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Finanças
Barafunda contábil
Juscelino inaugurou a era do descontrole
inflacionário
com a mudança para o Planalto
Arquivo CPDOC/FGV
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MEDO DE APOSTAR
Houve muito pouca procura pelos lotes, recurso
que capitalizaria as obras mas
não funcionou |
Quanto custou Brasília? Eugênio Gudin, ministro da
Fazenda de Café Filho de agosto de 1954 a abril de 1955, inimigo político
de JK e unanimidade intelectual, fez uma estimativa: 1,5 bilhão de dólares.
Levou em conta apenas os gastos públicos, sem falar "no tremendo
desperdício indireto com transportes, viagens para cá e para lá,
dobradinhas, perda de tempo", escreveu o economista. Em valores de hoje,
aplicando-se apenas a correção monetária americana, a cifra
seria equivalente a 19,5 bilhões de dólares. Com juros de 3% ao
ano, padrão médio de taxação, chega-se a um valor
atual de 83 bilhões de dólares. É quase seis vezes o gasto
previsto para as Olimpíadas de 2016, no Rio, de 14 bilhões de
dólares. Outro modo de medir o tamanho do desembolso é compará-lo
ao PIB. No início dos anos 60, esse valor equivalia a 10% de toda a riqueza
brasileira. Transpondo-se em 2009 os mesmos 10%, tem-se algo próximo
a 161 bilhões de dólares, embora qualquer comparação
de PIB em diferentes períodos históricos seja frágil. O
ex-embaixador americano no Brasil Lincoln Gordon, em depoimento ao Congresso
dos Estados Unidos em 1966, estimou um valor muito parecido ao de Gudin.
Os defensores de Juscelino Kubitschek nunca apresentaram cifras
porque lhes era impossível calculá-las e politicamente interessante
escondê-las. A confusão estabelecida pela Novacap, a empresa responsável
pela construção, impedia clareza nas informações.
Os amigos de JK tentaram reduzir as estimativas de Gudin e Gordon a um embate
empobrecedor e tolo: a sanha dos imperialistas ante o desenvolvimentismo terceiro-mundista
de JK. O próprio presidente, em entrevista citada pelo livro Quanto
Custou Brasília, do jornalista Maurício Vaitsman, defendeu-se
de modo populista, ao explicar por que emitira 134 milhões de cruzeiros
em cinco anos de governo: "Isso quer dizer que toda aquela pletora de desenvolvimento
representou, na realidade, o sacrifício de apenas 2 cruzeiros, em cinco
anos, para cada brasileiro".
Apelou-se para a emissão de dinheiro, os tais 2 cruzeiros
por cidadão, porque todas as outras formas de financiamento das obras
não funcionaram, especialmente a venda de terrenos atrelada à
chamada "Obrigação Brasília", anunciada como
ótimo negócio que pouca gente quis. Os terrenos no Planalto Central
viraram moeda fácil, promessa vã. Ao receber os jogadores campeões
mundiais de futebol em 1958, JK prometeu a eles um pedaço de terra no
cerrado. Nenhum deles jamais recebeu o naco anunciado, foi o que revelou o presidente
Lula na cerimônia de cinquenta anos do título, em 2008. JK alegaria
depois que não pôde doar o chão vermelho aos jogadores porque
nada fizera pelos pracinhas que lutaram na II Guerra, e estes pediam alguma
compensação. As duas turmas ficaram sem nada.
Havia uma barafunda contábil, e ela explica a ausência
de uma estimativa oficial para o custo da construção. A Comissão
Parlamentar de Inquérito criada em setembro de 1960 para investigá-la
terminou sem conclusão, mas com algumas descobertas. Foi encontrado cerca
de 1 milhão de comprovantes de despesas pagas desse total, apenas
46 000 processos de pagamento estavam devidamente formalizados. "Para
964 000 outros pagamentos efetuados, não existiam comprovantes
reais", escreve o pesquisador Ib Teixeira na revista Conjuntura Econômica, da Fundação Getulio Vargas. "Em muitos casos, eram simples
vales." Não havia livro-caixa, tampouco registros bancários.
"Para erguer os palácios de Brasília, JK praticamente quebrou
os institutos de Previdência", afirma Teixeira.
Dá-se como certo entre oposicionistas da então
UDN e situacionistas que a emissão monetária alimentou
a inflação brasileira. Em 1956, ela foi de 24,5%; em 1960, chegou
a 30,5%. A dívida externa, engordada por empréstimos a serviço
de Brasília, saltou de 2,7 milhões para 3,7 milhões de
dólares. Um dos principais credores era o Ex-Im Bank, a agência
americana de fomento às exportações. O Brasil de JK, cujo
lema era cinquenta anos em cinco, realmente cresceu mas deixou pendurada
uma conta salgada e demagógica.
Ao romper com o FMI em 1959 dizendo que o atendimento das
exigências do Fundo representaria o "aniquilamento do país,
deixando o povo passando fome" , JK inaugurou o tempo em que o FMI
virou demônio, simbologia simplista e redutora, segundo a qual o organismo
queria apenas humilhar o Brasil, quando se tratava somente de cumprimento
ou descumprimento de critérios técnicos. Hoje, o FMI como
monstro parece figura de um passado pré-histórico, pré-queda
do Muro de Berlim. Nem mesmo o PT acredita nele. "Juscelino inaugurou o
descontrole inflacionário no Brasil", afirma o pesquisador Eustáquio
Reis, do Nemesis, grupo de estudos atrelado ao CNPQ e ao Ipea. "Seu tempo
foi o apogeu da irresponsabilidade fiscal."

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