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Fotografia
Caçadores de imagens

Não houve preocupação do governo no registro
do momento histórico – a memória visual daquele
tempo é resultado da iniciativa de gente obcecada
e aventureira

Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
Peter Scheier (1908-1979)
O alemão em autorretrato no Palácio da Alvorada

Na infância da televisão, de escassas transmissões ao vivo e videoteipe engatinhando, os fotógrafos foram fundamentais na história visual dos primeiros anos de Brasília. Eles escreveram capítulo especial na aventura. "Revelaram a nova arquitetura e o que havia por trás dela, os operários que buscavam o futuro num lugar inóspito", diz a arquiteta Sonia Maria Milani Gouveia, estudiosa do assunto. Um primeiro raciocínio pode fazer crer que os profissionais das lentes tenham tido, em meados do século XX, função semelhante à de pintores como o francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e o alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que no século XIX mostraram, por meio das missões artísticas, o exotismo brasileiro ao exterior, no tempo da escravidão e colônia. A comparação é indevida, porque profissionais como o francês Marcel Gautherot (1910-1996) e o alemão Peter Scheier (1908-1979) já viviam no Brasil quando foram em busca da surpresa do novo no Planalto Central. "Embora tivessem um olhar exógeno, de fora, estavam completamente adaptados à cultura nacional", afirma Sonia Maria.

Ainda que tivessem raízes tropicais, condição que barrava o olhar deslumbrado do desconhecido, os fotógrafos imigrantes eram de estirpe diferente daquela dos brasileiros João Gabriel Gondim de Lima (1925-1994), enviado especial de um jornal de Fortaleza ao cerrado, do químico de formação Jesco von Puttkamer (1919-1994), de pais alemães, e de Mário Fontenelle (1919-1986), um mecânico de aviões piauiense que se aproximou de JK e a partir dessa proximidade fez as fotos certas no lugar certo (é dele a imagem do cruzamento inaugural que aparece no início desta edição de VEJA). Gondim, Jesco e Fontenelle tinham o olhar candango, "o ponto de vista de quem construía a nova capital", diz o antropólogo e fotógrafo Milton Guran, pesquisador do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense.

Arquivo Público do Distrito Federal
Mário Fontenelle (1919-1986)
Mecânico de aviões, era amigo pessoal de Juscelino Kubitschek

Com uma máquina Leica presenteada por JK, Fontenelle fez imagens que naquele tempo soavam como mero registro burocrático, espetacular senso de oportunidade, e hoje têm força semelhante à dos registros de Claude Lévi-Strauss no Brasil dos anos 30 e de Pierre Verger, um pouco mais tarde, ao mostrar o parentesco entre o povo da Bahia e o de Benin, na África.

É espantoso, do ponto de vista da memória de um país, que o governo de JK não tenha montado uma equipe de registro documental – bastaria inspirar-se no imperador dom Pedro II, que instituiu a figura do "photographo da Casa Imperial" em 1851. Existem imagens do nascimento de Brasília – parte delas heroicamente guardada pelo Arquivo Público do Distrito Federal, montado anos depois da inauguração da cidade – porque havia relações de amizade e compadrio. Fontenelle, porque Juscelino gostava dele. Gautherot, porque Niemeyer o convocara para a empreitada. Havia também repórteres fotográficos de órgãos de imprensa, como Jean Manzon, e apaixonados como Thomaz Farkas, além de correspondentes internacionais, como os da agência Magnum. Mas eram iniciativas pessoais, de gente obcecada.

Nunca existiu preocupação oficial de documentar um momento épico do país. Como sempre, é a iniciativa privada que preserva os documentos históricos. Os negativos de Gautherot, Scheier e Farkas fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles. São a tradução em preto e branco de uma frase do filósofo alemão Max Bense, que em 1961 esteve no Planalto. "Essa cidade é um evento visual, como um cartaz", escreveu no livro Inteligência Brasileira (Cosac Naify). "Brasília exige da consciência um novo sentido para a métrica, mas o matiz topológico de sua concepção é revelado pelo fato de que se pode, a partir de qualquer ponto de vista, representar a cidade comprimida ou distendida, relativamente aumentada ou diminuída."

Pierre Verger/Fundação Pierre Verger/Instituto Moreira Salles
Marcel Gautherot (1910-1996)
O francês apaixonou-se pelo Brasil ao ler Jubiabá, romance
de Jorge Amado