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Realidade
O dia seguinte
Para deflagrar um hábito e antecipar um mau
costume, o
cotidiano de Brasília começou com
um feriadão e tentativas
(malsucedidas) de CPIs.
Mas o Grande
Prêmio JK de velocidade
foi um tremendo
sucesso

Cecília Pinto Coelho
Foto: Arquivo Público do Distrito Federal
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RAPIDEZ
"O circuito era sem graça, mas foi especial pelo momento histórico
e também
porque recebi o troféu das mãos de Juan Manuel
Fangio", disse o brasileiro
nascido em Paris Jean-Louis Lacerda Soares,
vencedor da prova
Eixo Rodoviário - 23 | 4 | 1960 |
Brasília fez-se Brasília, ou ao menos a Brasília
do poder, no dia seguinte ao cortar de fita. Começou com um feriadão
sexta-feira, 22; sábado, 23; e domingo, 24 , porque ninguém
é de ferro e os deputados e senadores tinham mais que fazer no Rio com
promessa de sol. Nem bem começara a vida da nova capital e já
brotara a "campanha do retorno". Um grupo de dezenove senadores da
oposição liderada pela UDN de Carlos Lacerda reabriu simbolicamente
o Palácio Monroe, na Cidade Maravilhosa. Em Brasília, só
voltariam à labuta no fim de maio. Na segunda-feira, 25 de abril, primeira
jornada útil, a Câmara dos Deputados não teve quórum
para sessão e um dos ministros do Supremo Tribunal Federal foi à
imprensa para explicar por que se recusara a permanecer no cerrado. A revista Time americana relatou a reprimenda de JK ao ministro da Saúde,
Mário Pinotti, que retornou ao Rio. "Se o senhor não voltar,
melhor renunciar." Pinotti deu o pinote, e logo estava em Brasília.
Depois da festa ao fim do Grande Prêmio Juscelino
Kubitschek de automobilismo nas avenidas e do Campeonato Brasileiro de Barcos
no Paranoá , e como o cotidiano se anunciasse árido, houve
debandada geral. Pelo menos 500 000 pessoas acompanharam as festas no 21 de
abril de 1960. Muitas chegaram antes, gradativamente, hospedando-se nas cidades-satélite,
em casas de família, ou mesmo em lugares distantes. O 22 de abril foi
o caos, porque quem chegara de avião queria retornar do mesmo modo, e rápido,
mas não havia espaço para todos. O Ministério da Aeronáutica
teve de instalar uma força-tarefa. Convém lembrar que a ponte
aérea Brasília-Rio só valeria a partir de 26 de abril.
Casa Cor. Nem tudo eram andaimes. Deu-se prioridade à Praça
dos Três Poderes e à Esplanada dos Ministérios, embora o
anexo central do Congresso (o prédio em forma de "H") e os
edifícios dos ministérios não pudessem funcionar plenamente.
Nos setores residenciais, apostou-se na Asa Sul mas ali também,
na inauguração, apenas 11,8% de um total de noventa superquadras
planejadas estava terminado. Havia um jeitão de Casa Cor: desde 1959,
quando fora inaugurado o primeiro edifício de seis andares, a Novacap
mobiliou um dos apartamentos para mostrar o estilo de vida que Brasília
reservava ao futuro, um futuro que a rigor só chegou em 1970, já
durante o governo Médici.
Um passeio pelos jornais daqueles dias os de oposição,
claro dá o tom do vazio criado depois da euforia. Correio da
Manhã de 21 de abril: "Brasília é um pandemônio". Diário Carioca do mesmo dia: "Brasília se inaugura
sem depósito de lixo: o que havia virou favela". Tribuna da Imprensa: "Senadores pedirão a volta do Congresso: Brasília é
um caos". As reportagens eram unânimes e nesse caso mesmo
entre os órgãos favoráveis a JK em destacar a poeira
que sobrara depois de a poei-ra baixar e o lixo que se acumulara. O Jornal
do Brasil resumiu o ambiente: "Deputados sem ter onde morar começam
hoje mesmo a voltar ao Rio".
Quem ficou, para não perder o costume, ou para inaugurá-lo,
tentou emplacar uma CPI. No ano da inauguração, nove comissões
foram registradas no Diário do Congresso Nacional. Uma delas,
publicada no periódico em 25 de agosto daquele ano, foi criada para investigar
as condições da construção de Brasília, da
organização e regulamentação de seus serviços
públicos. A comissão, de autoria do deputado Seixas Dória,
udenista de Sergipe, estava prevista para funcionar por noventa dias, mas não
chegou a nenhuma conclusão. Fracassou também a tentativa de alcançar
o governo de JK com a CPI do Vidro Plano, montada em 1959 para descobrir como
o casamento dos imensos janelões do modernismo na arquitetura com os
interesses dos empreiteiros encarecera a construção. Não
avançou, e ficou por isso mesmo.
Everett Collection/Grupo Keystone
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ANÁGUAS A BORDO
A comédia com Tony Curtis e Dina Merrill foi um dos destaques do Cine
Brasília, projetado evidentemente por Niemeyer |
Com plenários vazios, e à falta de restaurantes
para frequentar, ia-se ao cinema. No Cine Brasília, desenhado por Oscar
Niemeyer no Plano Piloto, com 1 200 lugares, os destaques da primeira
semana foram Anáguas a Bordo, com Cary Grant e Tony Curtis; O
Discípulo do Diabo, com Kirk Douglas e Burt Lancaster; e A Canoa
Furou, com Jerry Lewis. Na Cidade Livre o atual Núcleo Bandeirante
, roíam-se unhas com o faroeste A Lei do Mais Valente e
a aventura Tempestade em Sangolândia. Difícil, quase impossível,
era conseguir ingresso. "Brasília não era uma capital, nem
mesmo uma cidade, à época de sua inauguração",
afirma Márcio de Oliveira, do Departamento de Ciências Sociais
da Universidade Federal do Paraná, estudioso daqueles dias de corajoso
pioneirismo.
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