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Design
Cadê a poltrona que estava aqui?

O Patrimônio Histórico quer frear o sumiço dos móveis clássicos que ornamentavam os palácios modernistas


Débora Chaves

Fotos: acervo Sérgio Rodrigues

TRONOS
Lucio, Beto e Oscar: a cadeira e as poltronas de Sergio Rodrigues de linhas inspiradas na simplicidade brasiliense

A revolução estética brasiliense empurrou os designers de móveis dos anos 50 e início dos 60 para o novo. Induzidos a abandonar o gosto rebuscado pelo colonial, a trocar Ouro Preto por Brasília, eles criaram um mobiliário contemporâneo que ainda hoje vemos nas lojas e nas salas de espera de consultórios e escritórios. Colada no uso de madeiras nobres, como o jacarandá e a peroba, e em materiais de revestimento como o couro e a palhinha, desenvolveu-se uma tendência feita de linhas retas e curvas suaves, nos moldes da capital no cerrado.

Grandes nomes nasceram ali, como Sergio Rodrigues, Bernardo Figueiredo e Jorge Zalszupin. Apesar de o próprio Oscar Niemeyer ter desenhado algumas peças, caso das poltronas de couro e metal que ocupam o hall do Itamaraty, houve encomendas específicas. "No Palácio da Alvorada minha filha me ajudou, desenhou móveis", lembra Niemeyer. "Mas havia pressa, e a gente teve de procurar peças no mercado; sempre que foi possível, escolhi trabalhar com o Sergio Rodrigues, que é realmente bom profissional."

São de Rodrigues a poltrona Beto, criada para o Palácio do Planalto; a Candango, para o auditório da Universidade de Brasília; e a mesa de escritório Itamaraty – além de um clássico, a poltrona Mole, de 1957, que aos pés de palito opôs a robustez das madeiras de lei, hoje no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York. Rodrigues desenhou também dois modelos inspirados nos criadores da capital – a poltrona Oscar e a cadeira Lucio.

Malcuidados, os móveis de Brasília sofreram nos últimos anos um triste processo de subtração. Antiquários e colecionadores brasileiros e internacionais os compram quando são levados para reforma ou simplesmente os fazem desaparecer nos bastidores. Os originais chegam a valer o preço de um carro. Há casos em que são leiloados a preços irrisórios por burocratas de plantão. Para acabar com a farra, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu o primeiro passo: contratou o professor Arnaldo Danemberg, um especialista em mobiliário brasileiro, para catalogar toda a mobília e as obras de arte dos palácios do Planalto e do Itamaraty.

Além do levantamento do acervo, Danemberg orienta a formação de jovens aprendizes que vão trabalhar no restauro dos móveis. "Ao fazer a classificação, vi de tudo um pouco: móveis em péssimo estado de conservação, móveis já reformados e em bom estado e móveis importantes do ponto de vista histórico que foram substituídos e vendidos em leilões públicos", relata. "Mas já é um começo para que o Iphan consiga regulamentar o uso do mobiliário e das obras de arte que fazem parte dos ministérios e palácios de Brasília."