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História
Brasiliano, mas chamem de Brasil

A família do primeiro cidadão nascido
no Distrito Federal conta a história da capital
e do país nas últimas cinco décadas


Cecília Pinto Coelho

Ana Araújo
1. Joselita, irmã, nascida em 1951 6. Nita, mãe, nascida em 1933
2. Érica, filha, nascida em 1983 7. Lenita, irmã, nascida em 1965
3. Antônia, mulher, nascida em 1973,
com Christian, de 2009
8. Marlene, irmã, nascida em 1969
4. Thais, filha, nascida em 1989 9. Brasiliano, nascido em 21 de abril de 1960
5. Divina, prima, nascida em 1956 10. Heloisa, filha, nascida em 2003
  11. Kleyton, enteado, nascido em 1996


Brasiliano Pereira da Silva, mas podem chamá-lo de Brasil, como preferem os amigos. Brasil nasceu às 20h30 de 21 de abril de 1960 num casebre na Vila do Iapi, o acrônimo para Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, próximo ao aeroporto. É o brasiliense número 1, homenageado por Juscelino Kubitschek, que sugeriu o nome, testemunhou no batizado e posou para fotos com o bebê no colo. A mãe começou a sentir as contrações quando seguia para os festejos da inauguração, no Plano Piloto. Não deu tempo, e o menino alvoreceu num quarto simples ao som do foguetório. A família de Brasiliano, para trás e para a frente no tempo da árvore genealógica, é uma tradução dos primeiros cinquenta anos da capital e dos cinquenta mais recentes do país.

Coleção Carlota Queirós
3 DE MAIO DE 1933
Carlota Pereira de Queirós é eleita a primeira deputada federal do Brasil, a única mulher na Assembleia Constituinte


1933. Em 3 de maio são realizadas eleições para a Assembleia Constituinte. Foram eleitos 214 parlamentares, entre eles uma única mulher, Carlota Pereira de Queirós, de São Paulo, então com 41 anos. Médica formada pela USP, fizera fama ao organizar um mutirão de 700 mulheres para dar assistência aos feridos da Revolução Constitucionalista de 1932. Carlota foi a primeira deputada federal da história do Brasil. Longe do mercado de trabalho, as mulheres pariam, cuidavam das crianças. A taxa de fecundidade naquele tempo era de 6,2 filhos por mulher. Hoje é de dois filhos. O presidente Getúlio Vargas acabara de regulamentar o trabalho feminino – foram estabelecidos o princípio de salário igual para trabalho igual, jornada de oito horas e licença-maternidade de dois meses. No papel, bonito. Fora dele, utópico.

A baiana Nita Pereira da Silva, a mãe de Brasiliano, nasceu em 1933 em Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, 390 quilômetros a noroeste de Salvador. Era a sétima filha de um casal de agricultores. Teve uma vida no avesso do cosmopolitismo da pioneira deputada Carlota. Aos 24 anos, Nita e o marido foram atraídos pela aventura de Brasília. "Não me arrependo nem um pouquinho, fiz a vida aqui", diz. "Conseguimos nosso pedaço de terra, lá na Bahia só trabalhávamos na lavoura dos outros." Chegaram ao cerrado com três filhos – um menino recém-nascido, uma menina de 3 anos e outra de 6, Joselita, nascida em 1951.

Fotos Iconographia
31 DE JANEIRO DE 1951
Getúlio Vargas toma posse para seu segundo período na Presidência, dessa vez pelo
voto popular


O ano de 1951 foi o do retorno de Getúlio ao poder, agora pelo voto direto, ele que prometera "voltar nos braços do povo". Vencera as eleições de 1950 com 48,7% dos votos. "Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar / o retrato do velhinho faz a gente trabalhar", cantava Francisco Alves. Getúlio entrava novamente no Catete como "o pai dos pobres", ancorado numa política populista, de sucessivos aumentos do salário mínimo. Nada que freasse o crescente movimento migratório do Norte e do Nordeste rumo aos estados mais ao sul. Era um pedaço do Brasil alheio às intrigas que conduziriam ao suicídio do presidente, em agosto de 1954.

A família crescia. Divina, prima de Brasiliano, veio ao mundo em 1956 na cidade de Itaberaí, em Goiás. Ela chegaria a Brasília em 1968, levada pelo pai, policial militar.

31 DE JANEIRO DE 1956
Juscelino Kubitschek, eleito com 33,8% dos votos, assume a cadeira no Catete ao lado
do vice, João Goulart (à dir.)


Quando Divina nasceu, em 1956, o Brasil começava a entender que a transferência da capital para o Centro-Oeste era assunto sério. Juscelino Kubitschek tomara posse em 31 de janeiro daquele ano. Foi empossado na marra. O presidente da Câmara, Carlos Luz – que assumira a Presidência interina com o afastamento de Café Filho, o vice de Getúlio –, ensaiava um golpe, de modo a impedir a chegada de JK ao Palácio do Catete. Era a UDN em bloco contra o PSD juscelinista. Uma reação do ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott, assegurou a democracia. JK, ungido pela aliança PDS-PTB, apoiado pelos getulistas, teve apenas 33,8% dos votos no pleito de 1955, o porcentual mais baixo a eleger um presidente até então.

Brasília saíra definitivamente das pranchetas quando Brasiliano, meninote de tudo, ganhou sua terceira irmã, Lenita.

