Divórcio

Uma nova formação

Está ficando cada vez mais comum
morar com mãe, pai, mãe e padrasto,
pai e madrasta e meio-irmãos

  Roupa: Na Barra da Saia  


O que fazer quando a criança pergunta e os pais não sabem a resposta?

Qualquer coisa, menos inventar uma resposta. Os pais podem aproveitar a oportunidade para compartilhar o interesse pelo "saber" com o filho e, ao mesmo tempo, mostrar que ninguém — nem eles próprios -- sabem tudo sobre tudo

Todos os anos, mais de 1 milhão de crianças e adolescentes são envolvidos em casos de divórcio nos Estados Unidos, segundo o censo americano. No Brasil, as estatísticas falam em 120.000 filhos atingidos pela separação dos pais. Contando os casos não oficializados, estima-se que sejam 400.000 crianças por ano. Para o homem e a mulher, o impacto da separação é grande, mas os dois lados conhecem a fundo as razões que sustentam a decisão. Para as crianças, que são colhidas por uma notícia inesperada, o fim do casamento dos pais representa um dos períodos mais difíceis de suas vidas, mesmo que tenha sido a melhor solução para desavenças incontornáveis. Por um lado, os filhos passam a viver sem a presença constante de um dos pais (normalmente o pai), e a lidar com situações desconhecidas e muitas vezes traumáticas, como ter duas casas para dormir, mudar de bairro, trocar de escola e de amigos. Mas há um segundo motivo. Como agravante, além de perder a companhia de um dos pais, os filhos podem ser submetidos a uma provação: adaptar-se a uma nova família.

No lar da advogada Patrícia Amorim Dias e do empresário Cláudio Perrone, de São Paulo, convivem cinco crianças. Há dois filhos do primeiro casamento dele, um do casamento anterior dela e dois nascidos da nova união. O professor de música Reinaldo Vargas e a produtora de música Edna Sueli Gomes, do Rio de Janeiro, estão ambos no terceiro casamento e também juntaram sob o mesmo teto os filhos das experiências anteriores. Na nova família há de tudo. Tem filho vivendo com a mãe e outros que estão sendo criados pelo pai, há crianças que moram com a mãe e o novo marido dela, além dos que ganham "irmãos" dessa nova união. Assim, a família vai sendo construída como um quebra-cabeça e as transformações podem ser observadas até na linguagem. Expressões usadas há bem pouco tempo como "lar partido" ou "filho de desquitado" tornaram-se totalmente impróprias. Palavras como "madrasta" e "padrasto" também ficaram contaminadas com significado pejorativo e as crianças preferem dizer "o marido da minha mãe" ou "a mulher do meu pai" — assim mesmo, com naturalidade.

Pelas características, as novas famílias são chamadas pelos psicólogos e psiquiatras de famílias-mosaico, ou famílias reconstituídas. O crescimento do número de separações e o aumento desses mosaicos são um grande avanço, pois apontam para uma relação familiar mais honesta. Casais que já não se suportam deixam de se sentir obrigados a viver juntos pelo resto de seus dias, ainda que tenham filhos. As relações se estabelecem a partir da vontade de permanecer juntos, e não apenas das convenções sociais. O que intriga os especialistas é saber até que ponto as famílias-mosaico interferem na formação das crianças. Alguns profissionais observam que a separação é sempre muito arriscada. "Até os 5 anos de idade, a criança pode sofrer com a separação porque ela fica muito dependente e estabelece troca somente com figuras próximas", diz o psiquiatra infantil Alfredo Castro Neto, do Rio de Janeiro. Outros lembram que as novas uniões podem ser muito úteis para compensar os efeitos da separação. "Nas famílias reconstituídas predomina a solidariedade entre os filhos por causa dos problemas semelhantes vividos e da identidade geracional", afirma o psiquiatra Antônio Mourão Cavalcante, professor da Universidade Federal do Ceará.

É difícil tirar conclusões definitivas em torno de um tema tão complexo. Um trabalho do psiquiatra Haim Grunspun, da PUC paulista, que acompanhou um grupo de crianças por dois anos após o fim do casamento dos pais, concluiu que a separação, se mal conduzida, pode ter potencial devastador. A pesquisa revela que os bebês até os 2 anos podem desenvolver comportamento mais medroso e apresentar sintomas de regressão. As crianças com 4 e 5 anos tendem a encarar a separação como temporária e acham que podem influir no comportamento dos pais. Em alguns casos, apresentaram desorientação, pouca agressividade e inibição nos jogos. Já os filhos de 5 a 6 anos se sentiam culpados, achando que provocaram a briga entre o casal. Essa interpretação equivocada por parte das crianças provocava abalo da autoconfiança, raiva incontida, sensação de responsabilidade pela reconciliação dos pais e dificuldade em se ligar a novas pessoas que entram para a constelação familiar.

Outra pesquisa, feita pela professora Ana Luísa Vieira de Mattos, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, mostra que a separação pode não ser tão ruim assim. Durante cinco anos, ela manteve grupos de discussão com 85 adolescentes de classe média e alta oriundos de famílias originais e reconstituídas. "Concluí que os problemas com drogas, delinqüência e depressão tinham a mesma incidência nos dois grupos", revela Ana Luísa. "O que determinava se os jovens estavam mais ou menos ajustados era a qualidade do relacionamento que mantiveram com os pais desde pequenos", afirma a professora. Olhadas em separado, as pesquisas podem parecer antagônicas, mas se complementam. A separação pode até produzir estragos emocionais para os filhos, mas não significa necessariamente que tenha o poder de conduzi-los para o mundo das drogas, da delinqüência e da depressão.

