Como poderia o Peixe
Vivo competir com aquilo? "Espírito e coração
do Brasil", pontificou o Correio da Manhã em editorial, "continuamos
sendo nós."
AE
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Despedida
Juscelino, ao lado de dona Sarah, alguns ministros
e funcionários, desce
pela última vez a escadaria
do Palácio do Catete
Rio de Janeiro - 20 | 4 | 1960 |
JK, político hábil, tratou de afagar esse orgulho
na despedida. No programa de rádio Voz do Brasil de 19 de abril
de 1960, mandou um recado à cidade, dizendo que seus "centros de
cultura prosseguirão jorrando a luz que dirige a marcha do Brasil para
o seu grande destino". No dia seguinte, ao descer a escadaria do Palácio
do Catete pela última vez, derramou algumas lágrimas. E no fim
tudo acabou em festa popular, com "centenas de milhares de pessoas"
(a conta é do jornal O Estado de S. Paulo) tomando "a Avenida
Rio Branco, Largo da Lapa e vias adjacentes". À meia-noite do dia
20, o samba deu lugar a um buzinaço e à marchinha Cidade Maravilhosa, recém-transformada em hino da Guanabara. Na guerra ruidosa entre
mudancistas e antimudancistas, entre a ciumeira e a euforia, não sobrara
espaço para uma reforma institucional que equacionasse o futuro político
e econômico de uma cidade desabituada de ser província. Quarenta
anos depois, com amargura, o economista Carlos Lessa anotaria no livro O
Rio de Todos os Brasis: "O Rio cedeu os direitos de primogenitura em
troca de um prato de lentilhas". Deu-se parte da recuperação
da autoestima carioca em 2 de outubro deste ano, quando a cidade foi anunciada
como sede da Olimpíada de 2016. "O Rio é uma cidade que perdeu
muitas coisas ao longo da história", disse o presidente Lula. "Foi
capital, foi coroa portuguesa, e aparece nos jornais em notícias ruins.
É hora de retribuição a um povo maravilhoso."
Foto: Arquivo Nacional
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Foto: Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
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A saída...
Caminhão de mudança leva móveis e papelada
do Palácio
Monroe, sede do Senado no Rio
Rio de Janeiro - 5 | 4 | 1960
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...A chegada
Desolação do funcionário público no cenário
seco do novo Distrito Federal
Brasília - 1960 |
Foto: Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
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Solidão
Apenas 1,1% dos funcionários
públicos federais trocou o litoral
pelo cerrado nos primeiros dias
da mudança
Brasília - 1960
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A rixa dos cronistas
Camilo Calazans/CPDOC JB
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"Um túnel ou um viaduto
leva anos para ser construído
no Rio, qualquer obra
se arrasta miseravelmente,
por falta de verba e
vamos
fazer uma cidade nova
nos confins do Judas."
Rubem Braga, contra a mudança |
"Na Praça dos Três Poderes,
o brasileiro
que
não viajou nada, que não passou
do Méier, é atravessado
pela certeza
fanática: a Praça de São Marcos não
chega aos pés da nossa."
Nelson Rodrigues, a favor da mudança |
Divulgação
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O duelo dos sambistas
Acervo Pessoal
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Eu não sou índio nem nada
Não tenho orelha furada
Nem uso argola pendurada no nariz
Não uso tanga de pena
E a minha pele é morena
Do sol da praia onde nasci
E me criei feliz
Não vou, não vou pra Brasília
Nem eu nem minha família
Mesmo que seja pra ficar cheio de grana
A vida não se compara
Mesmo difícil, tão cara
Eu caio duro mas fico em Copacabana
Billy Blanco, em Não Vou pra Brasília, contra a
mudança |
Trabalhador eu sei que sou
Me dê um palmo de terra, doutor
Garante a minha família que eu vou
Levo comigo Conceição e Dorotília
Violão e tamborim
Vou fazer samba em Brasília
Parto, saudoso do meu
Rio de Janeiro
Mas eu vou ficar famoso
Lá serei o primeiro
Ataulfo Alves, Samba em Brasília,
a favor da mudança |
Acervo UH Folha Imagem
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