Brás Bezerra/Agência JB
27 DE OUTUBRO DE 1965
O presidente Castello Branco edita o AI-2,
que decretava a dissolução dos partidos
políticos e o fim das eleições diretas


Era 1965. O Brasil vivia o início do regime militar. Haveria eleições para governos do estado em outubro. Setores mais radicais do Exército e a UDN protestavam contra candidaturas de nomes que tinham participado das administrações de JK e João Goulart, deposto em 1964. O alvo principal era Sebastião Paes de Almeida, em Minas, ex-ministro da Fazenda de JK, acusado de cometer abuso do poder econômico. Um texto da oposição contra a candidatura foi distribuído aos jornais com o título "O assalto ao trem pagador", numa referência a Paes de Almeida, a quem chamavam de "Tião Medonho", nome do autor de um famoso assalto a uma composição ferroviária. O TSE acatou a solicitação, negando o registro para o candidato mineiro.

Das urnas de outubro, apesar da grita dos quartéis, saíram vitoriosos candidatos oposicionistas – Negrão de Lima, na Guanabara; e Israel Pinheiro, em Minas Gerais, o comandante da construção de Brasília. O resultado agitou udenistas e militares. O presidente Castello Branco edita o AI-2, que decretava a dissolução dos partidos e o fim de eleições diretas para a Presidência da República. Antes de o ano terminar, soldados do Exército tinham invadido as dependências da Universidade de Brasília. Era a antessala do endurecimento que resultaria no AI-5 de 1968, início do período mais fechado da ditadura.

Marlene Pereira da Silva, o sexto filho de Nita, nasceu em 1969. Tem lembranças fugidias, reforçadas pela memória de Lenita, mais velha, do que era viver em Brasília no tempo de exceção. Crianças, não entendiam por que os amigos mais velhos, já adolescentes, tinham de voltar para casa mais cedo. "Não havia toque de recolher, mas não saíam de casa depois das 21 horas", lembra Lenita. "Os policiais ficavam nas ruas e punham as pessoas para dentro de casa."

Darcy Trigo
30 DE OUTUBRO DE 1969
Indicado por uma junta de militares,
Emílio Garrastazu Médici
inaugura o milagre
econômico e os anos mais duros do regime militar


Em 1969, quando Marlene nasceu, o Brasil começou a ser presidido por Emílio Garrastazu Médici, indicado por uma junta de militares, Aurélio Lyra Tavares, Márcio de Souza Mello e Augusto Rademaker, a quem Ulysses Guimarães, na Constituinte de 1988, numa provocação retroativa, chamaria de "os três patetas". Em 1969 houve também o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, por dois violentos grupos de esquerda, o MR-8 e a ALN. A Lei de Segurança Nacional, decretada como resposta à guerrilha, previa o exílio e mesmo a pena de morte em casos de "guerra psicológica, ou revolucionária,
ou subversiva".


Luís Humberto
18 DE JUNHO DE 1973
Ernesto Geisel
brinda sua indicação à Presidência da República a partir de 1974


Os anos de Médici foram duros. Em 1973, ele indica o general Ernesto Geisel, que construiria seu governo, a partir de 1974, de modo a deflagrar um cuidadoso e firme processo de retorno à democracia.

Antônia Cristina Pessoa, casada desde 2004 com Brasiliano, nasceu naquele 1973. Antônia chegou a Brasília em 1977. O pai, pintor de paredes, arrumara emprego na capital.

Eram tempos de distensão. Geisel anuncia a abertura política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Em 1978, Geisel acaba com o AI-5. Em 1979, dá-se a anistia ampla, geral e irrestrita.

Érica, a filha mais velha de Brasiliano, nasceu em 1983, em ambiente de total redemocratização.

Fernando Santos/Folha Imagem
27 DE NOVEMBRO DE 1983
Primeiro comício pelas Diretas Já, em frente ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo


Foi o ano do primeiro comício pelas Diretas Já, em São Paulo, na Praça Charles Miller, diante do Estádio do Pacaembu. Presentes, entre outros: Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

A Presidência de ambos pavimentaria o cotidiano mais calmo da infância do derradeiro personagem a contar a saga de Brasiliano. Kleyton Guilherme Pessoa, enteado de Brasil, é de 1996. Fará 13 anos.

O governo de Fernando Henrique Cardoso completava um ano em 1996. O presidente, em entrevista a VEJA, anunciava as vitórias: "Não dá para chamar de conservador um governo em que o povo está comendo melhor e os banqueiros estão com dificuldades". A inflação medida pelo IPCA despencara de 916% em 31 de dezembro de 1994 para 22% doze meses depois.

Ana Araújo
JULHO DE 1996
Fernando Henrique
celebra os bons
resultados no segundo aniversário do Real


Mas 1996, apesar de algumas boas notícias, foi também o ano da morte de Renato Russo, em decorrência da aids. O líder da banda Legião Urbana, a voz das tristezas e alegrias de Brasília, é ídolo que ainda hoje marca os jovens da capital, como Kleyton.

"Comecei a ouvir o Legião há pouco tempo", diz Kleyton. "A música de que mais gosto é Que País É Esse?" É certo que parte das festividades dos 50 anos de Brasília, no ano que vem, terá como trilha as letras do Legião Urbana, ícone da cultura local. "Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação." É o que se ouvirá no sobrado dos Pereira da Silva, no Recanto das Emas, onde vive Brasiliano, hoje funcionário da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do Distrito Federal. "Pretendo comemorar o meu aniversário e o da cidade lá na Esplanada, no meio do povo", diz. "Depois é que vamos para casa."