O stress da separação faz com que os primeiros anos das novas famílias sejam os mais conturbados, época em que as crianças podem ficar menos amáveis ou apresentar problemas de ordem emocional e educacional. A resposta que elas darão à nova situação — superando-a ou não — vai depender da qualidade da relação que manterão com os pais e da habilidade que estes terão para lidar com as dificuldades dos filhos. "Os pais precisam transmitir às crianças que o par amoroso se rompeu, mas os dois continuam a dar amor e apoio aos filhos", diz a psicóloga Terezinha Féres Carneiro, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Na fase aguda de adaptação, os filhos pequenos podem apresentar distúrbios típicos de sua faixa de idade, como sono interrompido, além de vômito, cólica e inapetência.

O fim do casamento da dentista Maria Antônia de Oliveira Cano, do interior de São Paulo, fez com que sua filha Luísa, de 5 anos, passasse a ter crises cada vez mais fortes de bronquite. A separação complicada, com litígio judicial de bens, colocou a garota no centro das disputas do casal. Revendo o episódio, ocorrido há dois anos, Maria Antônia admite certo descuido inicial. "Contei que ele tinha arranjado outra casa e que não merecia o nosso amor", diz. Depois de iniciar um processo psicoterapêutico, Maria Antônia mudou as referências do pai que fazia à filha e a forma de tratar a separação. Com o tempo, as crises de bronquite da filha diminuíram. "Mudou o modo como converso com ela", conclui. Histórias como a de Luísa se repetem diariamente, algumas com lances ainda mais dramáticos. Freqüentemente, as crianças são incumbidas de mandar recados para o ex-marido ou ex-mulher e até mesmo de vigiá-los. E ficam em apuros para tentar atender duas figuras tão importantes para elas. O rancor e o ódio, oriundos da separação, mudam a imagem que um tem do outro, mas não devem interferir na imagem que os filhos têm dos pais. "O pior conflito que uma criança pode viver é o da lealdade incondicional, quando exigida pelos pais", afirma Terezinha Féres Carneiro.

O modo de encarar os filhos do divórcio está mudando, o que facilita a vida dos pequenos. Num passado recente, coisa de vinte anos atrás, crianças nessa situação eram discriminadas e havia quem perdesse amigos porque era filho de mãe desquitada. A separação era compreendida como derrota — normalmente da mulher, diga-se, associada a um certo desvio de caráter. Ter a mãe casando novamente, ver o padrasto ir a uma reunião da sua escola, conviver com um meio-irmão eram coisas impensáveis. Hoje, tudo está muito diferente. Nos melhores colégios brasileiros, a presença de alunos com configurações familiares variadas virou rotina. Há casos de salas de aula onde 50% dos alunos são filhos de pais separados.

A separação dos pais pode piorar o desempenho escolar?

Se a separação deixar traumas, a criança pode perder o interesse pelo estudo, ficar inibida, sofrer de insônia ou muito sono e até perder o apetite

Na casa do médico Sylvio Antônio Mollo e da publicitária Vera Lúcia Colagiovanni, de São Paulo, moram as duas filhas de Vera, Adriana, 16 anos, e Tatiana, 13 anos, mais a filhinha do casal, Camila, de 5 anos. Do casamento anterior, Mollo tem dois filhos, uma moça de 22 anos, Taís, e um rapaz de 20, Silvinho, que vivem no interior do Estado. Quando vão visitar o pai, ex-marido de Vera, as meninas Adriana, Tatiana e Camila brincam com Mariana, de 2 anos, e Guguinha, de 4 anos, filhos do segundo casamento dele. "Como são irmãos das minhas irmãs, são meus irmãos também", diz a pequena Camila. Acostumada a contar (e a ter de repetir) a história muitas vezes para seus coleguinhas de escola até que eles entendam, Camila explica direitinho como é sua família e no final emenda: "Você já entendeu ou quer que eu fale de novo, hein?". A garotinha diz que gosta de ter tantos irmãos. "Mas queria que a Tatiana, a Adriana, o Silvinho, a Taís, o Guguinha e a Mariana morassem na mesma casa com o meu pai e a minha mãe", diz Camila.

Descuidei da minha filha

"Sentindo-se passada para trás, começou a se comportar de modo diferente"

Ana e eu nos casamos há catorze anos, mas me recordo como se fosse hoje das dificuldades que enfrentamos com nossos filhos. Eu era viúvo e tinha três crianças. Recém-saída de um casamento, Ana tinha dois filhos. Como em qualquer relação que começa, nossa atenção se voltou para as afinidades entre a minha família e a dela. Os filhos de Ana eram pequenos, com 2 e 4 anos, e se deram bem comigo. Às vezes até me chamam de pai. O Roberto, meu mais velho, teve grande afinidade com a Ana e chegou a trocar confidências sobre namoradas. Para que tudo parecesse perfeito, tivemos Ricardo, nosso filho em comum. A alegria era grande, mas estávamos nos descuidando de minha filha Adriana, na época com 12 anos. Quanto mais eu me aproximava da Ana, mais a Adriana se revoltava. Sentindo-se passada para trás, começou a se comportar de modo diferente. Atrasava-se para ir à escola, deixava o quarto bagunçado e parou de lavar o prato depois do jantar. Parecem coisas pequenas, explicadas dessa forma, mas eram extremamente significativas e tornavam muitas vezes o ambiente de casa irrespirável. A Ana não discutia com a Adriana, preferia reclamar comigo, e a relação das duas foi sendo minada. Hoje, mesmo sendo Adriana uma mulher adulta, de 26 anos, as duas mantêm uma relação formal, de bom-dia, boa-tarde. Tenho certeza de que, se tivesse tido um pouco mais de cuidado, as coisas poderiam ter sido diferentes.

Olímpio Nascimento, 53 anos, é comerciante em São Paulo




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